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Vinícius de Moraes

POÉTICA (l)

De manhã escureço

De dia tardo

De tarde anoiteço

De noite ardo.

A oeste a morte

Contra quem vivo

Do sul cativo

O este é meu norte.

Outros que contem

Passo por passo:

Eu morro ontem

Nasço amanhã

Ando onde há espaço:
—Meu tempo é quando.

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Augusto dos Anjos

SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO

Para desvirginar o labirinto

Do velho e metafísico Mistério,

Comi meus olhos crus no cemitério,

Numa antropofagia de faminto!

A digestão desse manjar funéreo

Tornado sangue transformou-me o instinto

De humanas impressões visuais que eu sinto,

Nas divinas visões do íncola etéreo!

Vestido de hidrogênio incandescente,

Vaguei um século, improficuamente,

Pelas monotonias siderais…

Subi talvez às máximas alturas,

Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras,

É necessário que inda eu suba mais!

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JORGE LUIS BORGES

SONETO DO VINHO

Em que reino, em que século, sob que silenciosa
Conjunção astrológica, em que secreto dia
Que não salvou o mármore, surgiu a valorosa
E singular idéia de inventar a alegria?

Foi com outonos de ouro que a inventaram. O vinho
Vai fluindo vermelho, banhando as gerações
Como o rio do tempo, e em seu árduo caminho
Dá-nos a sua música, o seu fogo e os seus leões.

Quer na noite do júbilo, quer na jornada adversa,
Ele exalta a alegria ou suaviza o espanto
E o ditirambo novo que este dia lhe canto

Igualmente o cantaram outrora o árabe e o persa.
Ó vinho, ensina-me a arte de ver a própria história
Como se esta já fosse em cinzas na memória.

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E DAÍ?

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer: – E daí? Eu adoro voar”
(Clarice Lispector)

A estúpida confusão entre os direitos e os deveres praticada nos círculos do poder é culpa dos executivos, parlamentares e magistrados; e fica refletida nas aglomerações em portas de hospitais, nas dolorosas filas aguardando a liberação de um leito nas UTIs e na macabra acumulação de cadáveres nos necrotérios.

A insensibilidade e insensatez do presidente Jair Bolsonaro ao ser preguntado por um repórter que cobre o Planalto sobre as mortes do coronavírus que ele comparou com uma “gripezinha”, resmungou: – “E Daí? ”

Esta locução que mostra falta de bom senso dos que rejeitam, por ignorância, maldade, ou uso político da insegurança, o enfrentamento da pandemia que se alastra com um assustador balanço de infectados e de óbitos.

Ao ouvir isto de um Presidente da República dá vontade de mergulhar no radicalismo, considerando a uniformidade cerebral dos políticos brasileiros – com raras e honrosas exceções -, colocando o carreirismo e a obtenção de vantagens acima do interesse nacional.

Este “E Daí? ” do Presidente seria abominável e até nefando, se não tivéssemos o belíssimo samba de Miguel Gustavo (“E daí? –  Proibição Inútil e Ilegal), poesia musical magistralmente interpretada por ídolos da música popular brasileira como Aracy de Almeida, Elizeth Cardoso, Isaura Garcia e Walter Wanderley, Maysa e Miúcha…

O verbete “Daí” dicionarizado, é uma contração da preposição ‘De’ com o advérbio ‘Aí’, indicando início, pergunta por lugar ou tempo, e para determinar o descarte de uma situação próxima de quem fala.

Lembro de uma anedota antiga contando que um parente próximo do dono de uma agência funerária e fabricante de féretros, se encontrando com ele, perguntou-lhe: – “Como vão os negócios? ”. Com um ar de desolação o papa defunto respondeu: – “Nem me fale! Com a invenção da maldita penicilina…”

Tem gente que pensa assim… O exemplo está na multiplicação de novos interlocutores no Twitter que vem demonstrando duas coisas: Uma, a maioria repete os mesmos argumentos, levando-me ao que observou um psicanalista (não me lembro se Freud, Jung ou Reich) dizendo que quando um grupo se repete falando as mesmas coisas, só uma cabeça está pensando…

E dois: a segunda observação com as arrobas recém-chegadas, é o preconceito e a agressividade. Entre elas há os que não aceitam a divulgação de notícias porque discordam do seu conteúdo; e outros que são excessivamente odiosos, provocando, hostilizando e ofendendo quem critica os seus políticos de estimação.

