Artigo

TRAPAÇAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A trapaça, a má fé e a duplicidade são, infelizmente, o caráter predominante da maioria dos homens que governam as nações” (Frederico II)

O nosso epigrafado, o rei Frederico II, da Prússia, foi protetor e amigo de Voltaire, de quem recebeu grande influência filosófica e política. Tornou-se o que a História registra um “Déspota Esclarecido”.

Esta qualificação foi dada aos soberanos europeus que adotaram e puseram em prática as ideias dos filósofos iluministas. Frederico II, no seu reinado aboliu os castigos físicos, a Educação Básica foi obrigatória e garantiu a liberdade religiosa para todos os cultos. Elevou a Prússia ao nível das grandes potências da época graças ao seu talento militar e administrativo.

Como intelectual (autor das “Obras do Filósofo de Sans Souci”, referência à Voltaire), Frederico II referia-se às trapaças dos governantes que não passavam os seus ministros por um filtro, limpando-os antes de nomeá-los das impurezas para garantir neles apenas a ética, a competência e a honestidade.

O verbete “Trapaça” dicionarizado, é um substantivo feminino com etimologia derivada do latim vulgar, “trappa”, que significa armadilha. Refere-se a qualquer manobra astuciosa, ação realizada com má-fé, tudo o que envolve logro e fraude. É conjugado pelos verbos “trapaçar” e “trapacear”, sendo este último mais usado coloquialmente.

Chegando ao cinema, tivemos o filme American Hustle, traduzido no Brasil como “Trapaça” dirigido por David O. Russell. O roteiro envolve o uso de dois vigaristas, por um agente do FBI numa operação promovida por políticos desonestos.

Além de ser rotineira nos discursos e no desempenho de muitos políticos, a trapaça trouxe notoriedade e fama a trapaceiros que entraram para a História.

Faz tempo que ouvi um caso que se passou em Paris no século passado, quando um jovem deixou nas mãos de um comerciante um violino, penhorado por ínfima quantia.  Ao sair, encosta na calçada da loja um carro, saltando dele um senhor bem vestido que entra na loja procurando certa mercadoria; daí, vê o violino e diz ao atendente: – “Vende o violino? ”, e oferece uma quantia vultosa pelo instrumento. O comerciante surpreso, diz que o violino não lhe pertence. –“Que pena”, lamenta o freguês: – “sou colecionador de “Stradivárius”, e este é um dos poucos que ainda existem; dê um jeito que volto mais tarde”….

De regresso com o dinheiro na mão para pagar o penhor e receber de volta o seu violino, o jovem estudante de música (foi assim que se apresentou) recebeu a oferta de alguns milhares de francos pela compra do instrumento do ganancioso lojista (com o pensamento voltado no milhão do Colecionador). O estudante vacila, regateia, e termina embolsando o dinheiro; e o elegante “Colecionador” (seu sócio) nunca mais voltou à loja…

Este golpe do Stradivárius, provoca simpatia dos que adotam o provérbio popular do “ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de perdão…”. Há entretanto trampolinices que revoltam, como a de certo bispo evangélico que patenteou a “marca” Jesus Cristo, e processou um adepto por usá-la sem pagar… Outro presbítero anunciou feijões curativos contra o novo coronavírus, disputando com a cloroquina do Bolsonaro…

Não é de agora que os trapaceiros atuam fingindo-se religiosos; na velha Bizâncio a Igreja punia com rigor quem não pagava o dízimo, mas seus prelados politiqueiros deixavam os muros da cidade sem defesa, confinados num convento discutindo o sexo dos anjos…

O ludibrio, da religião para a política, não tem limite. O trapaceiro Donald Trump passou ao seu incauto admirador Bolsonaro a ideia de que a cloroquina curava a covid-19, sendo seguido entusiasticamente…. E fez pior, trapaceando mais uma vez, pressionou o governo brasileiro para rejeitar a vacina russa Sputnik V, e foi obedecido colonialmente…

Agora tivemos a trapaça monumental da Familiocracia Bolsonaro em torno do Ministério da Saúde; já haviam escolhido o médico paraibano Marcelo Queiroga para o lugar do ministro-general Pazuello, mas armaram uma farsa com o presidente da Câmara Federal, deputado Arthur Lira, que indicou a cardiologista Ludhmila Hajjar para o lugar.

