Artigo

RESSURREIÇÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A ressurreição derruba três muros intransponíveis: a morte, a injustiça e o fracasso”  (Dom Orlando Brandes)

Intitulei de “Ressuscitem o ‘Bessias’” uma mensagem escrita na semana retrasada comentando a indicação do ex-ministro Eduardo Pazuello, alvo da CPI da Covid, para um cargo a nível ministerial a fim de blindá-lo. (Repetia-se o caso de Dilma querendo livrar o corrupto Lula da prisão; o nome do secretário era Messias, mas a ex-presidente estava fanha na ocasião).

Recebi várias críticas sobre isto; o interessante porém, é que não foi somente dos bolsonaristas defendendo a medida frustrada que igualaria Bolsonaro a Dilma; os pareceres contrários mais contundentes (e alguns ofensivos), vieram de psicopatas decorebas da Bíblia considerando que referir-me à “ressurreição” é um despropósito.

Como admirador do pastor Martin Luther King, imolado pelo racista e extremista James Earl Ray, aproveito um seu pensamento na minha defesa: – “A religião mal-entendida é uma febre que pode terminar em delírio”; e não perdoo esses delirantes que me criticaram.

A ressurreição dos mortos é a base de todas as religiões. Para os cristãos, consta nos Velho e Novo testamentos e nos livros não-canônicos de Baruque, de Enoque e de Esdras, e é emblemática a volta de Jesus Cristo do reino dos mortos.

Assim, a metáfora que eu usei sobre o finado secretário da ex-presidente Dilma, não constitui nem uma ofensa ao morto, nem uma blasfêmia. Não fora a beleza proverbial do texto de Oscar Wilde sobre a ressurreição, encontraríamos nele, isto sim, um insulto ao sagrado.

Contou Wilde que ressurreto, Jesus surgia às vezes à noite, e numa delas reparou um jovem sentado à beira da estrada chorando. – “Porque choras? Perguntou o Nazareno; entre soluços, o rapaz respondeu: – “Eu estava morto e Vós me ressuscitastes; que poderei fazer vendo uma cruel realidade em torno de mim, senão chorar? ”.

Talvez fosse assim o que ‘Bessias’ encontrasse na infeliz conjuntura que o Brasil atravessa. Após tanto tempo afastado do mundo vivente, talvez se entristecesse e chorasse como o moço que Jesus ressuscitou observando o cenário político no Brasil, que provoca lágrimas de revolta a quem realmente ama o nosso País.

Por causa do negacionismo genocida de Bolsonaro, as coisas andam tão mal na luta contra a pandemia do novo coronavírus, pela negligência em todas as ações do governo federal, comprovadamente na falta de insumos hospitalares e até de vacinas!

A mais antiga ressurreição que conhecemos é a de Osiris, primeiro faraó egípcio, assassinado traiçoeiramente pelo irmão Set para tomar o poder. O morto teve várias partes do corpo separadas e atiradas no Rio Nilo; mas a sua dedicada esposa Isis, conseguiu reunir os pedaços e com a ajuda da cunhada Néftis, deusa da morte, ressuscita-o, e Osiris se torna o Deus do Julgamento final.

Essa lembrança mitológica da ressurreição nos leva a Bolsonaro, que vem fazendo de tudo para recuperar a confiança perdida para os que votaram nele contra a corrupção, e os traiu; tornando impossível que ressuscite moralmente.

Sem a hipocrisia dos “cristãos profissionais” e à crença da ressurreição, lembro a passagem bíblica em que Jesus traz Lázaro de volta à vida depois de quatro dias de sepultamento…. Mas considero um feito ainda maior do que ressuscitar os mortos, a certeza que o Cristo tem capacidade de ressuscitar os vivos.

O que não é o caso do Capitão Minto, que mesmo com as orações hipócritas dos pastores e padres políticos que apoiam os seus desatinos, jamais será perdoado pela resistência à imunização contra o vírus, nem por semear o ódio antirrepublicano entre os poderes constituídos.

Nem a ressurreição moral, nem a CPI da Covid, e muito menos o Código Penal, o salvarão da condenação histórica pelas quase 400 mil mortes de brasileiros, em grande parte devidas ao seu negacionismo….

N’EST PAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

‘Le Brésil n’est pas un pays sérieux’ (General De Gaulle)

Passando um olhar patriótico sobre o Brasil real, vivendo atualmente sob a mediocridade da política populista e o carreirismo eleitoral, é profundamente triste reconhecer que De Gaulle tinha razão.

Ao assumir patriotismo, lembro que George Orwell no seu badalado livro “1984” projetou um “Ministério da Verdade” usando uma “novilíngua” para distorcer a significação dos vocábulos; o que ocorre entre nós quando a palavra “patriotismo” é adotada por alguns como o culto da personalidade de Jair Bolsonaro.

Vem destes cultuadores fanáticos os aplausos para a totalitária “Lei de “Segurança Nacional” que confunde a pessoa do Presidente da República blindando-o como se fora o próprio Estado, levando-nos de volta a Luiz 14 que dizia “L’ Estat c’est moi”, – “O Estado sou Eu”.

