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DE MURMÚRIOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Só ouvi a palavra “Murmúrios” em letras de boleros e tangos. É visceral; o seu intimismo é raro. Dicionarizada, a palavra Murmúrio é um substantivo masculino que indica a ação ou efeito de falar baixinho, sussurrar; tem o sentido de queixa e lamentação. No seu lado negativo é um comentário malicioso que se faz cheio de insinuações.

Tenho um exemplo para a maledicência: um primo mineiro metido na política das Minas Gerais pretendeu candidatar-se a deputado. Escreveu aos parentes pedindo ajuda para o projeto; ao pai, meu tio João, pediu um jipe, que é econômico, seguro e indispensável para deslocamentos interioranos.

Do Pai recebeu uma carta – naqueles tempos de telefonemas difíceis, sem celular e sem Internet– que considero antológica; num conselho de inesperada frieza perguntou se o filho estava preparado para ser chamado de “viado”, “corno” e “ladrão” na campanha eleitoral;  e assim descreveu a realidade murmurante do nosso mundo político cheio de falsas acusações, calúnias e difamações que, depois de publicadas, são como uma flecha; depois de disparada não tem volta.

Fuxicos, cartas anônimas e pichações contra alguém, lembram o que encenou Shakespeare com Hamlet e Ofélia, a advertência sobre a inevitabilidade da calúnia. O “Murmúrio” não caminha pela “Terra Plana”, não fala a linguagem neutra, nem pode ser considerado fake news. Levá-lo ao anedotário fica de bom tamanho; e um deles corre ao pé do ouvido entre os camitas e os semitas sacaneando uns aos outros.

Um amigo recém chegado de Nova Iorque contou-me uma anedota ocorrida no Inverno nevoento nova-iorquino, com temperatura abaixo de zero quando dois judeus saíram de um café aquecido e deixaram a porta aberta. Lá de dentro gritaram: – “Fechem a porta, mal educados!”; dai, Davi virou pra Jacó: – “Ouviste como estão atrevidos estes racistas  antissemitas?”.

A anedota foi contada na casa de um amigo que namora uma judia; ouvindo a piada, retrucou com o caso de um palestino que morria de medo em viajar de avião e ouviu de um colega, fundamentalista: – “Alá (bendito seja o nome do profeta!), se quiser te levar, sabe onde encontra-lo…. E o medroso argumentou:  – “Certíssimo, meu caro. E se Alá (glória ao nome de Alá!) quiser levar o piloto do avião?”

Estes murmúrios levados para fora do Oriente Médio são mais políticos do que xenófobos; nós conhecemos facécias de outros povos. Ouvi uma, referindo-se que os escoceses são o povo mais pão-duro do mundo; e relata que um deles estava se penteando e exclamou: – “Que desgraça!”, e falou à esposa: – “Quebrei um dente do pente e vou precisar comprar outro…” Aí a mulher, dos tradicionais MacListers, acudiu: – “Não podes deixar para depois?” …. E ouviu do marido; – “Não, não dá, minha querida, era o último dente!”.

Da Europa para o Extremo Oriente tem a chistosa cena ocorrida do japonês pedindo a um amigo brasileiro indicar nome para seu filho que estava para nascer, e o amigo se prontificou, dizendo: – “Sugiro que seja Sérgio”. E o futuro pai, agradecido: – “Ótimo! Gostei muito de ‘Sugiro’!” ….

No Hemisfério Sul, do lado Oeste do Atlântico, na Pindorama, ouvem-se murmúrios ecoando desde o Planalto Central; não chegam a tsunamis, mantêm-se como marolas espumantes de verdades que parecem mentiras e mentiras que se assemelham a verdades sobre a descondenação de Lula e a sua eleição, promovidas pelo STF.

De lá, as varreduras para livrar condenados, réus confessos pela Lava Jato estão enriquecendo parentes de ministros que usam e abusam de sentenças monocráticas em julgamentos cheios de suspeição.

Às direitas, a trama golpista dos militares amantes da ditadura e revanchistas insatisfeitos pela derrota eleitoral, provam a reprovação dos mesmos nos quesitos Estratégia e Tática; traçaram a condução de um golpe de Estado com uma ignorância flagrante, imperdoável, tanto como atentado ao Estado de Direito como pela antológica burrice dos Bolsonaro.

Surfando na “soberania lulopetista” multiplicam-se os murmúrios sobre a clamorosa mentira de Lula desvendada em plena assembleia geral da ONU: depois de repetir sete vezes que Trump não queria um diálogo, foi convidado por ele para uma reunião na Casa Branca, e se arregou covardemente….

No deserto de patriotismo que empoeira o Legislativo tivemos agora, com a reprovação de 76% dos brasileiros e brasileiras a PEC. da Blindagem, um louvor ao crime organizado com diploma de corporativismo da picaretagem delinquente.

Enfim, insinuam que o presidente da Câmara Federal, Hugo Motta, ouve como uma homenagem o bolero de Rafael Cardenas / Rubén Fuente, que Gregório Barrios cantou – “Que murmurem, / No mi importa que murmurem/ No mi importa que lo digam/ Ni que lo pensem la gente….”

