PIADAS
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
“Toda anedota, no fundo, encobre uma verdade” (Sigmund Freud)
Na minha infância, as “piadas” eram chamadas “anedotas” ou “pilhérias”, motivo de dar risada pelo relato engraçado de um fato surreal, absurdo, ou distorcendo a realidade de modo caricato. Para o meu gosto, sempre achei as ingênuas melhores…
O besteirol é para mim como os espetáculos circenses, dando-nos um enorme prazer assexuado. Adivinhações, analogias, apelidos, críticas políticas, imitações, paradoxos, relações de semelhança entre desiguais e trocadilhos me agradam mais do que as “piadas sujas” preconceituosas ou atentados à moralidade e ao pudor.
Eu acreditava, na minha pré-adolescência naquilo que se convenciona chamar de “opinião pública”. Talvez por influência do meu pai que tirava conclusões pelo cotejo na leitura dos jornais da época, comprando vários deles, desde o conservador Correio da Manhã à Tribuna Popular, comunista; do Diário de Notícias, liberal, ao integralista “A Marcha”.
De formação positivista, papai ensinava que a opinião pública se firmava na sentença “a voz do povo é a voz de Deus”… Ah, se vivesse nos dias atuais e lesse os jornais de hoje! Com seu humor irônico, Millôr Fernandes descreve o que a imprensa é: “Às vezes a única verdade que encontramos nos jornais é a data”; uma piada que retrata uma realidade.
Eu acrescentaria que a piada desenhada como charge, também se salva na mídia impressa, assim como os programas humorísticos da televisão. Ri outro dia quando ouvi o comentário: – “Big Brother” de menino é buraco de fechadura”.
Não é por acaso que a força das piadas é reprimida pelas ditaduras…. E, por falar de ditaduras – que abomino, seja de direita ou de esquerda, civil ou militar – registramos prisões de humoristas e cômicos em Cuba e na Venezuela; mas registro historicamente uma exceção: a ditadura Vargas.
Getúlio gostava de anedotas, mesmo com referência a si próprio; ria das caricaturas e das comédias teatrais onde muitas vezes era imitado e que pessoalmente assistia no Teatro Recreio…
Eu adoro os humoristas e talvez por isso sou fascinado pelos que têm o dom daquilo que se chama “presença de espírito”; a pronta resposta inteligente e vivaz de pessoas, sejam analfabetas ou cultas, e de crianças inocentes. As piadas do Juquinha são fascinantes!
É engraçado um médico aconselhar ao paciente para não se aborrecer, manter a calma, relaxar e repousar, como se se pudesse encontrar comprimidos, xaropes ou injeções para atender cada uma dessas prescrições…
Igualmente como brincadeira, considero uma piada quando aquelas moças e moços figurantes de novelas da TV-Globo, com rápidas passagens de transeuntes ou como o garçom que não fala, se considerarem “artistas” e assumindo o direito a dar pitacos na política e na economia.
Falar em artista, lembrei-me que no mundo do cinema corre uma história dos anos 1930, quando a crise nos EUA obrigou Hollywood a patrocinar shows, e um deles o concurso sobre imitadores de Carlitos.
Além dos inúmeros amadores, vários atores cinematográficos se candidataram e um notável entre eles tirou o oitavo lugar pela apreciação dos jurados, e 12º lugar classificado com os votos do público. Sabem quem foi ele? Charles Chaplin, em pessoa, que concorreu incognitamente. Não parece piada?
Atualmente no Brasil, evoca-se a presença de militares no poder a fim de varrer a corrupção dos políticos e repor o País nos trilhos. Peço aos defensores da intervenção militar para me apontar entre a oficialidade atual um Golbery, um Aurélio Lira Tavares, um Meira Matos, um Castelo Branco, um Mourão Filho… A ESG ainda existe?
De militares lembro a piada do general Góis Monteiro. Visitando a Alemanha nazista ele assistiu um oficial das SS – para mostrar a obediência e lealdade do soldado alemão – ordenar que um deles se atirasse do alto de uma torre. E o cara pulou para a morte.
Chegando ao Brasil, Góis resolveu testar a formação dos recrutas do 1º Exército e lá no Forte São João deu a ordem a um deles para pular de certa elevação do Morro da Urca; ouviu, então, do malandrinho carioca: – “Meu general, o senhor já está bêbedo a essa hora? ”
ESTRABISMO
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
“Ao contrário do que se diz, não é a ocasião que faz o roubo, o ladrão já nasce pronto” (Olavo Bilac)
É possível que vários entre nós sofra desse transtorno ótico ou comportamental. Do ponto de vista médico o Estrabismo é uma patologia oftalmológica que consiste no desalinhamento dos olhos. Este desvio do eixo visual de um ou dos olhos tem geralmente origem na infância, mas pode ocorrer também entre adultos.