Lembro dos começos do Twitter, que se iniciou com a exigência dos 140 toques disciplinando as mensagens. É daquele tempo que guardo orgulhosamente muitos seguidores e os sigo. Havia polêmicas entre nós, algumas até acirradas, mas nelas o respeito pela opinião alheia.

É claro que são tempos que não voltam mais. Como o de George Sand, que no século 19 escandalizou a sociedade francesa vestindo calças compridas; e das primeiras mulheres que usaram maiô de duas peças na década de 1930… E mais tarde, com o atômico biquíni…

As cabeças pensantes do mundo estão matutando para projetar o que ocorrerá no pós-pandemia do coronavírus. Otimista, acho que vai vigorar mais humanismo, prevalecendo na escala do pensamento a dúvida e a oposição aos egocêntricos que detêm o poder pelo mundo afora.

Aprende-se muito na travessia da crise, isto constrói silenciosamente um acurado espírito público, o civilismo e a ética. Não se admite mais governos autoritários de pessoas que desrespeitam a Democracia.

Tenho também a certeza de que no futuro não se aceitará mais os favoritismos, privilégios e o uso do poder para fins pessoais, grupistas e familiares…

O OVO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A mente, a liberdade, a luz e a vida/ Neste horror sufocados” (Bocage)

Uma anedota portuguesa referindo-se ao Ovo que ouvi na adolescência, ficou guardada na minha cabeça até hoje. Prende-se à incrível memória de Bocage, Manuel Maria Barbosa du Bocage, um dos poetas mais respeitados da língua portuguesa.

Conta-se que Bocage um dia encontrou-se com um amigo que lhe perguntou qual era o melhor alimento do mundo. Repentista, ele foi ágil em responder:  – “Um ovo”. Passou-se mais de um ano e eis que novamente Bocage e o mesmo amigo se deparam; aquele, antes mesmo de saudar o Poeta, indagou: -“Com quê? ”. Sem titubear, Bocage revidou: – “Com sal”…

O ovo é um alimento saudável pela facilidade em prepara-lo; representa um dos meus desjejuns prediletos, sejam fritos, cozidos e a la coque. Com um pão na chapa, é supimpa!

Entretanto, o ovo como alimento, tem sofrido avaliações diversas de nutricionistas e médicos, às vezes quase antagônicas. Esses diagnósticos levaram tempos atrás a uma quase proibição da gema pela alta concentração de colesterol; depois, anunciaram que não era nada disto, que era o colesterol “bom”, e liberaram garantindo que o ovo oferece equilíbrio em proteínas, gorduras boas e vitaminas concentradas.

O verbete dicionarizado “Ovo” é um substantivo masculino com significados na Biologia e na Zoologia, como célula resultante da fecundação e o embrião posto por muitos animais. Figuradamente é a primeira parte de alguma coisa, o princípio.

A Mitologia grega conta que Helena de Tróia nasceu de um ovo, após a relação de Zeus com a mortal Leda, que se metamorfoseava em gansa. Helena foi considerada a mulher mais linda da Grécia e teve protagonismo na Guerra de Tróia contada na Ilíada de Homero.

Um roteiro baseado na Ilíada, deu-nos um maravilhoso filme ítalo-norte-americano, “Helena de Tróia”, dirigido por Robert Wise e protagonizado pela linda Rossana Podestà.

O Ovo é usado metaforicamente como esperteza, exemplificando-se com a narrativa do “Ovo de Colombo”, algo que não se sabe fazer e depois se acha fácil ao vê-la realizada por outrem. E tem também a previsão maléfica do “Ovo da Serpente”, uma bela metáfora que Shakespeare pôs na boca de Brutus na sua tragédia “Júlio César”.

Aderindo à conspiração contra Júlio César Brutus compara-o a “um ovo de serpente, que eclodindo como sua espécie, cresceria maldosamente, razão pela qual deve ser morto na casca”.

Esta expressão tornou-se popular no mundo inteiro tempos depois, por ter sido o título de um clássico do cinema, “O Ovo da Serpente”, produzido por Dino De Laurentis e dirigido por Ingmar Bergman. O roteiro inspirou-se em Shakespeare, adaptado à realidade berlinense às vésperas da ascensão do nazismo.

As distorções sócio-políticas mostradas no filme saíram do mesmo maquinismo que levou ao mundo, em pleno século 20, os mais lamentáveis períodos de domínio de políticos messiânicos, como ocorreu com o nazismo e o comunismo.

O ninho dos ovos da serpente favorece chocar com eles a instabilidade sócio-política-moral, que gera e traz com ela todas as inseguranças sócio-políticas e a consequente depressão econômica.

