Artigo
FASCISMO
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
“Escrevo às apalpadelas no silêncio e pelo caminho descubro partículas de verdade” (Izabel Allende)
Não me venham com chorumelas, é fascista o grupo político que adota o slogan “Deus, Pátria, Família” da Ação Integralista Brasileira, partido criado por Plínio Salgado cópia tupiniquim do Partido Nacional Fascista (Partito Nazionale Fascista), de Benito Mussolini
E o que vem a ser “Fascismo”? Pela História, é a representação política, como ditadura totalitária, de grupos políticos, econômicos e financeiros. Nasceu na Itália (1922) e teve a sua maior expressão na Alemanha como Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Surgiu também notadamente na Bulgária, Espanha, Hungria, Polônia, Portugal e Romênia.
Na Itália, atuou como imperialista levado pelo ímpeto personalista de Mussolini, na Alemanha, pelo racismo e o conceito da “raça superior”, na Espanha, Bulgária e Finlândia com caráter militar, na Hungria e Portugal com base mística, religiosa. Nos países em que ocupou o poder houve uma disposição comum, nacionalismo extremado, racismo e anticomunismo.
Estabelecido como governo, o fascismo usou a máscara de “nacional socialismo” para disputar com os sociais-democratas e como reação aos sindicatos de trabalhadores cujos membros esquerdistas foram presos. Sob este manto, competiu com os círculos científicos, culturais e estudantis.
Assim, criou sindicatos governistas e/ou partidários, facilitando o ingresso dos membros a empregos, condenou a intelectualidade independente, artistas, escritores, teatrólogos e cineastas, que foram perseguidos “por sua cultura judaica”. Recrutou estudantes para organizações partidárias financiando-os, e impondo-lhes a ideia do sangue racial para um futuro hegemônico.
Outro ponto digno de nota era a promessa das lideranças fascistas de uma “ruptura radical com o passado”, sob um governo totalitário “de direita”; copiando o exemplo da ditadura do proletariado imposta na URSS stalinista.
As experiências históricas registradas na Alemanha e na Itália são abomináveis, com
os campos de extermínio de eslavos, ciganos e judeus; fogueiras de livros de “origem semita e marxista” e a negação da Democracia como um regime liberal, “burguês-capitalista”, sustentando-se no ateísmo e imoralidade.
Na verdade, os partidos fascistas por seus líderes, pregavam para as massas um “revolucionarismo verbal”, mas praticavam um conservadorismo obscurantista e se fortalecia pela valorizando e fomentando o aparato militar.
Dessa maneira, encontramos os discursos dos mandatários fascista e nazista; Mussolini, tinha no seu escritório uma flâmula com os dizeres: “Todos os homens são idiotas; alguns são idiotas engraçados; Deus me livre desses humoristas chatos”. E no seu longo discurso já no governo, vociferou: – “Muitos italianos ainda conservam o pensamento podre de uma Democracia; nego a estes senhores o direito de falar em liberdade”.
Quanto a Hitler, na sua doutrina exposta no “Mein Kampf” (Minha Luta), encontramos a expressão máxima do racismo: – “As causas exclusivas da decadência de antigas civilizações são a mistura de sangue e o rebaixamento do nível da raça”, e chega a uma conclusão condenável por quem tem cabeça de pensar: – “Só depois da escravização de raças inferiores será para eles ter a mesma sorte dos animais domesticados”.
Estas falas de Hitler e Mussolini citadas, são encontradas nos livros “Minha Luta”, Edição Mestre Jou, e “O Dia do Leão”, biografia de Mussolini, da Editora Nova Fronteira.
Chega à lembrança a forma de como seus fanáticos seguidores agiram para tomada do poder, a Marcha sobre Roma e a “Noite dos Cristais”, nome dado ao quebra-quebra promovido pelos nazistas deixando cacos de vidro nas ruas, das janelas estilhaçadas das sinagogas e vitrines de lojas dos que não aderiram. Depois veio a “solução final”, o massacre de opositores de judeus.
Nesta síntese da história dos fascismos italiano e alemão (que podemos classificar como clássicos) contribuímos para ajudar a combate-los nas suas cópias histriônicas e façanhudas, mas sempre danosas pelas marchas totalitárias e o terrorismo vandálico, como assistimos na tragédia de 8 de janeiro em Brasília.
ENTENDIMENTO
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
“O cilício que cega o entendimento, e nega à vontade, afoga a alma e tira a vida” (Pe. Antônio Vieira)
O grande orador sacro padre Antônio Vieira, no seu Sermão de Santo Inácio, prega o que todos os brasileiros de boa vontade querem, um entendimento nacional que avalie um futuro radioso para o nosso País.
Não adianta procurar outras citações, seja dos gregos antigos Aristóteles ou Platão, ou seja dos pensadores modernos como Bertrand Russel e Schopenhauer, para mostrar a importância da união nacional para enfrentar as seitas políticas do tipo místico e o ativismo irracional.
É inútil procurar a resposta que nos faça entender a mobilização permanente das massas fanáticas, obedientes ao discurso pseudorrevolucionário do ex-capitão Bolsonaro com as promessas de criar uma nova realidade fantasiosa. Da minha parte, suponho que é esta fraude ideológica, o conduto que leva à política populista da “direita” ao berçário do fascismo.
