Arquivo do mês: fevereiro 2008

 

Abrindo aspas para Fernando Gabeira

CUBA EM TRANSIÇÃO

“A escolha de Raul Castro, de certa forma, validou um pouco minhas análises anteriores. Elas diziam que as reformas políticas ainda iriam demorar e, sobretudo, depender do jogo de forças no campo econômico. O fato de Raul Castro ser escolhido por unanimidade num universo tão amplo de deputados mostra que o monolitismo do regime comunista permanece de pé. Votações por unanimidade são marca registrada das ditaduras que se proclamam socialistas.

Mas o anúncio de reformas econômicas confirma, por outro lado, que mudanças estavam sendo preparadas, e elas caminham na direção contrária ao dogma comunista, pois prevêem uma redução no papel do Estado. Nuances existem nas posições de Raul, quando comparadas com as de Fidel. O novo presidente admite, abertamente, os impasses da cubana, classifica de seus aspectos como racionais, e , certamente, vai buscar algumas alterações. Muito em breve, dada a desconfiança que Raul e outros cubanos têm da estabilidade de Hugo Chavez, o Brasil vai se tornar a esperança de mediação entre Cuba e o mundo, uma espécie de interlocutor privilegiado.

Como deveremos nos comportar como país? Defendendo o bloqueio norte-americano? Aceitando passivamente o desrespeito aos direitos humanos, como fazem os chineses? A posição de Lula tem sido a de negociar economicamente sem se preocupar com a repressão política, nem se relacionar com a oposição cubana. Mas, como ainda não temos todos os dados, meu objetivo é convidar o Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, para descrever qual será o papel do Brasil. Tínhamos um embaixador petista na ilha, Tilden Santiago, mas trocamos por um profissional do ramo.

Embora a definição da em relacão a Cuba dependa menos dos diplomatas e mais dos dirigentes do PT, como Marco Aurélio Garcia, nossa missão é, pelo menos, trazer à luz os seus planos. Se o Brasil vai mesmo desempenhar um papel em Cuba, na transição, porque não tornar esta tarefa uma tarefa nacional, sem querer substituir o Brasil pelos dirigentes do PT?”

FORTE DOS REIS MAGOS – NATAL/RN

FORTE DOS REIS

Artigo saído n’ O JORNAL DE NATAL. Nas bancas

Fidel humanizou o comunismo soviético

MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br

Depois que Fidel Castro anunciou oficialmente a renúncia da presidência da República e à chefia das Forças Armadas, faltando um ano para completar meio século de poder, todos traçam a multifacetada trajetória política dele, o cubano Fidel Alejandro Castro Ruz, traidor da sua classe, pois é descendente de uma família de poderosos latifundiários cubanos… Hoje, aos 81 anos de idade, é o último comunista romântico da História.

Falo em comunista romântico porque ele, Fidel, humanizou o comunismo soviético. Uma contradição dialética: responsável pelo “paredón”, fuzilamentos em massa dos que reagiram à revolução, ao sacrifício da liberdade de expressão e criador de um estado policial, ele projetou uma imagem diferente para uso externo. Que ficou, enquanto a Stálin se dissipou como fumaça rala.

Internamente, implantou o pensamento único, mas além fronteiras emprestou a sua efígie às bandeiras libertárias. Em Cuba, vale perguntar se valeu a pena a pagar o preço da repressão para ter uma escola pública socializada e assistência médica pública e universal. Cá fora, estas conquistas continuam oníricas, uma utopia que se mantém viva.

Ao contrário dos cretinos que o consideram um “mito”. Fidel é um ser humano sensível, embora intransigente com seus princípios, sendo talvez um dos poucos revolucionários que assumiram o poder e não se locupletaram. Ao contrário, a simplicidade de Fidel faz contraponto com a empáfia do ex-metalúrgico que se elegeu presidente do Brasil e possui um guarda-roupa de artista de Hollywood. 70 ternos Gucci.

Por não ter abandonado os ideais da juventude, nem traído os seus discursos (longos, mas cativantes como os do nosso inesquecível Leonel Brizola), Fidel não se deixou envolver pelos políticos corruptos e muito menos pelas elites dominantes e, em conseqüência, não assumiu o pensamento dominante. Assim, o neoliberalismo que indigestou o sociólogo Fernando Henrique Cardozo e o líder sindical Lula da Silva não assanhou sequer os cabelos longos do líder cubano com projeção internacional.

