DA VERDADE
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
Meu último texto divulgado, “DA MENTIRA”, expôs a exigência de leitores (a quem não estou autorizado de divulgar os nomes) para mais desenvolvimento do assunto, tema que achei necessário estender, a partir do antagonismo, dando um mergulho na imensidão oceânica da Verdade.
Há uma figuração budista em que o discípulo pergunta ao Mestre: “Onde está a Verdade? E Buda lhe diz: “Está atrás de você”. O Noviço replica: “Olhei, Mestre, e nada vi”; e o Mestre conclui: – Descobriu a mentira, a Verdade é o contrário disto.
O Buda histórico, Siddhartha Gautama, nada deixou por escrito; seus ensinamentos eram transmitidos oralmente durante seus 45 anos de peregrinação; a História registra que Ananda, o discípulo que o acompanhava era dotado de uma memória excepcional e foi fundamental para memorizar os discursos de Buda, repassando-os após sua morte e retransmitidos por séculos também de forma oral.
Da sua doutrinação que chegaram até nós a Verdade não é um dogma; está presente nas chamadas Quatro Nobres Verdades, que explicam a existência do sofrimento, sua causa, sua cessação e o caminho para superá-lo.
Os seus discípulos atuais associam a verdade como experiência e prática, devendo ser compreendida individualmente pela experiência pessoal, pela meditação e pelo autoconhecimento.
A milenar filosofia chinesa apresenta Confúcio encontrando a Verdade em tudo que se expressa na conduta pessoal correta e na coerência social. Ele assim valorizou que a sinceridade, a retidão e a fidelidade deviam ser inseparáveis das relações humanas.
Indo de um Hemisfério a outro, distinguimos que o conceito de Verdade oriental não é abstrato ou metafísico como na filosofia ocidental.
Do nosso lado, a busca pela Verdade absoluta se assenta na dúvida, e está ilustrada no diálogo entre Jesus Cristo e Pôncio Pilatos, durante o julgamento narrado no Evangelho de João: Lá se distingue a pergunta: “O que é a verdade?” que Pilatos fez ao Nazareno, que afirmou ter vindo ao mundo para dar o testemunho da verdade.
Vê-se neste diálogo a contradição entre autoridade imperial e mensagem religiosa, do lado do Governador Romano, um total ceticismo; e para Jesus Cristo a encarnação da Verdade, ao afirmar: – “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6).
Este episódio reflete na realidade o conflito entre a Verdade metafísica e a concepção positivista. A visão religiosa envolve questões de fé, enquanto o Positivismo exige que a Verdade se apresente baseada em atos e fatos.
Não é por acaso que a abstração religiosa seja invocada pelos políticos safados em seus discursos demagógicos. As promessas eleitorais não trazem nenhum compromisso com a Verdade; são simplesmente mentirosas.
O verdadeiro conhecimento da Ciência Política nos ensina que devemos abandonar na prática a pregação fraudulenta da politicagem em vigor no Brasil, principalmente daqueles que se apresentam como possuidores de “reputação ilibada e notório saber”.
No seu clássico “A Divina Comédia”, o gênio florentino Dante Alighieri, traz o conceito de Verdade como uma jornada existencial e progressiva que leva o indivíduo do pecado à iluminação divina… Para ele, a ignorância é o fator que afasta a Verdade da realidade factual, tornando-a um simples fato abstrato.
A Verdade, para Dante, leva a Deus, mas a Igreja Romana tirou a Mentira ao revisar os “Oito Pensamentos Malignos” adotados pelos primeiros bispos. As togas cardinalícias púrpuras (herança dos sacerdotes de Isis) adotaram somente “Sete Pecados Capitais”, a lista que foi consolidada por Tomás de Aquino.
Eis os Pecados Capitais: Avareza, Gula, Inveja, Luxúria, Ira, Preguiça e Soberba. Estas transgressões são praticadas por ação, pensamento ou omissão, e são consideradas “capitais” porque lideram outros vícios.
Das Togas Púrpuras o dogma chegou às Togas Pretas do STF. Lá a Avareza está na acumulação de riquezas; a Gula no caviar, champanhe e lagostas; a Inveja, pelo brilho de sentenças de juízes preparados; a ira, contra os que lhes criticam; a Luxúria nos almoços e jantares promovidos licitantes; a Preguiça, no engavetamento de causas de mais de dez anos; e, finalmente, a Soberba, por se considerarem intocáveis e imortais…
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