Socialismo às avessas: igualdade entre desiguais

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Nosso artigo enviado hoje à publicação no Jornal de Natal:

Até que enfim a minha voz que gritava no deserto é ouvida por uma autoridade em Educação. Pode ser um daqueles fenômenos naturais que a minha meia dúzia de três ou quatro leitores conhece: uma onda magnética de pensamento que chega às cabeças pensantes numa determinada época. Tomara que seja assim, para acabar de uma vez por todas com o “socialismo às avessas” estimulado pelos pelegos sindicais dos professores.

Pagar aos medíocres a mesma coisa que têm direito os bons professores, é uma lástima. Desestimula o estudo. Desdenha a responsabilidade. Incentiva as faltas. Professor ruim deve abandonar o ensino e professor colocado à disposição de outros órgãos públicos que não a sala de aula, deve receber de acordo com o cargo que ocupar.

Minha origem é de uma família de professores. Minha mãe foi uma professora primária que fez concurso e ralou muito tempo em localidades distantes da residência. Também por concurso foi nomeada para a antiga Escola de Aprendizes Artífices, em João Pessoa, que depois se chamou Escola Industrial e agora é o respeitado CEFET.

Eu mesmo já me dediquei ao ensino em escolas particulares. A herança que recebi da minha mãe foi a da responsabilidade. O bom professor, além da vocação que traz em conseqüência o amor à profissão, deve ter qualidades múltiplas: tempo disponível e disciplina para estudar; pesquisa de novas experiências metodológicas; um profundo conhecimento da matéria; independência intelectual; e conhecimento sòcio-psicológico da classe.

Cumprindo estes ditames, o professor pode ser considerado um “mestre”, que na milenar sabedoria chinesa é um título honorífico. Mas não é com baixos salários, ridículos até, que os professores podem seguir a saga dos mestres. Precisam ser reconhecidos política e salarialmente e jamais igualados com despreparados e sem formação.

Pensando assim (e vem de longe esta idéia) é que me regosijo com a nova secretária estadual de Educação de São Paulo, Maria Helena Guimarães de Castro. Não tenho qualquer compromisso com o Governo Serra, nem conheço esta senhora; mas uma entrevista dela enfrentando às resistências à diferenciação salarial dos professores me chamou a atenção e recebe o meu aplauso distante, talvez nunca ouvido.

A professora Maria Helena pretende usar testes como Saeb, Prova Brasil e Saresp para identificar os docentes que ensinam mais a suas turmas e oferecer-lhes rendimentos melhores. Os argumentos contrários ao projeto, levantam que até os melhores professores têm dificuldades para levar alunos a superar as deficiências acumuladas e sair-se bem nas provas.

Mas todos sabemos o que é trabalhar burocraticamente e se empenhar em campanha para alcançar um objetivo. Há um filme americano que mostra a dedicação de um professor de escola pública em Nova Iorque para preparar seus alunos para conquistar uma bolsa de estudo universitária. Belíssimo. Não me lembro o nome, fico devendo. E ao bom professor a medalha de ouro do reconhecimento pecuniário do Estado.

MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br

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