Pior do que tudo isto foi a criação de uma frente de pastores evangélicos politiqueiros, e a atuação subversiva de oficiais da reserva remunerada, insuflados pela obsoleta doutrina anticomunista da guerra fria do seu tempo.
Assim, juntaram-se o culto da personalidade e o desejo de transferir para as Forças Armadas do poder decisório sobre o resultado das eleições presidenciais. E deu no que deu: a perturbação da ordem pública e a depredação e o saque dos poderes republicanos.
Investiga-se se houve cumplicidade, leniência ou incompetência de órgãos federais, e particularmente do governo do Distrito Federal; mas uma coisa é certa, prevaleceu nas FFAA os princípios da hierarquia e da legalidade.
Do outro lado, a sociedade civil, o governo federal eleito no ano passado, o Supremo Tribunal, as lideranças parlamentares do Congresso Nacional e os governadores estaduais, se uniram e entenderam que é preciso garantir o Estado Democrático de Direito.
Dessa maneira, vivemos o interstício entre a paz pública e o terrorismo e, encontrada a mola impulsionadora do pandemônio bolsonarista, os financiadores de agentes provocadores, é preciso puni-los exemplarmente para encerrar de uma vez por todas a agitação antidemocrática.
Daí em diante poderemos relaxar e estimular os rebanhos religiosos de maus pastores recitando o Sermão da Montanha ou lembrando-lhes Lucas 2:14 com a passagem bíblica do “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens aos quais ele concede o seu favor”.
A desobediência a este preceito é pecado, como pecou aquele alucinado que estava no quebra-quebra do Congresso Nacional com uma Bíblia na mão, ou aquela senhora que declarou ter sido induzidas à participar da invasão por prédicas ouvidas no seu templo.
Quanto aos leigos, tão fanáticos quanto os auto assumidos religiosos, vamos lhes qualificar como o Marquês de Maricá descreveu: “alguns ‘patriotas’ dizem em voz alta que é doce morrer pela Pátria, mas em segredo reconhecem que é mais doce viver para ela e à custa dela”.
No meu artigo anterior, “Vandalismo”, lembrei que os indivíduos que ocuparam Brasília por um dia, pareciam estar acobertados naquela ação orquestrada com táticas de estado maior pelo governo do Distrito Federal e outros agentes públicos.
Repito, a invasão, depredação e saque dos símbolos da República Democrática, foi treinada, financiada, vazada nas redes sociais e detectada por órgãos federais de inteligência.
Para os que se revoltaram com o desatino dos inconformados com a derrota do seu candidato, lembro uma homilia natalina do papa Bento 16, recém falecido, onde ele pregou o entrelaçamento da graça e da liberdade, o entrelaçamento do apelo e da resposta, advertindo que um homem sozinho, mesmo com a maior boa vontade, nada pode fazer.
Então compartilhemos pela união pela Democracia dos brasileiros de qualquer crença religiosa, princípio político ou ideológico, numa comunhão espiritual que ponha a Pátria no caminho do futuro, pela paz, justiça social e desenvolvimento econômico.
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VÂNDALOS
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
“O discurso do contra, é eficaz no barulho e no vandalismo” (Nino Carneiro)
Após os criminosos eventos terroristas na capital da República, com depredação e saques do patrimônio público, vê-se uma segunda contribuição da extrema direita para consolidar o poder do seu adversário empossado na presidência da República. Da primeira vez, elegeram Lula graças ao extremismo para fascista e a política necrófila do negativismo na pandemia do ex-capitão Bolsonaro.
O crime perpetrado também calou os liberais do Centro e da Centro-esquerda que iniciavam uma oposição democrática e vigilante ao novo governo, pela lembrança das administrações anteriores corruptas.
As ações da direita extremista, inconformada com a derrota eleitoral sofrida pelos próprios erros, fracassaram graças a uma poderosa unidade nacional em defesa do Estado de Direito, na certeza de que os tresloucados agiram supostamente orientados por agentes estrangeiros importados do trumpismo norte-americano com a intenção de derrubar o governo legítimo.
A mídia os chama de vândalos. O que é um vândalo? A palavra dicionarizada é um substantivo masculino, originário da antiga língua alemã “wandeln”, que chegou ao latim como “vandalus(la)”, designando o indivíduo dos vândalos.
Os vândalos eram tribos germânicas do Norte que se unificaram para resistir às invasões romanas e, fortalecidos, moveram guerras na Europa, ocupando e devastando a região ibérica de Alandalus. Da Península Ibérica atravessaram o Mediterrâneo e atacaram a África do Norte estabelecendo-se em Cartago, cidade fenícia ocupada pelos romanos na segunda Guerra Púnica.
Chamados de bárbaros, os vândalos invadiram e saquearam Roma no ano de 455, onde depredaram parte da cidade antiga, demolindo monumentos e destruindo inúmeras obras de arte e livros. Ficou marcada a sua característica de devastar as nações invadidas, destruindo, incendiando e dilapidando bens públicos, coisas belas, valiosas e históricas.
Os indivíduos que se apoderaram de Brasília por um dia, acumpliciados com o governo do Distrito Federal e agentes públicos, travestiram-se de vândalos antigos e realizaram um violento ataque aos poderes republicanos, degradando as sedes do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto.
