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PROCESSOS

MIRANDA SÁ (mirandasa@uol.com.br)

“O mundo tal como criamos é um processo do nosso pensamento. Não pode ser alterado sem alterarmos a nossa maneira de pensar” (Einstein)

Por uma questão de visibilidade histórica, todos conhecemos dois comoventes processos ocorridos na França. Neles viu-se uma significativa perseguição aos réus, cada um à sua época, e motivos diferentes: Foram julgados o grão-mestre dos Templários, Jacques De Molay, e o tenente-coronel do exército francês, Alfred Dreyfus.

De Molay e outros 138 cavaleiros foram alvo da cobiça do rei Felipe 4º – O Belo, pelas riquezas trazidas do Oriente pela Ordem dos Templários. O soberano era devedor de grande fortuna desperdiçada na guerra contra a Inglaterra e na briga contra o pontífice Bonifácio 8º com a transferência da sede papal de Roma para a França.

Registra-se no processo contra os templários, falsos testemunhos, falsas confissões, tortura e condenação à mote na fogueira.

O Caso Dreyfus, acusado de traição nacional (espionagem em favor da Alemanha) teve uma clara conotação racista sofrendo ataques antissemitas, pois era judeu; um tribunal militar com juízes escolhidos a dedo, condenou o Tenente-Coronel à prisão perpétua na Ilha do Diabo, Guiana Francesa.

Uma carta aberta do intelectual Émile Zola ao presidente Félix Faure, publicada na primeira página do jornal “L’Aurore”, sob o título garrafal de “J’accuse” (Eu Acuso), obteve tamanha repercussão popular que reabriu o processo e reabilitou Dreyfus.

Estes episódios jurídicos terminaram; o dos templários, com o confisco de todos os bens da Ordem pelo Rei, e a consagração de Émile Zola pelo impacto mundial antirracista.

Antes, muito antes, a ditadura papal romana que se impôs ao cristianismo popular, como se fora a “vox dei” – a voz de Deus -, instituiu o “Tribunal do Santo Ofício” para julgar “heréticos”, ou seja, para sentenciar aqueles que fossem contra o Pontífice.

Este tribunal episcopal, conhecido como “Inquisição”, cometeu crimes inolvidáveis; suas atrocidades eram comuns, obtendo sob tortura confissões de fatos inventados pelas próprias autoridades eclesiásticas.

Esta loucura arbitrária serviu de exemplo para a criação dos chamados “tribunais de exceção”, uma marca desabonadora na História da Justiça. Viu-se nos “Processos de Moscou”, num tribunal controlado por Stálin que condenou à morte os velhos revolucionários leninistas, Zinoviev, Kamenev, Rykov e Bukharin.

Da Alemanha nazista nem é preciso falar. Os desatinos e escamoteações dos juízes do chamado “Tribunal do Povo” levaram-nos ao banco dos réus em Nuremberg, pelos desvios maléficos da Justiça. Os facinorosos julgamentos hitleristas condenaram críticos do regime, maçons, pacifistas e testemunhas de Jeová. Ciganos, eslavos e judeus eram aprioristicamente condenados pela Gestapo.

Num dos seus discursos históricos,  Martin Luther King alertou: – “Não esqueçam que tudo o que Hitler fez na Alemanha era legal para os juízes daquele País”, constatando que  até hoje, em pleno século 21, a primeira coisa que fazem os ditadores (que persistem, infelizmente) é intervir nos tribunais pondo no lugar de juízes, bezerros de presépio.

As tentativas de manejar a Justiça ocorrem também nas frágeis e cambaleantes democracias, com magistrados das altas cortes e procuradores gerais indicados pelo presidente da República, passando apenas pelo crivo fajuto do Poder Legislativo.

É por isso que a História da Civilização capitula dezenas de exemplos nefastos de distorções judiciais como, entre nós, em pleno Estado de Direito, contrassensos jurídicos revoltantes.

Se os juízes inquisidores condenavam as “bruxas” à fogueira, e os tribunais stalinista e hitlerista mandavam os opositores para os campos de concentração e as câmaras de gás, há magistrados no Brasil que concedem impunidade para os políticos corruptos, e aos seus bandidos de estimação.

É inadmissível ver-se, por exemplo, a 2ª Turma do STF (conhecida pela seletividade) excluir a delação do ex-ministro lulopetista Antônio Palocci do processo da Lava Jato contra o arqui corrupto Lula da Silva, o pelego que institucionalizou no seu governo a corrupção e as propinas

É mais revoltante ainda, ouvir-se um dos togados defender que este bandido, condenado em três instâncias judiciais, poderia ser candidato à presidência da República.