Marina Colasanti

Outras palavras

Para dizer certas coisas
são precisas
palavras outras
novas palavras
nunca ditas antes
ou nunca
antes
postas lado a lado.
São precisas
palavras que inventaram
seu percurso
e cantam sobre a língua.
Para dizer certas coisas
são precisas palavras
que amanhecem.

– Marina Colasanti, em “Fino sangue”. Rio de Janeiro: Editora Record, 2005.

Pagu

Canal

Nada mais sou que um canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
Apenas um canal?

Evidentemente um canal tem as suas nervuras
As suas nebulosidades
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
Mas por favor
Não pensem que estou pretendendo falar
Em bandeiras
Isso não

Gosto de bandeiras alastradas ao vento
Bandeiras de navio
As ruas são as mesmas.
O asfalto com os mesmos buracos,
Os inferninhos acesos,
O que está acontecendo?
É verdade que está ventando noroeste,
Há garotos nos bares
Há, não sei mais o que há.
Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.
Lembranças dos meus amigos que morreram
Lembranças de todas as coisas ocorridas
Há coisas no ar…
Digamos que seja a lua nova
Iluminando o canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal.

 

O poema Canal foi publicado n`A tribuna de Santos, SP, em 27 de 11 de 1960.

Patativa do Assaré

O agregado e o operário

Sou matuto do Nordeste
criado dentro da mata
caboclo cabra da peste
poeta cabeça chata
por ser poeta roceiro
eu sempre fui companheiro
da dor, da mágoa e do pranto
por isto, por minha vez
vou falar para vocês
o que é que eu sou e o que canto.

Sou poeta agricultor
do interior do Ceará
a desdita, o pranto e a dor
canto aqui e canto acolá
sou amigo do operário
que ganha um pobre salário
e do mendigo indigente
e canto com emoção
o meu querido sertão
e a vida de sua gente.

Procurando resolver
um espinhoso problema
eu procure defender
no meu modesto poema
que a santa verdade encerra
os camponeses sem terra
que o céu deste Brasil cobre
e as famílias da cidade
que sofrem necessidade
morando no bairro pobre.

Vão no mesmo itinerário
sofrendo a mesma opressão
nas cidades, o operário
e o camponês no sertão
embora um do outro ausente
o que um sente o outro sente
se queimam na mesma brasa
e vivem na mesma Guerra
os agregados sem terra
e os operários sem casa.

Operário da cidade
se você sofre bastante
a mesma necessidade
sofre o seu irmão distante
levando vida grosseira
sem direito de carteira
seu fracasso continua
é grande martírio aquele
a sua sorte é a dele
e a sorte dele é a sua.

Disto eu já vivo ciente
se na cidade o operário
trabalha constantemente
por um pequeno salário
lá nos campos o agregado
se encontra subordinado
sob o jugo do patrão
padecendo vida amarga
tal qual burro de carga
debaixo da sujeição.

Camponeses meus irmãos
e operários da cidade
é preciso dar as mãos
cheios de fraternidade
em favor de cada um
formar um corpo comum
praciano e camponês
pois só com esta aliança
a estrela da bonança
brilhará para vocês.

Uns com os outros se entendendo
esclarecendo as razões
e todos juntos fazendo
suas reivindicações
por uma democracia
de direito e garantia
lutando de mais a mais
são estes os belos planos
pois nos direitos humanos
nós todos somos iguais.

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Carolina Maria de Jesus

Dá-me as rosas
No campo em que eu repousar
Solitária e tenebrosa
Eu vos peço para adornar
O meu jazigo com as rosas

As flores são formosas
Aos olhos de um poeta
Dentre todas são as rosas
A minha flor predileta

Se a afeiçoares aos versos inocentes
Que deixo escritos aqui
E quiseres ofertar-me um presente
Dá-me as rosas que pedi.

Agradeço-lhe com fervor
Desde já o meu obrigado
Se me levares esta flor
No dia dos finados.
– Carolina Maria de Jesus, em “Antologia pessoal”. (Organização José Carlos Sebe Bom Meihy). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996, p.169

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Manoel de Barros

Deus disse

Deus disse: Vou ajeitar a você um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras.

Machado de Assis

O VERME

Existe uma flor que encerra

Celeste orvalho e perfume.

Plantou-a em fecunda terra

Mão benéfica de um nume.

Um verme asqueroso e feio,

Gerado em lodo mortal,

Busca esta flor virginal

E vai dormir-lhe no seio.

Morde, sangra, rasga e mina,

Suga-lhe a vida e o alento;

A flor o cálix inclina;

As folhas, leva-as o vento.

Depois, nem resta o perfume

Nos ares da solidão…

Esta flor é o coração,

Aquele verme o ciúme.

(Falenas – 1870)

Veja mais sobre “Poemas de Machado de Assis” em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/poemas-machado-assis.htm

Ariano Suassuna

O mundo do sertão

Diante de mim, as malhas amarelas
do mundo, Onça castanha e destemida.
No campo rubro, a Asma azul da vida
à cruz do Azul, o Mal se desmantela.

