Fernando Pessoa
FRESTA
Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.
Cecília Meireles
ENCOMENDA
Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.
Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.
Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia…
Não… Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.
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CÉREBROS
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Não é o cérebro que mais importa, mas sim o que o orienta: o caráter, a generosidade e as ideias progressistas” (Dostoievski)
Quantas vezes será preciso repetir que o lulopetismo derrotado nas eleições, continua se mexendo e espalhando veneno como o rabo da jararaca cortado por corrupção e lavagem de dinheiro em três instâncias?
É bom lembrar, também, que são muito simples as lições estratégicas de Estado Maior ensinando que na guerra há de se eleger um alvo para não desperdiçar soldados, material de campanha e tempo; pois cada foguete lançado fora do objetivo é um foguete perdido.
Como a guerra é a continuação da política por outros meios, como ensinou Clausewitz, aqueles que fazem política como protagonistas ou observadores devem aprender isto para qualificar e quantificar o adversário.
Tenho o maior respeito pelos que pensam diferente de mim, mas desconfio de que há descompassos no modo de analisar a cena política, sem ver o confronto entre os que querem um Brasil desenvolvido, justo e com segurança, e os que desejam uma volta ao passado de facilidades, roubalheira e preso à ideologia stalinista soterrada sob os escombros do Muro de Berlim.
O nosso epigrafado, Anatole France, extraordinário escritor francês, premiado pela Academia, trouxe entre as suas notáveis obras, “A rebelião dos anjos” um dos melhores livros que já li. Entrou politicamente na História pela coragem de apoiar Émile Zola no caso Dreyfus, assinando no dia seguinte à publicação do “J’accuse” a petição pela revisão do processo.
É dele a interessante parábola da existência na China de um gênio feioso, muito feio mesmo, grandalhão de andar pesado e vagaroso, mas um gozador. A sua diversão é entrar nas casas à noite, quando todos estão dormindo, e com um passe de mágica extrai o cérebro de um e põe outro no lugar. Tem um prazer imenso em fazer este troca-troca de cérebros, se esbaldando na sua invisibilidade em ver um mandarim acordar com as ideias da concubina e dela com o do eunuco do harém; rir do viciado em ópio sonhando como uma mocinha virgem e ela pensando como o conselheiro do imperador…
Contaram-me que este abracadabrante duende está passeando no Brasil, e visitando os círculos políticos. Um passarinho me disse que ele botou na cabeça do velho Fernando Henrique Cardozo o pensamento da Gleise Hoffman; e no crâneo do deputado Kin Kataguiri as ideias de José Serra…
Pelo que divulga a chamada grande imprensa, a troca de cérebros também ocorreu com a deputada Joice Hasselmann, que alcançada pela conversão cerebral, pensa como líder da minoria quando é, na realidade, líder do governo…
No Twitter, o gênio brincalhão trocou os conteúdos de várias cabeças. Alguns que se dizem defensores de Bolsonaro receberam o fanatismo dos petistas, atacando furiosamente os antigos aliados da campanha por uma discordância democrática. Agiram com o ódio igual ao do presidiário Lula da Silva quando dava murros na escrivaninha do Palácio do Planalto pelo atraso das propinas…
Se é verdade essa estória de que o gênio zombeteiro chinês está fazendo turismo em terras brasileiras, faço-lhe um apelo em nome do Saci Pererê para que ele não vá às residências do senador Davi Alcolumbre, do ministro Dias Toffoli e do deputado Rodrigo Maia; e, muito menos, no Palácio da Alvorada, somente para se divertir com a aflição dos brasileiros…
Carlos Drummond de Andrade
O MUNDO É GRANDE
O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.
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Adélia Prado
SEDUÇÃO
A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.
MIASMAS
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Miasmas pútridos emanam no Congresso em Brasília, contaminando o ar da metrópole. Mas o meu nome não exala odor mefítico, porque não chafurda no pântano da ignomínia” (Enéas Carneiro)
Parece uma linguagem rebuscada, um tanto pernóstica, mas é português castiço. Era como o Professor se expressava nas suas contundentes críticas que fazia ao Legislativo já no seu tempo, praticamente dominado por uma minoria que contrariava a ética parlamentar.
A palavra “Miasma” é dicionarizada como substantivo masculino, de origem grega, “mjaʒmɐ”, míasma, – atos, «exalação impura», Define-se como emanação proveniente de detritos orgânicos em decomposição e, figuradamente, como ansiedade, má influência, sensação de opressão.
O historiador grego Heródoto, que foi chamado por Cícero de “Pai da História”, tendo sido exilado quando jovem por razões políticas, viajou pelo mundo antigo visitando além de toda Grécia, o Sul da Rússia, Turquia, Egito, Líbia e, possivelmente a Mesopotâmia e a Pérsia. É célebre a sua obra “Histórias” composta por nove livros publicados entre os anos 430 e 424 a.C.