Convidada para uma reunião com Bolsonaro a conceituada médica viajou a Brasília, mas durante o encontro foram acionados os bonzos bolsonaristas nas redes sociais e os milicianos extremistas das ruas para ataca-la vilmente, até com ameaças de morte.

É assim que age a “ala ideológica” do Governo Bolsonaro. E salve-se quem puder!

O SORO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Os artistas usam a mentira para revelar a verdade, enquanto os políticos usam a mentira para esconde-la”. (“V” de Vingança)

Comentando outro dia sobre a compulsão psicótica de Bolsonaro em mentir, um dos meus seguidores sugeriu que os militares que participam do seu governo deveriam ministrar-lhe Pentotal, para arrancar dele a verdade e desobrigar-se de cumplicidade com os desatinos dele.

Fazia muitos anos que ouvira falar em Pentotal e não me lembrava mais o que seria; fui ao dicionário e encontrei: “Pentotal”, substantivo masculino que define uma substância tiobarbitúrica para indução anestésica, aplicada com injeções intravenosas. Foi (e não sei se ainda é) usado para obter revelações de suspeitos pela prática criminosa.

Na intenção de obter-se sob o seu efeito revelações guardadas em segredo, o Pentotal é chamado de “soro da verdade”, do inglês (truth serum); nasceu de uma experiência feita em 1915 pelo médico norte-americano Robert House. Obstetra, o dr. Robert observou que mulheres anestesiadas em trabalho de parto falavam espontaneamente sobre assuntos íntimos.

A partir de então, várias substâncias entorpecentes e sedativas passaram a ser utilizadas em pacientes de quem se esperava transparecer coisas que escondiam; entretanto a maioria dos indivíduos sob efeito do Pentotal apresentavam mais alucinações do que propriamente a realidade que se esperava colher.

Relatos obtidos dos pacientes sob ação do soro evocavam fantasias indistintas entre a veracidade ou simplesmente mentiras próprias de maníacos obsessivos; fez-se outras experiências como substituto do “soro da verdade” – pelo menos nos EUA -, o ecstasy, a maconha e o LSD, mas os resultados foram idênticos.

É triste constatar isto, porque não adiantaria incluir o bando doentio de fanáticos que aplaudem e seguem o Mitômano que ocupa a presidência da República e raramente expressa a verdade; e vimos  que na pandemia do novo coronavírus ele multiplicou neuroticamente essa incontida repulsa pela realidade.

Daí, em apoio às mentiras presidenciais procedem dos porões do Palácio do Planalto para uso dos agentes governistas, argumentos infectados de esquizofrênica convicção no que o Chefe diz, como se vê na defesa dos remédios ineficazes prescritos irresponsavelmente por ele.

Os cultuadores fanáticos do Presidente (são poucos, mais atuantes) chegam ao extremo ridículo de manifestar pelas redes sociais que as pessoas estão morrendo só para botar a culpa do negacionismo presidencial…. Este desvario alucinado expressa uma criminosa cumplicidade com o genocídio que provocou no País 270 mil mortes pela covid-19.

Fruto da ignorância e desprezo pela Ciência, o negacionismo apareceu no Brasil – sempre é bom repetir –, graças à subserviência enfermiça de Bolsonaro ao ex-presidente Donald Trump, quando este desprezou a pandemia e quase levou os Estados Unidos ao colapso.

O mesmo ocorreu e se mantem ampliando-se entre nós. Fala-se no Congresso em convocar uma CPI da Pandemia para investigar as responsabilidades. Seria como aplicar o soro da verdade nos responsáveis pelos casos e fatos deploráveis que acontecem do Oiapoque ao Chuí.

Porém pela legislação vigente, nenhuma pessoa é obrigada a apresentar provas contra si; o que deixa à disposição dos acusados o direito de mentir; e que o ônus da prova cabe somente ao acusador.

Assim, a injeção de Pentotal para induzir a confissão de um crime é considerada por muita gente como uma forma de tortura. Dizem até que consta do direito internacional privado; mas não encontramos esta referência.

Dessa maneira, como se pode condenar um delinquente negacionista que manda o povo enfiar “no rabo” as máscaras de proteção?  Condenando-se o soro da verdade, livra-se de serem punidos pela Justiça dos homens muitos desses facínoras, o que nos faz raciocinar como Tomaz de Aquino: – “A verdade que deveria libertar-nos, aprisiona-nos”.