Com esta ação habilmente orquestrada com táticas de estado maior, deixaram a memória da depredação e do saque do patrimônio público. A invasão aos símbolos da Democracia brasileira, foi treinada, financiada, vazada nas redes sociais e detectada por órgãos federais de inteligência.
Foi, porém, subestimada pelo Governo Lula; sem assessoramento, o ministro da Justiça Flávio Dino aceitou como verdadeiras as informações do governo do Distrito Federal; mas para vitória da Democracia, o golpe fez o inverso do que planejado; em vez de tomar o poder, fortaleceu o presidente Lula da Silva.
O impacto da barbárie praticada teve a sua força e violência provocando uma reação vigorosa dos integrantes dos três poderes republicanos com um maciço apoio dos defensores da Democracia de todos os matizes políticos e ideológicos.
As exceções ficaram restritas aos filhos de Bolsonaro, aos militares da reserva que perderam as boquinhas e à horda de fanáticos amedrontados pelo fantasma do comunismo, pesadelo que só existe nas cabeças tolas, como previu o próprio Marx n’ O Capital.
Esqueci o autor de um juízo e que volta agora pelas cenas destrutivas de Brasília. É mais ou menos assim: “Um vândalo é pior do que um ladrão, o ladrão rouba alguém e deve ser condenado pelo que fez; o vândalo saqueia e destrói o patrimônio de uma comunidade, e é abominável”.
Para os que têm dúvida, o que é muito salutar, peço que abram as cabeças para receber a aragem da realidade; e admitam que o que ocorreu é imperdoável. Serviu apenas para fortalecer um governo que merece pela experiência anterior uma ampla e permanente vigilância oposicionista.
CONSTRUÇÃO
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
“Por imprescindível ao edifício em construção o trabalho deve prosseguir apesar do sofrimento que se mistura ao cimento” (Inspirado em Vinícius de Moraes)
Não é preciso filosofar para concluir que não se pode construir um arranha-céu sobre areia movediça ou num pântano. A engenharia já encontrou soluções para outras situações de risco, inclusive para enfrentar terremoto, mas para estas duas possibilidades, não.
Trata-se de uma metáfora para levarmos ao campo político, onde é impossível fazer-se uma boa administração com desonestidade e incompetência…. Não se atende a Nação fazendo do governo capanga de idiossincrasias pessoais, como alertou Ulisses Guimarães.
Nem mesmo governar democraticamente com esquerdismo e economismo para acender uma vela aos ruralistas e outra vela para os assalariados. Com isto, deixa-se as classes médias como os mariscos no choque entre as ondas do mar e os rochedos da costa.
Àqueles que se dizem socialistas deveriam aprender o que V. I. Lenin alertou. dizendo que “o esquerdismo é a doença infantil do comunismo” e o “economismo” é uma forma de oportunismo para a realização de políticas populistas.
O Estado Democrático de Direito fica longe disto. Outro dia o ex-dirigente do partidão, Roberto Freire, atual presidente do Cidadania, alertou ao Governo Lula sobre a experiência negativa de desprezar o Mercado, um dos motivos da derrocada da URSS….
Entretanto, vê-se a influência nefasta dos “esquerdistas” tentando aplicar a sua defasagem em tempo e espaço, desconhecendo a nova realidade brasileira e desprezando a frente ampla que elegeu Lula. Incitam uma presença hegemônica do PT envelhecido, como se vê pelas as múmias que circulam nos corredores do poder.
Parece não preocupar essa fração petista a troca dos valores do governo fascistóide e negacionista que caiu pelo voto popular, e não pode desconhecer que a eleição teve um quase empate entre os dois candidato. Com isto, precisa admitir que só o PT com os seus puxadinhos não venceria a eleição.
Do outro lado, os protagonistas da “Frente Ampla”, ainda não esboçam reação contra a tentativa hegemônica dos “esquerdistas”, excetuando-se os discursos de posse de Marina Silva e Simone Tebet nos ministérios; o Centrão é incobrável pelo mercenarismo, e Geraldo Alckmin, deslumbrado, cala e consente.
É preciso que o Centro e a Centro-esquerda sejam coerentes e se manifestem sem medo, pois os extremismos de direita e de esquerda se assemelham e são sempre minorias. Lembre-se que o extremismo direitista foi a principal causa de derrota de Bolsonaro que, ignorante e ensimesmado, adotou assessorias ilógicas, desprezando os movimentos sociais e impondo o negativismo necrófilo na pandemia como política de governo.
Pela opinião generalizada da maioria do povo brasileiro, a defesa da Democracia e do liberalismo econômico recebe apoio amplo, geral e irrestrito. Esta defesa popular se multiplica e se enraíza como o Cajueiro de Pirangi, no Rio Grande do Norte. São grandes galhos que se prendem à terra e dela recebem o humo necessário para expandir a sua fronde e sua sombra.
Como reconhecer a verdade é meritoso, reconheçamos que nem todo petista sofre o mal do extremismo esquerdista e nem todos os auto assumidos bolsonaristas se nivelam com os fanáticos acampados na porta dos quarteis.
Do discurso de posse de Lula dizendo que “quero governar para os 217 milhões de brasileiros”, depende a construção do futuro do País, contanto que receba o apoio real dos seus companheiros de partido, mesmo mantendo a luta interna pela ascendência, cargos e privilégios.