Ungido ao poder por um desastroso desvio do destino, que arrastou expressiva fração do eleitorado inimiga da corrupção lulopetista para elegê-lo, traiu o discurso de campanha, aliou-se aos picaretas e se cercou de uma horda de aduladores oportunistas.

Assim, não é por acaso que o chamado Capitão Minto, ensimesmado, tenha desdenhado a pandemia, bravateado o negacionismo da Ciência e o desrespeito pelas regras sanitárias. O triste é que contou com o apoio das brigadas primitivas, antigos assessores, executores de “rachadinhas” e beneficiados com ações legislativas do “sindicato fardado” que dirigia da Câmara Federal.

Contará com o mesmo amparo agora, quando comete um bestial crime contra a nacionalidade, desprezando-a e envergonhando-a, ao impedir a realização do Censo Demográfico?

Não é preciso ser especialista nem cobrador “de oposição”, para entender que um País deve contar com informações confiáveis sobre todos os aspectos da vida cotidiana, afim de alicerçar a administração pública e conscientizar para a realidade nacional políticos, empresários e cidadãos.

O Brasil deve se orgulhar do IBGE que sempre trabalhou com seriedade e conquistou renome internacional pelo embasamento das suas pesquisas. Entretanto, a irresponsabilidade do atual governo federal não quer saber de números reais, desprezando-os e substituindo-os pela fraude, como vem ocorrendo na pandemia.

As contumazes mentiras de Bolsonaro, são acompanhadas pelo seu ”Posto Ipiranga” e o general Augusto Heleno, atingindo os limites do ridículo. O ministro Paulo Guedes ironizou o questionário do Censo e o general Heleno não esconde o menosprezo pela pesquisa dizendo que a taxa do desmatamento amazônico levantada pelo Inpe era inflada.

Constata-se com isto que Bolsonaro que não tem noção do que seja um Censo, porque ao manobrar no Congresso o Orçamento Picareta de 2021 fez pouco caso da megapesquisa populacional e econômica, pouco ligando que seja ou não seja realizada.

Assim, o Censo que ocorria a cada dez anos e ocorreria no ano passado, foi adiado para 2021 com a desculpa da pandemia, mas na realidade para economizar R$ 2 bilhões….

Novamente, em função da ignorância imperante em Brasília, o Governo Bolsonaro não deu importância ao financiamento do Censo quando tramitou no Congresso a lei orçamentária de 2021. E, na semana passada, o Presidente anunciou desavergonhadamente que o levantamento nacional sobre a conjuntura socioeconômica será adiado mais uma vez.

Quem tem cabeça de pensar sabe que todos os países devem ter estas informações obtidas por uma minuciosa operação estatística; que se torna complexa no Brasil, pela sua dimensão territorial de 8.515.692,27 km², distribuídos por 27 Unidades da Federação e 5.565 municípios.

Lembramos que as pesquisas seriam realizadas com visitas a todos os municípios, distritos, bairros e localidades rurais e urbanas, com visitas a domicílios, colhendo dados sobre as condições de vida da população; e ressaltamos que um País que não sabe quem são os seus cidadãos e cidadãs, não sabe o que realmente possui e o que pode realizar, não é um País sério, que traduzimos para o mundo: – “n’est pas serieux”.

 

 

PROTESTO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Quem aceita o mal sem protestar, coopera com ele” (Martin Luther King)

É impossível esconder o protesto dos 380 mil mortos pela covid-19 contra o presidente Bolsonaro, mais preocupado com a sua reeleição do que em promover a vacinação em massa, única maneira de debelar a pandemia.

Em vez de adquirir vacinas e insumos hospitalares, de mobilizar e ampliar equipes de atendimento às vítimas do vírus, a Familiocracia no poder recruta mercenários e “tolos ideológicos” como agitadores para esconder a política negacionista e fazer do Capitão Minto o “Pai da Vacina”…. É o novo slogan: “A fraude acima de tudo”.

Levantam-se protestos mundo afora; do empresariado, dos trabalhadores, dos intelectuais, do sistema econômico, da magistratura e da política; mas o protesto dos mortos traz a força milenar da maldição do “Rei Tut”, encontrada na tumba dele em 1922 pelo arqueólogo Howard Carter.

Numa parede cheia de pinturas representando Tutancâmon e os seus feitos em vida, numa vasilha contendo fungos, hieróglifos alertavam: – “Ai de quem violar o sono do Faraó! ”. Uma ameaça explícita a quem violasse o túmulo que atingiu os seus descobridores, pois a maioria dos membros da equipe de Carter morreu de causas sobrenaturais; e também alcançou Lorde Carnarvon, o financiador da expedição.

Muitos negam isto, afirmando não passar de uma lenda; mas há quem considere e acredite nas antigas profecias, fazendo ilações sobre acontecimentos coincidentes.

É, mais ou menos, o que vem ocorrendo no Brasil: duas correntes de opinião; uma que questiona os fatos em busca da verdade; e outra que se baseia nas repetidas mentiras do mitômano Bolsonaro.

Nos entrechoques da política miúda, prevalece a sabedoria popular ao dizer que “nem tudo que reluz é ouro”, um princípio que alerta para as fraudes do folheado a ouro, da máquina de fazer dinheiro, da pérola falsa e da demagogia populista….

