Raimundo Correia
As Pombas
Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada.
Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.
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Carlos Drummond de Andrade
A Máquina do Mundo
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas.
(Trecho de A Máquina do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade).
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REMÉDIOS
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
Uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males” (Voltaire)
Quando eu e minha mulher nos casamos, mantivemos o hábito de visitar uns tios para filar os lautos almoços que ofereciam nos domingos aos parentes e amigos. Ao sentar à mesa, ele, casado com a irmã da minha mãe, colocava à sua frente um monte de pílulas e comprimidos que ia tomando enquanto comia.
Quando saíamos de lá morríamos de rir lembrando este fato; e fomos castigados pela natureza do envelhecimento. Hoje, tomo no mínimo seis comprimidos e cápsulas, e ela outro tanto…
Confesso que houve um tempo que eu chamava os médicos de “máfia de branco” e não escondia o desprezo pelos remédios. Quando comecei a precisar deles fiz as pazes com as “bolinhas” a ponto de até me automedicar…
Através das variadas espécies de Medicina temos terapias praticadas através de uma imensa gama de drogas e métodos de cura. Para dormir, para acordar, antiácidos, antibióticos, ansiolíticos, anti-infecciosos, antidepressivos, corticoides, etc.
Ao entrarmos na Medicina Alternativa, encontramos os velhos ensinamentos homeopáticos do doutor Christian Friedrich Samuel Hahnemann, baseados no princípio latino “similia similibus curantur”, “semelhante pelo semelhante se cura”.
A História deste ramo da Medicina nos conta que quando o doutor Samuel Hahnemann pesquisava a farmacologia do quinina, desconfiou da explicação recebida sobre a ação deste medicamento usado no Sudoeste Asiático para a malária, enfermidade tropical que intercala períodos de febre e aparente cura.
Pelo notável amor pela ciência médica, Hahnemann assumiu-se de cobaia e tomou o quinina apresentando os sintomas da malária. Depois, pediu a médicos e estudantes do seu círculo de amizades que mesmo sadios usassem o remédio, e eles também apresentaram os mesmos sintomas; concluiu, então, que qualquer substância capaz de causar sintomas de uma doença em pessoas saudáveis, é capaz de curar uma pessoa doente.
Outras vertentes medicinais se apresentam como a Fitoterapia, de que já tratei em dois artigos anteriores, uma benéfica herança do antigo Império Inca e dos indígenas sul-americanos. Os medicamentos extraídos da floresta são usados até hoje com bastante eficácia entre os ditos civilizados…
Temos, também, vinda do Grande Oriente, a chamada Medicina Oriental utilizando além dos produtos fitoterápicos, métodos terapêuticos como acupuntura e dietética, aplicadas para estabelecer o equilíbrio do organismo, conforme ensinam as milenares culturas da China, Coreia e Japão.
Estudando por curiosidade a diversidade de diagnósticos e receituário médico, procurei saber o que é a Aromaterapia, e as primeiras pessoas a quem indaguei ensinaram-me que se trata de um ramo da Fitoterapia. A palavra “aromaterapia” vem dos termos gregos “aroma” = odor agradável + “therapeia”, seja, “tratamento pelo cheiro”.
Em concordância com os seus adeptos – são muitos, e proliferam cursos, lojas especializadas e até Ongs -, a terapia por aspiração de odores agradáveis ajuda a combater ansiedade, dor, depressão, estresse e insônia; e do ponto de vista holístico, atua pelo equilíbrio físico, mental, emocional e espiritual.
A História registra que Montaigne (Michel Eyquem de Montaigne) jurista, político, filósofo, e extraordinário ensaísta, foi pioneiro ao sugerir que os médicos usassem aromas como terapia, dizendo que os perfumes influem e transformam o ânimo e o humor.
… E no anedotário, conta-se que Montaigne quando antecipava para um amigo trechos do seu ensaio sobre perfumes e estranhando o silêncio do interlocutor, encarou-o e viu que ele estava de olhos fechados; pensou que ele havia adormecido, mas se enganou: o amigo, alérgico a odores, desmaiara só em ouvir falar de perfumes…
Vinícius de Moraes
A Transfiguração pela poesia
Creio firmemente que o confinamento em si mesmo, imposto a toda uma legião de criaturas pela guerra, é dinamite se acumulando no subsolo das almas para as explosões da paz.
No seio mesmo da tragédia sinto o fermento da meditação crescer. Não tenho dúvida de que poderosos artistas surgirão das ruínas ainda não reconstruídas do mundo para cantar e contar a beleza e reconstruí-lo livre.