Pela Pátria, precisamos ouvir os brasileiros de quaisquer partidos ou religiões, que adotem ideologias diversas e se apresentem como cidadãs e cidadãos de qualquer cor, gênero ou idade. Que todos discutam um projeto político e social obedecendo ao princípio de Milton Friedman que reza: “A sociedade que coloca a igualdade à frente da liberdade irá terminar sem igualdade e liberdade”.
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JORNALISMO
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.bra
“Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data” (Millôr)
Com uma breve História do Jornalismo, tento chegar ao que fazem hoje em dia os jornalistas mundo afora e particularmente no Brasil. Tenho credenciais para fazê-lo porque nos meus 89 anos (completo 90 em julho) exerço a feitura de jornais a mais de 70 anos….
Comecei criança com dez ou 11 anos, junto com a minha irmã Lúcia, já falecida, e com a ajuda da nossa mãe; fazíamos um jornalzinho manuscrito que circulava nos 48 apartamentos do edifício em que morávamos. Chamava-se “Folha da Glória”.
Depois editei periódico datilografado no colégio e, na escola técnica, por um mimeografo a álcool. Na faculdade, um avanço; usei o mimeógrafo elétrico…. Quando fui trabalhar em jornais, exerci a composição tipográfica e cheguei ao offset.
O jornal é um veículo de informação. Os manuscritos vêm de tempos muito antigos. Registra-se o primeiro no Ocidente criado por Júlio César (100 – 44 a.C), “Acta Diurna”, circulando 12 exemplares, distribuídos um a um para o Senado e para os governos provinciais.
Em 713 d.C., circulou em Pequim (China), um boletim intitulado Kayuan e mais tarde, também na China, circulava entre 713 e 734 já composto em tipos de madeira o Kaiyuan Za Bao (Boletim da Corte) da Dinastia Tang.
Os tipos chineses de madeira chegaram na Europa no século 15 do Calendário Gregoriano como uma “invenção” de Johann Gutenberg, moldados em chumbo e cobertos levemente de tinta, eram repassados numa prensa de madeira e impressos em papel.
Como anteriormente tudo era escrito à mão, exigia-se o trabalho de escribas caligráficos profissionais, levando uma enormidade de tempo. Na época, a maior biblioteca inglesa, da Universidade de Cambridge, possuía apenas 122 livros.
Pela técnica gutemberguiana de impressão foram editadas em menos de um mês cerca de cem bíblias com exemplares que ainda existem; um deles encontra-se na Biblioteca do Congresso em Washington.
Imagine-se a revolução abrangente que ocorreu. Iniciou-se uma nova realidade com os jornais de grande tiragem atendendo à economia, política e religião. Registra-se como primeiro jornal impresso o “Relation aller Fürnemmen und gedenckwürdigen Historien” editado por Johann Carolus, em 1605, circulando em Estrasburgo.
Daí em diante a imprensa escrita se firmou como um meio majestático da informação, mas entrou em decadência e a sua importância caiu devido às novas tecnologias, rádio, televisão e internet. Em virtude deste definhamento, o jornalismo ganhou novas formas de expressão.
Entre os atributos de atração da imprensa escrita pelo talento de jornalistas vocacionados, amadores e profissionais, tínhamos o jornalismo investigativo, que persiste em pequena escala nas ondas do rádio e praticamente inexistente na Televisão, salvo em alguns poucos programas.
A reportagem especializada não se limitava a desvendar crimes e fatos escabrosos, mas principalmente trazia à luz o que o poder político queria esconder. Os exemplos mais notáveis da investigação jornalística estão registrados com a publicação pelo jornal francês L’Aurore do “Acuso”, de Emile Zola, no século 19; e mais recentemente com o caso Watergate divulgado pelo Washington Post.
Hoje constatamos a derrocada dos jornais impressos que leva com isto a queda da qualidade do jornalismo tradicional, e perde a importância que possuía até o século passado.
… E quando o jornalismo foi levado para os veículos auditivos e visuais, perdeu a magia que atraía os antigos leitores. A leveza do texto e a confiança depositada no jornal foram trocadas pela linguagem direta do deboche, da galhofa e a conversão da veracidade do fato pelo sensacionalismo.
Na telinha, desapareceu a reportagem que descobria fatos ocultos e os levava ao conhecimento público. A principal rede de televisão brasileira, o Sistema Globo, tem somente uma meia dúzia de três ou quatro repórteres “amestrados”, para dezenas de “comentaristas” que repetem dia e noite mesmices óbvias.
Seus canais de televisão omitem as falcatruas anteriores do presidente Lula e nada encontraram de concreto sobre o anunciado, ensaiado e transparente golpe tramado pelo capitão Bolsonaro e seus filhos….
Assim, os “watergates” tupiniquins passam ao largo dos “analistas globais” e é impensável encontra-los nas demais emissoras, aparecendo apenas de viés algumas observações “à moda americana”, pela CNN…
Diante disto, dá vontade de parodiar Guizot dizendo que “quando o varejo da politicagem chega às redações, o jornalismo vai para a sala da publicidade ou passa na contabilidade…
ESPERANÇA
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
A esperança é uma arma poderosa e nenhum poder no mundo pode privar-te dela” (Nelson Mandela)
Chega o Ano Novo, o 2023 do calendário adotado no Ocidente por iniciativa do papa Gregório XIII. Traz consigo a Esperança de dias melhores atendendo os sonhos de cada um de nós, e, coletivamente, por um mundo mais humano, de Paz e Justiça Social.