Nenhuma destas arapucas armadas por vigaristas consegue enganar quem está prevenido sobre as vírgulas de um decreto, a convocação de uma CPI para não investigar, e não levar a sério o bando oportunista que se fantasia “de direita” e “conservador”.

Os observadores da política nacional estão vacinados contra o fanático culto de personalidades e seguidores de ideologias adulteradas por falsos gurus. Vêm claramente a orquestração do grupo que atua sob a orientação baixada de salas contíguas à do Presidente no Palácio do Planalto.

É o ativismo bolsonarista. São poucos, mas confirmam a observação de Mark Twain que disse: – “os tolos representam quatro quintos da humanidade”, dando oportunidade aos espertos para conduzi-los.

Nas redes sociais a gente está sempre topando com um deles, particularmente os recém-chegados no Twitter, que não seguem os princípios éticos que adotávamos e deixam de lado os critérios de socialização (é possível que algum desses imbecis confunda socialização com socialismo, mas não é).

Com este pessoal, passamos a encontrar mensagens padronizadas, opiniões selecionadas, ofensas pessoais e xingamentos com palavrões…. E vão ao exagero com ataques a quem não reza pela cartilha do desvario governamental grotescamente ideologizado.

Contra tudo isto, chega o protesto dos nossos mortos “transportando estrelas no negro infinito”, como os viu o poeta mexicano Amado Nervo. Do além, inspiram as suas famílias e os seus amigos a também repudiar a falta de consciência e a desumanidade de Bolsonaro na prática da sua política necrófila.

É preciso que a presença espiritual dos que morreram graças ao negacionismo, faça os civis se comoverem, e que os militares cumpram o princípio da caserna:  “A verdade é um símbolo da honra militar”.

 

 

TITANIC

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A gente quer a vida como a vida quer” (Banda Titãs, in “Comida”)

É impressionante o pavor dos seguidores de Bolsonaro reagindo contra a convocação da CPI da Covid-19. Veem as investigações sobre a política governamental durante a pandemia como aquele iceberg que afundou o luxuoso transatlântico da White Star Line, saído dos estaleiros de Belford, na Irlanda.

Do outro lado, muitos acham que é uma excelente chance para o Presidente provar que está certo na sua condução da política sanitária enfrentando o vírus; afirma-se que o temor dos bolsonaristas mostra o contrário do que afirmam, que a mentira e a fraude substituíram o slogan “O Brasil Acima de Tudo”….

Pelo interesse nacional na apuração dos fatos, os brasileiros não comparam esta CPI com a montanha de gelo flutuante que partiu o Titanic ao meio e levou-o ao fundo do oceano, mas uma maneira de esclarecer como o Ministério da Saúde se conduziu na pandemia.

Vê-se paralelamente quão insólito é o ataque virulento do Presidente ao STF, em particular ao ministro Luiz Barroso, sempre acompanhado pelos seus seguidores. Em verdade, vê-se que os que se opõem à CPI, levantam críticas usando a camisa listrada dos malandros, e não a toga da magistratura, porque é inegável que a decisão do ministro Barroso foi técnica, baseada no texto constitucional.

Diante disto, observa-se que não há boa-fé dos fanáticos que seguem a forma desrespeitosa e grosseira com que o presidente Bolsonaro reagiu. Se na verdade são amigos, deveriam educá-lo, mostrando que o comportamento republicano exige que siga a norma consagrada do Direito, de que decisão de Justiça não se discute, se cumpre.

O historiador, filósofo e poeta romano Caio Cornélio Tácito, que passou à História simplesmente como Tácito, disse que – “Os aduladores são a pior espécie de inimigos”, projetando ad futurum os servis puxa-sacos que cercam o Presidente, mais prejudiciais a ele do que uma barulhenta oposição política e parlamentar.

Como baixar a cabeça, subalternos, à desobediência infantilóide de Bolsonaro, com xingamentos e ataques pessoais, exibindo um comportamento nefasto a si próprio? Será ele intocável, um semideus como os titãs da mitologia greco-romana ou apenas um homem de carne e osso que eventualmente ocupa a presidência da República?

Foi lembrando os Titãs que chegamos ao navio Titanic, cujo nome que veio da palavra “titãs”, entidades divinas da mitologia, filhos de Gaia e Urano. “Mito” por “mito”, esta comparação nos levou à história da primeira geração dos deuses do Olimpo.

Eram seis homens e seis mulheres que governaram o mundo após Cronos – o Tempo – ter matado Urano para defender Gaia, atacada por ele. Antes de Zeus, o governo deles, com Cronos à frente, representou a Era conhecida como “A Idade de Ouro”.

O rock brasileiro marca a presença da Banda Titãs, que no ano passado gravou o seu CD “O Brasil de Que Deu Certo”, e sempre evoca saudades das composições cheias de poesia como “Epitáfio” e “Enquanto Houver Sol”. É antológica a sua canção “É preciso saber viver”, com os versos: “Quem espera que a vida/ Seja feita de ilusão/ Pode até ficar maluco/ Ou morrer na solidão…”.