É internacional porque queiram ou não queiram seus adversários (e muitos inimigos), o nome do Comandante Fidel ecoa sobre as fronteiras latino-americanas. Nas falésias caribenhas, nas florestas da América Central, no altiplano andino e nos litorais Pacífico e Atlântico. Corre das guianas à Patagônia; está presente nos mistérios da Amazônia, no rumor tropical e no silêncio antártico.

Por isso não é lamentável o seu afastamento do poder. Sabemos que Fidel permanecerá ativo, como fez ao se afastar por motivo de saúde há 19 meses. Será sempre um ditongo político e não um hiato de inatividade… Continuará atuante na cena da sua Ilha e dará novamente os braços a Che Guevara para inspirar a juventude sonhadora por um mundo melhor.

Fidel se manterá em Cuba onde, segundo observadores confiáveis, não há sinais de que setores significativos da sociedade queiram o retorno ao capitalismo. Apesar de imensos sacrifícios, o país figura entre os de melhor Índice de Desenvolvimento Humano da ONU e os seus filhos se orgulham disso, recusando-se a aceitar um retorno aos tempos em que Havana foi a central dos negócios sujos da máfia nova-iorquina e o “Cabaré das Américas”.

De longe eu também não creio em mudanças imediatas em Cuba, nem no fim da influência de Fidel, que segue através do irmão Raúl Castro. E minha memória vai sempre para o Fidel jovem, recém vitorioso, que veio ao Brasil a convite da UNE e na histórica sede da Praia do Flamengo, 32, fez um discurso que arrancou lágrimas de todos os presentes.

Disse o Comandante que estava desalentado no alto da Sierra Maestra, tendo convocado uma reunião com todos os comandantes da guerrilha para logo após a volta de Camilo Cienfuegos de La Habana, onde fora disfarçado para tentar conseguir alimentos, remédios e armamento necessários para continuar a luta. Caso a logística falhasse ele iria propor uma retirada estratégica.

Emocionado, relatou a volta de Camilo, que não trouxe os equipamentos esperados, mas veio com a notícia, colhida na Embaixada do Brasil, de que um grupo de estudantes brasileiros se organizava para ir à ilha participar do Movimento 26 de Julho. E Fidel concluiu: “Foi o apoio espiritual de vocês que faltava. Assim, marquei um ataque, que saiu vitorioso, depois outro, também vencedor, e uma após outras batalhas ganhas até a entrada triunfante em La Habana!”.

Este é o Fidel que guardo na memória e não o ditador sanguinário que os refugiados de Miami abominam…

NOTICIÁRIO DE HOJE

PETROBRAS NO VAREJO – A Petrobras vai destinar um setor específico para cuidar da produção de biodiesel e etanol e aplacar o PMDB. À revelia do PT, o partido vai indicar o engenheiro Alan Kardec Pinto para a diretoria de biocombustíveis, que será criada esta semana.

METAS E PRIORIDADES – A Comissão Mista do Orçamento no Congresso, formada por 20 deputados federais e sete senadores, fez uma série de manobras para enxertar um anexo de “metas e prioridades” no Orçamento da União de 2008 que não constava na proposta enviada pelo governo federal.

POLÍTICA ENERGÉTICA – O presidente Lula propôs a adoção de uma política de energia para Brasil, Argentina e Bolívia como saída para a disputa pelo gás boliviano. Reunido com os presidentes Cristina Kirchner e Evo Morales, Lula questionou, segundo funcionários brasileiros, os números de consumo e produção apresentados pelos parceiros.

PROBLEMAS NA TV-BRASIL – Inaugurada em dezembro, com a promessa de isenção e autonomia em relação ao governo, a Empresa Brasil de Comunicação, ou TV Brasil, carrega vícios das TVs oficiais. Promoção de estatais e falta de regras para anúncios institucionais são problemas não resolvidos.

UE VEM VER A CARNE – A missão da União Européia, que se reúne hoje em Brasília e começa a vistoriar fazendas em 6 Estados, encontrará pecuaristas, frigoríficos, empresas certificadoras e o governo divididos sobre que medidas adotar para garantir a qualidade da carne brasileira.