No Brasil já enfrentamos as serpentes vermelhas do lulopetismo que se alimentavam do dinheiro público, assaltando vorazmente a Petrobras. Usamos o antídoto da Democracia e as afastamos quando tentavam retornar depois do impeachment do Poste de Lula, patroa do “Belias”…

Mas não tomamos uma vacina – porque, como no caso do covid-19, ainda não há vacina contra a falsidade ideológica -, então precisamos nos conscientizar e matar na casca os ovos da serpente marrom que ameaçam uma volta ao passado com a velha política do Centrão e dos picaretas do Congresso.

Pena que ainda há um grupo – pequeno, mas atuante -, que persiste em aceitar e até justificar isto. Um amigo diz que são robôs, no Twitter se referem a eles como gado, mas eu prefiro vê-los como cultuadores equivocados de personalidades.

A alucinação psicopática desta minoria leva-nos a evocar nosso epigrafado, Bocage, e um pensamento magnífico que nos legou: “Nas paixões, a razão nos desampara”.

 

 

 

 

TRAIÇÃO.COM

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O traidor perde a confiança de quem e por quem trai”
(Ditado Árabe)

A traição à Natureza sofre punições. A desertificação, o extermínio de animais e plantas, os terremotos, os tsunamis e a peste que estamos sofrendo, tudo vem como punição.

O verbete Traição é um substantivo feminino definido como “ação de trair”. Vem do latim “traditio.onis” e também “tradere”, que tinha o significado militar de “entregar nas mãos de alguém”.

A palavra no grego, “paradídomi”, “entregar”, segundo Estudos Bíblicos, é usada por muitas vezes no Novo Testamento; cerca de cento e vinte vezes, desde Mat. 4:2 até Judas 3. Em termos jurídicos trata-se de crime que se configura pela ameaça à segurança da Pátria ou das suas instituições.

No nosso dia a dia, estamos vivendo a situação criada com a saída de Sérgio Moro do governo, e as graves denúncias dele sobre a intenção de Bolsonaro de intervir na Polícia Federal. Então assistimos os descerebrados pelo vírus do fanatismo, chamarem Moro de “comunista”; e outros, não menos cretinos, o classificarem de “petista”….

Ainda falta, até agora, que os cultuadores da personalidade de Bolsonaro, acusem Moro de traição, apesar de “traidor” ser uma marca registrada deles, para todos os que discordam do divinizado político e da familiocracia instalada no Palácio do Planalto.

A traição, na verdade, se limita majoritariamente ao exercício da política. Num dos seus memoráveis contos, o nosso Machado de Assis traz um personagem que tinha camisas bicolores em verde e vermelho de frente e avesso, cores dos partidos rivais do Município. Na medida em que apoiava quem estava no poder vestia a camisa da cor dominante…. É o que faz agora o Centrão, travestido de governista.

Há traições menos ingênuas, mas igualmente malignas…  Conta-se, por exemplo, o caso em que o editor de um jornal de país latino-americano traiu e sacrificou um repórter fotográfico por causa de um flagrante colhido por ele.

O fotógrafo captou uma expressão contraída pelo sol do ditador nacional no enterro de um chefe militar. Como o jornal era controlado por oposicionistas, o editor mudou a legenda para dar a entender que o presidente estivesse escarnecendo do defunto.

Por causa da celeuma causada e a revolta nos círculos militares, ocorreu um golpe de Estado e o ditador caiu. A ditadura civil cedeu lugar a uma ditadura militar; e o pobre profissional de imprensa morreu com atestado de óbito registrando suicídio…

Essa história reforça o preceito do grande Gabriel Garcia Marques para servir de lição aos donos de meios de comunicação que traem a vocação de muitos jornalistas levando-os a fazer propaganda política em vez de bem informar:  Escreveu Garcia:  – “A ética deve acompanhar sempre o jornalismo, como o zumbido acompanha o besouro”.

Aqui não tem besouro, somente moscas…. Na cena surrealista que desenha a nossa realidade política, assistimos certa mídia visivelmente oposicionista aproveitar-se das graves denúncias do ex-ministro Sérgio Moro ajudando a ressuscitar os zumbis lulopetistas do cemitério maldito da corrupção, pedindo o impeachment de Bolsonaro.

Ocorre que Moro, ícone da luta contra a corrupção e o crime organizado, não tem culpa nisto. Credite-se sim, ao maquinismo criador de crises instalado e acionado no Planalto pelos insanos extremistas de direita, idênticos aos extremistas de esquerda.

