Poesia
Cadela Rosada
[Rio de Janeiro] Sol forte, céu azul. O Rio sua.
Praia apinhada de barracas.
Nua, passo apressado, você cruza a rua.
Nunca vi um cão tão nu, tão sem nada,
sem pêlo, pele tão avermelhada…
Quem a vê até troca de calçada.
Têm medo da raiva. Mas isso não
é hidrofobia — é sarna. O olhar é são
e esperto. E os seus filhotes, onde estão?
(Tetas cheias de leite.) Em que favela
você os escondeu, em que ruela,
pra viver sua vida de cadela?
Você não sabia? Deu no jornal:
pra resolver o problema social,
estão jogando os mendigos num canal.
E não são só pedintes os lançados
no rio da Guarda: idiotas, aleijados,
vagabundos, alcoólatras, drogados.
Se fazem isso com gente, os estúpidos,
com pernetas ou bípedes, sem escrúpulos,
o que não fariam com um quadrúpede?
A piada mais contada hoje em dia
é que os mendigos, em vez de comida,
andam comprando bóias salva-vidas.
Você, no estado em que está, com esses peitos,
jogada no rio, afundava feito
parafuso. Falando sério, o jeito
mesmo é vestir alguma fantasia.
Não dá pra você ficar por aí à
toa com essa cara. Você devia
pôr uma máscara qualquer. Que tal?
Até a quarta-feira, é Carnaval!
Dance um samba! Abaixo o baixo-astral!
Dizem que o Carnaval está acabando,
culpa do rádio, dos americanos…
Dizem a mesma bobagem todo ano.
O Carnaval está cada vez melhor!
Agora, um cão pelado é mesmo um horror…
Vamos, se fantasie! A-lá-lá-ô…!
Elizabeth Bishop (Tradução de Paulo Henriques Britto)
A Poetisa
Elizabeth Bishop (Poetisa Norte-Americana, 1911-1979) “Cadela Rosada” (Pink Dog) é um dos últimos poemas de Elizabeth Bishop, uma americana com fortes ligações com o Brasil. Viveu no Rio de Janeiro e em Ouro Preto, e traduziu para o inglês poemas de Carlos Drummond, João Cabral e Vinícius de Moraes.
Bishop é, também, um dos nomes mais importantes da moderna poesia americana. Embora concluído em 1979, “Cadela Rosada” começou a ser escrito muitos anos antes. Refere-se a um episódio famoso, de 1962, quando se denunciou que mendigos cariocas estavam sendo assassinados pelo Esquadrão da Morte, que lançava os cadáveres no rio da Guarda.
Elizabeth Bishop identifica a cadela rosada com um mendigo. E pergunta: se estão fazendo isso com seres humanos, o que não farão com uma pobre cadela sarnenta? Mas é interessante também fazer outra leitura: em inglês, bitch (cadela) é, também, prostituta.
Então, muitos analistas vêem nesse animal uma metáfora da condição feminina.Para esses analistas, é a mulher pobre, sozinha, com filhos, sem um lar constituído. Portanto, um ser fora dos padrões, acometido de sarna moral, aos olhos da distinta sociedade. (…)
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