O GRITO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“De médico e louco todo mundo tem um pouco” (Machado de Assis)

Nas publicações e círculos culturais entrou em pauta o famoso quadro do norueguês Edvard Munch “O Grito”, pintado por ele em 1908, durante a internação numa clínica psiquiátrica após um colapso nervoso. Estudiosos de vários países, pesquisaram durante anos uma frase escrita a lápis no canto superior esquerdo da tela, “Só podia ter sido pintado por um homem louco!”.

Pensava-se que seria um ato de vandalismo; mas finalmente os curadores do Museu Nacional de Arte, Arquitetura e Design da Noruega concluíram, baseados em estudos de caligrafia, que a frase fora escrita pelo próprio Munch.

O quadro, que sofreu um processo de recuperação, é raramente exposto ao público porque sofre problemas com a umidade, obrigando o Museu a mantê-lo sob a temperatura de 18 graus e iluminação sob controle.

As manifestações artísticas de pacientes psiquiátricos, particularmente dos esquizofrênicos, são expressões emocionantes. Temos no Rio de Janeiro o Museu de Imagens do Inconsciente, com um acervo de mais de 350 mil obras; foi uma criação revolucionária da médica psiquiatra alagoana, Nise Silveira, que tive o prazer de conhecer pessoalmente.

Contrária aos tratamentos agressivos usados à época em pessoas com distúrbios psíquicos, Nise foi pioneira em introduzir na terapia ocupacional a arte-terapia, oferecendo como método terapêutico material de desenho e pintura para incentivar os pacientes a externarem através de imagens os conflitos armazenados no subconsciente.

Partiu também da Psiquiatra a iniciativa de criar a primeira clínica brasileira destinada ao tratamento psiquiátrico em regime de externato, a Casa das Palmeiras, fundada em 1956. As experiências colhidas ali foram aproveitadas nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), estimulando iniciativas artísticas dos pacientes.

O perfil cultural de Nise da Silveira é encontrado nos diversos livros que escreveu, destacando-se entre eles “Imagens do Inconsciente” e “O Mundo das Imagens”, e com a herança deixada por ela, o Brasil não fica devendo nada ao concerto das nações no campo da Psiquiatria.

Entre os estudiosos da História da Arte há uma corrente que defende a tese de que com o pintor e gravador norueguês Edvard Munch nasceu o Expressionismo, e o seu famoso “O Grito” é a representação mais marcante.

No Brasil, pintores como Candido Portinari e Tarsila do Amaral, considerados pela crítica como modernistas, produziram obras de influência expressionista, que também chegou à literatura, tendo Mário de Andrade como seu representante.

Se nos saraus da Academia Brasileira de Letras ainda se debate sobre literatura, (o que acho difícil), pela mediocridade da maioria dos seus membros, o Expressionismo está isolado no lockdown do imponderável….

Embora tardiamente, o expressionismo – agora com letra minúscula -, desceu ao lodaçal da ignorância política como anti-cultura, que não pode ser confundida com contracultura (que é protesto) ou subcultura (underground).

Em Brasília, nas casas do Congresso, no STF e nos corredores do Palácio do Planalto, “O Grito” está presente; não assistimos um só parlamentar capaz de usar a oratória, enfrentam os debates no grito; é também gritante entre os togados, o “garantismo” da impunidade; e assistimos o silêncio submisso dos “homens do Presidente” diante dos gritos dele…

Assim, a estética do discurso que consagrou tantos deputados e senadores brasileiros já não ecoa no cenário político; os juízes comprometidos com a Justiça, são raros; e, no Governo Federal, com relação à pandemia que ceifou mais de 260 mil vidas, só se escuta as expressões barulhentas, insanas e sem sentido de Bolsonaro.

A mediocridade vigente e o negacionismo estúpido nos agride e nos revolta; e o Presidente psicopata extrapola qualquer princípio da boa governança, arrancando das nossas gargantas O Grito: “Chega de Insanidade! ”….

 

 

 

 

FATALISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

           “Existe uma fatalidade interior: há sempre um minuto em que nos descobrimos vulneráveis” (Saint Exupéry)

Tem muita gente que é fatalista sem saber…. Acreditando que o destino de cada um já está traçado antes do nascimento. Este Fatalismo é a concepção de que todos os acontecimentos são irrevogáveis.