No Catolicismo Romano é uma das três virtudes teologais, Fé, Esperança e Caridade; e para o laicismo, a Esperança é o sentimento pessoal que exprime a ansiedade de se obter algo, ou um resultado positivo para solucionar problemas individuais.
A esperança é um ato de fé, dispensa raciocínio. Infelizmente, nas religiões onde o machismo pondera temos Eva, na judaico-cristã, que segundo a Bíblia apossou-se do fruto proibido e convenceu Adão a comê-lo, cometendo o pecado original e trazendo a desgraça da humanidade.
Do mesmíssimo jeito, a Mitologia Grega nos traz Pandora, a primeira mulher, criada por Hefesto e por Atena às ordens de Zeus, e a descreve também como origem e causa dos males do mundo.
É por demais conhecida o mito hesiódico da Caixa de Pandora; mas não custa relembrar: “Convencido por Epimeteu para castigar Prometeu, que roubou o fogo do céu e deu-o aos homens, Zeus ordenou aos deuses que levantassem todos os males do mundo.
“Assim foi feito, e foram colocados dentro de uma caixa a astúcia, a discórdia, as doenças, contendas, guerras, inveja, miséria, morte, ódio, orgulho, pobreza e vícios, entre outras coisas; entretanto, por acaso, como sem querer, caiu no estojo uma coisa positiva, a Esperança.
“Zeus incumbiu Pandora a levar consigo a encomenda, recomendando-a para não abrir a caixa em qualquer circunstância; mas a curiosidade da mensageira falou mais alto e ela abre-a, libertando assim os males até então desconhecidos pelos homens. Arrependida, apressa-se a fechar a caixa e dessa maneira deixa no fundo dela a Esperança.”
É por isto, contra a vontade do deus vingativo, que apesar das desgraças caídas na terra, foi dada à humanidade uma maravilha no presente de Prometeu: a Esperança.
Como verbete dicionarizado, “Esperança” é um substantivo feminino, e flexões do verbo esperançar no presente do indicativo, e na 2ª pessoa do singular do imperativo afirmativo. A origem da palavra é grega “Elpis”, significando a confiança de que coisas boas virão; e do latim temos o verbo ‘Sperare”, crença de que um desejo se torne realidade.
Com a frieza característica, Victor Hugo escreveu que “a esperança seria a maior das forças humanas, se não existisse o desespero”. Esta triste realidade nos acompanha numa sala de espelhos de parque de diversões pensando em ilusão de ótica….
Entretanto, nem mesmo as pessoas descrentes de tudo, na sua incredibilidade, não conseguem remover de sua mente uma expectativa, e do seu coração um sonho. Isto faz parte da natureza humana.
Entre nós, o rei do futebol, Pelé, na esperança de ser julgado no futuro, nunca se desmentiu quando disse que “o brasileiro não sabe votar”. Eis que agora ficou mais claro do que água de esgoto com os eleitores se vendo diante da polarização dos populismos da direita e da esquerda, aceitando-os….
Para nosso consolo, o Bhagavad Gita, livro sagrado do hinduísmo, nos dá uma lição para manter a esperança, aconselhando que “volta teu rosto sempre na direção do sol, e então, as sombras ficarão para trás”.
É o que penso seguir, olhando o sol e carregando comigo a esperança como bagagem, junto com dois companheiros e companheiras de viagem no caminho da vida, o otimismo e a confiança.
Que 2023 venha pintado com o verde da esperança e não o verde-grama para o gado pastar, nem o verde oliva de alguns militares politiqueiros que renunciam ao juramento de que a verdade é um símbolo da honra militar e acoitam o terrorismo…
PRESENTES
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
“Se lhe derem como presente um “cavalo de Tróia” desmanche-o e torne a fazer dele um navio”
(Janes Fidélis Tomelin)
Nos solstícios festejados milenarmente, o de Inverno no hemisfério norte e o do Verão no hemisfério sul, adotados pelo cristianismo como a festa da natividade de Jesus Cristo, a finalidade ritual e religiosa se faz presente com bebedeiras, comilança e troca de presentes.
Sem uma explicação na Sociologia nem na Teologia, as divindades ficaram num segundo plano. Bebidas e comidas são como coceira, para muitos basta começar para se coçarem…. a troca de presentes é coisa que ocorre em círculo restrito.
Não sei se é uma jaboticaba brasileira, mas aqui se institucionalizou a troca de presentes em grupos sociais, escolares, empregatícios e familiares numa brincadeira conhecida como “Amigo Secreto”.
O verbete “Presente”, dicionarizado, é substantivo e adjetivo de dois gêneros, uma palavra de etimologia latina “praesentia”, que expressa algo que está ao alcance de alguém.
No nosso idioma, os adjetivos significam o que existe ou acontece no passado, presente ou futuro; e, como substantivo, é uma doação, a dádiva de um objeto como prova de afeto ou respeito. Figuradamente, é qualquer coisa que se concede.
Ao contrário do Presente que comprova afeto, altruísmo, beneficência e lembrança, a História registra-o como exemplo de traição, com Homero descrevendo a guerra de Tróia nos livros “Ilíada” e “Odisseia”.
