A beleza do Brasil feio
O motoboy está no sofá com a atendente da central de entregas, sua amante. Chega em casa seu irmão crente, que ameaça sentar-se no sofá. Mesmo sofá diante do qual acabara de passar o irmãozinho temporão dos dois, também interrompendo as preliminares do casal sôfrego.
É também naquele sofá que um outro irmão deles, craque de futebol, passa boa parte de seu tempo ocioso, amargando a rejeição nos clubes onde tenta jogar. Eventualmente é expulso dali pelo caçula, único negro dos quatro irmãos de mãe branca, grávida do quinto. O menino também se refugia, no sofá, do desconforto racial e da ânsia de saber quem é seu pai.
O pequeno sofá está no centro de uma família espremida na periferia de São Paulo. E do novo filme de Walter Salles e Daniela Thomas, “Linha de passe”.
A moral e a humanidade florescendo em terra infértil. Trânsito selvagem, igreja salvacionista, posto de gasolina, lar exíguo e descascado, futebol de várzea. O cinema trazendo notícias do Brasil improvável. A esperança teimando em sobreviver onde tudo é feio e hostil.
Na verdade, o que “Linha de passe” mostra é a beleza humana (emanando da feiúra social). Num tempo que aniquila a família e o indivíduo, vidas farejam seus caminhos com a força da família e do indivíduo.
Ao mesmo tempo, é inquietante notar o quanto a cultura brasileira, especialmente o cinema, precisa da periferia para afirmar a moral e a humanidade. Parece não haver vida interessante na classe média.
Está provado que só é possível filosofar em alemão, disse Caetano Veloso. E se você tem uma idéia incrível sobre um drama de classe média, é melhor fazer uma comédia. O pré-requisito da porrada social ainda é uma obrigação tácita por aqui.
O bom é que Cleusa e seus filhos Décio, Dinho, Dario e Reginaldo (“patinho feio” até na inicial) superam o clichê da estética coitada. Dinho (José Geraldo Rodrigues), o crente que trabalha como frentista, é o personagem mais denso. Se excita com a amante de Décio, o motoboy (João Baldasserini), e apesar de sua frustração sexual empresta dinheiro para as aventuras dele. Num ambiente onde predomina o charlatanismo, Dinho consegue alcançar a iluminação.
Reinaldo, o caçula negro, é sozinho quase uma fábula. Única criança da casa, parece ser a reserva de sensatez da família. Vive andando de ônibus, solitário, dormindo nos bancos, sem destino – mas ali encontra o seu. A interpretação do ator Kaíque de Jesus Santos é histórica.
Décio, o motoboy desajustado, mergulha na delinqüência e manda de lá, sutil, uma mensagem de moralidade. Dario, vivido por Vinícius de Oliveira, de “Central do Brasil”, está na ala menos inspirada dessa linha de passe. O drama do craque injustiçado na selva das “peneiras” dos clubes, que costura o filme, tem baixos teores de originalidade.
O mesmo acontece com a figura da mãe (Sandra Corveloni), que é dublê de pai e se pendura em janela de casa de madame com o quinto filho na barriga. Você já perdeu a conta de quantas vezes consumiu esse enredo.
Mas subtraídas as fórmulas de denúncia social, “Linha de passe” é gol. É a festa estranha da delicadeza humana. O show da vida.
Comentário de Guilherme Fiúza, jornalista
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