Precisamos impedir as investidas dos corruptos e dos seus cumplices, sejam da direita ou da esquerda, contra a Operação Lava Jato e querer deletar da História o juiz Sérgio Moro, que sentenciou o ex-presidente cultuado pela esquerda bolivariana.

 

ALICE

Miranda Sá (Email: mirandasa@uol.com.br)

                        “Todas as artes só produziram maravilhas: a arte de governar só produziu monstros”  (Louis Saint-Just)

Como um crítico falou, “Alice no País das Maravilhas” é uma “história infantil com fantasias sem nexo ou conexão temporal”; mas na minha opinião, que reli várias vezes o livro  para os meus filhos, e já recentemente para o meu neto Heitor, incluo nesta observação o recado especial para os adultos em cada diálogo dos personagens antropomórficos.

O livro do matemático britânico, Charles Lutwidge Dodgson, que adotou o pseudônimo de Lewis Carroll, nos leva além da singeleza, a situações fantasiosas com fatos significativos para especulação.

Alice, é uma menina curiosa e crédula, que se vê num lugar exótico, povoado de criaturas peculiares e animais humanizados que a tratam como um deles. Segue um Coelho Branco janota, de colete e relógio cebolão, e entra na toca dele.

Daí em diante a história se desenrola num mundo estranho onde existe um país governado por uma carta de baralho, a Rainha de Copas, uma tirana que mantém o poder pela repressão de uma guarda pretoriana com todos os naipes do baralho.

Passeando alheia à política local, a garota tomou chá com o Chapeleiro Louco, que nunca se levanta da mesa, e se encontra com uma Lagarta que lhe aconselha a tomar chá de cogumelo, que a faria aumentar ou diminuir de tamanho; com os experimentos, conhece o sorridente Gato de Cheshire, uma figura misteriosa que está sempre de bom humor.

Termina por penetrar nos jardins do palácio real onde assiste os guardas discutirem sobre rosas, descobrindo que a governante odeia as rosas brancas. É um dia de festa na corte; e, convidada a participar, Alice é apresentada ao casal monárquico, o Rei e a Rainha.

A Rainha está sempre ordenando à decapitação das pessoas com quem não simpatiza; e um dos condenados foi o Gato de Cheshire, o que entristeceu menina, mas alegrou-se depois ao ver o capataz se recusar a cumprir a ordem, porque o gato aparece sem corpo, só com a cabeça cheia de sorrisos…

A aventura desenrolou-se cheia de surpresas, com a Rainha ordenando que Alice fosse levada ao tribunal para ser julgada, e chegou ao fim com a menina condenada e os guardas levando-a ao cadafalso; diante da guilhotina ela acorda, e vê que as peripécias não passaram de um sonho…

Ao acordar, lembrou-se que ouvira falar de uma CIDADE MARAVILHOSA, do outro lado do Atlântico, no Brasil… Na sua pureza, foi incapaz de imaginar que a beleza deslumbrante da paisagem, estava além, muito além das fantasias oníricas. Viu, entretanto, que a cidade presidida pela imagem do Cristo Redentor do alto do Corcovado, tinha virado de cabeça para baixo.

A causa foi um furacão provocado por uma quadrilha comandada pela Jararaca do ABC paulista e o Rato da Abolição. O vendaval da roubalheira de Lula e Cabral, arrasou a administração pública e a cidade caiu sob o domínio de pedras de dominó.

A Jararaca, em vez de mandar cortar cabeças como a Rainha de Copas, mandava seus partidários roubarem, ordem de que o Rato se aproveitou embolsando tudo que via pela frente; e meteu a mão nas verbas da Educação, do Esporte, Saúde, da Segurança e até na merenda das crianças das creches…

Assim, a Cidade Maravilhosa terminou dividida entre dois partidos, ambos com a mesma intenção de avançar no dinheiro público: o Partido das Pedras de Dominó e o Partido das Peças do Xadrez…

Dessa maneira, Alice, decepcionada com o que viu, voltou para Londres lamentando a desgraça que se abateu no Rio de Janeiro e partiu para outras aventuras, contadas nos livros “O Que Alice Encontrou Por Lá” e “Alice Através do Espelho”…

 

VÍRUS

MIRANDA SÁ (EMAIL: mirandasa@uol.com.br)

“Quando se sugerem muitos remédios para um só mal, quer dizer que não se pode curá-lo”                         (Tchecov)

Chegamos à Internet, e com ela a libertária comunicação das redes sociais, sem que muita gente saiba que esta ferramenta é tataratatara neta do sistema mecânico com tipos móveis de madeira para impressão gráfica em bloco, criado em 1450 pelo ourives alemão Johannes Gutemberg.

Gutemberg se inspirou em antigos métodos de impressão dos carimbos de ideogramas usados desde o século 8 na China e no Japão, e os aperfeiçoou.

