Artigo saído n’ O JORNAL DE NATAL. Nas bancas
Fidel humanizou o comunismo soviético
MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br
Depois que Fidel Castro anunciou oficialmente a renúncia da presidência da República e à chefia das Forças Armadas, faltando um ano para completar meio século de poder, todos traçam a multifacetada trajetória política dele, o cubano Fidel Alejandro Castro Ruz, traidor da sua classe, pois é descendente de uma família de poderosos latifundiários cubanos… Hoje, aos 81 anos de idade, é o último comunista romântico da História.
Falo em comunista romântico porque ele, Fidel, humanizou o comunismo soviético. Uma contradição dialética: responsável pelo “paredón”, fuzilamentos em massa dos que reagiram à revolução, ao sacrifício da liberdade de expressão e criador de um estado policial, ele projetou uma imagem diferente para uso externo. Que ficou, enquanto a Stálin se dissipou como fumaça rala.
Internamente, implantou o pensamento único, mas além fronteiras emprestou a sua efígie às bandeiras libertárias. Em Cuba, vale perguntar se valeu a pena a pagar o preço da repressão para ter uma escola pública socializada e assistência médica pública e universal. Cá fora, estas conquistas continuam oníricas, uma utopia que se mantém viva.
Ao contrário dos cretinos que o consideram um “mito”. Fidel é um ser humano sensível, embora intransigente com seus princípios, sendo talvez um dos poucos revolucionários que assumiram o poder e não se locupletaram. Ao contrário, a simplicidade de Fidel faz contraponto com a empáfia do ex-metalúrgico que se elegeu presidente do Brasil e possui um guarda-roupa de artista de Hollywood. 70 ternos Gucci.
Por não ter abandonado os ideais da juventude, nem traído os seus discursos (longos, mas cativantes como os do nosso inesquecível Leonel Brizola), Fidel não se deixou envolver pelos políticos corruptos e muito menos pelas elites dominantes e, em conseqüência, não assumiu o pensamento dominante. Assim, o neoliberalismo que indigestou o sociólogo Fernando Henrique Cardozo e o líder sindical Lula da Silva não assanhou sequer os cabelos longos do líder cubano com projeção internacional.
É internacional porque queiram ou não queiram seus adversários (e muitos inimigos), o nome do Comandante Fidel ecoa sobre as fronteiras latino-americanas. Nas falésias caribenhas, nas florestas da América Central, no altiplano andino e nos litorais Pacífico e Atlântico. Corre das guianas à Patagônia; está presente nos mistérios da Amazônia, no rumor tropical e no silêncio antártico.
Por isso não é lamentável o seu afastamento do poder. Sabemos que Fidel permanecerá ativo, como fez ao se afastar por motivo de saúde há 19 meses. Será sempre um ditongo político e não um hiato de inatividade… Continuará atuante na cena da sua Ilha e dará novamente os braços a Che Guevara para inspirar a juventude sonhadora por um mundo melhor.
Fidel se manterá em Cuba onde, segundo observadores confiáveis, não há sinais de que setores significativos da sociedade queiram o retorno ao capitalismo. Apesar de imensos sacrifícios, o país figura entre os de melhor Índice de Desenvolvimento Humano da ONU e os seus filhos se orgulham disso, recusando-se a aceitar um retorno aos tempos em que Havana foi a central dos negócios sujos da máfia nova-iorquina e o “Cabaré das Américas”.
De longe eu também não creio em mudanças imediatas em Cuba, nem no fim da influência de Fidel, que segue através do irmão Raúl Castro. E minha memória vai sempre para o Fidel jovem, recém vitorioso, que veio ao Brasil a convite da UNE e na histórica sede da Praia do Flamengo, 32, fez um discurso que arrancou lágrimas de todos os presentes.
Disse o Comandante que estava desalentado no alto da Sierra Maestra, tendo convocado uma reunião com todos os comandantes da guerrilha para logo após a volta de Camilo Cienfuegos de La Habana, onde fora disfarçado para tentar conseguir alimentos, remédios e armamento necessários para continuar a luta. Caso a logística falhasse ele iria propor uma retirada estratégica.
Emocionado, relatou a volta de Camilo, que não trouxe os equipamentos esperados, mas veio com a notícia, colhida na Embaixada do Brasil, de que um grupo de estudantes brasileiros se organizava para ir à ilha participar do Movimento 26 de Julho. E Fidel concluiu: “Foi o apoio espiritual de vocês que faltava. Assim, marquei um ataque, que saiu vitorioso, depois outro, também vencedor, e uma após outras batalhas ganhas até a entrada triunfante em La Habana!”.
Este é o Fidel que guardo na memória e não o ditador sanguinário que os refugiados de Miami abominam…
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