Arquivo do mês: abril 2008
Artigo saído 2ª feira n’ O JORNAL DE HOJE
Eu queria ser uma mosca brasiliense
MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br
Entre os povos martirizados pelas ditaduras sempre surge a figura execrável das “moscas” – espiões que participam de reuniões associativas, conferências, que estão nos quartéis, escolas, sindicatos e locais de trabalho. Nos duros tempos do regime militar a gente chamou-os de dedos-duros, uma qualificação bem brasileira. Na Europa e nos EUA são “moscas”.
É um velho costume petista a espionagem. Usado de forma lúdica entre o professorado universitário – sempre disputando departamentos e cargos na reitoria – e nos sindicatos dominados pelos pelegos. Na Argentina, o peronismo tradicional apelidou esses delatores de “amarrillos”, termo que se espalhou por toda América Latina; e foi na Rússia, logo após a revolução de 1917, que surgiu a alcunha “mosca”. A História (com agá maiúsculo) registra que os intelectuais soviéticos sentindo-se vigiados pela polícia política “Cheka”, batizaram os marreteiros de “mosca”.
Mais tarde, Ilya Ehrenburg contaria no seu romance “A Queda de Paris” que a resistência francesa contra a invasão nazista chamou os colaboradores fascistas de “mouches”, moscas. E esse cognome depreciativo ganhou a França e se espalhou pela Europa dominada pelo nazi-fascismo.
Eu não queria ser uma mosca espiã; queria ser uma mosca inconveniente como aquela de Raul Seixas. Na verdade, queria ouvir os fuxicos da “turma do Dirceu” e da “turma da Dilma” que se engalfinham nos corredores palacianos de Brasília, luta interna do lulismo-petismo que culminou com o vazamento do dossiê com gastos dos cartões corporativos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e da ex-primeira-dama Ruth Cardoso.
Esse tal “dossiê”, ou “relatório”, ou “banco de dados”, conforme a versão fraudulenta dos pelegos no poder é um crime continuado. O vazamento foi a apoteose de uma canalhice que começou com a busca de contas antigas e notas de despesas de FHC e Ruth Cardoso e dos principais ministros do governo tucano, desde 1998. Como é de se esperar, a hierarquia do PT-governo não considera isto crime.
Para o ministro Tarso Genro (da Justiça!) é uma ação política normal e até “correta” para conhecer os erros dos adversários. E dessa maneira os aloprados da Casa Civil fizeram, levantando e comparando os gastos de FHC e os de Lula. O trabalho foi encomendado pela Casa Civil da Presidência da República, depois de pelo menos duas reuniões da cúpula palaciana.
Uma delas, em 8 de fevereiro deste ano, pautou a organização dos dados. Reuniram-se Norberto Temóteo Queiroz, da Administração, Maria de La Soledad Castrullo, chefe de gabinete da Casa Civil e Gilton Saback Maltez do Orçamento e Finanças, sob a coordenação de Erenice Guerra, “unha e cutícula” de Dilma, e José Aparecido Nunes Pires, secretário de Controle Interno. Três dias depois, no dia 11, o informe subiu a nível ministerial, sendo discutido na presença da ministra Dilma Rousseff pelos também ministros Franklin Martins, da Comunicação Social, Paulo Bernardo, do Planejamento, e José Múcio Monteiro das Relações Institucionais.
A visão panorâmica da trincheira levantada contra as denúncias da oposição, que queria uma CPI para apurar a gastança com os cartões de crédito, foi levada a Lula da Silva, que gozava férias no Guarujá. Tendo o Presidente tomado conhecimento do material, as informações secretas da gestão tucana começaram a ser lançadas em planilhas nos computadores da Casa Civil.
Em forma de dossiê, passou a ser distribuído “clandestinamente” entre parlamentares influentes do tucanato como chantagem para refrear pressões pela instalação da CPI. A princípio teve efeito, e a oposição viveu dias de bloqueio. A Comissão só foi instalada um mês depois. Nesse ínterim, a revista Veja publicou bombasticamente os dados referentes a FHC e dona Ruth, informação que repercutiu nos principais jornais do país.