Com a facilidade de multiplicar livros, o Ocidente viveu uma autêntica e espontânea revolução cultural; popularizaram-se as obras clássicas e surgiram os primeiros jornais exercendo um imprescindível e indispensável papel para o alvorecer da Renascença, o surgimento da Reforma Religiosa e o desenvolvimento científico.

Com a primeira Bíblia impressa por Gutemberg no século 15, tivemos a primeira reação à caça às bruxas. Com os evangelhos à mão, o cientista João Batista van Helmon, descobridor do suco gástrico, levou ao tribunal a defesa de uma mulher acusada de feiticeira e associação com o diabo, baseado nas escrituras divulgadas.

Van Helmon, mostrando aos juízes o que estava escrito, alegou que o homem é feito à imagem de Deus, por isso o diabo é dispensável na prática do bem ou do mal. Afirmou que “o ser humano tem em si uma energia, que apenas com a força de vontade e de imaginação pode exercer influência sobre qualquer ocorrência, mesmo à distância”.

Diante desta argumentação é de se perguntar como recorrer à força mental para enfrentar as inumeráveis hostes invisíveis dos vírus, principalmente dos agentes infecciosos como este desgraçado novo coronavírus que se alastra numa pandemia planetária.

O verbete Vírus é um substantivo masculino de etimologia latina “vírus,i” – sumo, veneno e toxina. São organismos microscópicos existentes na Natureza capazes de infectar seres vivos; mas nem todos penetram no organismo humano, podem contagiar animais e plantas sendo ineficazes aos seres humanos.

Também dicionarizados temos os seus derivados “viral”, “vírico” e “virótico” significando a ação do vírus, cuja maioria é causadora de várias doenças, se reproduzindo com incrível celeridade no interior das células hospedeiras espalhando a infecção como endemia, epidemia, pandemia e surto.

Segundo um estudo saído recentemente – que infelizmente não gravei, não me lembro a origem, nem o nome do cientista entrevistado, diz que 100 gramas de determinados vírus doentios poderiam exterminar toda a população da Terra.

Além do mais, segundo estudos divulgados pela revista Science, os vírus representam a maior diversidade biológica do planeta, sendo mais diversos que bactérias, plantas, fungos e animais juntos. Só nos oceanos há cerca de 200 mil tipos diferentes deles…

Esta apavorante perspectiva do apocalipse provocado por partículas virais, nos leva a ver como está faltando aos povos uma governança capaz de enfrentar o flagelo que se abateu pelo mundo afora com a pandemia do novo coronavírus, infectando e matando milhões de pessoas.

Atravessando a pandemia, lembro da minha mãe, espírita kardecista, que falava de “doenças providenciais” para despertar o espírito para o bem… Se viva fosse, diria que foi necessário este vírus para causar um terremoto em nosso orgulho e nos lembrar que “a vida é um espetáculo único, irrepetível e imperdível”, no dizer do culto psiquiatra Augusto Cury.

Refletimos, porém, que há outro vírus tão venenoso que age no cenário político pela revisão dos valores éticos e humanitários, o chamado “negacionismo”. É adotado por personalidades psicopáticas que não se envergonham de considerar a covid-19 uma’gripezinha’ e um ‘resfriadinho’, exibindo-se sem máscara e promovendo aglomerações, como faz o presidente Jair Bolsonaro em suas manifestações oligofrênicas.

Ultrapassando 100 mil óbitos em consequência do novo coronavírus, a dor dos pais, esposas, filhas e filhos, transparece a desumanidade do negacionismo genocida. E o pior, como disse Francis Bacon, é que “as condutas, assim como as doenças, são contagiosas”.

MOINHO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Preste atenção, o mundo é um moinho/ Vai triturar teus sonhos, tão mesquinhos/ Vai reduzir as ilusões a pó” (Cartola)

Escrevi em artigo anterior que a Lei de Contravenções Penais, herança da ditadura Vargas, ainda vigora apesar de superada no tempo e no espaço… Nas minhas pesquisas mais recentes, encontrei um artigo da professora Maíra Zapater considerando-a “tão vetusta quanto vigente”. A especialista comprova a minha tese.

