Artigo saído 2ª feira n’O JORNAL DE HOJE
As “moscas” do PT-governo
MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br
Uma das coisas mais irritantes proporcionadas pelos governos militares de 1964 – 1979 foi a espionagem oficial e oficiosa. A oficial se esmerando em aplicar as lições dadas pela CIA e a oficiosa a sabugice dos oportunistas e aproveitadores das sobras do banquete ditatorial. Mas os burocratas do SNI, das CGIs e das ASIs, convenhamos, foram menos danosos para a sociedade do que as “moscas” do PT-governo munidas de cartões corporativos para defender a segurança dos pelegos no poder.
O termo “mosca” aplicado aos dedos-duros do sistema petista vem de longe. Os intelectuais russos criaram-no nos começos dos anos vinte do século passado, pouco depois de vitorioso o partido bolchevista. Homens de esquerda, no mínimo progressistas, começaram a ser vigiados pela Cheka, polícia política criada pela União Soviética para a defesa da revolução e do estado.
A vanguarda intelectual que participou – ao lado de Lênin – do movimento revolucionário, engrossava então o movimento futurista cuja principal figura era o poeta Maiakóvski e se reunia no Café dos Poetas desde os primeiros dias da revolução. Eram moços e idealistas. Tchekhov, Lunatchárski, Marina Tzviétaieva, Pasternak, Fediéive, Ehrenburg, Mandelshtam e Meierchold, para lembrar alguns sobre os quais comentamos outro dia, com Augusto Lula, numa carangueijada preparada por Danieli.
Esta turma acreditou em Lênin quando disse no outono de 1920, que “Se um comunista vangloriar-se do comunismo à base de conclusões pré-estabelecidas, sem um longo, difícil e seríssimo trabalho preparatório, sem ser orientado dentro dos acontecimentos, que ele tem o dever de considerar criticamente, este comunista não seria certamente grande coisa. E a sua presunção seria decididamente ruinosa…”
Os intelectuais russos, tradicionalmente criteriosos na análise conjuntural, passaram a ponderar criticamente a construção do estado soviético. E baseados em Lênin, repudiaram as tentativas burocráticas de enquadrá-los e censurá-los. Pelo comportamento independente passaram a ser espionados. E apelidaram os alcagüetes e delatores de “moscas”. Mais tarde Ilya Ehrenburg contaria no seu romance “A Queda de Paris” que a resistência francesa contra a invasão nazista chamou os colaboradores fascistas de “mouches”, moscas.
É claro que essas figuras execráveis de alcoviteiros nada têm a ver com os espiões clássicos, nem os agentes a serviço dos governos de seus países nem mesmo os que nos mostram os filmes de Hollywood. São até glorificados os superespiões, frios e calculistas ou aventureiros e românticos, como Richard Sorge – que evitou a entrada do Japão em guerra contra a URSS abrindo uma segunda frente como queria Hitler, ou Francis Garry Powers, piloto do avião U-2, derrubado quando sobrevoava e fotografava bases soviéticas na Sibéria.
O dedo-duro é um lixo. Eles agora pululam nas entidades e empresas aparelhadas pelos pelegos. Um amigo meu, ex-petista me garantiu que há elaboradores de relatórios sobre conversas e opiniões emitidas na UFRN, CEFET, Caixa Econômica, Banco do Brasil e Petrobras. Um dos jornalões de São Paulo divulgou semana passada que há um espião do PT infiltrado no diretório nacional do PSDB.
Este estranho no ninho do tucanato é encarregado de repassar aos companheiros assessores de Lula da Silva as conversas reservadas e decisões da direção do PSDB, e assim armar o Palácio do Planalto de poder de contra-espionagem e enfrentar as táticas políticas da oposição. Foi mais ou menos isso o que ocorreu com a CPI dos Cartões Corporativos.
Por outro lado se assegura que também existe um penetra nos círculos dirigentes do PT e do Palácio do Planalto responsável por transmitir aos tucanos planos e estratégias oficiais, municiando a intelligentsia do partido para enfrentar os adversários governistas. Eu não duvido nada disso, considerando que o PSDB e o PT são tão semelhantes em várias coisas que uma a mais ou a menos não espanta ninguém.
Que eles garimpem informações entre si, que as conversas particulares de Lula da Silva com seus ministros e assessores cheguem aos ouvidos de Fernando Henrique e seus cupinchas, e que a recíproca seja verdadeira, Lula e os companheiros recebendo informações de cocheira dos seus opositores, tudo bem. O que deve ser condenado é a espionagem sobre o cidadão comum. É intolerável, por antidemocrático, que por dedurismo um técnico da Petrobras não seja promovido ou seja negada uma bolsa de estudo para um professor universitário por causa de suas opiniões.
O pior ainda é saber que essa alcagüetagem seja patrocinada com os cartões corporativos. São 11.510 servidores públicos detentores desse privilégio às custas de recursos do Tesouro Nacional. Eles sacam dinheiro em espécie na boca do caixa eletrônico sem obrigação de prestar contas a quem quer que seja. Por uma questão de “segurança nacional”.
Não é por acaso, pois, a reação violenta do PT-governo contra as investigações sobre o uso dos cartões, onde prevalecem os gastos pessoais de motorista, reitor de universidade, servente, moto boy, general, ministro e assessor parlamentar. Nós compartilhamos da posição daqueles que acham que tudo deve ser investigado e que se Lula fosse um estadista baixaria um decreto acabando com as verbas secretas e, conseqüentemente, com a espionagem barata dos aparelhados.
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