Nos dias de hoje não é nada assustador, pode ser corrigido nos casos simples pelo uso de óculos e nos problemas maiores, pela cirurgia.
Quanto ao estrabismo comportamental, bastante comum na nossa realidade política, trata-se de um lance mais complicado. No mundo da psiquiatria e da psicologia vem se estudando a visão distorcida da realidade.
Em pesquisa atual realizada pelo Instituto Weizmann de Ciência, em Israel, aponta-se que o cérebro de quem sofre desse mal falha ao diferenciar estímulos e é registrado entre as pessoas ansiosas mais factíveis ao estresse.
Antes, apareceu o diagnóstico de que a forma deformada de ver, pensar ou agir é um desdobramento da personalidade, ou seja, uma manifestação esquizofrênica. Como é bastante sabido, “Esquizofrenia” é uma palavra originária do grego antigo, “skizo” – dividir, separar, e “fren”, o pensamento.
Então, pelas duas versões experimentais, não se trata somente de uma questão comportamental. Se a gente faz um movimento nos olhos para fingir estrabismo por brincadeira, não corre o risco de se tornar estrábico; mas se se mostra deformado mentalmente na maneira de agir, não tem cura e geralmente leva ao crime.
Repetindo que o modo distorcido de encarar a realidade é comum na política brasileira, temos a sua repetição doentia nas ações e pronunciamentos de Lula da Silva. Dele, tivemos recentemente a presença em comício na cidade de Maricá, de prefeitura petista, falando a funcionários municipais uniformizados.
Afirmou que a política entrou num processo de destruição no Rio de Janeiro e acusou a Operação Lava Jato pela situação crítica do Estado. Defendeu explicitamente o bandidão condenado e preso Sérgio Cabral, dizendo que crê ainda que o ex-governador sofre perseguição política.
Além de corrupto, esquizofrênico, Lula não enxerga que Cabral é culpado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro em um dos dez casos em que o peemedebista é réu. E que ainda restam nove julgamentos.
Em paralelo, responsabilizando pelas mazelas do Estado as investigações feitas pela Polícia Federal e o Ministério Público no Rio, a enfermidade mental do Pelegão é aguda. Zarolho política e psicologicamente afirmou que “Não pode, por causa de meia dúzia que eles dizem que roubou, mas ainda não provaram, causar esse prejuízo”.
É um caso de internação, não hospitalar, mas em prisão comum. É imperdoável um indivíduo no exercício da política negar a roubalheira na Copa e nos Jogos Olímpicos, a não ser que tenha tido participação comunitária nela. Um caso típico de autodefesa.
O filósofo e enciclopedista francês Claude Adrien Helvétius no seu livro “Do Espírito” escreveu que “O interesse seria capaz de fazer negar as mais evidentes proposições da geometria e de fazer crer os contos religiosos mais absurdos“.
Lula, se defendendo, ainda se comporta melhor na sua loucura do que o seu bando de seguidores que são definidos pelo mesmo Helvétius: “Os homens são tão estúpidos que um crime repetido acaba por lhes parecer uma coisa normal”.
Voltaire
Amor Comparado
Queres ter uma ideia do amor, vê os pardais do teu jardim; vê os teus pombos; contempla o touro que se leva à tua vitela; olha esse orgulhoso cavalo que dois valetes teus conduzem à égua em paz que o espera, e que desvia a cauda para recebê-lo; vê como os seus olhos cintilam; ouve os seus relinchos; contempla os seus saltos, camabalhotas, orelhas eriçadas, boca que se abre com pequenas convulsões, narinas que se inflam, sopro inflamado que delas sai, crinas que se revolvem e flutuam, movimento imperioso com o qual o cavalo se lança para o objecto que a natureza lhe destinou; mas não tenhas inveja, e pensa nas vantagens da espécie humana: elas compensam com amor todas as que a natureza deu aos animais, força, beleza, ligeireza, rapidez. Há até mesmo animais que não sabem o que é o gozo. Os peixes escamados são privados dessa doçura: a fêmea lança no lodo milhões de ovos; o macho que os encontra passa sobre eles e fecunda-os com a sua semente, sem saber a que fêmea eles pertencem. A maior parte dos animais que copulam só têm prazer por um sentido; e, assim que esse apetite é satisfeito, tudo se extingue. Nenhum animal, com excepção de ti, conhece os entrelaçamentos; todo o teu corpo é sensível; os teus lábios, sobretudo, gozam de uma volúpia que nada cansa, e esse prazer só pertence à tua espécie; enfim, tu podes a qualquer tempo entregares-te ao amor, os animais têm o seu tempo específico. (…) Por isso, estás acima dos animais; mas, se gozas de tantos prazeres que eles ignoram, em compensação quantas tristezas os animais não fazem ideia!