Pois na luta onde todos foram soldados – a minoria nos campos de batalha, a maioria nas solidões do próprio eu, lutando a favor da liberdade e contra ela, a favor da vida e contra ela – os sobreviventes, de corpo e espírito, e os que aguardaram em lágrimas a sua chegada imprevisível, hão de se estreitar num abraço tão apertado que nem a morte os poderá separar.
E o pranto que chorarem juntos há de ser água para lavar dos corações o ódio e das inteligências o mal-entendido.
→Excerto da Poesia de Vinícius de Moraes “A Transfiguração pela poesia”.
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MALABARISMO
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Una persona que aprende a hacer malabares con seis bolas está mejor preparada que otra que soló hace malabares con três” (Anónimo)
Na virada de uma página da História, encontramos a transição do homem de Neandertal para o Homo Sapiens e no que restou da cultura musteriense, as primeiras fabricações de armas e ferramentas registradas na arte pictórica rupestre. Ali encontramos, também, desenhos de 30 mil anos atrás sobre a prática do malabarismo.
Com o avanço civilizatório, recebemos também referencias da prática do malabarismo por pessoas de ambos sexos no Antigo Egito e nas sociedades chinesa, indiana, grega, romana, nórdica, asteca e polinésia.
O termo “Malabarismo” vem de “malabares” com referência à Costa de Malabar, no sudeste da Índia, onde os habitantes, desde a mais tenra infância, são hábeis em manipular objetos com destreza. Mantêm domínio sobre argolas, bastões, bolas, claves, facas, fitas, ioiôs, pinos e tochas, obtido pelo controle mental e habilidade manual, que se tornou uma arte circense.
Muitos artistas ganham a vida com malabarismos; principalmente os artistas de rua, sempre encontrados nas grandes cidades. Sob a sacada do meu apartamento tem um bar em que eles se apresentavam semanalmente antes do covid-19, alternando com ritmistas, dançarinos e ginastas.
Dicionarizado, o verbete malabarismo é um substantivo masculino significando a arte ou a técnica do malabarista; refere-se figuradamente à habilidade para enfrentar situações difíceis.
Dessa figuração encontramos algo relacionado com a vida social, o chamado “malabarismo retórico”, representação mental de palavras e gestos que pouco ou nada expressam a não ser um discurso vazio de conteúdo.
Este expediente doloso sempre induzindo à fraude é muito usado pelos políticos; e enquanto os malabaristas de terra e ar entretêm e divertem o povo, os demagogos de todas ideologias e partidos o ilude com logros eleitorais.
Uma frasista do Google, Lanna Borges, nos presenteia dizendo que “é desafiador manter equilíbrio em meio ao malabarismo que é viver”. E o pior da vida é suportar o malabarismo dos agentes políticos destros na oratória recheada de promessas que nunca são cumpridas.
É comum atualmente assistirmos traições políticas dos eleitos aos seus eleitores com argumentos reticentes, frases envoltas em aspas e divagações suspeitas de autoafirmação.
Os maus políticos fazem malabarismos com seis ou mais bolas para admiração geral. O nosso Parlamento, por exemplo, é praticamente controlado por um Centrão carente de crenças, ideias, opiniões, valores e ávido por vantagens pessoais; e é instigado pela facção lulopetista desmoralizada pela corrupção.
Esta é a razão de assistirmos situações absurdas com jogos-de-cena inconsequentes. O exemplo mais do que perfeito disto fica claro na situação criada pelo novo coronavírus, que ameaça tragicamente o mundo e a nossa Nação.
Os malabarismos picaretas disseminam um vírus muito mais agressivo e perigoso – o coruptovírus -, para minar as políticas da Saúde, da Economia, da Segurança Pública e da Infraestrutura que estão se realizando apesar de desacertos e sabotagens.
Neste cenário, constatamos que os políticos brasileiros nascem do jeito de uma história que li e vou tentar relembrá-la: – “Um pai de classe média foi ao quarto do filho para ajudá-lo a escolher uma futura carreira. Para isto, deixou-lhe para a definição, uma Bíblia, uma maçã e um cheque bancário, pensando que se ele fosse encontrado admirando a Bíblia, seguiria o sacerdócio; se observasse a maçã, seria um fazendeiro e, examinando o cheque, entraria no ramo das finanças. E deu um tempo.
