Justiça, ainda que tarde

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A indicação de um livro por Carlos Chagas não deve ser desprezada por quem quer tomar conhecimento, através da leitura, dos fatos que escreveram a História Republicana do Brasil. Chagas, ele próprio, como arquivo vivo da vida política tem direito de avaliar o que é bom para nos informar. Neste caso, encontrando uma conotação dialética da “Carta aos brasileiros” (1977) com o “Manifesto dos mineiros” (1943) esclarece algo que tem muito cego que não quer enxergar, a força do liberalismo na nossa cultura política. Da minha parte, só para chatear (palavra usada pela única advogada atuante no processo do Mensalão), sugiro um cotejo entre os dois documentos democráticos e a chamada “Carta de Recife” (2002) que reconheceu a firma da traição de Lula da Silva e do núcleo dirigente do PT aos 20 e tantos anos de lutas da militância petista… Vejamos o que Carlos Chagas escreveu:

“Chegou às livrarias uma obra imperdível, editada pela Lettera, sob coordenação do publisher Cassio Schubsky. Trata-se de “Estado de direito, já! – Os trinta anos da carta aos brasileiros”. Além de reeditar e comemorar o lançamento de um dos mais contundentes manifestos políticos da História da República, de autoria do jurista Goffredo Telles Júnior, o livro apresenta depoimentos de participantes e de contemporâneos daquela que foi a primeira reação ordenada da sociedade contra a ditadura militar.
Lida pelo autor no pátio das Arcadas, a 8 de agosto de 1977, a “Carta aos brasileiros” iguala-se a outro documento mais antigo, o “Manifesto dos mineiros”, de 1943, também de protesto contra a ditadura, mas a do Estado Novo. A política tem dessas coisas, já que os dois documentos se equivalem em bravura, ética e profundidade na defesa dos ideais democráticos e libertários.
Apesar da censura, a “Carta aos brasileiros” foi publicada por jornais que ousaram demonstrar coragem. Já o “Manifesto dos mineiros” circulou no País inteiro apenas através de cópias. Mesmo assim, até agora, leu-se mais sobre a reação dos liberais de Minas do que dos juristas de São Paulo.
Dirão alguns porque os mineiros são mais espertos, ocupando espaços com humildade e competência, ao tempo em que os paulistas, férreos e intransigentes, imaginam que a nação deve reconhecê-los, em vez de se darem a conhecer. Importa menos, porque a lacuna acaba de ser preenchida. O grito de inconformismo é o mesmo. Dirá o filósofo de botequim que nada melhor do que o tempo, para passar. Foram dois momentos sublimes na crônica da resistência democrática. Tomara que nunca mais “precisem repetir-se”.

Carlos Chagas, jornalista

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