Isto constatado, chegamos ao alerta feito pelo general Villas Boas: “Substituir uma ideologia pela outra não contribui para a elaboração de uma base de pensamento que promova soluções concretas para os problemas brasileiros”.

E, falando de traição, vale uma pergunta para quem tem cabeça para pensar: – “Qual o motivo teve Bolsonaro para tirar o chefe da Polícia Federal e pôr no seu lugar um amigo dos seus filhos implicados em investigações criminais?

 

 

 

 

COMPENSAÇÕES

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Não é tarefa fácil dirigir os homens; empurrá-los, em compensação, é muito fácil. ”  
(Rabindranath Tagore)

Os estudiosos da História, a ciência da experiência humana, deslumbram-se em saber que enquanto os europeus estavam mergulhados na escuridão obscurantista da Idade Média, o Islã tornou-se o polo de todas as ciências, principalmente a Astronomia, a Matemática, a Medicina e a Química. Isto, sem acrescentar o domínio das artes, a arquitetura, o desenho e o urbanismo.

… mas em compensação, em livros amarelecidos, encontramos a revoltante ação do califa Omar mandando queimar a Biblioteca de Alexandria, com seus setecentos mil volumes que acumulavam o conhecimento da evolução civilizatória. Usou como argumento de que ou eram contra o Alcorão ou repetiam o que estava no livro do profeta.

Toma-se conhecimento, também, que o czar Pedro – O Grande – um excelente governante reformista modernizou a Rússia, cidades, estradas e serviços públicos, saneando a economia e criando a construção naval. Adotou o novo calendário e realizou, pela primeira vez, um censo multinacional no País, tornando-o poderoso cultural e militarmente.

… mas em compensação, vivia quase sempre embriagado, o que aguçava o seu autoritarismo; e era desprovido de qualquer humanismo. Conta-se que visitando o rei Frederico II da Dinamarca, para mostrar a submissão do seu povo, chamou um cossaco da comitiva e ordenou que se atirasse da alta Torre Redonda de Copenhague. O cossaco saudou-o e se lançou no vácuo.

A passagem de Napoleão Bonaparte capitulada pela História, mostra o filho dileto da Revolução Francesa ocupar quase toda a Europa, levando aos países os princípios democráticos e republicanos igualdade, liberdade, propriedade e tolerância religiosa. A mais valiosa de suas heranças foi o “Código Civil dos Franceses”, outorgado por ele em março de 1804. Este importante documento jurídico passou a ser conhecido, por justiça, de Código Napoleão.

… mas em compensação, Napoleão traiu a República Francesa, convocando, com cartas marcadas, um plebiscito que o reconheceu como imperador; e o Império Francês criado militarmente por ele estabeleceu nos países submissos governantes marcados pelo nepotismo e privilégios.

Lá pelo Grande Oriente, tivemos na China o generalíssimo Chiang Kai-shek, discípulo e seguidor do republicano Sun Yat-sem fundador do partido Kuomintang. Mais tarde substituiu Sun como líder nacionalista, e ocupou a Presidência da República Chinesa, contra os “Senhores da Guerra” e defendendo a cultura tradicional no chamado “movimento nova vida”. Foi marcante a sua atuação na 2ª Guerra lutando contra os japoneses que haviam invadido a China.

… mas em compensação, como político e militar, estendeu os seus anos de poder sem renovação de quadros administrativos; tornou-se ditador e impôs um regime totalitário com violenta repressão, realizando prisões e torturas arbitrárias dos seus opositores.

Ainda não se passaram dois anos da grande mobilização popular no Brasil contra a corrupção instituída nos governos de Lula e do seu poste Dilma Rousseff. Com isto, assistimos uma reviravolta política com a formação de uma ampla frente política de centro-direita que elegeu Jair Messias Bolsonaro para a presidência da República na esperança de termos um governo democrático, honesto, justo e progressista.

… mas em compensação, o eleito agregou à Presidência três complicados filhos com visível atuação nepotista. Iniciou acordos com o Centrão e distribui cargos com os picaretas do Congresso. Muito pior do que isso, atendeu aos extremistas de direita tramando contra a Lava-jato e a derrubada do ministro Sérgio Moro, o que levou o ícone da luta contra a corrupção a se demitir.

José Saramago

Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

A CAVERNA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

 “Se o arrancarmos da caverna e o arrastarmos pela senda áspera e fragosa até à claridade do Sol, que suplício o seu por ser assim arrastado! ” (Platão)

O verbete Caverna, dicionarizado, é um substantivo feminino de origem latina cavus,i, “vazio, com material retirado” que deu em caverna,ae, cova. É uma cavidade no interior do solo rochoso; antro, furna, gruta, toca. Figuradamente, a parte mais interna ou íntima, recôndita, pouco acessível; lugar obscuro e fechado.