Muitos filósofos gregos antigos, epicuristas em particular, eram fatalistas, e assim entrou no estoicismo, deixando como herança a crença do Logos, a ordem cósmica que preside a vida cotidiana. O Logos era para eles a ordem, a razão e o tempo, associados à vontade dos deuses que regiam o mundo.

No mundo árabe o fatalismo se escreve do mesmo jeito como destino, a palavra Maktub ( مكتب ), que se define como alguma coisa que está predestinada a ocorrer. O termo deriva de (kitab) que quer dizer “livro”, e quando se fala Maktub, refere-se a algo que já estava escrito.

No cristianismo (embora seja negado pelos teólogos católicos), encontramos um tipo de fatalismo doutrinário com a Divina Providência, o apelo do crente para uma ação transcendente que atenda a um fim; e, no Judaísmo, apareceu com a esperança da terra prometida e à espera da vinda do Messias, um descendente da Casa de Davi que virá para redimir a humanidade e estabelecer o Reino de Deus na Terra.

No campo filosófico, o fatalismo inspirou Nietzsche a adotar o transcendentalismo de Ralph Waldo Emerson, propondo de que tudo na Natureza e na sociedade humana seja explicado pela determinação, ou seja, por relações de causalidade. É o chamado Determinismo.

Por determinação ou providência, os debates religiosos e filosóficos na atualidade se dividem entre os que aceitam ser a vida um resultado da vontade divina e os que acham que existe de acordo com leis da Natureza.

Muitas histórias contadas ao redor da fogueira, ou para adormecer crianças, insinuam a existência do fatalismo. Quando eu era meninote ouvi da minha tia Autinha um conto (de origem persa) narrando que certa vez um jovem jardineiro regava as flores do jardim de um potentado quando lhe apareceu de repente a Morte.

“O rapaz correu para o patrão apavorado gritando –“Meu amo, o gênio da Morte se mostrou para mim e eu não quero morrer. Me ajude! ”. O dono da mansão se condoeu e disse: – “Tens razão. És muito moço para morrer; pega estas moedas e monta no mais veloz dos meus cavalos, em menos de 24 horas chegarás a Teerã e lá se esconda na casa do meu irmão, que conheces…”

“O adolescente agradeceu e fugiu. Eis que o Sultão (acho que era um Sultão) desceu melancólico ao jardim e lá se deparou com a Morte. – “Porque assustaste o meu servo, tão dedicado no cultivo das rosas e um bem sonante flautista que me divertia? ”

A Morte então interveio: – “Não o quis assustar, pelo contrário; olhei-o surpreso por vê-lo aqui, pois eu deveria leva-lo comigo daqui a 24 horas lá em Teerã…”

Qual o menino que ouvindo essa história não crê no fatalismo? Encanta-se com as coloridas fantasias dos contos das Mil e Uma Noites, reza e pedincha para a Divina Providência e acredita que Jesus Cristo foi o Messias que os judeus desprezaram.

Assim determinado, juntei-me aos milhões de brasileiros que estavam revoltados contra o sindicalismo degenerado dos pelegos, o stalinismo caricaturado pelos trotskistas do PT e o rotineiro assalto ao Erário estimulado pelo corrupto Lula da Silva.

Em massa, assumimos indignados o fatalismo judeu crendo na vinda de um messias…. Desgraça fatal! Ficara sobrevivendo no lugar deixado pelos corruptos um espírito maligno travestido de negativismo, desta vez roubando vidas….

No século passado, há muitas dezenas de anos atrás, como repórter d’ “O Radical” ouvi de um pai-de-santo lá em Madureira, a predição de que muitas tragédias ocorreriam na virada do século 20 para o século 21. Estão aí: vieram com os desatinos de um Presidente genocida.

 

 

 

CORNÉLIA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

 Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos. Como sabê-los? (Vinicius de Moraes – “Poema Enjoadinho”)

Fico curioso como é o ensino infantil de hoje. No meu tempo (faz muitos, e muitos anos, nisto) a gente ouvia histórias que enalteciam o heroísmo do nosso povo, provérbios que despertavam nossa visão do mundo, fábulas que ensinavam a raciocinar e contos históricos exemplares.

Ainda no Curso Primário – equivalente ao Fundamental de hoje -, uma professora nos estimulando para a leitura, aconselhou que lêssemos uma história antiga, dos 153 a.C. referida à senhora romana Cornélia, uma viúva ainda jovem que recusava propostas de casamento para educar os filhos.