Vê-se, pelo menos entre nós, que a legislação mesmo renovada, lapidada, burilada, sobrevive na cabeça de muita gente e, infelizmente no entendimento de alguns juízes, uns demandando e outros julgando e muitas vezes condenando respaldados nela…

Não é, porém, a Lei, o moinho que tritura as pessoas. Aos maus, sim, e infelizmente aos inocentes por acaso envolvidos num delito ou suspeitos pela convizinhança com crimes, sem condições de provar a inocência e sem poder pagar um bom advogado…

O mundo é que é o moinho, como viu o genial Cartola no seu samba clássico. Também citado outro dia, Hermes Trismegisto disse na Tábua de Esmeralda que todos somos, sob certas condições, um minúsculo deus, e complementou:  “porque o que está no alto é como o que está embaixo”; fazendo-nos refletir que também somos demônios…

Em verdade, deuses e diabos super-habitam o nosso Brasil, infestando o cotidiano da gente – e dariam um belo filme do cineasta baiano Glauber Rocha. Acho que são eles as tais “forças ocultas” de que falou Jânio Quadros quando renunciou à Presidência da República na década de 1960…

Eleito com a vassoura na mão para fazer uma faxina no País, Jânio recusou aliar-se com os picaretas do Congresso e a nefasta burocracia, ambos cafetizando a Nação, explorando-a como se fora sua escrava sexual.

De lá para cá não sofremos mudanças, pelo contrário, nos criminosos governos lulopetistas assistimos o aparelhamento da velha burocracia e a aliança com os picaretas nas esquinas do meretrício das empreiteiras corruptas e corruptoras.

Atravessando nos dias atuais as borbulhantes inovações da técnica, com a Internet superando as emissões radiofônicas e as pautas televisivas, a coisa está mudando; aos poucos, mas está mudando.

As redes sociais definidas por Diego Beas como “uma ferramenta eficaz que subtrai o poder do Estado e enfrenta de igual os maus governos” não permitem as distorções, as omissões e a seletividade da chamada “grande imprensa” e muito menos os cambalachos governamentais.

A nova técnica de comunicação, accessível à cidadania, aproveita o que a Natureza empresta ao moinho para moer: as energias eólica e hidráulica: o vento da denúncia e a água da faxina…. E faz o movimento de rotação, como a Terra: O moinho moendo o grão e o mundo triturando sonhos mesquinhos.

A palavra Moinho é um substantivo masculino e a flexão do verbo moinhar, ambos de etimologia latina molinum,i, engenho de moer grãos, um mecanismo montado sobre duas pedras duras, circulares, uma fixa e outra movida por um eixo vertical.

As pedras lembram a Sefirá, no plural Sefirot (em hebraico: סְפִירוֹתsəphîrôṯ, as potências pelas quais o Sem-nome que governa o universo, manifestou a Sua vontade quando criou o mundo. Num dos seus salmos, Davi se referiu a estes atributos da Cabala, confessando não ser forte em “Sefirot”, isto é, na razão de ser.

Uma doutrina mística como a da Cabala não é compreendida por qualquer um que se atreva a conhecer o mundo através dos simbolismos que apresenta, principalmente o sistema hierárquico desenhado na Árvore da Vida com seus dez galhos, cada um com o seu fruto diferente do outro.

Vê-se nesta assimetria os fatos e os seus protagonistas, variáveis no tempo e no espaço. Relembro, por exemplo, o discurso de Jair Bolsonaro contra a corrupção, denunciando a picaretagem política e que faria uma faxina na burocracia governamental dissoluta e aparelhada pelo lulopetismo.

Revirando pelo avesso as suas promessas eleitorais por egocentrismo e pouca formação ética, Bolsonaro renunciou ao que prometia, mas tenta assumir o personagem eleitoral que deixou para trás. Volta, na verdade, a ser o deputado medíocre que foi durante 30 anos no baixo clero da Câmara Federal.

Ao acenar com novas promessas, o que se vê é aliar-se com o PT contra a Lava Jato, defender (e depois recuar) uma nova CPMF, agir irresponsavelmente na pandemia do novo coronavírus e aparecer nas páginas policiais recebendo cheques de Fabrício Queiroz.

Sua personalidade compõe o ditado popular: “Águas passadas não movem moinhos”.

 

 

 

William Buttler Yeats

Aquela não é terra para velhos. Gente
jovem, de braços dados, pássaros nas ramas
— gerações de mortais — cantando alegremente,
salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas,
peixe, ave ou carne glorificam ao sol quente
tudo o que nasce e morre, sêmen ou semente.
Ao som da música sensual, o mundo esquece
as obras do intelecto que nunca envelhece.
Um homem velho é apenas uma ninharia,
trapos numa bengala à espera do final,
a menos que a alma aplauda, cante e ainda ria
sobre os farrapos do seu hábito mortal;
nem há escola de canto, ali, que não estude
monumentos de sua própria magnitude.
Por isso eu vim, vencendo as ondas e a distância,
em busca da cidade santa de Bizâncio.
Ó sábios, junto a Deus, sob o fogo sagrado,
como se num mosaico de ouro a resplender,
vinde do fogo santo, em giro espiralado,
e vos tornai mestres-cantores do meu ser .
Rompei meu coração, que a febre faz doente
e, acorrentado a um mísero animal morrente,
já não sabe o que é; arrancai-me da idade
para o lavor sem fim da longa eternidade.
Livre da natureza não hei de assumir
conformação de coisa alguma natural,
mas a que o ourives grego soube urdir
de ouro forjado e esmalte de ouro em tramas,
para acordar do ócio o sono imperial;
ou cantarei aos nobres de Bizâncio e às damas,
pousado em ramo de ouro, como um pássaro,
o que passou e passará e sempre passa.

