DAS CORRIDAS
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
O genial Luís da Câmara Cascudo, intelectual norte-rio-grandense, antropólogo e folclorista, que tive a honra de conhecer pessoalmente, registrou a história da corrida entre o Coelho e o jabuti, exemplo da nossa cultura indígena perpassada pela tradição oral.
A narrativa leva ao Festival dos Bichos onde os organizadores programaram a disputa do Coelho e o Jabuti, com o propósito claro de punir a bazófia do cascudo, lento demais, mas exibido.
Percebendo a maquinação contra si, o jabuti, inteligente, resolveu trapacear o rival orelhudo, cuja velocidade na corrida é imensa, conquistada aos saltos; então, reuniu os parentes, todos parecidos entre si, e mandou-os esconder-se espaçadamente ao longo do percurso.
Iniciada a competição, nos primeiros cento e cinquenta metros, o Coelho, grita: – “Jabuti, onde você está?”; e o parente, que se encontrava à frente, responde: – “Estou aqui!”. Então convencido de que o Jabuti está à sua frente, pois a situação se repetia a cada milha, o Coelho acelera cada vez mais, correndo desembestado até ficar completamente exausto e, no final da corrida, o último dos jabutis atravessa a linha de chegada e é declarado vencedor.
Essa lenda tem muitas variações entre diferentes povos indígenas e integra um rico conjunto de histórias em que o Jabuti simboliza a astúcia e esperteza. É uma pena assistirmos o abandono desses preciosos contos proverbiais silvestres, cuja memória precisa ser preservada.
A mitologia dos povos gentios encantou os jesuítas que vieram com conquistadores, e muitas dessas narrativas foram adaptadas como catequese, ressaltando o martírio de Jesus, a vida dos santos e a doutrina católica.
Na corrida do Coelho e o Jabuti, encontramos uma variável necessária para simbolizar disputas. A História da Humanidade registra o exemplo da Maratona, que honrando a sua memória programa corridas realizadas no Rio aos domingos, no Parque do Flamengo.
É outra lenda, que vem das antigas tradições gregas ligadas à Batalha de Maratona ocorrida em 490 a.C., quando os gregos derrotaram os persas. A narrativa traz à cena o general ateniense Milcíades que, após o feito, encarregou um jovem soldado, Fidípides, de levar à Atenas a notícia da vitória; e a missão era urgente, pois havia o temor de que a população pensasse na derrota e abandonasse a cidade.
Fidípides percorreu cerca de 40 quilômetros correndo e, ao chegar, anunciou aos atenienses na Ágora: – “Vencemos!”, e morreu logo em seguida, exausto pelo esforço.
Embora alguns historiadores contestem esse relato, o feito heroico conquistou o Esporte e inspirou a criação da Prova de Maratona nos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna, em 1896. A distância oficial de 42,195 km foi fixada posteriormente, em 1908, tornando-se um dos maiores símbolos de resistência, coragem e superação individual.
Vagueando pela memória histórica das lendas e interpretações presentes na cultura popular dos povos mundo afora, reflete-se uma imensa e rica diversidade que devem ser estudadas, divulgadas e preservadas, valorizando sempre o seu valor proverbial.
É triste, porém, que as corridas realizadas pela politicagem brasileira, revela coisas que nos envergonham, sem a astúcia dos jabutis nem o patriotismo de Fidípides. Mostram infelizmente, a falta de ética dos políticos engravatados, fardados ou togados, que ocupam os andares de cima do condomínio do poder.
Esta situação funesta da nacionalidade nos leva novamente às lendas indígenas, com uma delas inspirando o modernista Mário de Andrade a escrever o clássico romance “Macunaíma – o herói sem nenhum caráter”, publicado em 1928.
A corrida de Macunaíma para obter vantagens sem se esforçar para isto, mostra não somente a sua falta de moral, personifica um indivíduo mutável, sem identidade fixa, trazendo os traços dos ancestrais do povo brasileiro.
“Heróis sem nenhum caráter” nós temos de dar e sobrar. O DNA dos aventureiros, dos degredados e dos favoritos da Corte Portuguesa que aqui se assentaram, compõe os indícios emblemáticos da ambição e o oportunismo praticados na polarização eleitoral da Famiglia Bolsonaro e Lula da Silva, populistas corruptos, covardes, imprudentes e mentirosos, que infelicitam a Nação Brasileira. Chega.
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