Mas a Prata sem sol destas moedas
perturba a Cruz e as Rosas mal perdidas;
e a Marca negra esquerda inesquecida
corta a Prata das folhas e fivelas.

E enquanto o Fogo clama a Pedra rija,
que até o fim, serei desnorteado,
que até no Pardo o cego desespera,

o Cavalo castanho, na cornija,
tenha alçar-se, nas asas, ao Sagrado,
ladrando entre as Esfinges e a Pantera.

DOS SISTEMAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Surpreendeu-me encontrar entre as mensagens que recebo, oito delas pedindo uma resposta pelas minhas inúmeras citações sobre “Sistema Corrupto” nos artigos que venho publicando.

“Sistema”, sem adjetivação, é definido nos dicionários como um conjunto de elementos inter-relacionados e interdependentes agindo na mesma direção para conquistar um objetivo comum. Explicá-lo sofreu uma busca antiga, vem dos Vedas orientais até chegar a Kant ou Hegel, vindos nos ombros dos gigantes Platão e Aristóteles que filosofaram sobre o “todo” que se sobrepõe às partes comprometidas.

Traduzindo esta procura pela explicação dos sistemas, encontramos uma organização, “um todo”, em que a ação é superior à soma dos elementos particulares. No século18 o pensamento iluminista concluiu que a Natureza é um sistema, “um todo” fracionado com partes interdependentes, mas perfeitamente sincronizadas num concerto harmônico.

Assim surgiu a teoria da Interdependência, propondo que nenhum elemento de um Sistema funcione isoladamente, seja na organização ou no planejamento. Baseados neste postulado, os matemáticos trazem por meio de modelos formais, sistemas axiomáticos que compõe a consideração do que é certo ou errado.

Em paralelo, os psiquiatras e psicólogos exploram sistemas mentais, culturais e cognitivos para compreender crenças, identidade e mudanças, frequentemente utilizando conceitos como feedback, autorregulação e mentalidade conformada.

Nessa perspectiva, fica estabelecida uma arquitetura simbiótica de princípios, ideias e práticas, onde num Sistema é comparado com uma sociedade anônima, onde não há um comando personalizado, a chefia é oculta.

Assim concluímos que a divisão das tarefas de um Sistema é uma cadeia de comando coletivo unanimemente focado no objetivo desejado. Estudando, encontramos o Sistema de Governo com o poder político dividido de acordo com as funções sistêmicas de diferentes poderes. Conforme o regime adotado o Sistema sempre mantém um poder Executivo e um poder Legislativo; nas repúblicas democráticas aparece o Judiciário.

Os sistemas de governo têm um profundo impacto na forma como os cidadãos vivem, trabalham e interagem em uma sociedade. Sua estrutura e os seus princípios definem teoricamente as liberdades, direitos, deveres e o bem-estar dos cidadão. Indo à realidade conjuntural a cidadania está inserida e influenciada pelo Sistema de Governo através do qual as nações são organizadas e governadas.

De maneira geral, os sistemas de Governo agregam à administração pública diversos subsistemas, formando assim um novo sistema visto como parte de um sistema ainda maior, em alguns contextos, um suprassistema.

A complexidade e diversidade desses subsistemas refletem a natureza multifacetada da cidadania e a própria estrutura social. Ludwig von Bertalanffy na década de 1940 formulou a Teoria Geral dos Sistemas, buscando princípios universais aplicáveis a diferentes domínios científicos.

Pela teoria ludwiguiana se enquadra o crime organizado como um Sistema que funciona como um empreendimento econômico e político, com estrutura hierárquica, divisão de tarefas, uso de tecnologia e busca por lucro.

Facções criminosas, como o CV e o PCC no Brasil são exemplos de sistemas criminosos que atuam praticando diversas atividades ilícitas inclusive o terrorismo; na sua complexidade infiltra-se no Governo e no próprio Estado, corrompendo instituições políticas e funcionários públicos cobiçosos.

É por isso que não são isoladas as atividades criminosas dentro do Sistema de Governo, mas como um conjunto de ações coordenadas que se conectam, exemplificadas pelos perdões que o STF vem concedendo aos delinquentes sentenciados e punidos pela Lava Jato por corrupção e lavagem de dinheiro.

Dessa maneira, poder invisível o Sistema de Governo Corrupto mostrou-se de corpo inteiro no caso do INSS, acobertando a fraude de entidades sindicais corruptas e tendo  o fantoche Lula da Silva acumpliciando-se com a pelegagem sindical que roubou os aposentados e pensionistas.

 

Castro Alves

Onde estás (trecho)

É meia-noite. . . e rugindo
Passa triste a ventania,
Como um verbo de desgraça,
Como um grito de agonia.
E eu digo ao vento, que passa
Por meus cabelos fugaz:
“Vento frio do deserto,
Onde ela está? Longe ou perto? ”
Mas, como um hálito incerto,
Responde-me o eco ao longe:
“Oh! minh’amante, onde estás?…

Vem! É tarde! Por que tardas?
São horas de brando sono,
Vem reclinar-te em meu peito
Com teu lânguido abandono!…
‘Stá vazio nosso leito…