Navegando nos mares revoltos da pandemia, enfrentando as ondas da necropolítica governamental e 350 mil cadáveres boiando, voltamos à ficção do Titanic bolsonarista construído nos estaleiros da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, tendo como armadores “os meninos do Presidente”, advogados despachados, empresários expertos, PMs aposentados e a turma operária tendo como mestre –de-obras Fabrício Queiroz…

Entusiastas da indestrutibilidade do barco, escreveram na linha d’água os slogans “Os Filhos Acima de Todos” e “Reeleição Acima de Tudo” e puseram o novo Titanic a navegar em Brasília, no Lago Paranoá, símbolo do poder marítimo do Palácio do Planalto….

Será a CPI da Covid-19 que o levará ao fundo?

 

 

SOMBRAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro” (Carl Jung))

Mesmo com a idade avançada, não me sai da memória o tempo em que escutava no rádio a novela do “Sombra” – um personagem de histórias policiais que me encantava.

A trilha sonora, com acordes compassados e segundos em silêncio, imprimia atenção e expectativa para o aparecimento do personagem e a sua voz cavernosa: -“ O Sombra sabe…”, precedida de um riso em crescendo, “ah-ah-ah-ah-ah! ”.

Para um menino, o programa construía a ideia do combate ao crime, que mais tarde veio desenhado em revista de quadrinhos. O benéfico perseguidor mascarado “The Shadow” foi criado pelo escritor norte-americano Walter Brown; era um disfarce do milionário Lamont Cranston, na história que mais tarde inspirou a criação do Batman.

Além do personagem, o verbete Sombra é um substantivo feminino oriundo do latim “sulumbra”, nascida da expressão “sub illa umbra”, a parte escura do céu…. É a penumbra provocada pelo bloqueio da luz; significa também silhueta e até a maquiagem que dá cor às pálpebras.

Ao deixar a infância interessei-me pela Mitologia Grega e Romana, encontrando nos poemas épicos de Homero, Ilíada e Odisseia personagens sedutores, e especialmente encantou-me a Ilíada, a guerra protagonizada por Ulisses, rei de Ítaca, inventor do célebre Cavalo de Tróia. E foi com ele esbarrei em sombras.

Visitando o inferno, Ulisses viu Aquiles, outro grande guerreiro, comandando uma legião de heróis falecidos em combate; felicitou-o pela glória que conquistara entre os vivos e o reconhecimento dos mortos. Aquiles, porém, falou humildemente: – “Não tente me consolar, nobre Ulisses; eu preferiria lavrar o campo como servo, privado de privilégios e bens, do que comandar um Exército de Sombras…

A lendária saga de Aquiles aponta que a sua morte se deveu a uma flecha envenenada que lhe atingiu no calcanhar, a parte do corpo sem proteção da armadura; daí nasceu a expressão “calcanhar de Aquiles”, referindo-se à parte fraca de uma pessoa.

No correr da vida cai no esquecimento as lições que a própria vida recebeu; e comandar um “Exército de Sombras” é motivo de alegria e acrobacias verbais para Bolsonaro, que insiste em referir-se “o ‘MEU’ exército” querendo que acreditem ser ele dono de um “Exército” que pode acompanha-lo numa aventura golpista.

Na verdade, o Capitão Minto comanda um exército de sombras, com oficiais reservistas de farda no armário: uns até bem-intencionados, outros apenas para dobrar os rendimentos, muitos saudosistas do regime militar, em sintonia com conspirações, e mais alguns revanchistas esquizofrênicos contra o Estado de Direito.

De pijama ou de paletó e gravata, este Exército das Sombras nada tem a ver com os militares da ativa, do Exército de Caxias, com desempenho nos quarteis aonde impera a hierarquia a o patriotismo; e são tradicionalmente legalistas.

Há um 2º Exército das Sombras. Formado de mercenários que atuam nas redes sociais em defesa do Governo Bolsonaro, com a ignorância intolerante dos obedientes sabujos atrás da caça; estes, apesar de organizados e ruidosos não são levados a sério on line por disseminar fake news.

Pela religião mal compreendida (como alertou Martin Luther King), formou-se um 3º Exército das Sombras, e já tem um graduado no STF…. São religiosos “ao extremo” misturados com neo-cristãos oportunistas mergulhando nas trevas bolsonaristas como falsos defensores da liberdade religiosa.

Um cristão autêntico, despojado de vaidades e vacinado contra a politicalha, o padre Júlio Lancellotti, diz com sapiência e fé que “a essencialidade da liberdade religiosa é o testemunho de Deus. Não é ir no templo testemunhar o cofre…”.

Nestes tempos estranhos que vivemos, ouvir a voz da razão propõe uma justa repartição de sombras e de luz, pela união de todos contra a pandemia, propomos seguir as palavras do Cristo:  -“Perdoai-os, Pai, pois eles não sabem o que fazem”.

 

SILÊNCIO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“É preciso que alguém fale, e fale alto, e diga tudo, custe o que custar! ” (José Américo de Almeida)

Homenageou-se no mês de março o aniversário do jornal norte-rio-grandense “Tribuna do Norte” e o seu fundador, Aluízio Alves, jornalista de vocação sempre atuante. Aluízio, como homem de bom senso, conhecia o leitor-padrão dos jornais e ensinava na redação que era melhor suprimir o trecho de uma matéria do que acrescentar firulas ao conteúdo.

