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Vale a pena abrir aspas para o grande Ferreira Gullar, intelectual com uma trajetória política e social de respeito nacional. Espero que esta descrição de Gullar desperte muitos broncos à espera de um “estalo” como o que levou o padre Antonio Vieira a ver com lucidez a realidade e fazer seus brilhantes sermões. MS

O predestinado de Caetés

Há partidos para os quais a alternância no poder é natural. É que não estão imbuídos da pretensão de que nasceram para salvar a pátria, que, por isso mesmo, sem eles, não será salva. Essa foi, na origem, a pretensão do PT e de Lula, hoje, mais do que nunca, convencido de que é um predestinado. Do PT ele já não pensa isso, pois o vê como um instrumento de suas pretensões.

Na condição de mero palpiteiro, sempre disse que Lula e o PT não existem um sem o outro, e daí por que, apesar dos mensalões e aloprados, dólar na cueca e beijus de tapioca, são inseparáveis como irmãos siameses. Mas quem manda é o Lula que, como amante infiel, transa com crivelas e severinos, chávez e bushes, certo de que nem por isso o lar petista será desfeito. Como as esposas norte-americanas traídas, o PT engole o sapo e se conforma, já que, em compensação, tem à sua disposição muita grana e milhares de cargos públicos para sustentar a máquina partidária.

Enquanto isso, o predestinado de Caetés cruza o Brasil de Norte a Sul, de Leste a Oeste, como se fosse candidato a prefeito em todos os municípios do país. Se a oposição diz que o PAC viola a legislação eleitoral e que ele o usa como propaganda, alega que não é candidato. Sucede que a lei proíbe a propaganda indevida, não importa se o cidadão a faz em benefício próprio ou de outro. Na verdade, como se sabe, Lula se empenha diuturnamente para que os candidatos que apóia saiam vitoriosos das urnas e ofereçam a ele a base de sustentação das eleições presidenciais de 2010. Aliás, ele diz isso abertamente: “Se pensam que vão nos derrotar em 2010, podem tirar o cavalo da chuva”.

Essa é a questão: Lula tem que fazer seu sucessor. Não é próprio dele nem de seu partido aceitar a rotatividade no poder, especialmente se se trata da presidência da República. Isso, que para qualquer partido é natural, para o PT será uma desgraça, porque foi fundado para nele se manter indefinidamente. Se, como Lula costuma afirmar, “eles governaram durante 500 anos”, por que – perguntaria ele – vamos governar só oito? E especialmente agora, quando tem o apoio de 73% da opinião pública, só perdendo para o general Médici, que teve 84%?

Ferreira Gullar, poeta e jornalista

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