Estes, Tibério e Caio, que entraram para a História como “Irmãos Graco”, receberam uma excelente educação da mãe, mulher de invejável cultura, que falava grego e conhecia a literatura greco-romana.

Diz-se que Cornélia era dona de uma beleza ímpar, mas vestia-se simplesmente, e embora tivesse uma grande fortuna, não usava joias; isto levou uma socialite  da época a lhe perguntar o porquê de não usar adornos preciosos; ela então apontou para os filhos e pronunciou uma frase que ficou consagrada: -“Haec ornamenta mea” (“eis as minhas joias”).

Quase dois mil anos depois, o orgulho de Cornélia pelos filhos foi reforçado pelo genial fabulista La Fontaine, ganhando o mundo com a expressão “Mãe Coruja”…. Sei que a imensa maioria dos tuiteiros conhecem a história d’ “A Coruja e a Águia”, que foi magistralmente adaptada para a meninada brasileira por Monteiro Lobato.

Mas, sem querer aborrecer ninguém, vou relembrar a fabulação:  – “Passeando pela floresta a Coruja encontrou-se com a Águia, voraz comedora de passarinhos. Então apelou à predadora pela salvação dos seus filhotes, ainda no ninho: – “Senhora Águia, peço-lhe que se encontrares umas avezinhas bonitinhas, com biquinhos bem feitos e olhos brilhantes, eu ficaria muito grata se não os comesse, pois são meus filhos…”.

A Águia mostrou-se cordata e prometeu respeitar o pedido, mas quando a Coruja voltou ao ninho encontrou vazio pois tinham comido seus filhotes. Voltou então aflita ao poleiro da Águia e disse-lhe: – Como foste falsa, dona Águia. Prometeste que não comeria meus filhinhos, mas os devorastes…”.  Então teve como resposta: – “Imagina! Encontrei uns pássaros pequenos e depenados, sem bicos e de olhos fechados, não pensei que fossem os seus…”.

Cornélia viveu no séc. II a.C. e La Fontaine publicou o seu livro no dia 31 de março de 1668…. No século 20, a minha geração recebeu e percebeu ambas versões do amor de mãe extremado, e acompanhou a bela trajetória dos “Irmãos Graco” sacrificados pelas ideias avançadas que defenderam, como fim do latifúndio e da servidão.

Ainda hoje há quem defenda a exploração do homem por outro homem e resguarde a propriedade rural improdutiva; este atraso traz, também, os que acreditam que a Terra é plana e que uma pandemia virulenta pode ser curada com remédio para malária ou vermífugo.

Entre os males da política, por exemplo, é não distinguir os filhos de Cornélia e da Coruja. Talvez seja esta confusão mental que nos leve a reconhecer que Platão foi além da ficção para a realidade, quando criou a figura de um rei que contestava a invenção do alfabeto; porque temos no Brasil a versão de um reizinho que reprova o uso da vacina.

Com este negativismo de Bolsonaro, assistimos o retorno ignorante de uma era anterior às grandes descobertas científicas das vacinas, com o pioneiro Edward Jenner que a criou para a varíola, e depois Max Theiler (malária), Emil von Behring (tétano), Pasteur (raiva), Albert Calmette e Camille Guerin (Tuberculose), e os especiais da guerra contra a poliomielite, Sabin (oral, com vírus atenuado) e Salk (injetável).

Honra e glória para o compatriota Oswaldo Cruz, que para vacinar contra a febre amarela e salvar o Rio de Janeiro, enfrentou o negativismo amplo e irrestrito de uma população rude e boçal que é representada hoje, tristemente, por um presidente da República!

BESTEIROL

MIRANDA SÁ (Email: mirandasasa@uol.com.br)

“Um besteirol, mesmo repetido por vinte quatro milhões de bocas não deixa de ser um besteirol” (Anônimo)

Nos Estados Unidos, o presidente Franklin Roosevelt tinha um secretário que aqui e acolá cometia uma asneira, chegava atrasado, esquecia recados e trocava horários, sua mulher, Eleanor, ouvindo suas reclamações sobre o rapaz perguntou-lhe porque não o despedia; e Roosevelt justificou-se por não o fazer: -“Porque ele me diverte, sempre me surpreende, nunca se repete”…. Coisas comezinhas que dão exemplo de uma visão simplista e humana.