Entre as memórias registradas sobre o Egito dos faraós e das múmias, Heródoto descreveu o trabalho dos embalsamadores de cadáveres com detalhes, contando que eles tiravam primeiro as vísceras dando um longo talho nos flancos; depois, por meio de ganchos introduzidos no nariz, extraiam o cérebro em pedacinhos. Em seguida, lavavam a cavidade com substâncias aromáticas, segurando a cabeça e sacolejando-a fortemente. Em seguida introduziam na boca e no nariz uma pasta que misturava especiarias incensórias. Cosidas todas as fendas corporais mergulhavam o corpo inanimado numa espécie de banheira com carbonato de sódio por sessenta dias. Só então era envernizado e envolvido em faixas de linho colados com betume.
A descrição que fiz é meio grosseira devido não contar com o texto original, mas nos dá ideia de imaginar um viajante do tempo que viu essas coisas e que se surpreenderia chegando ao Brasil de hoje e encontrando redivivas as múmias da velha política ainda se mexendo e sendo capazes de derrotar as intenções populares de dar um fim na corrupção.
É o que se viu na Câmara dos Deputados, na ação conjunta dos picaretas com os seguidores do grande corrupto Lula da Silva, sentenciado e preso por corrupção. Esta aliança expõe a curiosa contradição dos eleitos para o Parlamento agindo contra os seus próprios eleitores, que participam dos 86% de defensores da Lava Jato e do ministro Sérgio Moro.
Estes sabotadores que impedem a quebra dos grilhões que prendem o Brasil aos inimagináveis esquemas de corrupção, devem ter passado pelo processo de mumificação descrito por Heródoto, porque são descerebrados, mas recuperam as intenções de fazer o mal contra o interesse da Nação ao passar pela lavagem cerebral da corrupção.
A audácia de membros do Congresso em impedir os avanços na luta contra a corrupção, deve realmente surpreender os estrangeiros que venham ao Brasil após visitar os macacos adorados no Camboja, a aurora boreal nos países nórdicos, o buraco mais fundo do mundo na Península de Kola, os empalhadores de crocodilos no Egito e encantadores de cobras na Índia.
O Brasil vive uma época ímpar, assistindo os corruptos e seus cúmplices, os traficantes de drogas e o crime organizado, se movimentando com apoio dos infiltrados nos três poderes da República e a cobertura da mídia comprometida com o globalismo e o dinheiro da Soros Fund Management.
É hora de se dar um fim nisto, dragando o pântano da ignomínia para acabar com o odor mefítico que exalam no Congresso evitando que a contaminação atinja o bravo povo de Brasília.
Manoel de Barros
O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
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Fernando Pessoa
Mar Salgado
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
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O MEDO
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“O medo tem alguma utilidade, mas a covardia não” (Gandhi)
Advogado formado com louvor em Harvard, Franklin Delano Roosevelt, o presidente dos Estados Unidos que tirou o País da grande crise de 1929, revidou o traiçoeiro bombardeio japonês a Pearl Arbour e declarou guerra ao Eixo, foi reeleito por quatro mandatos consecutivos. Era um ‘fraseur’; entre os pensamentos deixados, destaca-se: – “Nada é mais temível do que o medo”.
Não tenho certeza, mas o dr. Google garante que é de Charles Chaplin outra frase antológica que prega a libertação deste sentimento, ao dizer que: – “A vida é maravilhosa se não se tem medo dela”. Nada mais do que verdade, pois há pessoas que têm até medo de viver…
O verbete “Medo”, dicionarizado, tem uma dupla classe gramatical: é adjetivo e substantivo masculino; a sua origem é latina, “metus.us”- sentimento de ansiedade sem razão fundamentada; receio. Trata-se de um estado emocional e inquietude provocados por estar diante de um perigo, ou na imaginação dele; mal-estar diante de alguma relação desagradável.
No Deserto do Saara circula uma antiquíssima estória que é transmitida de pais para filhos, como lição para fortalecer o espírito e enfrentar as agruras da vida: Conta o encontro de uma caravana que ia para Bagdá com a Peste.
– “Porque está com tanta pressa para chegar à Cidade dos Califas? ”, perguntou o chefe dos cameleiros.
– “Vou em busca de cinco mil vidas”, respondeu a Peste.
De volta, um novo encontro de ambos: – “Mentiste”, disse corajosamente o caravaneiro; – “em vez de cinco mil vidas, levaste 50.000”.
– “Não é verdade”, afirmou a Peste: – “ Cinco mil, nem uma vida a mais”; as outras foram por conta do medo”…
A experiência milenar do filósofo grego Platão levou-o a ensinar que não se deve alimentar o medo por se tratar de uma emoção tóxica, que faz muito mal à saúde física e mental.
O aluno mais dedicado de Platão, Aristóteles ,nas suas aulas peripatéticas divulgou as ideias nunca publicadas do Mestre, como metáfora sobre os que temem enfrentar a verdade: – “Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz”.
Aí temos uma magnífica aula para nós expositores e debatedores de ideias pelas redes sociais. É muito triste aqueles que temem a clareza da verdade e se prendem ao medo de enfrentar o clamor das minorias organizadas ou de individualidades arrogantes.
O segredo está em ignorar ameaças e enfrentar hostilidades. José Maria Eça de Queiroz, um dos ícones da cultura lusitana, romancista e pensador português do século XIX, nos legou um pensamento que transcrevo para a reflexão:
– “Não tenha medo de pensar diferente dos outros, tenha medo de pensar igual e descobrir que os outros estão errados! ”.
Fernando Pessoa
O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P’ra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…
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