POESIA
A mula de padre
Um dia no engenho,
Já tarde da noite
Que estava tão preta
Como carvão…
A gente falava de assombração:
— O avô de Zé Pinga-Fogo
Amanheceu morto na mata
Com o peito varado
Pela canela do Pé-de-Espeto!
— O cachorro de Brabo Manso
Levou, sexta-feira passada,
Uma surra das caiporas!
— A Mula de Padre quis beber o sangue
Da mulher de Chico Lolão…
Na noite preta como carvão
A gente falava de assombração!
Lá em baixo a almanjarra,
A rara almanjarra,
Gemia e rangia
Oue o Engenho
Alegria
É bom moedor…
Eh! Andorinha!
Eh! Moça-Branca!
Eh! Beija-Flor. . .
Pela bagaceira
Os bois ruminavam
E as éguas pastavam
Esperando a vez
De entrar no rojão…
Foi quando se deu
A coisa esquisita:
Mordendo, rinchando,
As pôpas e aos pulos
Se pondo de pé
Com artes do cão,
Surgiu uma besta sem ser dali não…
— Atallia a bicha, Baraúna!
— Sustenta o laço,
Maracanã!
E a besta agarrada
Entrou na almanjarra,
Tocou-se-lhe a peia
Até de manhã …
E depois que ela foi solta
Entupiu no oco do mundo!
Num abrir e fechar d’olhos
A maldita se encantou…
De tardinha.
Gente vinda
Da cidade
Trouxe a nova
De que a ama
De seu padre
Serrador
Amanhecera tão surrada
Que causa compaixão
Na noite tão preta como carvão
A gente falava de assombração!
Ascenso Ferreira ( 1895 — 1965)
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