Artigo publicado no JH1ªEdição de hoje
Queima de livros em São Paulo prenuncia um golpe
MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br
Está completando 65 anos o aniversário de um dos atos mais sinistros do nazismo: a queima dos livros escritos por marxistas e judeus “ao lado de livros de autores clássicos, e de obras de autores modernos que haviam inspirado o ódio de Goebbles” conforme a memória de Heinrich Fraenkel inserida na biografia do ministro da Propaganda de Hitler.
Foi no dia 10 de maio de 1933 que as galinhas cacarejadoras da Juventude Hitlerista em Berlim e outros centros universitários estimularam a formação de piquetes para invadir bibliotecas públicas e privadas e tirar de lá os livros proscritos. Os volumes foram jogados nas ruas e depois recolhidos para armar uma grande fogueira que seria queimada à noite na Praça Franz-Joseph.
Na cerimônia noturna organizada minuciosamente por Goebbles acorreram à Praça turmas do Partido e da Juventude com tochas na mão oferecendo um espetáculo selvagem, empilhando com fúria ideológica livros na imensa fogueira. Depois, os fascistas ensandecidos dançaram e gritaram animalescamente assistindo a consumação em chamas do extrato da cultura alemã. Shirer no seu livro “Ascensão e queda do Terceiro Reich” faz uma descrição pormenorizada desta cena dantesca.
As chamas iluminaram o centro berlinense enquanto Goebbles discursava no rádio incentivando o banditismo com os slogans “queime”: Thomas Mann, queime, Stefan Zweig, queime, Heinriche Heine, queime, Karl Marx, queime, Sigmund Freud, queime.
Outras ditaduras caricaturaram essas loucuras do nazismo, inclusive as ditaduras militares do Cone Sul e o populismo bananeiro na América Central e no Caribe. Essas fogueiras ideológicas não se apagaram no subconsciente dos neofascistas, como se viu semana passada em São Paulo quando ativistas da Apeoesp, sindicato dos professores paulistanos, atearam fogo em pilhas de plaquetes como protesto contra o novo currículo escolar lançado pela Secretaria Estadual da Educação.
Ecoaram ao redor das labaredas os mesmos gritos. “queima, queima”. A indignação dos pelegos da Apoesp contra a Secretaria de Educação veio num crescendo desde que o órgão divulgou uma pesquisa mostrando que o magistério público estadual registra 30 mil faltas mensais de professores e o novo currículo foi elaborado visando orientar os professores substitutos e estagiários. Eles não perdoaram a radiografia da sua malandragem e, de lambujem, jogaram na fogueira as apostilas que são distribuídas entre os estudantes da rede pública de ensino.
Para a queima das apostilas há a desculpa de que elas são “limitadas ideologicamente” e por isso “incapaz de formar cidadãos”, conforme esclarece o líder da categoria Carlos Ramiro. Foi sem tirar nem por a mesma desculpa dada por Goebbles para tirar de circulação livros adversos ao nazismo, e o paradoxal é que as apostilas são apontadas como responsáveis pelo êxito de escolas paulistas no Enem.
Diante disso é penoso constatar que a queima de livros é mais uma manifestação da vocação totalitária dos pelegos que conspiram golpear a Constituição e impor uma República Sindicalista no Brasil.
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