Homero foi, todavia, muito sucinto; depois dele, outros escritores detalharam a tática traiçoeira dos gregos; desmanchando um navio, fizeram com as tábuas um enorme cavalo e simulando uma rendição e recuo no cerco à Tróia, ofereceram o artefato como presente ao rei Príamo, postando-o na porta da fortaleza.
A estatuária era oca, escondendo no seu interior um comando militar preparado que, uma vez dentro das muralhas, abriria os portões da fortaleza permitindo a invasão inesperada que facilitou a conquista e a destruição da cidade.
Embora admitindo que a guerra tenha realmente ocorrido como foi descrito pelos antigos, alguns registros sobre Troia consideram que o famoso cavalo é uma lenda, alegando que “cavalo” era uma máquina de guerra, o aríete, construído na forma do animal.
A história, fantasiosa ou não, deu ao mundo a expressão “cavalo de Tróia” aplicada na Internet, usada na computação como “Trojan horse”, ou, simplesmente “trojan”, um malware que engana os usuários sobre sua verdadeira intenção. Há inúmeros tipos de trojan; e malware classifica todo tipo de software malicioso que causa prejuízo.
Assim, “Cavalo de Troia” sempre significa alguma coisa que parece bom a princípio, mas depois se revela ruim. Esbarramos com ele muitas vezes ao longo da vida, seja iludindo nossos sentimentos seja traindo a nossa confiança em pessoas em que acreditamos.
Ocorre comumente com personalidades políticas a quem delegamos nossa representação nos círculos decisórios, tanto executivos como magistrados e parlamentares.
Não há um presente de grego mais exemplar do que após votar em Jair Bolsonaro confiando no seu discurso contra a corrupção e vê-lo depois combater a Operação Lava Jato para blindar os filhos das “rachadinhas”.
A corrupção bolsonarista, infelizmente, deu-nos outro trojam, ao ver Sérgio Moro, eleito senador, trair seus eleitores escolhendo um entre dois corruptos, apenas por questão pessoal.
A aparência enganosa do discurso populista não nos ilude mais. Não são socialistas, nem conservadores, são apenas disfarces. A nossa independência exige permanente vigilância para impedir qualquer simulacro de Cavalo de Tróia como o presente que Bolsonaro nos deixou, o terrorismo praticado por milícias fanatizadas, simulacro da farsa do Rio Centro….
Por isto acompanhamos a observação de Janes Fidélis Tomelin, dizendo que: “se lhe derem como presente um Cavalo de Tróia, torne a fazer dele outro navio. E navegue com altivez.
FUTEBOL
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
“Não podemos esquecer de agradecer aos companheiros. Eles são sempre o mais importante.…” (Lionel Messi)
Nos primeiros anos de minha formação intelectual ensinaram-me em casa e me admoestaram na escola, que futebol, religião e a “vox populi” não se discutem; agora, após contornar o Cabo da Boa Esperança nos meus 89 anos bem vividos, resolvi quebrar esta regra.
Como escrevi anteriormente um artigo sobre Religião, venho agora discutir Futebol, como mais adiante escreverei sobre a opinião pública, que, a princípio, considero uma farsa midiática. Aquilo que modernamente chamamos de fake news….
Mal saídos do torneio mundial de futebol da FIFA e do emocionante encerramento com o jogo final entre a Argentina e a França, conclui que vale a pena falar sobre o fracasso da seleção brasileira no Qatar na Copa que consagrou Messi como o melhor jogador da atualidade.
Da minha parte, aliás, não vi uma Seleção Brasileira e sim a seleção europeia de Tite, que desprezou os craques revelados no Brasileirão e na Copa do Brasil, principalmente atletas do Flamengo e do Palmeiras. A seleção de Tite só enxergou valor nos passes dos que jogam no Exterior, garantindo-lhes uma cotação maior.
Não sei porquê. Seria uma demão aos donos de passes ao mercado da cartolagem? Ou, simplesmente, o “técnico” se iludiu com a performance individual dos convocados nas equipes dos clubes da Alemanha, Espanha, França e Inglaterra?
Analisando a atuação em campo, não considerei que a desqualificação foi surpresa. Ao contrário, critiquei desde o início as convocações para a Copa2022, e pouco ouvi opiniões iguais à minha nas redes sociais e muito menos entre os comentaristas da mídia especializada.
Na verdade, apenas assisti e ouvi badalações para Tite e a sua seleção; umas levadas por empatia e outras mantidas pelos mercenários pagos pelos cartolas da CBF. O que é inegável e irrefutável, é reconhecer que para um jogador rico, pouco importa ganhar ou perder um jogo.
Por pura idiotia política e partidária discutiu-se apenas a participação de Neymar – um dos poucos merecedores da vaga, privilégio que divide somente com mais dois ou três colegas. Coisa de fanáticos imbecilizados que dividem o Brasil em duas bandas (ou seriam dois bandos?) de analfabetos políticos assumindo-se como “de direita” e “de esquerda”.
Daí se tira o exemplo trágico da atuação de grupos extremistas que atuam sob a orientação de dirigentes partidários, líderes de fancaria e dos imutáveis parlamentares do Centrão, sempre reeleitos pela compra de votos com o dinheiro dos fedorentos fundos partidário e eleitoral.