Tratava-se de um caso pessoal; na administração pública é impossível ver as coisas com este toque divertido, e Roosevelt neste sentido, era duro com seus auxiliares. Ao se tratar de atender à Nação, ao Povo, não é possível a um governante ser tolerante com mal feitos de qualquer medida.

É como a corrupção: Tanto faz que se reflita pelos milhões ou tostões apropriados do dinheiro público; os seus culpados ou motivadores cometem um crime; e quando se trata de um cristão, deve ser condenado pelos homens e por Deus, como pregava São Crisóstomo, patriarca de Constantinopla e um dos “Padres da Igreja”, título honrado para poucos….

Quando íamos aos milhões às ruas contra a corrupção dizíamos pelas redes sociais que não tínhamos “bandidos de estimação”, uma forma de enfrentar os que queriam defender, por partidarismo ou ideologia, os lulopetistas envolvidos em falcatruas.

Isto só ocorreu antes das eleições e nós só nos demos conta depois, apesar do genial Millôr ter alertado que “acabar com a corrupção é o objetivo supremo de quem ainda não chegou ao poder”….

É triste constatarmos que o problema criminal no Brasil se torna político. Não é por acaso a campanha contra a Lava Jato que juntou a direita e a esquerda contra Sérgio Moro. Mostra como é difícil enfrentar o crime organizado e a corrupção política.

Confira-se a leniência com que alguns ministros do Supremo Tribunal Federal julgam os corruptos e grandes doleiros, e legalizam os áudios do Juiz e procuradores federais colhidos ilegalmente por hackers. Uma sentença que ajuda condenados por corrupção, como Lula e Sérgio Cabral, desmerecendo a JUSTIÇA (com maiúsculas).

Veja-se, por exemplo, o trabalho que o senador Flávio Bolsonaro está tendo para não provar a sua alegada inocência no caso das “rachadinhas”.  Assim, uma passagem d’ olhos pelo cenário jurídico e as coloridas cortinas da corrupção, assiste a divinização do “besteirol” como contra-argumento em defesa dos “bandidos de estimação”.

Ensinou “herr” Goebbles, que a repetição de uma mentira termina por torna-la verdade nos ouvidos de quem ouve…. Na minha opinião trata-se de um Besteirol; nunca a mentira se tornará verdade. “Besteirol” é uma gíria consagrada pelo povo como “besteira” que chegou sisudamente aos dicionários significando “absurdo”.

Do mesmo jeito como há filmes de bang-bang, policiais, românticos e de terror, o cinema criou “filmes de besteirol” que estão rodando pela televisão como “As Branquelas”, “Os Farofeiros”, “American Pie” e “O Mentiroso”….

Falando n’ “O Mentiroso”, escrevi outro dia um texto mostrando como o presidente Bolsonaro foi de “mito” a “mitômano” pela repetida inconsequência em ignorar a verdade, como tem feito durante toda pandemia do novo coronavírus, receitando remédio da malária para a covid-19 e condenando com xenofobia a vacina chinesa, Coronavac, que está salvando o Brasil.

Como mitômano, Bolsonaro é ignorado pelos seus fanáticos seguidores reduzidos hoje a 24,5% dos brasileiros que o defendem como “Pai da Vacina”. Para esses tolos, tudo o que ele diz e faz é aceito surda e cegamente….

Será curioso saber se esses patetas aplaudirão a medida populista, “à la Dilma”, intervindo na Petrobras, dando um prejuízo de R$ 100 bilhões â empresa. Não duvido; num País onde corruptos festejam a ida dos seus processos às cortes superiores, vai haver alguém aplaudindo o besteirol de Bolsonaro mesmo pagando muito caro por isso….

 

CARICATURA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A caricatura é mais forte que as restrições e que as proibições” (Eça de Queiroz)

Inspirei-me para o título deste artigo na observação de Aldous Huxley dizendo que as caricaturas são as formas mais agudas da crítica. A História nos mostra que no Brasil a caricatura tem sido a mais exuberante e influenciadora maneira de atacar a politicalha e os políticos despreparados, negligentes e venais.

Folheei a espetacular História da Caricatura Brasileira, de Luciano Magno, um registro da inteligência brasileira neste campo da literatura, mostrando o trabalho dos grandes caricaturistas e as dezenas de publicações, jornais e revistas, que encantavam o imperador Pedro II e mais tarde a Getúlio Vargas e Juscelino Kubitscheck.