(Trecho de Velejando para Bizâncio, de William Buttler Yeats. Tradução de Augusto de Campos)

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Carlos Drummond de Andrade

Cidadezinha qualquer

 

Casas entre bananeiras

mulheres entre laranjeiras

pomar amor cantar.

 

Um homem vai devagar.

Um cachorro vai devagar.

Um burro vai devagar.

Devagar… as janelas olham.

 

Eta vida besta, meu Deus.

 

 

 *De Alguma poesia (1930)
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A MAGIA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O princípio da Causa e Efeito:  qualquer causa tem seu efeito.   Qualquer efeito tem sua causa” (Hermes Trismegisto)

Contaram-me a história de um prefeito da Zona da Mata mineira, que redigia os seus próprios decretos, e num deles, sobre um feriado, escreveu que o comércio da cidade deveria ficar “hermeticamente fechado”. Além do pleonasmo, é quase certo que o político não conhecesse a origem da palavra “hermético”.

A palavra Hermético vem de longe, no tempo e no espaço. Originou-se do nome do filósofo, legislador e médico do Antigo Egito, Hermes Trismegisto, nosso epigrafado, que viveu entre os anos 1.500 aC e 2.500 aC.

Trismegisto escreveu vários livros de pesquisas médicas, observações políticas e sociais, tratados de teologia e experiências alquímicas. Quase todos os seus escritos se perderam nas invasões sofridas pelo Egito, e certamente algumas delas foram incineradas no incêndio da Biblioteca de Alexandria.

Uma das suas obras, conhecida como ‘Tábua de Esmeralda’, circulou durante séculos entre os letrados árabes e foi registrada no livro “Segredo dos Segredos”, em árabe Kitab sirr al-Asrar. Diz-se que a Tábua inspirou os antigos filósofos gregos, destacando-se entre eles Aristóteles, Platão e Sócrates.

A Tábua de Esmeralda (ou Tábua Esmeraldina) não tem versão em grego, embora haja a referência histórica de que foi traduzida do grego para o siríaco e do siríaco ao árabe por Iáia de Antioquia, um tradutor relativamente famoso do século IX.

É importante e curioso o legado cultural contido neste documento que é um tratado guardião de antiquíssimas observações sobre a arte de governar, astrologia, ética, fisiognomonia, medicina e química.

Foi descoberto e traduzido para o inglês no século 13, pelo frade franciscano Roger Bacon, cujo mérito intelectual proporcionou-lhe o título de “Doctor Mirabilis” (“Doutor Admirável”, em latim).

A curiosidade pessoal do frei Roger Bacon e o seu prestígio acadêmico levou ao conhecimento das universidades de Oxford e de Paris as experiências químicas da Tábua, contendo os processos experimentais da liquefação, purificação, oxidação e evaporação, além da obtenção em laboratório de diversos ácidos, dando origem à Alquimia.

A palavra Alquimia é substantivo feminino de etimologia árabe; al-kîmiyâ; pelo grego khymeía, “fusão de líquidos”. É mal definida nos dicionários da língua portuguesa como “a química da Idade Média”; na verdade, a Alquimia era praticada a milhares de anos em busca de remédios para todos os males e mesmo a imortalidade. É gêmea univitelina da magia.

No antigo Egito e na Europa medieval a confinidade da alquimia com as práticas mágicas, esmiuçando elementos minerais e vegetais da Natureza, invocando forças sobrenaturais, anjos ou demônios, realizando rituais do que hoje chamamos de feitiçaria.

Graças ao médico e químico suíço Paracelso, a Alquimia tomou um rumo diferente, o estudo do poder do homem sobre a matéria e a energia. Embora ele tendo confessado que somou aos seus estudos o aprendizado do ocultismo e especulações de natureza mística e esotérica com a Magia e a Cabala, abandonou-os, voltando-se para a pesquisa científica sistêmica.

Paracelso foi uma figura notável, tendo discutido aos 14 anos com os catedráticos de Medicina da Universidade de Viena em 1508, e 20 anos mais tarde venceu a peste negra e antecipou em 500 anos a cura da sífilis, revolucionando a Medicina.