Ao voltar, viu que o rapaz embolsara o cheque e comia a maçã sentado em cima da Bíblia. Não teve dúvida de que o filho seria político”.
A partir deste raciocínio, assisto os jogos de malabares ao meu redor raciocinando como Charles Chaplin: “Não sou político; sou principalmente um individualista. Creio na liberdade; nisso se resume a minha política…”
ALEGORIA DA CAVERNA
“A República” de Platão :
Uma aula de Sócrates ao seu aluno Glauco:
— “Esqueces uma vez mais, meu amigo, que a lei não se ocupa de garantir uma felicidade excepcional a uma classe de cidadãos, mas esforça-se por realizar a felicidade de toda a cidade, unindo os cidadãos pela persuasão ou a sujeição e levando-os a compartilhar as vantagens que cada classe pode proporcionar à comunidade; e que, se ela forma tais homens na cidade, não é para lhes dar a liberdade de se voltarem para o lado que lhes agrada, mas para os levar a participar na fortificação do laçado Estado”.
GUERRAS
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Não é preciso ter olhos abertos para ver o sol. Para ser vitorioso você precisa ver o que não está visível” (Sun Tzu)
Noutro artigo registrei a curiosidade etimológica do substantivo feminino “Guerra” nas línguas neolatinas, que não adotaram o bellum,i romano, e sim o germânico werra, combate, contenda, discórdia, disputa, luta. Do latim, herdamos o bélico, rebelde, rebelião e ‘belicoso’, como tuitou outro dia a brava Marisa Cruz.
No idioma português damos para Guerra o significado da luta armada entre nações e/ou conflitos entre povos ou etnias diferentes. Qualquer luta ou combate com ou sem armas. E a que mais assustou foi a ameaça nuclear com armas atômicas, que poderiam levar a humanidade ao extermínio.
Mas os conflitos veem de longe. A História traz que por volta de 3.200 a.C. a consolidação do Egito ocorreu com uma guerra intestina entre o Reino do Norte e o Reino do Sul. As demais guerras movidas pelos faraós, no apogeu do Império, foram pela expansão e domínio territorial.
Quase mil anos depois, houve um importante confronto, a Guerra do Peloponeso, que unificou a Grécia antiga dando à Atenas a hegemonia militar sobre as outras cidades-estado gregas.
E depois uma das maiores guerras da Antiguidade realizada por Alexandre – O Grande -, rei da Macedônia, que conquistou o Império Persa, o Egito, toda a Ásia Menor, o Afeganistão e chegou às fronteiras da Índia.
Quando se firmava como um poderoso Estado mediterrâneo, suplantando a Grécia, a Roma republicana enfrentou a República de Cartago numa série de três disputas bélicas, chamadas de Guerras Púnicas.
Mais tarde, em termos de guerras mundiais, tivemos as Guerras Napoleônicas, conflitos suscitados pelo Império Francês, sob a liderança de Napoleão Bonaparte que enfrentou todas as nações europeias.
E, bem mais tarde, já na contemporaneidade, tivemos duas grandes guerras mundiais, de 1914 a 1918, a primeira, e de 1939 a 1945, a segunda; enfrentamentos e as mesmas alianças, com pequenas modificações.
A 2ª Guerra trouxe sequelas pontuais, como as guerras da Coreia e do Vietnã, e uma guerra sem tiros, a Guerra Fria, defrontando os Estados Unidos e a União Soviética.
Eis que de repente, “não mais que de repente” chegou a Terceira Grande Guerra. E esta só tem dois lados: os povos em perigo e um inimigo invisível, microscópico. Diante deste campo de batalha, é preciso que tenhamos a coragem de enfrentar o perigoso adversário para derrota-lo sem lutar: Pelo isolamento social como estratégia para a vitória.
Isto, porque, não estamos enfrentando um exército de milhões de bacilos, bactérias e vírus; basta somente um desses agentes infecciosos, letal, vindo numa gotícula de saliva, após uma tossida ou um espirro de outrem. É por isso que se encontrarmos algo que evite ou neutralize as ações do inimigo, devemos segurá-lo como o graveto do afogado…
O confinamento, as preocupações e, sobretudo, a solidariedade humana devem ser as nossas armas no enfrentamento com o covid-19. O vírus move táticas insanas e imprevisíveis; mata um bebê de menos de um ano e assiste a cura de um idoso de cem anos.