Assim a pirotecnia do dossiê teve efeito contrário. Dona Dilma apresentou cinco versões sobre o fato. Tarso Genro umas três ou quatro. Até o general Jorge Armando Félix, que se pressupõe um homem de formação cívica, foi chamado para abafar as investigações em torno de Lula da Silva e familiares, colocando no rol da segurança nacional as despesas pouco ortodoxas desse pessoal. Por fim e inaceitavelmente o PT-governo insisti que o crime se limita ao vazamento dos dados e não à montagem do dossiê.
Por pressão da opinião pública, depois de muita relutância, a Polícia Federal foi convocada para investigar o caso e o delegado Sérgio Menezes, considerado honesto e tecnicamente eficaz, foi encarregado de levantar o corpo de delito. Ele já solicitou ao Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República os dados da segurança do Palácio do Planalto, a fim de identificar quem entrou e quem saiu do setor da Casa Civil onde foi elaborado o dossiê.
A ação policial prosseguiu com a apreensão de cinco lap tops e dois computadores de mesa, usados pelos seis funcionários encarregados de digitalizar os documentos com os gastos de FHC e Ruth Cardoso. Equipamentos pertencentes a esses funcionários também foram requisitados para verificar se fizeram cópias das informações. Isso tudo está sendo examinado pelos peritos do Instituto Nacional de Criminalística – INC.
Com o Senado Federal criando uma CPI própria para pesquisar os gastos com cartões corporativos, a perícia e a análise da PF deverão ser repassadas aos senadores que, evidentemente, não se restringirão ao vazamento do dossiê. Até lá, os entrechoques da “turma do Dirceu” com a “turma da Dilma” se acirrarão e é por isso que eu gostaria de estar lá, invisível como uma mosquinha, para ver até onde esse pessoal vai.
No jogo de ping-pong dos dois grupos deverá perder o que tiver um dos seus comparsas caído na malha da Polícia Federal. Quando escrevíamos este texto, os suspeitos eram José Aparecido, funcionário de carreira do TCU levado para a Casa Civil por José Dirceu logo que assumiu a pasta em 2003, e Erenice Guerra, secretária-executiva de Dilma. Petistas ligados a Dirceu dizem que foi Erenice que coordenou a coleta de informações sobre gastos da gestão tucana e petistas ligados a Dilma garantem que foi Aparecido quem vazou os dados a parlamentares oposicionistas.
Diante deste cenário de maledicências e rasteiras, dá ou não dá vontade de ser uma mosca na sopa dos comensais do Palácio do Planalto?
MUDANÇA NAS REGRAS
TSE pode favorecer Marta Suplicy
O Tribunal Superior Eleitoral iniciou, na noite passada, um debate crucial para o futuro político da ministra Marta Suplicy (Turismo). Discute-se a resolução 22.715, editada pelo TSE em 28 de fevereiro de 2008. Prevê que políticos com contas de campanha rejeitadas pelo tribunal não podem registrar nova candidatura. Levado ao pé da letra, o documento impede Marta de concorrer à prefeitura de São Paulo em 2008. Ela teve as contas da campanha de 2004 rejeitadas pela Justiça Eleitoral. Porém, o TSE está a um passo de atenuar o teor de sua própria resolução, facilitando a vida de Marta.
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Comentário (I)
A reserva da discórdia
O ministro Eros Grau admitiu publicamente que o caso da Reserva Raposa Serra do Sol, no estado de Roraima, é o que envolve mais tensão e, embora não tenha sido dito pelo eminente ministro do STF, envolve também o risco de a decisão a ser tomada pela mais corte de Justiça, com jurisdição político-constitucional, vir a tornar-se estopim de um acirrado conflito em vez de efetivamente pacificar os ânimos.
Roraima será sepultado como estado, caso esta reserva isolacionista, feita para antropólogo inglês ver e turista europeu fotografar, seja de fato destacada do território nacional num autêntico crime de lesa-pátria. O difícil nesta história é saber quem terá cometido tal vilania nacional.
O presidente da República? Ora, ele dirá que apenas fez cumprir o disposto no art. 231, § 6º da Constituição Federal, que considera nulos e extintos todos os atos de ocupação das tradicionais terras indígenas. Seria o caso mesmo de levarmos ao pé da letra, a ferro e fogo, o disposto no art. 231 da Constituição Federal? Que tal colocar velas ao mar e começar de volta o caminho de Cabral.