O lado satânico da magia que Paracelso descartou, volta nos dias de hoje assentado no despautério dos que veem num antigo e comprovado remédio para a malária, a cloroquina, uma panaceia para a cura da covid-19.

Do outro lado, a magia como arte herdada dos grandes profetas e médiuns do naturalismo, busca, ao contrário, aquilo que está oculto; na medicina, faz a pesquisa objetiva das vibrações biológicas dos seres vivos; e, na convivência sócio-política, interpreta os sinais transmitidos pela energia do inconsciente humano.

 

 

A RAZÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A pesquisa e o raciocínio científicos devem ser o maior objetivo para o nosso progresso intelectual” (Silva Mello)

Soma-se à epígrafe do mineiro de Juiz de Fora, Antônio da Silva Melo, cientista, médico, professor e ensaísta, autor do espetacular “Eu no Universo” entre outros livros magníficos, uma tese de mestrado que li, mas não pude mais encontrar no Google, perdendo o nome do autor, que escreveu: “A História do Pensamento é também História da Razão”.

Veem de longe o conceito e o debate sobre a Razão. Encontramo-la no caudal da Filosofia com os aristotélicos, mais tarde no iluminismo europeu e, fechando o firo, com o filósofo alemão Hegel, que nos trouxe a compreensão da Razão como fruto de sucessivas gerações de pessoas, intemporal, portanto, na escalada histórica da humanidade.

Como consequência da Razão, nasceu a Revolução Francesa que a pôs nos altares como “deusa”, santificando aureolada a Democracia livre dos dogmas religiosos que sufocaram a Idade Média e dos privilégios da nobreza.

O verbete Razão é um substantivo feminino de origem latina, ratĭo,ōnis, significando cálculo, medida, proporção e registro. É a capacidade natural de raciocinar, de compreender, de estabelecer relações lógicas e também de avaliar e de julgar. A Razão, como entendimento pessoal sobreposto à emoção e à mística, nos leva à essência objetiva dos casos, dos fatos e das pessoas, pela observação e o raciocínio.

A Razão está presente na Matemática (o que me fez sofrer no ginásio), como relação entre dois valores de uma mesma grandeza, expressa geralmente como “a para b”, a:b ou a/b…. E, na Contabilidade, intitulando o livro que registra os lançamentos registados no diário.

Filosoficamente, a Razão deveria funcionar como uma bússola para orientar a política com patriotismo, e o Judiciário com sensatez e honestidade; mas, infelizmente, o que assistimos é a política adentrando nos tribunais e a Justiça saindo pela porta dos fundos, como alerta François Guizot.

Forças ocultas e misteriosas dominaram desde cedo o arcabouço jurídico do País, despachado do outro lado do Atlântico pela devassa corte portuguesa dos anos 1500, para assentar a base forense das capitanias hereditárias…

É por aí que encontramos os motivos da Razão consciente demorar a chegar entre nós e o porquê de não se impor no despudorado cenário político brasileiro, aonde se inverte a observação conceitual das casas legislativas em prejuízo da consciência cívica e da honestidade.

Paralelamente, observamos a magistratura brasileira como peça do mecanismo da Constituição de 88 com os parafusos frouxos, iludindo o entendimento da culpa, se advém do sistema ou da natureza humana; se devemos condenar a legislação cheia de duplas interpretações ou condenar os juízes que arranham a noção pura da Justiça….

O que baixa dos tribunais superiores em desacordo com os anseios nacionais é intolerável. Liberta-se criminosos condenados e impede-se investigações de suspeitos.  Agora mesmo, a troika que atua no STF contra a Lava Jato se juntou ao procurador-geral da República Augusto Aras e aos picaretas do Congresso para impedir investigações contra o crime organizado e a corrupção política.

O panorama é vergonhoso. Há 50 deputados na Câmara Federal investigados por práticas delinquentes, com predomínio das suspeitas de corrupção. Contra isto, felizmente, a corrente de pensamento arrazoada cresce para regozijo dos verdadeiros patriotas.

A Razão coletiva do povo brasileiro esteve presente nas manifestações de rua contra a criminalidade institucional nos governos lulopetistas e foi decisiva para a queda do lulopetismo corrupto e corruptor, e para a eleição de Jair Bolsonaro enganador…

Agora se assiste com revolta ensaios conjuntos dos fantasmas de Atibaia, da direita e da esquerda, contra a Lava Jato por uma volta ao passado. A cegueira do fanatismo “vê” diferença entre “roubozão” de Lula da Silva e o “roubozinho” das rachadinhas de Flávio Bolsonaro.

RAIVA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Se estiver zangado, conte até cem; se estiver mesmo muito zangado, blasfeme” (Mark  Twain)

Uma expressão que deve ser muito antiga, porque ouvi da minha avó, já velha, que tinha ouvido do avô dela: “engolir a raiva”. Na adolescência se falava em “engolir sapos” e “engolir cobras e lagartos”. Apoiando o pelego Lula da Silva, Leonel Brizola disse: “temos de engolir o sapo barbudo”.