A verdade, porém, é que a ciência já tem um mapa traçando a coragem de muitos, principalmente na área da Saúde, enquanto a política adota a covardia, com as brigas do carreirismo eleitoral, se lixando para os que estão na arena amedrontados, e se dirigem aos poderosos em desespero: “Morituri te Salutant”- Salve o Poder, os que vão morrer te saúdam -.
A morrer, todos estamos sujeitos, mas da minha parte, não cairei sem luta. O estrategista Sun Tzu ensinou que “a suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar”. É o que faremos com o confinamento.
P O E S I A S
ARGILA
Raul de Leoni
Nascemos um para o outro, dessa argila
De que são feitas as criaturas raras;
Tens legendas pagãs na carnes claras
E eu tenho a alma dos faunos na pupila…
Às belezas heroicas te comparas
E em mim a luz olímpica cintila,
Gritam em nós todas as nobres taras
Daquela Grécia esplêndida e tranquila…
É tanta a glória que nos encaminha
Em nosso amor de seleção, profundo,
Que (ouço de longe o oráculo de Elêusis),
Se um dia eu fosse teu e fosses minha,
O nosso amor conceberia um mundo,
E do teu ventre nasceriam deuses…
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UNIÃO
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Se todos se mobilizam por um objetivo comum, o sucesso acontece por si só. ” (Henry Ford)
O nosso Olavo Bilac, que estreou na poesia inserindo no livro “Via Láctea” o belíssimo soneto “Ora direis ouvir estrelas”, interpretou o lirismo dos poetas fitando o infinito; e, por sua vez, os astrólogos veem o destino escrito nas estrelas.
A magia imaginativa dos poetas, as interpretações astrológicas e o sacerdócio religioso desmentem a ciência cosmológica e apontam os seus deuses como responsáveis pela criação do planeta e da vida.
Em contrapartida, os astrônomos, como cientistas, céticos, pensam quando o Universo e o nosso sistema planetário volverão ao caos primitivo. Há uma pá de teorias sobre a origem do Universo, além dos mitos, lendas e livros sagrados de todas as religiões mais ou menos semelhantes ao criacionismo judaico-cristão.
A mais badalada atualmente entre as suposições e hipóteses nos meios científicos é o Big Bang, a Grande Explosão que teria ocorrido entre 13,3 e 13,9 bilhões de anos atrás.
Após a explosão do Big Bang ocorreu no cosmos um resfriamento drástico e com a queda da temperatura deu-se o início da formação da matéria, por meio dos prótons, elétrons e outros elementos, tendo os primeiros átomos como unidade básica.
Assim se deu forma às galáxias, aos sóis e planetas. De uma poeira de gases e detritos teria surgido a Terra.
Afora os dogmas, todos querem explicações para o surgimento da vida. São esforços paralelos e simultâneos, embora diferenciados nas pesquisas para explicar nossas origens, duvidando, estudando, inquirindo e pesquisando.
Se os cientistas julgam importante pensar assim, porque não devemos pedir a união de todo mundo, para encontrar uma solução para a grave epidemia que assola o planeta e realizarmos, sem divisionismos, a salvação contra a qual a politicagem resiste e impede?
Não é pedir demais. É um apelo à consciência. Um pensador espírita, cujo nome me foge da memória, mas que a minha inesquecível mãe sempre citava, levantou a tese de que há doenças que veem para despertar o conhecimento da realidade.
Isto me leva a pensar que este horroroso vírus que atinge a todos, sem exceção, alastra-se e vem infectando muitas personalidades poderosas, e quem sabe, as estimule em pensar na sociedade ameaçada…
Os políticos, alguns deles atingidos pessoalmente pelo mal, ou entre os seus familiares, amigos e colegas, ainda não sentiram a necessidade de abandonar as picuinhas rasteiras e buscarem conjuntamente meios para combater o covid-19.
Em verdade, mesmo os mais despreparados para exercer mandatos, têm o discernimento de que estão expostos à “morte, surda, que caminha ao seu lado e não sabe em que esquina ela vai lhe beijar” como cantou Raul Seixas…
Talvez uma provocação mais contundente leve os que administram a coisa pública, no Executivo, Judiciário e Legislativo a considerar suas responsabilidades na situação que atravessamos.
Da minha parte, inserido no epicentro do risco, sinto-me frágil para reagir à abominável politicagem que assistimos, igualmente contagiosa como o vírus. Creio que é preciso uma forte pressão da coletividade para mostrar que o poder não é uma vacina e que a morte é tão democrática como o “Estado de Direito”.