Assim, noves fora os cartolas do futebol e da política, o que temos é um rebanho de ovelhas tosquiadas mugindo favoravelmente às figuras midiáticas criadas para influenciar e formar a “opinião púbica”.
O exemplo do Qatar nos estimula a invejar os representantes de Camarões, da Croácia, da França e do Marrocos, que jogaram com entusiasmo patriótico e amor à camisa, itens que pesaram fortemente na vitória dos argentinos.
Anteriormente (nos bons tempos de Pelé, Romário e Zico!), assistimos às exibições das antigas seleções brasileiras com uma disposição como aquelas, mostrando-se diferentes da que nos representou na Copa2022. Será fastigioso enumerar os demais jogadores da Canarinho que jogaram com garra para conquistar a glória. E muitos deles ascenderam ao Olimpo dos craques mundiais.
Jamais veremos a mesma coisa entre os milionários que jogam lá fora – com as raras exceções que a regra nos obriga -; em sua maioria, porém, quando acendem uma vela consagrada à Pátria, fazem-no porque algum fabricante do círio financiou….
Este desabafo tenta mostrar que o futebol dos cartolas é diferente do futebol do povão. Eles, os “donos da bola” fingem praticar um regime vegano, mas, às escondidas, degustam bifes folheados a ouro…. Nós, torcedores da Geral, ao rés do campo, continuamos famélicos por um time nascido nas bases como a fumaça sai do braseiro.
“RELIGIÃO”
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
“A escuridão não pode combater a escuridão; só a luz pode fazer isso. O ódio não pode combater o ódio, só o amor pode fazer isso” (Martin Luther King)
Defendo que cada pessoa pode adotar a religião que quiser. Pode adorar o sol, reverenciar o trovão, curvar-se diante da Shiva linga, dos deuses mitológicos, de Buda, imagens de gesso ou o deus único da bíblia judaico-cristã. Para mim. pouco importa. Desde que tenha fé. Isto é o que vale.
Religião é um tema que não pode, nem deve ser abordado levianamente; e também não é fácil de argumentar corretamente. Enfrentando a complexidade e a contraversão, aqui estou porque fui provocado nas redes sociais por alguém que me encarou pelas críticas que faço sobre a mistura de religião e política.
O interlocutor perguntou-me porque entro no assunto se já me declarei agnóstico; diz que se não tenho religião deveria calar-me. Respondo-lhe então que mesmo sem compartilhar, sigo mais de uma dezena delas, entre as 10 mil religiões registradas mundo afora….
Religiões orientais à parte, vou observar o cenário passado do cristianismo, religião que cobre 73% dos habitantes do convencionado Mundo Ocidental.
Dicionarizado, o verbete “Religião” é um substantivo feminino significando a crença na existência de um deus ou deuses. A palavra vem do latim “religio”, traduzida como “respeito pelo sagrado”; derivou o verbo “religare”, aproveitado por Agostinho de Hipona, doutor da Igreja e depois santo, quando apelou para os católicos voltarem-se para os antigos princípios cristãos.
Santo Agostinho enfrentou uma época (século 14) em que ocorreram muitos desastres políticos e naturais e o papado sofria pontuais críticas pela degenerescência eclesiástica e a cobrança de indulgências, uma espécie de ingresso dos pecadores para as delícias celestes….
Para chegar ao catolicismo romano a História ensina que antes de conquistar o poder em Roma, Aulo Cornélio Celso, médico e enciclopedista, um dos principais críticos do Cristianismo (25 a.C.-50 d.C.), referiu-se aos cristãos como “(Eles) só sabem ganhar os ingênuos, as almas vis e imbecis, dos escravos, dos pobres, dos falidos, das mulheres e das crianças….”
Mais tarde, quando o cristianismo primitivo se tornou maioria entre os romanos, foi absorvido pelo imperador Constantino, transformando-se em religião imperial e passou de perseguido a perseguidor. Com o apoio do Estado, os bispos incentivaram o assalto aos templos dos antigos deuses, mas, contraditoriamente, adotaram os símbolos e as festividades dos cultos “pagãos”, num sincretismo político e não doutrinário.
Dominando por dogmas (infalíveis!), a Igreja Romana continuou declarando-se monoteísta, embora adorando uma tríade, um deus constituído pelo Pai, o Filho e o Espírito Santo, além de um sem número de santos verdadeiros ou falsos….
“Esqueceu” que os antigos cristãos viam o Cristo como o anti-César; que eram idólatras, e reagiam contra o fausto das classes dominantes. A doutrina seguida pelas mulheres, escravos, servos e soldados, adotava a crença de que “é mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus” ….
Porém, ao conquistar o poder, tempos depois, a Igreja Romana abandonou esses princípios originais, igualando-se, ao meu ver, às outras religiões formadas de acordo como descreveu o filósofo e escritor francês, Ernest Renan, dizendo que “basta uma dúzia de frases eloquentes e fogos de artifícios para se fundar uma religião no Oriente”.
Nos Estados Unidos, se dispensam os fogos; bastam as palavras e o carisma do doutrinador, e elas se multiplicam; e, no Brasil, é preciso apenas o apoio de um parlamentar e verbas públicas para abrirem-se as portas de um templo evangélico, doublé de comitê eleitoral.