O noticiário jornalístico se perde por excesso de floreado que tira a atenção do leitor, como uma reportagem que li vinda de Nova York muitos anos atrás. Trouxe a história de uma violinista (de nome italiano, mas esqueci) que deixou no testamento o pedido para que no seu enterro se ouvisse uma tocata de Paganini e que o seu Stradivarius fosse enterrado com ela…. Ora, ouvir Paganini é uma maravilha; mas enterrar uma fortuna por simples egoísmo é uma excentricidade muito cara.

Essa extravagância testamentária se repete com pessoas de várias profissões, não é como se pode pensar, a vaidade egocêntrica dos artistas; a encontramos, por exemplo, entre os políticos, em maioria carreiristas, gananciosos e personalistas, como vimos nos discursos em defesa das emendas parlamentares discutindo o Orçamento.

Ensinar a fazer silêncio em algumas oportunidades deveria fazer parte da educação doméstica infantil, como escovar os dentes, não falar com a boca cheia e não beber água antes da sopa…. Hemingway lembrou num dos seus livros que “são necessários dois anos para aprendermos a falar e sessenta para aprendermos a calar”.

Como tal ensino não é praticado, vimos há pouco o ministro Fábio Faria exagerar na falação, sugerindo que os jornais publicassem balanços sobre vítimas da pandemia, ignorando que já havia se formado um consórcio dos veículos de imprensa só com este objetivo…. E é o “homem de Bolsonaro” na Comunicação.

Tem um aconselhamento proverbial que diz: – “Falar é bom, calar é melhor, mas ambos são desagradáveis quando levados ao exagero”; esta lição serviria ao governador João Dória, que com incontinência propagandista correu para anunciar uma “vacina 100% brasileira” o que não é bem assim…

Os agentes públicos deveriam atentar que se o pronunciamento correr o risco de um equívoco, melhor será que se faça silêncio. Dicionarizada, a palavra “Silêncio” é um substantivo masculino significando total ausência de som, e também uma interjeição, quando vem precedida pelo sinal de exclamação. A origem é latina (silentium, -ii) e tem referência à situação de quem se abstém ou para de falar.

Um dos mais belos toques militares de corneta é clarinada do Silêncio, que é executado como honra fúnebre em enterros e avisa o recolhimento noturno. Kafka se refere à energia que reside no silêncio, e Shakespeare encerrou a sua genial peça Hamlet saindo da boca do príncipe moribundo: – “O resto é silêncio…” destas palavras se aproveitou o festejado escritor gaúcho Érico Veríssimo intitulando um dos seus livros, publicado em 1943, “O Resto É Silêncio.

Guardar o silêncio é prova de inteligência; mas ao alcançarem o poder, muitos s’ esquecem disto mantendo irrefreável loquacidade em assuntos que não lhe competem, ou simplesmente desconhecem, mas fingem conhecer…. E o pior é que não se conformam com as críticas da mídia sobre a tagarelice.

É assim que age o inconsequente presidente Bolsonaro na pandemia do novo coronavírus. Obcecado em desdenhar a peste como foi orientado pelo antigo líder, Donald Trump (que já se desculpou, mas não repercutiu aqui), e sem uma assessoria para orientá-lo, pois se cerca de iguais e inferiores à sua formação intelectual, continua dando maus exemplos à população pelo negacionismo explícito….

E, desgraçadamente, influencia o bando extremista falsamente assumido como “de direita” ou “conservador”, mas simplesmente de fanáticos pelo Chefe e achegados ao poder, muitos deles recebendo pixuleco nas redes sociais para defender o “tratamento precoce”.

Neste cenário vergonhoso e constrangedor, dá vontade de sugerir ao “Posto Ipiranga de Bolsonaro”, o ministro Paulo Guedes, ávido pela ressurreição da CPMF, que crie uma taxa para os boquirrotos, na mesma proporção como cobra pelos alimentos.

 

CAPITALISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Sem compreendermos o capitalismo não podemos compreender a sociedade humana da maneira que ela atualmente existe”. (George Bernard Shaw)

Outro dia escrevi um artigo falando do Tempo e recebi duas críticas sobre duas defesas que fiz no texto. Uma delas foi adotando a tese de Einstein de que é uma ilusão a diferença entre passado, presente e futuro…. A outra apontada foi a contradição entre malhar a imprensa e ao mesmo tempo livra-la de seus desvios atuais.

Ora, o Tempo, como eu disse, nos dá a oportunidade de pensar com base no presente, na experiência com o passado e o que poderá ocorrer no futuro. Quanto à imprensa, vejo o Tempo na sua versão musical, o andamento, o movimento e a pulsação: repito, é melhor que o país aceite a imprensa anômala do que ficar restrito à uma imprensa oficial de louvaminhas ao governo, como fazem as ditaduras.

Vivendo sob a trágica pandemia do novo coronavírus, o tempo tem sido impiedoso com o povo brasileiro, por termos no poder o presidente Jair Bolsonaro, um negacionista assumido. A conduta desequilibrada dele acarreta uma terrível insegurança no enfrentamento do vírus, acarretando a falta de insumos hospitalares, de medicação adequada e até de vacinas.