Alexandre Forte, advogado
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NOTÍCIAS DO DIA
3º MANDATO NO TSE – Futuro presidente do TSE, o ministro do STF Carlos Ayres Britto discorda da tese do terceiro mandato e diz que ela dificilmente seria aprovada: “O terceiro mandato recende a uma postura anti-republicana.” O Ministro estuda anular o decreto presidencial de 2005 que homologou a demarcação contínua da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima.
AUMENTO DOS JUROS – Para tentar conter a alta da inflação, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central elevou a taxa básica de juros do país em 0,50 ponto percentual, para 11,75% ao ano, interrompendo ciclo de três anos sem aumentos. O movimento foi mais agressivo do que esperava o mercado, que previa aumento de 0,25.
CACCIOLA VEM AÍ – Sete meses depois de ter prendido o ex-banqueiro Salvatore Cacciola, a Justiça de Mônaco decidiu pela sua extradição para o Brasil, onde ele foi condenado por peculato e gestão fraudulenta. Falta apenas o príncipe Albert II pronunciar-se sobre o caso, mas ele nunca contrariou decisões da Justiça.
DENGUE MATA 52 – Dezenas de pacientes com dengue e médicos viveram 20 minutos de pânico, quando policiais e traficantes da Vila Cruzeiro trocaram tiros perto da tenda de hidratação do Hospital Getúlio Vargas. Ontem, morreu a 52ª vítima da doença no Rio.
INSEGURANÇA DÁ PREJUÍZO – O comércio do Estado do Rio de Janeiro gastou, de 2002 a 2007, R$ 28,7 bilhões em segurança privada para se proteger da violência, segundo o presidente da Federação do Comércio do Estado, Orlando Diniz. Este valor seria suficiente para gerar 2 milhões de empregos no mesmo período, uma distorção que prejudica mais os jovens que procuram o primeiro emprego. O investimento em segurança consumiu 2,38% do faturamento do setor.
OUTRO REITOR “EQUIVOCADO” – O reitor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Ulysses Fagundes Neto, 62, que usou R$ 12 mil do cartão corporativo em compras pessoais no exterior, disse ontem ter cometido um “equívoco”, pois achava que tinha autonomia para gastar e que entendia não se tratar de dinheiro público.
CALA BOCA A BAIXO CUSTO – A Câmara dos Deputados aumentou de R$ 50,8 mil para R$ 60 mil a verba de gabinete para cada um dos 513 parlamentares. Arlindo Chinaglia (PT-SP), presidente da Casa, afirma que o reajuste, destinado a apadrinhados políticos, é “insignificante” se comparado aos ganhos salariais de outros servidores.
TCU INTERVÉM NA MARACUTAIA – O Tribunal de Contas da União suspendeu a liberação de R$ 30 milhões previstos para a expansão da Universidade de Brasília, que abriria mais 1,2 mil vagas ao ano. O projeto seria executado pela Finatec, fundação que gastou R$ 470 mil na decoração do apartamento ocupado por Timothy Mulholland.
PEQUENAS EMPRESAS SOFREM – Números do Ministério do Desenvolvimento relativos a 2005 e 2006 mostram uma redução na presença das empresas de pequeno porte no comércio exterior. Em 2006, 5.769 microempresas exportaram US$ 272,3 milhões. No ano anterior, US$ 283,7 milhões foram embarcados por 5.906 microempresas.
ELEIÇÕES NO PARAGUAI – Favorito na eleição presidencial de domingo, o ex-bispo Fernando Lugo diz que abrirá “a caixa-preta do Estado” e que o Brasil deve pagar mais pela energia de Itaipu.
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ESTATIZAÇÃO
Evo Morales faz ameaças na Bolívia
O presidente da Bolívia, Evo Morales, ameaça estatizar as esmagadoras de soja se o preço do óleo no mercado interno não baixar. Morales proibiu no mês passado a exportação de óleo comestível e agora acusa as esmagadoras de estarem suspendendo a produção para não ter de baixar o preço. O governo quer reduzir o preço do óleo de soja, que chegou a 18 bolivianos, para menos de 10 (cerca de R$ 2,25). As empresas do setor – controlado pela americana ADM, pelo grupo peruano Romero e pelo Marinkovic, local – alegam prejuízo para paralisar suas linhas de produção.
