MODO DE VER
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uo..com.br)
O Buda histórico, Siddhartha Gautama, nada deixou por escrito; seus ensinamentos eram transmitidos oralmente durante seus 45 anos de peregrinação; a História registra que Ananda, o discípulo que o acompanhava era dotado de uma memória excepcional e foi fundamental para memorizar os discursos de Buda, repassando-os após sua morte e retransmitidos por séculos também de forma oral.
Da sua doutrinação que chegaram até nós, diz que a Verdade não é um dogma; está presente nas chamadas Quatro Nobres Verdades, que explicam a existência do sofrimento, sua causa, sua cessação e o caminho para superá-lo.
A meditação e o autoconhecimento ajudam a compreender nossas emoções e diminuir as reações do egoísmo; é assim que conquistamos a Felicidade, aprendendo a viver com amor e compaixão por todos os seres. É este o objetivo de alcançar o Nirvana.
Para Buda, ser feliz não significa conseguir tudo o que desejamos, mas aprender a viver com sabedoria, serenidade e compaixão.
Estudioso do budismo, o escritor alemão, naturalizado suíço, Hermann Hesse, no seu livro “Sidarta”, descreveu o encontro de um jovem brâmane com Buda, e esta pessoa é curiosamente xará do Iluminado, cujo nome de nascimento, é também Sidarta.
O diálogo gira em torno das pregações de Buda sobre a Felicidade, admitindo que ela não está na fuga do “Eu”, mas limitando-se a reconhecer que “a felicidade é amor, nada mais. Aquele que sabe amar é feliz”. O brâmane discorda e se afasta para encontrar seu próprio caminho.
No conjunto de sua obra, Hesse criou literariamente o conceito filosófico da “busca por si mesmo”, botando na boca do brâmane a afirmação final de que deixou de buscar o caminho da perfeição: – “Não vou procurar nas estrelas e nos livros; começo a ouvir os ensinamentos que o meu sangue murmura em mim”.
O encontro da Felicidade é visto na milenar filosofia chinesa com Confúcio ensinando que a felicidade se expressa no “Eu”, pela conduta pessoal correta e na coerência social; assim, a fidelidade, a retidão e a sinceridade, devem ser inseparáveis das relações humanas.
Vê-se assim que o conceito oriental da Felicidade não é abstrato; no Ocidente, sob o vigor dos conceitos filosóficos e míticos judaico-cristãos, a cultura popular regista que Jesus Cristo ensinou que a felicidade não vem da riqueza, do poder ou do prazer, mas numa vida de amor, compaixão, justiça, perdão e paz interior.
Diferentemente dos mitos greco-romanos antigos, que exaltavam sobretudo os feitos de heróis e deuses, o ensinamento de Jesus coloca o nosso cuidado com o outro no centro da vida moral.
A recomendação de Jesus Cristo foi: — “Amai-vos uns aos outros” — constitui um dos fundamentos éticos do cristianismo. Para a filosofia, então, a mensagem cristã aproxima-se mais da dignidade humana, exigindo respeito e consideração com o próximo.
Esta mensagem continua desafiadora: não basta professar uma religião ou conhecer os mandamentos; é preciso demonstrar o amor nas atitudes cotidianas, mesmo quando há diferenças, conflitos ou interesses contrários.
Tem uma definição comum de que o valor intrínseco do ser humano é a dignidade, o amor e o respeito ao próximo como uma qualidade moral; é triste, porém, reconhecer que no pântano enlameado da politicagem vigorante entre nós, o aplauso do culto à personalidade é para o discurso descompromissado com a dignidade.
É isto que nos traz à lembrança o Sidarta de Hermann Hesse. Na busca de si, sentiu o sangue correr nas veias e concluiu: – “Se você odeia alguém, é porque odeia alguma coisa nele que faz parte de você. O que não faz parte de nós não nos perturba.”
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