É muito triste constatarmos tal coisa. Mas é verdade: confira-se o número de pastores evangélicos politiqueiros, alguns deles com mandato parlamentar pregando uma política de ódio pelas redes sociais.
Graças a isto, os intérpretes dos jogos de búzios, baralho e tarô; os falsos médiuns das fórmulas mágicas para conquista do amor, os leitores das linhas da mão e redatores de horóscopos, têm entre o povão tanta confiabilidade quanto os que fazem política em nome da religião.
Igualmente, por esta mesma razão, vemos o aumento demográfico dos que se identificam sem nenhuma religião, os ateus e os agnósticos. Escrevendo sobre a ciência e a religião, Albert Einstein disse que “A ciência sem religião é aleijada e religião sem ciência é cega”. Sem dúvida, quando se vê religiosos serem contra as vacinas, assiste-se vê-los jogar no lixo a espiritualização básica do amor ao próximo.
FANATISMO(2)
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
“Do fanatismo à barbárie não há mais do que um passo” (Denis Diderot)
Poucos entre pensadores célebres (a quem tive acesso pela leitura) não imaginaram que o século 21 trouxesse sob suas asas temporais o ceticismo, a farsa religiosa e a picaretagem corrupta dos líderes políticos.
O que veio foi o contrário. Enquanto projetaram otimistas a chegada de novas gramas de humanismo, vieram toneladas de desamor ao próximo. É isto, infelizmente, o que constatamos: orbita em torno desta época tudo o que é condenado nos livros sagrados de todas as religiões.
Neste quadro funesto temos a volta macabra do neonazismo! Com esta perversidade vem o racismo, o ódio a quem pensa diferente e a xenofobia. Triste é que a obsessão pelo totalitarismo e o culto da personalidade não é um fenômeno limitado aos tolos, filhos da ignorância; abrange todos fracassados sociais levando-os à carona do extremismo para conquistas políticas.
Vemos, assim, principal diferença entre os homens de consciência social e os individualistas fanáticos: os primeiros têm receios, dúvidas e fazem reflexões; os outros agarram-se às convicções irrefletidas. Para os inteligentes, o questionamento; para os fanáticos, o estado de graça da estupidez….
O fanático não consegue elevar-se acima da mediocridade. Como racista, não enxerga o gênio de Charlie Chaplin, vendo-o apenas como um judeu; seu ódio não respeita o sucesso mundial de Oscar Niemeyer por ser comunista; e não guarda admiração pela cultura nordestina com aversão xenófoba.
Ocorre que Chaplin tornou-se eterno pela ternura humana dos seus filmes; que Niemeyer é um patrimônio internacional da arquitetura; e que os nordestinos mostram agora a solidariedade, ajudando os catarinenses assolados pelas chuvas.
Pelo fanatismo estúpido, o prurido da covardia cria uma falsa superioridade sobre os outros. Por isto, os fanáticos moldam esquizofrenicamente à sua maneira, o bem e o mal, o certo e o errado, o justo e o injusto. Convencionam serem os únicos filhos amados do deus que adotam com a sua imagem e semelhança.
Deste jeito, a História que reflete e enaltece os dominantes das épocas, obriga-nos a filosofar sobre o passado e revisando os capítulos fundamentais do tempo presente, para que no futuro seja diferente a História da Civilização que herdamos; porque esta é a história dos conquistadores e não a dos resistentes.
Nas Américas devemos por obrigação repassar a barbárie do massacre dos indígenas nos Estados Unidos e a rapina espanhola destruindo as antigas civilizações asteca e inca pela cobiça dos seus tesouros no México e na Mesoamerica.
No Brasil português não esconder a escravidão indígena e africana nem negar a herança maldita dos privilégios cortesãos e do “jeitinho” típico dos lusitanos, impostos pelas capitanias hereditárias distribuídas aos espertalhões favoritos da corte portuguesa.
O que ocorreu aqui, está resumido no romance Quincas Borba de Machado de Assis: “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”; mas, revisando este conceito, os brasileiros devíamos mandar perdedores e vencedores ao lixo com as cascas de batatas.
Nós, que criticamos o artigo do mesmo título, o fanatismo da seita negacionista do bolsonarismo, devemos obrigatoriamente denunciar o fanatismo lulopetista, omitindo após as eleições as promessas de campanha do Pelegão. Agora, os cultuadores de Lula aceitam a aliança com os picaretas do Centrão; aplaudem a multiplicação dos ministérios para o repasse do butim; apoiam a imoralidade do “orçamento secreto” e a sua infecção gangrenosa, a PEC Fura Teto, o assalto ao bolso do trabalhador para pagar promessas concorrentes das esmolas sociais.
Vemos neste quadro a degenerescência política dos populistas de direita e de esquerda, que, sempre dispostos à corrupção, se defendem sob o guarda-sol de uma legislação de compadrio sobejamente usada pela magistratura ideologicamente comprometida pelo fanatismo partidário.
Nesta conjuntura, temos o dever patriótico de apontar como desastroso, à beira do crime, o culto à personalidade dos políticos, sem considerar suas ambições pessoais. Assim, devemos repetir a pergunta feita pelo escritor e pensador gaúcho Érico Veríssimo: “Porque essa corrida desenfreada atrás do dinheiro, sem consideração pelas pessoas humanas? ”
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