Poesia
A Flor do Maracujá
Encontrando-me com um sertanejo
Perto de um pé de maracujá
Eu lhe perguntei:
Diga-me caro sertanejo
Porque razão nasce roxa
A flor do maracujá?
Ah, pois então eu lhi conto
A estória que ouvi contá
A razão pro que nasci roxa
A flor do maracujá
Maracujá já foi branco
Eu posso inté lhe ajurá
Mais branco qui caridadi
Mais branco do que o luá
Quando a flor brotava nele
Lá pros cunfim do sertão
Maracujá parecia
Um ninho de argodão
Mais um dia, há muito tempo
Num meis que inté num mi alembro
Si foi maio, si foi junho
Si foi janero ou dezembro
Nosso sinhô Jesus Cristo
Foi condenado a morrer
Numa cruis crucificado
Longe daqui como o quê
Pregaro cristo a martelo
E ao vê tamanha crueza
A natureza inteirinha
Pois-se a chorá di tristeza
Chorava us campu
As foia, as ribera
Sabiá também chorava
Nos gaio a laranjera
E havia junto da cruis
Um pé de maracujá
Carregadinho de flor
Aos pé de nosso sinhô
I o sangue de Jesus Cristo
Sangui pisado de dô
Nus pé du maracujá
Tingia todas as flor
Eis aqui seu moço
A estoria que eu vi contá
A razão proque nasce roxa
A flor do maracujá.
Catulo da Paixão Cearense
O Poeta
Catulo da Paixão Cearense (1863-1946) Poeta brasileiro nascido em São Luís, Estado do Maranhão, cujas letras exprimiram a ingenuidade e pureza do caboclo, cativando a sensibilidade do povo, pioneiro do Nordeste a ter uma letra sua gravada em disco.
Filho do ourives Amâncio José da Paixão Cearense e de Maria Celestina Braga, aos dez anos mudou-se com os pais, para a fazenda dos avós paternos, no sertão cearense. Assim passou parte da infância no sertão do Ceará e ainda jovem transferiu-se para o Rio de Janeiro (1880), onde se tornou conhecido como seresteiro.
Escreveu letras para modinhas, choros e canções de autores célebres da época, como Anacleto de Medeiros e Ernesto Nazaré. Sua letra mais famosa foi para Luar do sertão, modinha de João Teixeira Guimarães, o João Pernambuco, que se tornaria um clássico da música popular.
Entrou definitivamente para os anais da música brasileira ao trazer o violão das rodas de seresteiros para os conservatórios de música (1908), quando a convite do Maestro Alberto Nepomuceno, fez um recital de violão no templo da música erudita de tradição européia no Brasil e foi aplaudido de pé.
Entre seus livros de poemas, cabe citar Meu Sertão (1918), Sertão em flor (1919), Mata iluminada (1928) e Alma do sertão (1928). Outras canções suas de sucesso foram Ontem ao luar e Tu passaste por este jardim e sua obra musical foi reunida numa coletânea publicada para violão solo (1963).
Morreu empobrecido em Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, mas seu cancioneiro levou Mário de Andrade a classificar o autor como o maior criador de imagens da poesia brasileira.
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