REMÉDIOS FALSIFICADOS – O Conselho Nacional de combate à Pirataria está registrando uma incidência jamais vista de medicamentos falsificados, que não têm eficácia no tratamento. A maioria é importada da Ásia e entra no Brasil via Paraguai e Uruguai. Em 2007, a Anvisa apreendeu dez tipos de remédios falsificados.

TERRA DE NINGUÉM – Escutas telefônicas, exibidas ontem pelo “Fantástico”, da TV-Globo, revelaram que a milícia que dominava a Vila Palmeirinha, em Guadalupe, torturava os moradores e vendia armas, além de cobrar taxas por serviços de segurança e TV a cabo pirata.

CPI DAS ONGS – Paralisada por falta de acordo entre a base aliada e a oposição, comissão decide investigar instituições ligadas a universidades federais e mira a fundação que bancou luxo em apartamento da reitoria da UnB.

AUMENTO DA LUZ – O atraso nas chuvas de verão neste ano provocou a alta do preço da energia elétrica no mercado livre em janeiro e uma guerra entre compradores e vendedores cujo desfecho é esperado para 18 de março, quando a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) liquida os negócios daquele mês.

CUBA

Raul assume prometendo mudanças

Confirmado presidente ontem pela Assembléia Nacional de Cuba, Raúl Castro, irmão de Fidel Castro, disse no discurso de posse que vai reestruturar a máquina estatal, cortando órgãos para diminuir a burocracia. E prometeu que na semana que vem eliminará “proibições simples”, dando mais liberdade ao povo do último país socialista do Ocidente. Raúl anunciou também que consultará Fidel sobre decisões importantes.

MANCHETES do dia 25.jan.08

TRIBUNA DO NORTE – Acima do limite da Lei Fiscal o governo
vai criar outras empresas

JORNAL DO COMMERCIO – Raul assume Cuba e promete reformas

TRIBUNA DA IMPRENSA – Brasil vai rejeitar prisão e extradição de acusados

ZERO HORA – Inspetores europeus chegam hoje para fiscalizar carne brasileira

FOLHA DE SÃO PAULO – Assembléia de Cuba elege irmão de Fidel

JORNAL DO BRASIL – Sem Fidel, Cuba inicia mudanças

O GLOBO – Irmão de Fidel assume e promete reformas

GAZETA MERCANTIL – Vale garante reajuste para 70% das vendas de minério

CORREIO BRAZILIENSE – Finatec é o próximo alvo da CPI das ONGs

VALOR ECONÔMICO – Ajuste fácil ao fim da CPMF viabiliza corte de impostos

O ESTADO DE SÃO PAULO – Velha guarda cubana fica no poder

Contudo

Contudo, contudo,

Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.
Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.

Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.

Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse,
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre,
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo.
Sou imparcial como a neve.
Nunca preferi o pobre ao rico,
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.

Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me agüente comigo e com os comigos de mim.

Álvaro de Campos

Álvaro de Campos (1890 – 1935) é um dos heterónimos mais conhecidos de Fernando Pessoa. Esse fez uma biografia para cada um dos seus heterónimos e declarou assim de Álvaro de Campos : «Nasceu em Tavira, teve uma educação vulgar de Liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Agora está aqui em Lisboa em inactividade.»

Era um engenheiro de educação inglesa e origem portuguesa, mas sempre com a sensação de ser um estrangeiro em qualquer parte do mundo. Pessoa disse também em relação a este heterónimo que : Eu fingi que estudei engenharia.
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda. Meu coração é uma avozinha que anda Pedindo esmolas às portas da alegria.

ARACAJU

 

Menos, Bebeto de Freitas!

Bebeto de Freitas merece uma estátua em General Severiano ou, quem sabe, batizar o Engenhão, até porque seu nome atual não só não tem nada a ver com o Botafogo como, ainda por cima, traiu seu tio, o imortal João Saldanha.

Bebeto de Freitas fez tanto pelo Glorioso desde que assumiu sua presidência que até engolir sapos ele engoliu.
Como conviveu com companhias das quais ele preferiria distância.
Até incoerente com sua história andou sendo. Nada, no entanto, justifica a renúncia de Bebeto de Freitas por causa do jogo de hoje. Que foi muito mais normal do que aquele que decidiu a Taça Guanabra de 2006, contra o América.


Fonte: Juca Kfouri