Isto nos leva de volta à selvageria, que nos faz pensar nos estudos da Zoologia, em que os cientistas registraram nos seus estudos sobre os gatos, que estes animais eram bravios como todos os felinos soltos na floresta, e que se levou mais de 3.000 anos para serem domesticados; daí, passaram a ser tão amados que antigos egípcios os adoravam como deuses….  O estudo citado, afirma que basta um gato ser deixado solto no mato que em 100 dias voltará ao estado selvagem.

Justamente por conta disso, temos um exemplo concreto, ao vivo, na Ilha Furtada, na Baía de Sepetiba, Itacuruçá, Rio de Janeiro, que é ocupada por gatos selvagens, e por isso passou a ser mais conhecida como a “Ilha dos Gatos”.

É possível que o mesmo ocorra com a sociedade humana. Não fosse a aculturação milenar da civilização, estaríamos ameaçados de uma volta à Idade Média, aquela dos barões feudais, da servidão e do obscurantismo religioso. Então, evidentemente, a covid-19 passaria a ser tratada como foi a “peste negra” na época.

E é mais ou menos isto o que o bando negacionista quer para o Brasil, pela insanidade da extrema direita e do conservadorismo retrógrado. É isto que representam os que ainda apoiam Bolsonaro, desculpando-o pelo abandono do combate à corrupção, calando-se na volta ao estatismo da economia nacional e aceitando servilmente a aliança com os picaretas do Congresso.

Como o tempo revela e castiga, esta “meia volta” de Bolsonaro após ser eleito, será julgada; porque está inegavelmente alimentando o “feudalismo amazônico”, com a perseguição aos índios, a derrubada das florestas para a passagem da boiada, e franquiando a estúpida mineração mercurial.

Além disto, os que o cercam no poder ignoram o sistema capitalista, que não passa sequer pelo “Posto Ipiranga” do Presidente, como se esperava… O que é o Capitalismo? Como verbete dicionarizado é um substantivo masculino, formado de capital + ismo, significando o sistema econômico que reconhece e respeita a propriedade e os bens privados e defende ampla liberdade de produção e comércio. A palavra vem do latim, “caput, capitis”, que significa “cabeça” e passou a indicar o que é fundamental na economia.

Dever-se-ia ensinar aos políticos que o capitalismo tem uma base moral e não é a lei da selva, como disse Margaret Thatcher; é o sistema capitalista que garante a Democracia, protege a liberdade cidadã, assegura a livre concorrência no mercado e dá oportunidade individual para a ascensão social e econômica pelo trabalho e pelo mérito.

Contra este modelo econômico, nascido da “revolução industrial”, o filósofo alemão Karl Marx escreveu “O Capital”, que lançou as bases do comunismo. Profeta frustrado, Marx previu o fim do capitalismo, e erraram também os seus seguidores que garantiram a crise geral do capitalismo no após a 2ª guerra. Por fim, quem sofreu a crise e caiu de podre foi o regime burocrático e ditatorial marxista instalado na URSS….

Por esta experiência histórica, é preciso chamar a atenção dos aventureiros. Os aprendizes de ditador que sonham com um sistema despótico e dogmático, fiquem certos que tal regime fracassará também, venha rotulado de direita ou de esquerda.

Os bem-informados aprenderam que o Tempo é um capital que faz a verdade prevalecer sobre a mentira, que faz o atraso ceder lugar ao progresso; e que as conspirações antidemocráticas serão derrotadas pela ordem e a paz social….

 

 

 

INFECÇÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O vírus da ignorância tem se espalhado por causa da baixa humanidade” (Swami Raddhi Jyotirmay)

A pior epidemia é a epidemia da política malconduzida; e, infelizmente, o organismo estatal traz na sua essência os vírus de uma “classe” política onde falta patriotismo e sobra carreirismo, egocentrismo e ganância, atributos que levam à corrupção.

É triste constatar que é o próprio Estado Democrático de Direito, pela garantia dos direitos humanos e a defesa da liberdade, produz um caldo de bactérias letais à sua própria existência. São diversos os exemplos históricos que comprovam isto.

Após a derrubada de monarquias na Rússia e na Alemanha, registrou-se a queda dos governos republicanos instalados; na Rússia, o democrata Kerenski caiu pela ação revolucionária dos bolchevistas, e a libertária República de Weimar alemã cedeu lugar ao golpe de estado de Hitler e os nazistas.

Por covardia em diagnosticar a conjuntura política, os “observadores neutros” nunca veem que os agentes públicos produzem esse coquetel antidemocrático de bacilos para infectar as instituições, blindados por privilégios e direito à impunidade.

Só depois de acontecer a instalação dos bacilos destrutivos é que a Nação desperta, como se viu na invasão da Petrobras pelos lulopetistas promovendo um festival de propinas. Sob o silêncio dos petroleiros, a infecção delinquente na Petrobras cresceu e se espalhou epidemicamente, sem controle, por todos os seguimentos da administração pública.

