Abrindo aspas para Fernando Gabeira
CUBA EM TRANSIÇÃO
“A escolha de Raul Castro, de certa forma, validou um pouco minhas análises anteriores. Elas diziam que as reformas políticas ainda iriam demorar e, sobretudo, depender do jogo de forças no campo econômico. O fato de Raul Castro ser escolhido por unanimidade num universo tão amplo de deputados mostra que o monolitismo do regime comunista permanece de pé. Votações por unanimidade são marca registrada das ditaduras que se proclamam socialistas.
Mas o anúncio de reformas econômicas confirma, por outro lado, que mudanças estavam sendo preparadas, e elas caminham na direção contrária ao dogma comunista, pois prevêem uma redução no papel do Estado. Nuances existem nas posições de Raul, quando comparadas com as de Fidel. O novo presidente admite, abertamente, os impasses da economia cubana, classifica de seus aspectos como racionais, e , certamente, vai buscar algumas alterações. Muito em breve, dada a desconfiança que Raul e outros cubanos têm da estabilidade de Hugo Chavez, o Brasil vai se tornar a esperança de mediação entre Cuba e o mundo, uma espécie de interlocutor privilegiado.
Como deveremos nos comportar como país? Defendendo o bloqueio norte-americano? Aceitando passivamente o desrespeito aos direitos humanos, como fazem os chineses? A posição de Lula tem sido a de negociar economicamente sem se preocupar com a repressão política, nem se relacionar com a oposição cubana. Mas, como ainda não temos todos os dados, meu objetivo é convidar o Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, para descrever qual será o papel do Brasil. Tínhamos um embaixador petista na ilha, Tilden Santiago, mas trocamos por um profissional do ramo.
Embora a definição da política em relacão a Cuba dependa menos dos diplomatas e mais dos dirigentes do PT, como Marco Aurélio Garcia, nossa missão é, pelo menos, trazer à luz os seus planos. Se o Brasil vai mesmo desempenhar um papel em Cuba, na transição, porque não tornar esta tarefa uma tarefa nacional, sem querer substituir o Brasil pelos dirigentes do PT?”
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