Por isso, lembrei-me de uma passagem proverbial ocorrida com Canuto, o rei da Dinamarca, Inglaterra e Noruega.
Certo dia, caminhando à beira mar, achegou-se ao Rei o embaixador da Alemanha que iniciou uma conversação louvando-o: – “Vós, que sois o rei mais poderoso”… Canuto interrompeu-o, e afastando-se voltou-se para as ondas, gritando:
– “Proíbo-lhes que me molhem! ”. Neste momento uma grande vaga quase lhe derrubou; Canuto, homem de espírito, reagiu ao embaixador: – “Vedes? Se eu tivesse o poder que dizes, o mar me obedeceria…”
Esta lição, também herdamos do padre Antônio Vieira nos seus sermões: “O querer e o poder, se divididos são nada, juntos e unidos são tudo”.
JORNALISMO
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“O fotógrafo tem a mesma missão do poeta: eternizar o momento que se passa”. (Mário Quintana)
Tenho comentado muito sobre a imprensa atual nos meus últimos artigos e crônicas, com críticas acerbas ao momento infeliz que a imprensa atravessa pelo mundo afora e especialmente no Brasil, onde a informação vem envolta no papel celofane da propaganda.
Foi o colega da velha guarda, o multifacetado jornalista Gaudêncio Torquato que me inspirou falar dos tempos em que as redações eram “risonhas e francas”… Época em que nos esforçávamos a estudar para bem concorrer.
Gaudêncio atua com qualidade no campo da política, como analista, na pesquisa e no marketing, além de articulista e tuiteiro. Numa mensagem que tuitou, disse literalmente que: “Tenho responsabilidades como analista político. Posso discordar das atitudes do presidente – e discordo – mas não posso lhe desejar o mal. Tenho procurado me guiar pela luz dos bons caminhos”.
É como se faz no bom jornalismo. Nem agressões, nem bajulações; ater-se ao fato, informando e analisando. Hoje, poucos jornalistas fazem assim. A mudança flagrante do comportamento da imprensa está numa memória ocorrida a 136 anos com o “The New York Times”.
Numa de suas edições no ano de 1884, o jornal trouxe o seguinte texto: “A decadência da Espanha começou quando os espanhóis adotaram o cigarro, e se essa praga perniciosa se espalhar entre os americanos adultos, a ruina da nossa República estará próxima”. O N.Y. Times nos dias atuais defende a descriminalização da maconha.
Sem comentários. Passo às recordações dos meus tempos de jornal, como repórter, editor e secretário de redação. A lembrança me leva ao coleguismo sempre presente, com o tratamento respeitoso nas divergências de opinião, e ocorriam discussões acirradas todo tempo.
Naquele tempo, entretanto, já existiam os bezerros de presépio, sem ideia própria, aceitando levar ao leitor a opinião do eventual diretor do jornal ou da revista, este obedecendo aos interesses comerciais ou dos acionistas da empresa para manter o cargo…
Haviam também, como hoje é voz geral, os que consideravam os jornalistas uns privilegiados, por ter preferência nas antessalas dos ministérios, achegar-se aos chefes de executivos, tomar cafezinho com parlamentares e receber ingressos para cinemas teatros e shows.
A regra geral era de um comportamento profissional ético e o produto do trabalho informativo isento de favoritismo. Para isto se cultivava o relacionamento com os porteiros, as secretárias e até os informantes da Polícia, tratando-os com cordialidade e respeito. “Fazendo” amizade.
Há segredos no exercício da profissão de jornalista. Recordo um deles: a ajuda indispensável dos fotógrafos em qualquer ocasião. Agradeço a um deles um importante prêmio que recebi por uma reportagem que foi altamente valorizada pela composição fotográfica. O repórter-fotográfico cumpre o milenar princípio de que uma imagem vale por mil palavras…
Hoje, nem o repórter e o fotógrafo escapam das pressões políticas, como Thomas Sowell deixa claro: – “Muitos na imprensa parecem não entender a diferença entre reportar notícias e criar propaganda.”
Numa matéria manchetada em quatro importantes órgãos da imprensa neste mês, encontramos: “O Brasil demorou a combater o covid-19” – omitindo que Espanha, EUA, Itália, Irã e outros também o fizeram. Trata-se evidentemente que em vez de colaborar internamente no combate ao vírus, a mídia fica “do contra”.
Felizmente essa falta de ética, sentenciando à morte milhares de brasileiros, não nos faz perder o respeito pelo jornalismo, que apesar dos pesares renascerá como uma fênix das cinzas.
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