Arquivo do mês: janeiro 2008

MEIO AMBIENTE

Dezenas de espécies de árvores da mata atlântica poderão ter sua sobrevivência comprometida pelo aquecimento global nas próximas quatro décadas – inclusive aquelas que estão dentro de unidades de conservação, segundo estudo de um pesquisador da Unicamp, Alexandre Colombo. No cenário mais otimista, com aumento de temperatura menor ou igual a 2´C, quase todas as espécies (37) das áreas hoje propícias para sua sobrevivência. A pesquisa é uma das primeiras a avaliar o impacto das mudanças climáticas sobre a biodiversidade do bioma.

QUE AUTO-SUFICIÊNCIA?

Os preços do petróleo terão aumento

No primeiro semestre, poderão chegar a US$ 100 o barril. Os analistas estimam um preço médio do barril de US$ 82, ante US$ 72,41 de 2007. A perspectiva de óleo acima de US$ 100 não comove a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, que reluta em aumentar o suprimento. E fatores geopolíticos podem incendiar o mercado, já muito volátil. Com isso, o ano começa no Brasil com repasse de preços de produtos derivados, como lubrificantes industriais e óleos naftênicos. Os fabricantes de resinas plásticas tendem a seguir o mesmo caminho.

Mesmo com “auto-suficiência” na produção nacional do combustível, proclamada em abril de 2006, a quantidade de petróleo importada pelo país de janeiro a outubro de 2007 cresceu quase 17% na comparação com o mesmo período de 2006. O déficit subiu de US$ 2,141 bilhões para US$ 4,457 bilhões – mais do que duplicou.

DEFESA DO CONSUMIDOR

O setor de telefonia fixa foi o campeão de queixas de consumidores de janeiro a setembro de 2007, aponta a prévia do ranking de reclamações recebidas pelo PROCON de São Paulo. A exemplo de 2006, a Telefônica deve ter encerrado o ano como a líder do ranking das empresas com mais reclamações, de acordo com a entidade. A prévia do PROCON abrange as queixas em que foram abertos processos administrativos formais -as chamadas “reclamações fundamentadas”, que compõem o ranking final, divulgado em março – e também as reclamações em andamento.

SERÁ VERDADE?

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu que não vai apresentar mais nenhuma proposta de emenda constitucional até o fim do segundo mandato (2010). Desde 2003, quando assumiu a Presidência, o petista enviou 13 PECs ao Congresso Nacional. Segundo a Folha apurou, a decisão de Lula foi tomada em reunião com seus principais auxiliares após a derrota da PEC apresentada pelo Planalto para prorrogar a CPMF, o imposto do cheque, até 2011. O Senado Federal rejeitou a proposta em 13 de dezembro.

EMPREGO

Concursos públicos

A briga para conquistar um posto no funcionalismo entra janeiro turbinada por um incentivo do governo federal, que, na última sexta-feira de 2007 autorizou a realização de concursos para preencher 7.543 vagas nas universidades federais, 884 no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e 190 na Agência Brasileira de Inteligência. No Distrito Federal, entre os destaques já com editais lançados estão as seleções da Polícia Civil, Tribunal de Justiça e Secretaria de Saúde. Em âmbito nacional, a do INSS, com 2.021 vagas.

MANCHETES de hoje_2.jan.2008

TRIBUNA DA IMPRENSA – Governo adia aperto sobre o controle de repasses

ZERO HORA – 2008 começa com alívio para o contribuinte

ESTADO DE MINAS – Justiça eleitoral mira 503 políticos em Minas

A TARDE – Proibições para propaganda política

DIÁRIO DE NATAL – Ano Novo: 39 acidentes e 2 mortes

JORNAL DO BRASIL – Violência e lixo sujaram a festa

FOLHA DE SÃO PAULO – No Quênia, 50 morrem queimados em templo

O ESTADO DE SÃO PAULO – Litoral sem infra-estrutura faz paulista adiantar retorno

O GLOBO – TSE antecipa calendário e já proíbe práticas eleitoreiras

GAZETA MERCANTIL – Volume diário de negócios da Bovespa quintuplica

CORREIO BRAZILIENSE – 15.779 chances de começar o ano no serviço público

VALOR ECONÔMICO – Petróleo e alimentos ainda vão puxar inflação em 2008

JORNAL DO COMMERCIO (PE) – Preso que fugiu de hospital é capturado

Tower Bridge

em London, London, City of (United Kingdom)
Foto: LLuciano

ELISETE CARDOSO

Canta “Poema dos olhos da amada” de Vinícius de Moraes e Carlos Soledade.

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris,
ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano não apenas pintado de novo,
remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo,
espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come,
se passeia, se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?)

Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Trata-se de um texto que vale a pena ser lido e feita uma reflexão sobre o seu conteúdo. A traição nacional do PT é explicada historicamente e a conclusão aponta a inexorável marcha para o totalitarismo no caminho aplainado pelo uso heterodoxo do Estado e o Governo brasileiros. (MS)

Messianismo e o credo petista

Em meados do século 17, ainda sob o impacto da expulsão dos sefarditas da península ibérica, muitos judeus passaram a ansiar pela vinda de um messias que pusesse termo aos sofrimentos do exílio, restaurando a autonomia política do povo de Israel. Movido por essa esperança, um obscuro estudioso da cabala, Sabbatai Zevi, deu início a sua pregação milenarista. Homem de temperamento inconstante, Sabbatai logo se indispôs com os rabinos de Smyrna (atual Turquia), que o expulsaram da cidade. Após 17 anos de insucesso, o estranho místico estava prestes a desistir de tudo. Decidiu então ir a Jerusalém consultar-se com Nathan de Gaza, um jovem profeta. Foi quando teve revelada a natureza divina de sua missão. Ele (Sabbatai) era o tão aguardado messias. A boa-nova não tardou a empolgar a diáspora judaica. Iniciava-se o ano de 1666, data prevista por alguns para o confronto do redentor (1) com a besta (666).

Acompanhado por cortejo digno de um príncipe, o eleito de Iahweh rumou a Istambul, certo de que imporia sua autoridade sobre o sultão. Deu-se o oposto. Feito prisioneiro, Sabbatai esconjurou o martírio, convertendo-se ao islã. Seria o fim de qualquer empreitada sensata, não operasse o messianismo na freqüência do mito. Em lugar de causar perplexidade, a apostasia do messias passou a ser vista por seus adeptos como um “pecado santo”. Segundo Abraham Miguel Cardozo, um dos mais destacados teólogos do movimento, o ato paradoxal de Sabbatai Zevi fora um sacrifício voluntário. Por meio desse mergulho no abismo, ele chegaria ao coração do mal e ali o liquidaria por dentro, libertando as últimas partículas de luz aprisionadas nas esferas da impureza. Entre os adeptos do sabbatianismo, duas grandes correntes se formaram.

Os moderados acreditavam que somente a alma do messias seria capaz de resistir a um contato tão estreito com as forças do mal. Enquanto não ocorresse o retorno glorioso do ungido à verdadeira fé, o povo de Israel deveria observar os preceitos morais da ortodoxia rabínica, malgrado sua natureza imperfeita e transitória. Em contraste, a ala radical passou a defender uma modalidade exacerbada de antinomismo: todos os adeptos deveriam imitar o exemplo do messias e descer às profundezas da escuridão. Segundo o sinistro Jacob Frank, somente por meio do pecado seria possível chegar à transcendência: o advento da era messiânica reclamava a superação definitiva da ética mosaica, fundada sobre a dicotomia opressiva dos conceitos de certo e errado, bem e mal. Semelhante heresia nunca chegou a desaparecer por completo.

Suprimidos os últimos remanescentes do movimento, a idéia sabbatiana continuou a existir, em estado latente, no mundo das eternas possibilidades. Até que veio ressurgir, com roupagem secular, no Brasil do mensalão. Não é segredo que o PT se estruturou como agremiação messiânica. Durante mais de duas décadas, seus militantes se portaram como adeptos de uma seita guerreira destinada a libertar o povo brasileiro de cinco séculos de opressão. Eles eram os puros, os eleitos, os apóstolos do Partido Messias.

Mais que uma fantasia revolucionária, sua mensagem anunciava ao país a aproximação do tempo do milagre, em que o mal seria vencido e os bons enfim reinariam. A inconsistência dessa fábula foi posta em xeque com a chegada do partido ao poder e o abandono do discurso ético que pautara sua ascensão. Curiosamente, em lugar de aceitar o desafio da realidade como estímulo ao pensamento crítico, boa parte da militância optou pelo caminho esquivo da alienação mística. Importava, acima de tudo, preservar a fé na santidade do messias. O credo petista converteu-se, assim, em um neosabbatianismo radical, alimentado por uma intelectualidade delirante, especializada em justificar o injustificável.

Marilena Chaui revelou ao mundo a teleologia da corrupção; Paulo Betti defendeu o caráter soteriológico do pecado; e o solerte Wagner Tiso abriu mão de seu coração de estudante para encavalar o espírito pragmático de Jacob Frank. O pacto com o fisiologismo e a conversão à ortodoxia econômica passaram a ser tratados como pecados santos – alianças temporárias do messias apóstata com o dragão burguês destinadas a acelerar o tempo histórico e facilitar o advento da era escatológica. Nestes tempos messiânicos, até o maná foi reinventado. “Eles estão chegando!”, anuncia-nos o senador Mercadante, enquanto nos bastidores salva o mandato do colega mercador. Hoje, os petistas aceitam tudo. Menos que alguém ouse pensar por conta própria.

Marcelo O. Dantas, escritor, roteirista e diplomata de carreira.