A citação avoenga de “engolir a raiva” vinha, todavia, acompanhado de um completo e alertava: -“Engolir a raiva, envenena o sangue”…. A advertência, porém, dificilmente é seguida, pois é impossível frear os sentimentos.

Elocuções da sabedoria popular entram em contradição como que gravou o pensador e fraseur Fabricio Carpinejar, que escreveu: – “Um pouco de raiva não fará mal. Há frutos que apodrecem por excesso de doçura”.

Entre um dito e outro, a verdade é que tive uma raiva danada quando ouvi a proposta da recriação da CPMF pelo ministro da Fazenda, Paulo Guedes, que se apresentava como “liberal” e com as suas declarações aceitando o cargo, me fizeram crer nisto.

Como disse acima, as nossas reações e aversões são irrefreáveis; a raiva desperta uma indignação que não impede a reação verbal e leva as pessoas malcriadas à excessos de fúria e até agressividade física.

“Raiva”, como verbete dicionarizado, é um substantivo feminino, de origem latina rabies,ei, chegando ao latim vulgar como rabia,ae. Diz-se de uma manifestação de fúria em razão de algo ou diante de um fato desagradável; com a restrita sinonímia de “cólera” e “ira”.

Temos na Medicina Veterinária a classificação de Raiva, como uma doença infecciosa, causada por um vírus do gênero Lyssavirus, que ataca o sistema nervoso central, provocando convulsões e paralisia respiratória. É uma doença transmitida pela arranhadura, lambida ou mordedura de animais infectados, geralmente cachorros, e é conhecida como hidrofobia.

A cozinha portuguesa com a sua rica confeitaria de doces e sobremesas, nos presenteou com a “Raiva”, um gostosíssimo biscoito seco e crocante feito de manteiga, ovos, açúcar, farinha de trigo e canela, moldado em tamanho pequeno e forma irregular. No Brasil, em alguns estados, é conhecido como “Raivinha”.

No sentido coloquial da palavra, entretanto, a Raiva é um reflexo mental como reação a ataques pessoais ou aversão à fraude, à mentira e à corrupção intensamente praticadas por políticos desonestos.

No meu caso, por exemplo, blasfemo contra o ministro Paulo Guedes e aos seus apoiadores, o Presidente e seu Vice, por defenderem a recriação de um imposto que foi repudiado nacionalmente e derrubado pela força do povo unido acima dos partidos e das ideologias.

Para muita gente, há outros motivos de raiva, sem dúvida. Uma das minhas filhas me telefonou revoltada ao saber que o bispo Edir Macedo patenteou a “marca” Jesus Cristo comercializando-o em desacato aos cristãos autênticos e desrespeito à crença n’Aquele que morreu na cruz para salvar a humanidade. É por isso, que adoto uma lição de Buda: – “Deus não tem religião”.

Outras desfeitas são registradas, suscitando raiva de muita gente como, por exemplo, a classificação da desonestidade para maior ou menor, como fez o guru dos Bolsonaros, Olavo Carvalho, comparando o roubozão lulopetista com o “roubozinho” da rachadinha… É como se houvesse “meia gravidez” ou “meia integridade” ou “meia honradez”…

Vê-se, também, várias pessoas enraivecidas vendo um general da ativa do Exército, ocupando o Ministério da Saúde para executa a política negacionista do presidente Jair Bolsonaro na pandemia, receitando medicamentos controversos e distribuindo verbas do combate ao novo coronavírus contidas nas cotas parlamentares…

Um dos horrores da História, como escreveu Darwin, é que ela se repete. Talvez seja por isto que vislumbramos uma volta ao passado lulopetista (que pensávamos sepultado sem choro nem vela) pela direita oportunista; em consequência, a raiva se alastra como o novo coronavírus nos círculos do pensamento liberal…

A VOLTA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Pro dia nascer feliz / Essa é a vida que eu quis / O mundo inteiro acordar / E a gente dormir…” (Cazuza)

Uma volta fantástica ao passado, como assistimos no “Meia Noite em Paris”, filme genial do não menos genial Woody Allen, roteirista e diretor, leva-nos a pensar dialeticamente no inverso, uma volta ao futuro…

Otimista, não desejo para mim nem para o Brasil a volta ao passado da corrupção lulopetista, que se mantém nas cabeças dos que se aproveitaram dela, da pelegagem sindical e dos picaretas do Congresso. Amedronta-me ver o presidente Jair Bolsonaro de braço dado com Roberto Jefferson e Waldemar da Costa Neto, e se aliar com o Centrão.

