Artigo publicado ontem (20) n’O Jornal de Hoje
Ser um Estadista. Esta é a questão
MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br
Perdoem-me àqueles para quem quando Lula da Silva fala o mundo se ilumina, mas acho que em termos de estadista não é bem ele o que o Brasil precisa. Está em uso corrente na imprensa falar-se de que a crise mundial da economia acabou com o “céu de brigadeiro”, os dias azuis em que gerir o sistema econômico era fácil, uma simples conta aritmética de diminuir e somar. Isto ficou comprovado quando saiu Palocci – considerado genial e insubstituível e entrou Mantega tão apagado e cinzento que me lembra Lavrenti Béria na corte de Stálin. O negócio é fazer o que seu mestre mandar: tirar dinheiro das contas públicas e depositar no cofrinho do superávit primário…
Atravessando a inevitável turbulência provocada pela economia interna dos Estados Unidos – que representa 71% no concerto nas nações. – o Brasil é obrigado a deixar para trás os êxitos sem custo ou esforço dos hierarcas do PT-governo. E é por isso que nos faltará um líder com credibilidade para enfrentar as tensões e conflitos fatais nos tempos difíceis.
Recordamos o inglês Winston Churchill que eleito para enfrentar a guerra contra o nazi-fascismo falou ao povo britânico sem demagogia, prometendo-lhe apenas “sangue, suor e lágrimas” para depois, anunciando com orgulho o fim do conflito mundial, dizer: “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”. E no Brasil, que tivemos um marechal Floriano Peixoto diante de um ultimato da esquadra do Império Britânico no litoral do Rio de Janeiro, perguntando como seus marinheiros seriam recebidos, respondeu: “À bala!”.
E Getúlio Vargas, sempre recordado como um autêntico Chefe da Nação, expressando com tino político inigualável a fundação do Estado Novo, pediu ao povo confiança e paciência para enfrentar os dias difíceis na busca de um equilíbrio entre o comunismo e o fascismo; e às vésperas do trágico suicídio escrever: “Saio da vida e entro para a História!”. João Goulart que aparece no noticiário político e mesmo nos primeiros e precipitados textos de história como um homem tímido até de certa forma humilde, convocou o povo para anunciar-lhe em praça pública as reformas de base.
Este conjunto de atitudes e comportamentos mostra homens que exprimiam confiança na condução das instituições nacionais. Quando se fizer necessário o líder deve mostrar que seu governo age para o bem do interesse público a fim de evitar sacrifícios e revelar os meios que dispõe para isto. Não esconder como é e como será enfrentado o problema e as alternativas para resolvê-lo. Evidentemente não é este o perfil de Lula da Silva.
Pelo que tiramos de experiências anteriores, inclusive esta mais próxima do trágico acidente com o Airbus da TAM, ele se ocultou num jogo de esconde-esconde por 72 horas, abalado, dando tempo para a poeira baixar. Recordemos também a explosão das denúncias do mensalão: ele estava no Exterior e fingiu não dar importância ao assunto, elogiando os “companheiros” enterrados até o gogó nas práticas corruptas e corruptoras; ao voltar ao país, se disse traído por eles.
Agora, diante da crise mundial, Lula dá garantias de solidez da nossa economia, com a inflação controlada e quase 200 milhões de dólares guardados no cofre. A situação que lhe foi exposta leva-o de volta ao bravateiro dos primeiros tempos e à presunção arrogante de induzir que tudo se resolve pela esperteza, dizendo inconseqüente que a crise é um problema norte-americano que não afeta o Brasil.
Isto não é sequer uma meia verdade. A situação interessa, comove e já traz prejuízos à economia de milhões de brasileiros e, pelo que se projeta nos círculos especializados poderá se agravar. E é muito pior do que a crise do petróleo que Geisel enfrentou e o apagão energético que surpreendeu Fernando Henrique. Há possibilidade deste ataque externo se tornar mais virulento e não esperará que as soluções se estendam por 10 meses – como a crise da aviação comercial, que se mantém contida apenas pelo discurso espontâneo e irrefletido de Lula.
Os espectros que rondam o PT-governo e este momento grave não se manifestam somente para Lula da Silva e seus incompetentes auxiliares, mas a todos nós. Se ocorrer o pior, todos atravessaremos uma fase difícil de dúvidas e incertezas e isto nos faz lamentar que Lula não seja um estadista. Esta é a questão.
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