Voltaire, in ‘Dicionário Filosófico’
Guy Maupassant
O CAÇADOR DE PÁSSAROS
Por planícies e montanhas em
folhas de flores para caçar na primavera, ela
deixa caçar o amor do menino. Ele
sempre enche seu aviário,
porque ele é um caçador habilidoso.
Quando a noite se torna madrugadora,
tende loops, ou a massa
dispersa a liga traiçoeira;
então, sua impressão digital
revela-se com aveia ou milheto.
Lurk atrás das sebes verdes
ou ao longo dos riachos.
Está escondido na floresta de abetos
para não despertar dúvidas
nos pássaros inquietos.
Entre os lírios e o alecrim,
ou sob o quadro verde,
a criança habilidosa tende a rede,
e logo
o passarinho, o lincoln e o goldfinch vêm no rebanho .
Mais de uma vez com um jonquil
ou algumas vime montou um laço,
e então espiava o pássaro
que vem dar a um banquetazo
a isca que ele colocou o malandro.
Alegre, inexperiente, maliciosa,
o pássaro se aproxima do engano,
olha com olhos de encantamento,
é animado e, em seguida, por seu dano, ele
gula ganancioso e é preso.
O caçador incansável
sempre enche seu aviário,
e longe do prado e da flor
da montanha e do ribera verde
que mordeu a isca do amor.
Tradução: Leandro Calle
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Jacques Prévert
O Meteoro
Pelas grades do bloco penitenciário
uma laranja
passa como um raio
e cai como uma pedra
dentro do sanitário
E o prisioneiro
todo lambuzado de merda
resplandece
todo iluminado de alegria
Ela não me esqueceu
Ela pensa sempre em mim ainda.
Tradução de Adriano Scandolara
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CRÍTICAS
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem” (Santo Agostinho)
Fico extremamente feliz quando recebo críticas aos meus textos, divulgados pelas redes sociais. Desta vez desejo responder com este artigo a avaliação, quase uma censura, apontando-me como agressor dos muçulmanos para proteger os israelenses.
Como tento despir-me de qualquer partidarismo com relação aos conflitos do Oriente Médio, faço críticas indistintamente a judeus e árabes, primos irmãos, cujas desavenças são muitas vezes inexplicáveis.
Sou contra, por exemplo, a adoção de Israel à doutrina nazista do “espaço vital”, ocupando militarmente territórios em detrimento dos palestinos; e condeno o tratamento nada civilizado que alguns países árabes dão às mulheres.
Tomo posição, igualmente, contra o militarismo israelita, o apoio dos árabes a terroristas e sua omissão quando da criação do Califado pelo ISIS.
Não faz muito tempo, quando o deputado Roberto Freire ocupava o Ministério da Cultura, defendi-o ao ser criticado por patrocinar uma exposição sobre a cultura árabe e, repeli mais tarde os ataques feitos ao Clube Hebraica por patrocinar um debate com o deputado Jair Bolsonaro.
Esses dois fatos têm semelhanças nas suas diferenças. O Clube Hebraica sempre teve um comportamento mais liberal do que os seus críticos sectários da Confederação Israelita do Brasil, defensora do expansionismo territorial em Israel promovido por extremistas da direita religiosa.
Nada obscurece a minha admiração pelos primeiros ocupantes do pequeno território do Estado de Israel cedido pela ONU por proposta brasileira do chanceler Oswaldo Aranha.
Exultei com a criação dos kibutzim, a luta heroica dos pioneiros pela coletivização da terra e o progresso obtido apesar da adversidade natural em menos de três décadas. Reconheço e admiro o desenvolvimento econômico democrático em pouco mais de 50 anos, primeiro no campo e depois na indústria, ambos sustentáveis, permitindo ao governo garantir subsídios ao desemprego, seguridade social e rendimento mínimo.
De outro lado, não posso negar o meu encanto e respeito pela cultura árabe, noves fora a intolerância do califa Omar que queimou 700 mil livros da Biblioteca de Alexandria, das ditaduras ainda vigentes e da escravocracia.