Olhar para trás é virar uma estátua de sal como a mulher de Ló ,que desobedeceu a Jeová e foi castigada, servindo de exemplo para Lucas (17:32): “Não olhes para trás! ”.

O verbete “Volta” dicionarizado, é um substantivo feminino e também as flexões do verbo voltar, a 3ª pessoa do singular do presente do indicativo e a 2ª pessoa do singular do imperativo afirmativo.  Vem do latim volvitare, uma alteração de volvere, “ato de fazer rodar”.

Com a condescendência dos deuses de todas as religiões, creio piamente que eles nos permitirão olhar para trás estudando a História da Humanidade… Considero um dever de consciência conhecermos a vida e a obra dos filósofos gregos e chineses da antiguidade, de repassar a vista pela Renascença e de relembrar a Idade das Luzes… Eu até memorizo a minha infância empolgada com os romances de cavalaria, relendo os “Doze Pares de França”…

Nesta época infernal da crise provocada pelo novo coronavírus e a exigência da solidariedade humana, será bom constranger os egoístas desalmados relembrando a história da rainha Maria Antonieta, que ouvindo falar que o povo parisiense passava fome porque não tinha pão, exclamou: -“Pois que comam brioches! ”.

Conforme ensina a minha mulher padeira, o “brioche”, nasceu da confeitaria real do Château de Versailles: um pão doce, fofinho, amanteigado, açucarado, feito de farinha de trigo puríssima e gemas de ovos….

Outro dia, uma das agências de notícias internacionais noticiando sobre a economia dos países que compõem o G-20, informou que o consumo de alimentos deles tem qualidade e quantidade superiores à de todos outros 173 países-membros da ONU.

Entretanto, dos “Gê-vintenos” a gente ouve as maiores exclamações em defesa dos direitos humanos, uma hipocrisia desmentida pelas eternas tentativas de intervenção na soberania dos países em desenvolvimento. Com as críticas deles, chegam ao Brasil as suas Ongs para nos explorar…

O tema “de volta ao passado” consta de inúmeros livros, filmes e peças de teatro. Eu, inspirado por eles, gostaria de me rever meninote, pré-adolescente, testemunhando a chegada da Coca-Cola nas Lojas Americanas, e comer fatias das primeiras pizzas trazidas por um paulista que as fazia na Cinelândia num beco da Rua Álvaro Alvim.

As minhas memórias ancestrais levam-me às viagens de bonde para o Colégio, lendo o “reclame” com versos que diziam ser de Olavo Bilac: “Veja ilustre passageiro, / Que belo tipo faceiro/ O senhor tem ao seu lado…/ Entretanto, acredite, quase morreu de bronquite, / Salvou-o o “Rum Creosotado”…

E rever as séries do rádio, “O Sombra”, “Jerônimo, O herói do Sertão“ “Polícia Montada”, “Buck Rogers”, “Capitão Atlas”, “O Vingador”, e os programas de auditório, César de Alencar, Paulo Gracindo, Manuel Barcelos, “Os Discos Impossíveis”, “Jararaca e Ratinho” e o velho guerreiro Chacrinha…

Vejo-me regressando à formação cultural, nos “Concertos da Juventude” do maestro Eleazar Carvalho, indo às “Terças de Cultura” da Academia Brasileira de Letras, comparecendo aos debates políticos na ABI, assistindo as “Avant Première” do Cinema São Luiz, fazendo pesquisas na Biblioteca Nacional, visitando o Museu Nacional e indo ao teatro, inclusive às revistas do Teatro Recreio que meu pai gostava e nos levava.

Finalmente, deitando o olhar ao passado histórico, fui um menino de nove, dez anos, que acompanhou o cenário da 2ª Guerra Mundial, com meu pai sintonizando no seu rádio Phillips “A Voz da América”, a “BBC de Londres” e a “Rádio Moscou”; e minha mãe escrevendo esquetes para um programa antifascista da Radio Mundial.

Foi naquela época que aprendi a amar a liberdade e lutar contra os regimes ditatoriais que suprimem os direitos humanos, coagindo, reprimindo, torturando e assassinando. Assim, sou uma criação da Democracia e do Liberalismo.

É por isto que venho de volta à realidade abismado em ver o que julgava impossível: o economista “liberal” Paulo Guedes defendendo um novo imposto, a sinistra CPMF, e o Governo Federal escancarando o quadro funcional das agências reguladores para atender os picaretas do Centrão.

Porque vivo o presente, torço para que o Governo Bolsonaro se resolva: Ou faz o que prometeu na campanha ou faz uma meia volta volver e assume que repete a política bolsopetista…  Faça-o,  para o Brasil acordar e a gente descansar…