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AUDITORES FISCAIS
Greve afeta exportações de autopeças
A greve dos auditores da Receita Federal, que completa hoje um mês e não tem data para terminar, pode afetar a produção da indústria automobilística dentro e fora do Brasil. No Brasil, as linhas de montagem podem parar porque as autopeças não estão conseguindo a liberação de componentes importados, disse o presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), Paulo Butori. No Exterior a situação é semelhante. “As montadoras no exterior poderão parar a produção porque as grandes empresas de autopeças não estão conseguindo enviar componentes.” Uma alternativa para tentar driblar a greve tem sido recorrer ao transporte aéreo. Além de custos até 10 vezes maiores que o transporte marítimo, essa alternativa está próxima do esgotamento devido à sobrecarga nos aeroportos.
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CHURRASCO
Carne brasileira defendida na Europa
A rede Young’s, com 200 pubs em Londres e arredores, tomou uma decisão que pode fazer seguidores na Europa: na falta de carne bovina brasileira, preferiu retirar do menu alguns pratos com bife em vez de utilizar a carne do Reino Unido. Para Paul Jeffreys, diretor de Young’s, a restrição à entrada da carne brasileira na Europa está fazendo o preço do bife atingir em cheio a conta nos restaurantes. “A carne do Brasil e da Argentina que chegou nos dois últimos anos era de excelente qualidade e barata. A britânica é boa, mas é cara demais”.
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MENSALÃO
Picaretas favorecidos por Chinaglia
O presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-SP), confirmou ontem que a verba de gabinete -usada para pagar o salário de funcionários contratados sem concurso- subirá dos atuais R$ 50,8 mil ao mês para R$ 60 mil. O impacto anual na folha será de R$ 61,4 milhões. O reajuste foi calculado com base no IGP-M (15,13% no período), o maior índice inflacionário entre os seis usados pelo Banco Central, mais 2,9%, percentual que, segundo Chinaglia, equivale ao “ganho real”.
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PATRIOTISMO
General Heleno aplaudido pela oficialidade
Cinco dias depois de o presidente Lula ter defendido a demarcação da Reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, o general Augusto Heleno, comandante militar da Amazônia, desafiou o governo e disse que a política indigenista “é lamentável, para não dizer caótica”, sendo aplaudido por autoridades militares, durante seminário no Clube Militar. Na primeira fila estavam o comandante militar do Leste, general Luiz Cesário da Silveira Filho, e os ex-ministros do Exército Leônidas Pires Gonçalves e Zenildo Lucena. Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) defenderam ontem a liminar que suspendeu a operação da Polícia Federal, que iria retirar os não-indígenas da reserva. O ministro da Justiça, Tarso Genro, manteve a posição do governo e criticou a imprensa.
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MANCHETES de hoje_17.abr.08
O GLOBO – Inflação em alta leva BC a subir os juros após 3 anos
FOLHA DE SÃO PAULO – BC surpreende e juro sobe 0,5 ponto
CORREIO BRAZILIENSE – A morte em preto-e-branco
JORNAL DO COMMERCIO (PE) – Sport é tri
GAZETA MERCANTIL – Quebra de contratos põe em xeque venda
de energia elétrica
TRIBUNA DA IMPRENSA – Verba de gabinete vai a R$ 60 mil
por mês
TARDE – Inflação faz Copom subir juro básico em 0,5 pontos
ESTADO DE MINAS – Banco Central eleva taxa Selic em 11,75%
JORNAL DO BRASIL – Comércio do Rio perdeu R$ 28 bi com a
violência
O ESTADO DE SÃO PAULO – BC decide por alta mais forte dos
juros para deter inflação
VALOR ECONÔMICO – Custo de captação de banco aumenta
e encarece crédito
ZERO HORA – Inflação faz juro voltar a subir após 35 meses
DIÁRIO DE NATAL – Chuva faz RN perder 3 mil barris de
petróleo por dia
TRIBUNA DO NORTE – Juros básicos sobem depois de três anos
e Selic vai a 11,75%
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