Artigo publicado n’ O JORNAL DE HOJE

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República dos Pelegos: táticas e estratégia

MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail:
mirandasa@uol.com.br

Não sei o porquê do espanto da oposição diante do pacote que aumenta os impostos, nem a descoberta tardia que os grandes jornais fizeram da prodigalidade de Lula da Silva editando no apagar das luzes de 2007 uma série de medidas eleitoreiras, principalmente a que estende o Bolsa Família dos dependentes de 15 anos para a rapaziada de 16 e 17 anos, isto é, dos prováveis eleitores das eleições municipais deste ano.

A imprensa provinciana nem chegou perto desse achado e também não noticiou o bem arquitetado adiamento do controle e fiscalização dos repasses da União – R$ 140 bilhões anuais – para estados, municípios e organizações não-governamentais. Principalmente das ONG´s, sob inquérito no Congresso Nacional por alcances nas verbas públicas.

Há também indícios do empenho de R$ 5,3 bilhões -16% do total em 2007- em projetos com apelo eleitoral. Evidentemente sem se comparar em conveniência com a extensão do Bolsa Família. Já está mais do que provado que este programa não propicia a libertação dos seus beneficiados da pobreza, mas tem uma função eleitoral impressionante, sendo a causa fundamental da popularidade de Lula da Silva, como se vê nos mapas da última eleição presidencial e nas pesquisas de opinião pública.

Arrepia-se a oposição e estimulam-se manchetes dos jornalões as táticas da República dos Pelegos, cuja estratégia é a manutenção do poder, seja com a vitória quase impossível de um candidato petista ou – e não é de se descartar – por um golpe continuísta que dê um terceiro mandato a Lula. Mas essas entidades fiscalizadoras podem mudar o quadro eleitoreiro do lulismo-petismo assestando a mira para o fato de que no caso da distribuição de bens, valores e benefícios caem na rede da legislação eleitoral, particularmente da Lei nº 11.300, de 2006.

E outra irregularidade flagrante é aplicar a extensão do Bolsa Família por Medida Provisória, pois se trata de matéria que não se reveste da urgência nem da relevância exigidas pelo artigo 62 da Constituição para contornar o processo legislativo normal.

Já no caso do insulto à opinião pública (porque não dizer agressão?) de um Presidente da República, mentindo descaradamente diante das câmeras de televisão como fez Lula da Silva, é imperdoável. Ele afirmou “que ninguém faria a loucura de aumentar impostos”, coisa que fez uma semana depois, aumentando o IOF e a CSLL. Com isso, queiram ou não queiram os jornalistas chapa-branca e os intelectuais orgânicos, joga-se por terra a credibilidade de Sua Excelência.

Na vasta e multifacetada sociedade brasileira ainda existe quem acredite no Pelegão; mas os observadores honestos e independentes da cena política de há muito não confiam em nada que vem do lulismo-petismo e do próprio Presidente. Para quem tem ouvidos de ouvir, promessas da República dos Pelegos são riscos n’água. É pena que a oposição tucana também não seja confiável, fazendo vista grossa sempre que os atos governamentais lhes são convenientes; sua contribuição para a derrota da CPMF, embora oportuna e respeitável, foi peculiar.

No caso da DRU foi decisiva a influência do PSDB na sua aprovação. Será que Arthurzinho Virgílio acreditou na palavra de Romero Jucá? Não. Caiu, como Cristóvam Buarque, no logro do acordo proposto pelo PT-governo para a aprovação da DRU. O tucano acreditou na promessa de que não haveria aumento de impostos e o pedetista na “emenda” que destinaria 10% da receita federal para a Educação.

Nem Arthuzinho nem Cristóvam são inocentes. Ambos confiaram nos agentes do lulismo-petismo porque quiseram, não sei a troco de quê. Porque nada tem de surpreendente a chegada do pacote rejeitado publicamente; e pior ainda, com a justificativa cínica do ministro Mantega dizendo que o acordo só vigorava em 2007. Trata-se de uma afirmação explícita de que não se pode acreditar em Lula nem nos seus pelegos, ministros ou líderes parlamentares.

Doravante nenhum membro da oposição poderá fingir que acredita nos ajustes acertados pelo PT-governo. Vêm aí as votações do Orçamento e das medidas provisórias dos aumentos tributários e da ampliação do Bolsa Família. Vamos ver como se comportarão os maridos enganados: se assumem os chifres ou partem para outra relação estabelecida pela lealdade.

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