Os coniventes com os governos petistas, usam o contra-argumento de que a corrupção sempre existiu; o que é, sem dúvida, uma verdade; todavia é incontestável que pela cumplicidade do poder, se institucionalizou. E pela transparência da roubalheira conscientizou o povo, incentivou manifestações anticorrupção e levou Lula da Silva à prisão.

É inesquecível como espontaneamente milhões de brasileiros foram as ruas apoiando a Lava Jato e o juiz Sérgio Moro pelo combate à corrupção. A faxina continuada das operações investigativas da Promotoria e da Polícia Federal criaram, porém, a ilusão de que serviria de vacina pró reativa contra os corruptos; mas eis que a infecção corruptiva reapareceu nas corrupçãozinhas periféricas.

A Infecção, como verbete dicionarizado, é um substantivo feminino de etimologia latina, (infectio,onis), ação de tingir; originado do verbo (facere), “fazer”. Em Portugal, aboliu-se o “C” antes do “Cedilha”, “Infeção”.

Surgiu tristemente, uma dupla infecção na pandemia que enfrentamos; além do novo coronavírus, alastrou-se microbianamente o negacionismo importado dos Estados Unidos, subestimando o novo coronavírus como se referiu Donald Trump: – “apenas uma pessoa que veio da China, e está sob controle. Vai ficar tudo bem”…

A atitude de Trump foi prontamente imitada pelo seu apaixonado admirador, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que falando sobre a covid-19, disse:  – “Não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar”….

Não satisfeito em exprimir com discursos sua ignorância anticientífica, Bolsonaro fez outra maldade, estimulando os seus fanáticos apoiadores transformarem-se em espiroquetas gram-negativas da cretinice, depreciando as medidas preventivas contra a covid-19, criticando o uso de máscaras, combatendo o isolamento social e subestimando a busca da vacina.

… E o pior é que esta descompostura obscurantista que ataca a Ciência, vem junto com a defesa de um totalitarismo socializante, com ataques às instituições republicanas e pelo fim da Democracia. O exemplo mais-do-que-perfeito disto é o que fez o deputado Daniel Silveira, preso pelo STF e punido na Câmara Federal que, mesmo sub judice, agrediu um agente policial que lhe solicitou o uso da máscara.

Esta personalidade psicopática é hospedeira de agentes biológicos patogénicos que infeccionam o tecido social. Diagnosticado com sapiência, foi recolhido à UTI da Constituição, para evitar uma piora, uma recaída, a propagação do mal.

 

 

O TEMPO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Que importa o tempo? Há amigos de oito dias e indiferentes de oito anos.”    (Machado de Assis)

Viciados no ópio cultural que é a leitura, assistimos em duas décadas a imprensa escrita decair por força do surgimento da Internet. São raras as pessoas hoje em dia que ainda compram os jornais diários e as revistas semanais e estas são de pequenas e médias cidades interessadas na política local…

Assim como o rádio subsiste com a televisão, resistindo às projeções de “especialistas” que deveria desaparecer, os jornais poderiam sobreviver com a web, enquanto plataforma de comunicação e informação.

Isto parece que não está ocorrendo, e o que reforça o fim das publicações impressas é a degenerescência da sua linguagem e do seu conteúdo. Joseph Pulitzer, editor que revolucionou os jornais com novas técnicas e criou o Prêmio Pulitzer para valorizar a profissão de jornalista, disse: – “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica formará um público tão vil como ela mesma”.

Com sua sublime filosofia humorística, o nosso Millôr Fernandes disse mais ou menos a mesma coisa: – “Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data ”.  Ó tempos, ó costumes…

É isto. “O tempo rodou num instante / Nas voltas do meu coração…”. Como jornalista apaixonado e atuante a 70 anos, quando me iniciei como amador e depois com o registro profissional, lamento muito esse deperecimento, talvez um pouco tarde lembrando que vi em cidadezinha do interior de Portugal uma antiga torre onde está escrito abaixo do relógio, uma advertência: “É mais tarde do que pensas”….

É inegável que o Tempo define a ideia de presente, passado e futuro relacionados a episódios circunstanciais que ocorrem, que ocorreram ou estão por ocorrer…. E que durante toda uma vida os eventos se sucedem alegrando-nos ou entristecendo-nos, mas sempre deixando experiências que nos enriquecem.

2.020 anos não é muito tempo, por exemplo, para lembrar uma passagem de Jesus Cristo na Terra. e o seu alerta: – “Guardai-vos dos falsos profetas que se apresentam disfarçados em cordeiros, mas por dentro são lobos vorazes…”; 2.020 anos foi pouco tempo para que os tolos aprendessem isto, pois, até os dias de hoje continuam a se iludir e venerar ilusionistas da religião e da política.

A palavra “Tempo”, dicionarizada, é um substantivo masculino originado do latim, “tempus”, significando estação do ano e momento”, que derivou do grego “témno”, “cortar em pedaços”, “dividir”. A semântica indo-europeia firmou no latim vulgar “temp-os, “esticado, estendido”, de uma raiz ten-, “esticar, alongar”.

Entretanto, a duração das coisas é condicional. Einstein, o genial criador da Teoria da Relatividade, observou que pelo tempo ser relativo e ligado à velocidade, a “diferença entre passado, presente e futuro é apenas uma persistente ilusão”.

