ESTADISTAS

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MIRANDA SÁ (mirandasa@uol.com.br)

“Um verdadeiro estadista ostenta a imagem do seu país“ (André Maurois)

Quando eu era menino, assisti a uma manifestação de protesto contra o governo em frente ao Palácio do Catete quando, surpreendentemente, Getúlio Vargas chegou na sacada e fez um dos célebres discursos que começava com a exaltação: – “Trabalhadores do Brasil! ”, e garantiu que a reivindicação seria atendida em 24 horas. Os protestantes aplaudiram e se dispersaram gritando: -“Getúlio! ”, “Getúlio! ”.

Meu pai, que estava comigo, comentou: – “Vargas é um estadista! ”. O verbete Estadista, dicionarizado, é um substantivo masculino e feminino, formado etimologicamente pela junção da palavra Estado e do sufixo “ista”, significando pessoa que revela domínio na arte de governar, líder que dá exemplo de competência, empenho e conhecimento dos problemas nacionais.

A História veste muitos protagonistas que ocuparam o poder, vestidos pelo figurino do Estadista. Lembro de alguns protótipos.

Certa vez o rei Frederico II da Prússia assistiu de uma janela uma ruidosa manifestação de rua e ouviu do seu ajudante de ordens que alguém havia postado um cartaz com ofensas a ele, e o povo se agitava por que não conseguia ler o cartaz que estava muito alto. Disse ao rei que iria mandar a guarda reprimir o protesto; Frederico o impediu e pondo-se com o corpo de fora da janela, gritou bem alto: – “Abaixa o cartaz para que o povo possa ler! ”. A multidão riu-se e se dispersou…. Um exemplo de estadista…

Nos anos agitados de 1848, por causa da Comuna de Paris, a Rússia enfrentava ações subversivas e o brilhante escritor e pensador Fiódor Dostoievski, acusado de conspirador, foi preso e condenado ao fuzilamento. Levado à Praça Semenov, na antiga São Petersburgo, para ser executado publicamente pelo crime de insurreição contra o Império Russo.

Poucos minutos antes do pelotão de fuzilamento cumprir a sentença, o czar Nicolau I voltou atrás na sua decisão e comutou a pena de morte, mudando-a para prisão na Sibéria…  Declarou que o fazia em respeito à cultura russa. Exemplo de estadista…

Temos também, nas anedotas históricas sobre a postura de estadista, uma passagem com o rei Luís IX, que rejeitando um vinho que estava avinagrado, perguntou a sua origem e ouviu de um auxiliar que examinou a garrafa, que era falsificado. O Rei então lavrou imediatamente um decreto punindo os falsificadores de alimentos e de bebidas, condenando-os à forca. Medida que mostra um exemplo de estadista…

Infelizmente, não está entre esses exemplos modelares o registro histórico que nos deu a rainha Maria Antonieta que ouvindo falar de rebeliões em Paris porque faltava pão à mesa do povo, disse: – “Não tem pão? Então dei-lhes brioches…”.

Há quem negue a veracidade desse fato, mas ele se espalhou pelo mundo e chegou no Brasil, infelizmente adotado pelo presidente Jair Bolsonaro, cujas sugestões em plena pandemia do novo coronavírus são do tipo mariantonietônicas.

O seu ministro do Exterior, extremista ideológico, publicou nas redes sociais uma mensagem xenófoba e discriminatória contra China, injuriando o seu governo como responsável pelo vírus. Recebeu elogios de Bolsonaro, que três meses depois encarregou-o “negociar” uma aproximação com aquele País…

Quando informado de que estava morrendo gente por falta de oxigênio no Amazonas, Bolsonaro ordenou ao ministro-general preposto na Saúde: – “Não tem oxigênio? Distribua “kit covid” e cloroquina…”.

E agora, quando se elevou o clamor desesperado do povo pela ameaça de falta de vacinas contra a covid-19, o Presidente ouviu dos seus aliados no Congresso que é preciso providenciar os imunizantes. O que ele fez?; lhes enviou uma medida provisória facilitando a compra de armas e munições. – “Não tem vacinas? Vamos dar revólveres! ”…. E com isto, assume um mau exemplo de estadista…

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