DOS OSSOS
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
Quando menino, menino mesmo, de 8 a 9 anos, era fascinado pela pirataria, já diferenciando corsário de pirata e aceitando posturas, pernas-de-pau, tapa-olho e mão de gancho…. A magia, porém, que me encantava era a ameaçadora bandeira negra com a caveira e os dois ossos cruzados.
Duas curiosidades sobre este símbolo: Na Bíblia, o Gólgota (local da crucificação de Jesus), é traduzido como “Lugar da Caveira”; e a história o registra numa antiguidade mais remota do que seu uso pelos piratas, cuja bandeira era uma mensagem exigindo rendição ou morte.
Nas vitrines da Arqueologia exibem-se ossos e caveiras que ao lado de joias de ouro e pedras preciosas representam uma riqueza da pesquisa científica. Tive a oportunidade como correspondente nos países andinos e América Central de visitar museus que dedicam imensos espaços expondo ossos de naturais e conquistadores.
Na Europa medieval, no período das Cruzadas, tornou-se comum conservar e exibir ossos de santos em igrejas como relíquias sagradas. Tão grande foi a demanda por essas “relíquias” que a competição entre as paróquias por prestígio e visitantes, gerou abusos, incluindo falsificações e comércio ilegal.
Embora com alardeada cultura milenar os europeus preservam ainda hoje em igrejas e santuários, ossos humanos reconhecendo-os como testemunhos da fé e os mantendo para estimular a devoção religiosa.
Na Basílica de São Pedro, em Roma, acredita-se que estejam sob o altar principal os restos do apóstolo São Pedro…. E, como um dos motivos da revolta protestante, a Catedral de Colônia abriga o relicário dos Três Reis Magos, uma fantasia que poderia constar dos Contos das Mil e Uma Noites…
A cinematografia também dá lugar aos ossos. É de citar o filme de Phillip Noyce, “O Colecionador de Ossos” um thriller policial que traz no elenco principal: Denzel Washington, Angelina Jolie, Queen Latifah, Michael Rooke.
É primorosa a atuação de Denzel Washington no papel de Lincoln Rhyme, um policial que sofreu um acidente, deixando-o tetraplégico e, na cama, torna-se criminologista notável. No enredo, faz parceria com uma policial novata, Amelia Donaghy (Angelina Jolie), e em conjunto perseguem um meticuloso serial killer que deixa pistas enigmáticas e ossos de suas vítimas.
Os cinéfilos sabem que esta película está à altura dos clássicos de Alfred Hitchcock, “Disque ‘M’ para Matar”, “Festim Diabólico”, “Janela Indiscreta” e “Um Corpo que Cai”; e em paralelo ao excelente “O silêncio dos inocentes”, de Jonathan Demme.
No campo das novelas brasileiras tivemos na década de 1970 “Os Ossos do Barão”, produzida pela TV Globo totalizando 120 capítulos. Escrita por Jorge Andrade, teve como diretores Régis Cardoso e Gonzaga Blota.
A trama retrata a decadência da aristocracia rural paulista (os donos de terras cafeeiras) e ascensão social do imigrante no início do século 20. Um deles, italiano enriquecido, compra a Fazenda Jaraguá onde estão enterrados os ossos do antepassado da família nobre, o Barão de Jaraguá.
Temos no teatro clássico a famosa cena de “Hamlet” em que Shakespeare utiliza uma caveira como instrumento dramático. O príncipe volta à casa paterna de sua jornada e passa por um cemitério onde se surpreende com o coveiro cantando enquanto cava. Na proximidade de uma sepultura, vendo um crânio insepulto, Hamlet abaixa-se e pega-o, ouvindo do coveiro: – “Esse crânio aí, senhor, esse crânio aí, é o crânio de Yorick, finado o bobo do rei”. Isto lhe traz à cabeça recordações da infância, do bufão que muito lhe fazia rir….
Das lendas literárias, uma diz que Shakespeare tinha uma caveira sobre a mesa quando escreveu “Ser ou não ser: eis a questão” e ainda sobre o tema, lembro uma passagem em que hospedando-me no apartamento de um amigo, encontrei numa espécie de altar uma caveira e uma frase “Fui o que és, serás o que sou”, o que me levou à reflexão e encontrei-a citada como um dos epitáfios mais antigos do mundo, muitas vezes em latim, “Sum quod eris, fui quod es”.
No livro “Preparação para a Morte” de Santo Afonso Maria de Ligório, doutor da Igreja, há um capítulo dedicado a um ermitão que mantinha uma caveira com esta frase, para lembrar da brevidade da vida.
Refletindo sobre a brevidade da vida, lembremos que a caveira sobre tíbias cruzadas é hoje o símbolo universal para indicar substâncias tóxicas, venenos e riscos elétricos graves; e deveria estar na fachada do edifício do poder político brasileiro, sugerindo o “memento mori” (“lembre-se de que vais morrer”) para os ocupantes dos andares de cima que se julgam imortais…
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