Tim Maia, luz entre o som e a fúria
Nelson Motta faz retrato politicamente nada correto do pioneiro da soul music.
O subtítulo da biografia de Nelson Motta sobre Tim Maia é uma referência a um livro de William Faulkner – O Som e A Fúria. As duas palavras são uma síntese da vida do músico, que em meio aos inúmeros e furiosos atos de extravagância foi o ponta-de-lança da fusão, a partir dos anos 60, dos americanos soul, funk e rhythm & blues com os ritmos brasileiros – do samba ao xaxado.Vale Tudo (Objetiva, 390 págs., R$ 49,90) mostra como a temporada de cinco anos nos EUA de Tim, que viajou para lá no fim da adolescência e dos anos 1950, com apenas US$ 12 e uma indicação, foi fundamental para o cantor revolucionar a música brasileira, então envolvida de corpo e alma com a bossa nova e a jovem guarda.’
Além de apresentar a música negra americana, essa viagem ensinou Tim Maia a fumar maconha, lá aprendeu o estilo vida bandida, ele que saiu do Brasil careta’, diz o biógrafo e produtor musical. O desregramento acompanha o compositor de Azul da Cor do Mar, quando volta deportado em 1964 para o País, depois da quinta prisão. Praticante inveterado do triátlon – mistura cavalar de cocaína, maconha e uísque -, Tim se entregava aos prazeres da carne vermelha, branca, morena, amarela… e aos doces – era devoto de sonhos de padaria. Chegou a pesar 140 quilos nos 1990, com a carreira já consagrada, que durou cerca de 30 anos e lhe ofertou rios de dinheiro, gastos em pendências judiciais, em dívidas, em equipamentos de som e em extravagâncias consumistas. Nada disso, porém, o impediu de na mesma década fazer comerciais para televisão e continuar a ser aclamado pelo público e pela crítica.
‘Um marginal que era unanimidade’, define Motta, companheiro de Tim desde 1969, quando promoveu um dueto entre o cantor e Elis Regina no estúdio da gravadora Philips.Mas as loucuras do músico tijucano, nascido em 1942 e de sangue mestiço – europeu, índio e negro -, tiveram uma breve e impressionante pausa, entre 1974 e 1975. Ao ler o Universo em Desencanto, ele descobriu o O Racional Superior, planeta para onde iriam em discos voadores os seres humanos que aderissem à imunização racional, prometida pelo mestre Manoel Jacintho Coelho. Abandonadas as drogas, a bebida e a gula, Tim Maia dedica um álbum duplo, seu sonho, à propagação das mensagens da seita. As bases do disco, que seria gravado na norte-americana RCA, para onde o músico foi recebendo uma bolada, foram usadas com letras adaptadas. Ele produzia ali uma das suas obras mais inspiradas, intitulada originalmente de Racional Superior I e II. I às origens da soul music – o gospel -, mas a partir de composições com temas metafísicos. O timbre e a potência de suas cordas vocais nunca estiveram nem ficariam tão vigorosos como nessa fase. E, do mesmo jeito – inexplicável – que se tornou fanático, Tim deixou a seita e voltou ao seu padrão de excessos. ‘A carreira dele poderia ter acabado ali, pois fazia poucas apresentações’, diz Nelson Motta. ‘Mas foi a única época da vida em que Tim foi realmente feliz, ao encontrar uma missão, um lugar no mundo, ele que era tão deslocado’, acredita. Apesar do sucesso, Tim Maia sofreu com a paranóia e a solidão, pioradas pelo uso dos tóxicos. Encrencava com garçons carecas e achava que lhe queriam roubar a namorada, os integrantes da banda, a riqueza.
Ele se tornou lenda, ao abandonar shows no meio, isso se subisse ao palco. Tim Maia levava também calote de empresários, crentes de que poderiam se aproveitar de um músico ‘doidão’. Com o tempo, ele passou a pedir metade do pagamento antes de se apresentar, do contrário sumia com a banda. Crítico da exploração da indústria fonográfica, foi um dos primeiros cantores a ter gravadora própria. Salvo a obediência à mãe Maria Imaculada, Sebastião Rodrigues Maia nunca se vergou a ninguém. E preservou-se altivo, muitas vezes intolerante, até morrer em 1998.
Fonte: O Estadão
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