Seguindo o pensamento einsteiniano, perguntamos: – “será que os fatos ocorridos e que estão ocorrendo têm uma sequência presencial inarredável? ”. Parece que sim, pois assistimos no Brasil que a recusa da vacina oferecida pela Pfizer em agosto do ano passado recusada pelo negacionista Bolsonaro continua provocando mortes.

É a necropolítica empreendida por um psicótico que se mostra desarvorado, mantendo dois subministros da Saúde nos piores momentos da pandemia do novo coronavírus. E não fica apenas nesta irresponsável acumulação da ineficiência; há descuidos, conforme lemos na revista Crusoé que o segundo sub, Marcelo Queiroga, é réu numa ação penal por crime contra o patrimônio público.

Cito uma publicação, a Crusoé, cujas reportagens investigativas vêm dando muita dor de cabeça nos corruptos que se assumem como de direita ou de esquerda, porque, como o tempo é medido em horas, dias, meses e anos, tive alguns minutos para rever as críticas à imprensa de Pullitzer, Millôr e as minhas próprias.

Em respeito ao tempo, fecho este texto concluindo que a imprensa, mesmo decadente e ruim, “quando não fala, o povo é que não fala. Não se cala a imprensa. Cala-se o povo”, (William Blake).

 

 

OS CHATOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Há duas espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e os amigos, que são os nossos chatos prediletos” (Mario Quintana)

Tive uma amiga francesa, Melanie, que morou algum tempo no Rio e era uma fumante inveterada, e viciada naqueles Gauloises (que como o Hollywood no Brasil, deixaram de ser fabricados). Ela gastava tempo e dinheiro para trazer da França os cigarros de sua preferência.

Certa vez, reunimos alguns amigos, e entre eles um chato – em qualquer grupo que se forme há sempre um chato -, este maçante, vendo Melanie acender um cigarro após outro provocou-a: -“Do jeito como você fuma, com este gasto poderia comprar um carro… “.

Minha amiga não se conteve, virou-se para mim e disse em voz alta: – “Sabe, ‘Mirranda’ (nunca perdeu o sotaque), em francês, nós chamamos os chatos de ‘raseurs’”, e sem olhar o provocador, deu uma golada no chope….

Misturando o português castiço com a gíria, a palavra Chato é adjetivo, o que não tem relevo; liso, plano, rasteiro; e também substantivo, piolho pubiano que produz prurido. O chato que me referi acima foi usado com referência ao inseto parasita que atiça irritante coceira. A palavra dicionarizada tem etimologia latina, “plattus,a,um“, e do grego “platôs”, ambas com o sentido de plano.

No sentido de plano, sem relevo, liso e rasteiro nos leva a um chato recém-aparecido, defensor da suspeita filosofia baseada no obscurantismo religioso e na idiotia política, que adotou a tese absurda e anticientífica de que a Terra é plana…. Os “terraplanistas”.

Imperdoável é também o “chato de galocha” que aporrinha a gente no Twitter, defendendo as insanidades negativistas do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, e do adepto fervoroso dele, Jair Bolsonaro. A chatura é tanta que não vêm que Trump já recuou, fez autocrítica e até se vacinou.

Entretanto, parado no tempo, Bolsonaro continua o mesmo com a cabeça embotada pelos 28 anos sentado na cadeira de deputado federal do Baixo Clero, fazendo sindicalismo fardado para integrantes das FFAA e polícias militares…. Mas os chatos continuam seguindo-o subalternamente com ataques xenófobos à China. Alguma coisa lhes diz, no inconsciente, que antigamente naquele país (não sei como é nos dias atuais), a lei punia os chatos que azucrinavam os professores com a mesma pena dos batedores de carteira.

Com os inúmeros exemplos de chatos que temos no Twitter conjugando o verbo “Chatear”, espero que ninguém confunda “Chato” com “Chat”, termo que entrou na Web e é usado nas redes sociais, significando conversação, ou mais informalmente, bate-papo.

Outro termo derivado de Chato, como o verbo Chatear, é “Chatice”, que designa amolação, vista na maçada que assistimos com o Governo Bolsonaro indicando um novo subministro da Saúde, e mantenha dois, um de direito, outro de fato….

Até o momento em que encerro este texto, nada saiu no DOU, nem o afastamento, nem a nomeação. Sei disto porque que tenho lido o DOU, curioso em saber como virá a demissão do ministro-general Eduardo Pazuello, após ele repetir nove vezes que não pediria demissão.

O novo figurante do Ministério da Saúde, é o cardiologista paraibano Marcelo Queiroga, escolhido pela Familiocracia; ele fazia declarações pró-ciência; mas parece que já se ajustou ao comando negacionista, dizendo que “a política é do Governo Bolsonaro, não do ministro”; e com isto renuncia à autonomia no cargo.

Quanto isto, nós aqui, dos andares de baixo, vemos que o poeta Quintana tinha razão, temos nossos chatos de predileção; eu mantenho uma meia dúzia de três ou quatro no Twitter, e me divirto vendo-os defender convictos a insanidade presidencial e tentar convencer de que as mentiras de Bolsonaro são mentiras verdadeiras….