Entretanto, reservo o meu elogio ao que o Império Árabe ocupante da metade do mundo nos legou. Sua herança cultural excedeu todas demais civilizações na arquitetura, nas ciências e na Medicina. Na literatura, contribuiu com as lendas maravilhosas das Mil e Uma Noites.
Enquanto a Europa católica proibia a dissecação de cadáveres pelos estudiosos da anatomia humana, a medicina árabe mantinha atendimento clínico e criava a hospitalização; obteve notável avanço na cirurgia usando a anestesia.
Deve-se ao sábio Maomé-Ibn-Mousa a invenção do zero, um salto qualitativo e insuperável na Matemática, e, na Química, o Islã nos deixou o álcool, os ácidos cítrico e sulfúrico e o nitrato de prata.
Balanceando estas duas contribuições para os povos, a antiga e a contemporânea, somos obrigados a demonstrar que não agrido nem protejo árabes e judeus; eles nasceram como irmãos, semitas e camitas, e, com a sua origem étnica se bipartiram como canaanitas, israelitas, moabitas, amonitas e fenícios.
Mesmo sob críticas, sugiro que Jerusalém seja dividida entre judeus e palestinos; porque não? Aprendi com Aristóteles que só existe uma maneira de se evitar as críticas: “não fazer nada, não dizer nada e não ser nada”; e fui educado desde a tenra infância a não me meter em briga de família…
Stéphane Mallarmé (1887)
Dama
sem tanto ardor embora ainda flamante
A rosa que cruel ou lacerada e lassa
Se deveste do alvor que a púpura deslaça
Para em sua carne ouvir o choro do diamante
Sim sem crises de orvalho antes em doce alento
Nem brisa o fragor do céu leve ao fracasso
Com ciúme de criar não sei bem qual espaço
No simples dia o dia real do sentimento,
Não te ocorre, talvez, que a cada ano que passa
Quando em tua fronte se alça o encanto ressurreto
Basta-me um dom qualquer natural de tua graça
Como na alcova o cintilar de um leque inquieto
A reviver do pouco de emoção que grassa
Todo o nosso nativo e monótono afeto.
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Guillaume Apollinaire
A ponte Mirabeau
Sob a ponte Mirabeau corre o Sena
E os amores
De que não me esqueço
A alegria sempre antes da pena
Chega a noite fim começo
Vão-se os dias permaneço
Fiquemos de mãos dadas face a face
Enquanto sobre a ponte
De nossos braços passe
Dos olhares a já quase extinta fonte
Chega a noite fim começo
Vão-se os dias permaneço
Foge o amor como a água se ausenta
Foge o amor
Como a vida é lenta
E como a esperança é violenta
Chega a noite fim começo
Vão-se os dias permaneço
Passam os dias e as semanas passam
A vida aliena
Os amores se embaçam
Sob a ponte Mirabeau corre o Sena
Chega a noite fim começo
Vão-se os dias permaneço
(Editora L&PM, 232 páginas, 1984, tradução de Paulo Hecker Filho)
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Alfred de Musset
Canção (1840)
Quando a vaidosa Esperança
Acotovela-nos partindo,
Depois, num vôo rápido se lança,
E se volta sorrindo;
Aonde vai o homem? Aonde seu coração o encaminha.
A andorinha segue o zéfiro – vento do ocidente,
E é menos ligeira a andorinha
Que o homem seguindo seu desejo somente.
Ah! Fugidia e cheia de ardil,
Sabes ao menos a tua direção?
É mesmo preciso que o Destino ancião
Tenha uma amante tão juvenil!
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Arthur Rimbaud
Canção da Torre Mais Alta
Ociosa juventude
De tudo pervertida
Por minha virtude
Eu perdi a vida.
Ah! Que venha a hora
Que as almas enamora.
Eu disse a mim: cessa,
Que eu não te veja:
Nenhuma promessa
De rara beleza.
E vá sem martírio
Ao doce exílio.
Foi tão longa a espera
Que eu não olvido.
O terror, fera,
Aos céus dedico.
E uma sede estranha
Corrói-me as entranhas.
Assim os Prados
Vastos, floridos
De mirra e nardo
Vão esquecidos
Na viagem tosca
De cem feias moscas.
Ah! A viuvagem
Sem quem as ame
Só têm a imagem
Da Notre-Dame!
Será a prece pia
À Virgem Maria?
Ociosa juventude
De tudo pervertida
Por minha virtude
Eu perdi a vida.
Ah! Que venha a hora
Que as almas enamora!
Tradução: Claudio Daniel
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