Artigo saído 2ª feira n’ O JORNAL DE HOJE
Eu queria ser uma mosca brasiliense
MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br
Entre os povos martirizados pelas ditaduras sempre surge a figura execrável das “moscas” – espiões que participam de reuniões associativas, conferências, que estão nos quartéis, escolas, sindicatos e locais de trabalho. Nos duros tempos do regime militar a gente chamou-os de dedos-duros, uma qualificação bem brasileira. Na Europa e nos EUA são “moscas”.
É um velho costume petista a espionagem. Usado de forma lúdica entre o professorado universitário – sempre disputando departamentos e cargos na reitoria – e nos sindicatos dominados pelos pelegos. Na Argentina, o peronismo tradicional apelidou esses delatores de “amarrillos”, termo que se espalhou por toda América Latina; e foi na Rússia, logo após a revolução de 1917, que surgiu a alcunha “mosca”. A História (com agá maiúsculo) registra que os intelectuais soviéticos sentindo-se vigiados pela polícia política “Cheka”, batizaram os marreteiros de “mosca”.
Mais tarde, Ilya Ehrenburg contaria no seu romance “A Queda de Paris” que a resistência francesa contra a invasão nazista chamou os colaboradores fascistas de “mouches”, moscas. E esse cognome depreciativo ganhou a França e se espalhou pela Europa dominada pelo nazi-fascismo.
Eu não queria ser uma mosca espiã; queria ser uma mosca inconveniente como aquela de Raul Seixas. Na verdade, queria ouvir os fuxicos da “turma do Dirceu” e da “turma da Dilma” que se engalfinham nos corredores palacianos de Brasília, luta interna do lulismo-petismo que culminou com o vazamento do dossiê com gastos dos cartões corporativos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e da ex-primeira-dama Ruth Cardoso.
Esse tal “dossiê”, ou “relatório”, ou “banco de dados”, conforme a versão fraudulenta dos pelegos no poder é um crime continuado. O vazamento foi a apoteose de uma canalhice que começou com a busca de contas antigas e notas de despesas de FHC e Ruth Cardoso e dos principais ministros do governo tucano, desde 1998. Como é de se esperar, a hierarquia do PT-governo não considera isto crime.
Para o ministro Tarso Genro (da Justiça!) é uma ação política normal e até “correta” para conhecer os erros dos adversários. E dessa maneira os aloprados da Casa Civil fizeram, levantando e comparando os gastos de FHC e os de Lula. O trabalho foi encomendado pela Casa Civil da Presidência da República, depois de pelo menos duas reuniões da cúpula palaciana.
Uma delas, em 8 de fevereiro deste ano, pautou a organização dos dados. Reuniram-se Norberto Temóteo Queiroz, da Administração, Maria de La Soledad Castrullo, chefe de gabinete da Casa Civil e Gilton Saback Maltez do Orçamento e Finanças, sob a coordenação de Erenice Guerra, “unha e cutícula” de Dilma, e José Aparecido Nunes Pires, secretário de Controle Interno. Três dias depois, no dia 11, o informe subiu a nível ministerial, sendo discutido na presença da ministra Dilma Rousseff pelos também ministros Franklin Martins, da Comunicação Social, Paulo Bernardo, do Planejamento, e José Múcio Monteiro das Relações Institucionais.
A visão panorâmica da trincheira levantada contra as denúncias da oposição, que queria uma CPI para apurar a gastança com os cartões de crédito, foi levada a Lula da Silva, que gozava férias no Guarujá. Tendo o Presidente tomado conhecimento do material, as informações secretas da gestão tucana começaram a ser lançadas em planilhas nos computadores da Casa Civil.
Em forma de dossiê, passou a ser distribuído “clandestinamente” entre parlamentares influentes do tucanato como chantagem para refrear pressões pela instalação da CPI. A princípio teve efeito, e a oposição viveu dias de bloqueio. A Comissão só foi instalada um mês depois. Nesse ínterim, a revista Veja publicou bombasticamente os dados referentes a FHC e dona Ruth, informação que repercutiu nos principais jornais do país.
Assim a pirotecnia do dossiê teve efeito contrário. Dona Dilma apresentou cinco versões sobre o fato. Tarso Genro umas três ou quatro. Até o general Jorge Armando Félix, que se pressupõe um homem de formação cívica, foi chamado para abafar as investigações em torno de Lula da Silva e familiares, colocando no rol da segurança nacional as despesas pouco ortodoxas desse pessoal. Por fim e inaceitavelmente o PT-governo insisti que o crime se limita ao vazamento dos dados e não à montagem do dossiê.
Por pressão da opinião pública, depois de muita relutância, a Polícia Federal foi convocada para investigar o caso e o delegado Sérgio Menezes, considerado honesto e tecnicamente eficaz, foi encarregado de levantar o corpo de delito. Ele já solicitou ao Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República os dados da segurança do Palácio do Planalto, a fim de identificar quem entrou e quem saiu do setor da Casa Civil onde foi elaborado o dossiê.
A ação policial prosseguiu com a apreensão de cinco lap tops e dois computadores de mesa, usados pelos seis funcionários encarregados de digitalizar os documentos com os gastos de FHC e Ruth Cardoso. Equipamentos pertencentes a esses funcionários também foram requisitados para verificar se fizeram cópias das informações. Isso tudo está sendo examinado pelos peritos do Instituto Nacional de Criminalística – INC.
Com o Senado Federal criando uma CPI própria para pesquisar os gastos com cartões corporativos, a perícia e a análise da PF deverão ser repassadas aos senadores que, evidentemente, não se restringirão ao vazamento do dossiê. Até lá, os entrechoques da “turma do Dirceu” com a “turma da Dilma” se acirrarão e é por isso que eu gostaria de estar lá, invisível como uma mosquinha, para ver até onde esse pessoal vai.
No jogo de ping-pong dos dois grupos deverá perder o que tiver um dos seus comparsas caído na malha da Polícia Federal. Quando escrevíamos este texto, os suspeitos eram José Aparecido, funcionário de carreira do TCU levado para a Casa Civil por José Dirceu logo que assumiu a pasta em 2003, e Erenice Guerra, secretária-executiva de Dilma. Petistas ligados a Dirceu dizem que foi Erenice que coordenou a coleta de informações sobre gastos da gestão tucana e petistas ligados a Dilma garantem que foi Aparecido quem vazou os dados a parlamentares oposicionistas.
Diante deste cenário de maledicências e rasteiras, dá ou não dá vontade de ser uma mosca na sopa dos comensais do Palácio do Planalto?
Fazendo uma visitinha por aqui.
Depois da uma passada na minha página que eu tenho algo muito bom mesmo, vale apena conferir.
Beijos