Em Medicina, cavidade dos pulmões devido à tuberculose e, na terminologia naval, peças curvas que partem da quilha para dar forma ao casco da embarcação.

Herdamos o mito da caverna na metáfora criada pelo filósofo grego Platão para explicar a condição de ignorância dos seres humanos e sua necessidade de sair para a luz do “mundo real”.

Sair da caverna para Platão não é coisa fácil. Trata-se de mudar a visão das coisas e das convicções arraigadas; implica em sofrer a dor da perda, compensada pelo impulso de se libertar…

As cavernas foram a habitação mais comum no período de evolução do neandertal para o homo sapiens, e chegaram à civilização trazendo um misterioso fascínio dos seres humanos vendo-as em várias religiões como cenário do nascimento de deuses.

Registra-se assim, antes, muito antes de Platão, que as grandes religiões antigas santificaram as cavernas adorando nelas seus deuses Atis, Baal, Isis e Osiris; em Creta havia um túmulo de Zeus “nascido numa gruta, fornecedor da comida da comunhão, do pão e do vinho, deus da morte e da ressurreição”.

Na conquista europeia das Américas encontrou-se os astecas, maias e incas, do outro lado do Atlântico, cultuando também as cavernas como santuários dos deuses.

Tivemos filmada “A caverna do Dragão”, uma série de animação do século passado produzida em 27 episódios. Como o final foi meio conturbado, o desenhista

Reinaldo Rocha produziu o 28º episódio em quadrinhos, intitulada “Réquiem”.

Foi uma proposta de mudança para concluir o enredo, coisa interessante porque, como disse alguém, “triste não é mudar de ideia, mas sim não ter ideias para mudar”.

Se ninguém não sai da caverna jamais verá a luz…. Ver a luz à primeira vista, porém, ofusca, mas fascina ao encontrar a verdade e deixar na escuridão as sombras da ignorância.

É difícil, porém, libertar certas pessoas, escravas das paixões. Estas, como disse Sócrates, não reconhecem que foi pelas trevas que teve os olhos magnetizados e desejam voltar para a caverna…. Isto exige uma reflexão sobre como quebrar as algemas dessas vítimas da obscuridade, ainda prisioneiros do complexo da caverna.

A “caverna” também entra no dia-a-dia da politicagem no Brasil: Há quem lembre a gruta dos 40 ladrões e, por ignorância, comparam o super meliante Lula da Silva com Ali-Babá, porque não leram o conto das “Mil e uma Noites”. Na verdade, Ali-Babá é o povo brasileiro, o Pelegão é o chefe da quadrilha…

A história conta que: “Um trabalhador amedrontado, assistiu escondido uma reunião de 40 ladrões, ouviu o chefe deles usar as palavras mágicas “Abre-te Sésamo”, e uma cova se abriu. Quando o bando saiu, Ali foi até lá e no seu interior vê um tesouro; recolhe uma parte razoável e vai para casa.

“Com o que trouxe, provocou a inveja do irmão e ensinou-lhe como fazer. Indo à caverna, o irmão com mesquinhez, quis pegar tudo o que viu terminando sendo surpreendido, preso e torturado. Dedurou o irmão e, embora tenha delatado, foi morto pelos bandidos.

“A quadrilha saiu em busca de Ali escondidos em barris para se vingar; ele, porém preparou uma armadilha e abortou o ataque jogando óleo fervente nos barris onde estavam os ladrões, matando-os cozidos…”

Lembrando o conto, ouço uma voz cavernosa ecoando: – “Antigamente o óleo fervente era uma espécie de Lava-Jato…”.

 

 

Federico García Lorca

GAZEL DO AMOR DESESPERADO

 

A noite não quer vir
para que tu não venhas,
nem eu possa ir.

Mas eu irei,
inda que um sol de lacraus me coma a fronte.

Mas tu virás
com a língua queimada pela chuva de sal.

O dia não quer vir
para que tu não venhas,
nem eu possa ir.

Mas eu irei
entregando aos sapos meu mordido cravo.

Mas tu virás
pelas turvas cloacas da escuridade.

Nem a noite nem o dia querem vir
para que por ti morra
e tu morras por mim.

Federico García Lorca, in ‘Divã do Tamarit’
Tradução de Oscar Mendes


Federico García Lorca
( 05/06/1898 —  19/08/1936)

 

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