Nos governos militares, de 1964 a 1985, o último general que ocupou a Presidência da República, João Batista Figueiredo, comentava que o humor das caricaturas ajudou muito a abertura democrática iniciada no Governo Geisel e realizada por ele.

O verbete Caricatura, dicionarizado, é um substantivo feminino que significa a mostra ridícula de pessoas, coisas e acontecimentos científicos, culturais e sócio-políticos, provocando comicidade. Vem do francês “caricature” e do italiano “caricatura”, ambos de etimologia latina, “caricare”, carregar.

No casamento do desenho – com distorção engraçada, mas traços característicos do modelo -, e o texto – sucinto, claro e provocante -, muitas personalidades sociais foram ridicularizadas, projetos legislativos desmoralizados, poderosos caíram e governos mudaram o rumo da política….

Nessas núpcias humorísticas, entram festivamente as alcunhas, apelidos e codinomes, qualificativos especiais que revelam ou deixam dúvidas sobre a identificação dos referenciados…. Provocando risos ou enraivecendo, as caricaturas deverão ser acatadas como fez o genial Voltaire.

O Filósofo se encontrava num círculo de intelectuais que conversavam sobre superstições e citou Habacuque, atribuindo-lhe juízos radicais. Habacuque, é o oitavo dos doze profetas menores, aceito pelos rabinos ortodoxos como autor do Livro de Habacuque, pouco lido, mais com revelações semelhantes às de Jeremias sobre conversas entre eles e Deus.

Pois bem. Como não era a primeira vez que Voltaire citava Habacuque usando-o para avalizar ideias próprias, um dos presentes, estudioso da Bíblia, levantou dúvidas afirmando que o Profeta nunca dissera aquilo. Voltaire não se importunou: – “Pouco m’importa, considero-o capaz de ter dito isto e muito mais…”.

Assim, não devemos deixar esquecidas nas gavetas dos ofendidos as caricaturas que mostram que são capazes de manifestação censurável, sejam eles de que partido forem e quais as ideias que defendem. Se forem radicais no seu comportamento, muito melhor para serem divulgadas.

Os apelidos e alcunhas não podem ser escondidos, Getúlio era chamado pelo povão de “Gegê”, Juscelino, conhecido entre amigos como “JK”, o general Figueiredo, na Escola Militar de Realengo era apelidado de “Fig”, e o general Aurélio Lira Tavares, intelectual, usava nas suas crônicas o cognome de “Adelita”.

Uma capa da revista IstoÉ, comparando Bolsonaro a Coringa, vilão das histórias de Batman, alcunhou-lhe de “Bolsoringa”; mas, para desmerecer a comparação, os bolsonaristas inteligentes (os há, poucos, mas existem) passaram a chama-lo assim. Outros, entre eles, mostram intimidade chamando-o de “Bozo”.

Na oposição, aparecem “Capitão Minto”, com referência às contumazes mentiras, e “Capitão Cloroquina”. por causa da insistência tresloucada em diagnosticar um remédio para malária como sendo capaz de combater a covid-19….

Dá-se agora um apelido para o deputado preso pelo STF e a Câmara Federal por pregar a insurreição contra o Estado de Direito, defendendo o ditatorial AI-5, mostrando com esta explosão o desagregador contumaz, intolerável pela Corregedoria da PM/RJ, isolado na Câmara, e desprezado até pelo seu partido. Chamam-no de Daniel “O Quê”.

Surgiu por coincidência por causa da dúvida que o ministro Luiz Fux teve a respeito do seu sobrenome e representa o medíocre que ele é; esse “O Quê” é uma caricatura de parlamentar: ignorante e truculento que não merece respeito.

 

 

ESTADISTAS

MIRANDA SÁ (mirandasa@uol.com.br)

“Um verdadeiro estadista ostenta a imagem do seu país“ (André Maurois)

Quando eu era menino, assisti a uma manifestação de protesto contra o governo em frente ao Palácio do Catete quando, surpreendentemente, Getúlio Vargas chegou na sacada e fez um dos célebres discursos que começava com a exaltação: – “Trabalhadores do Brasil! ”, e garantiu que a reivindicação seria atendida em 24 horas. Os protestantes aplaudiram e se dispersaram gritando: -“Getúlio! ”, “Getúlio! ”.

Meu pai, que estava comigo, comentou: – “Vargas é um estadista! ”. O verbete Estadista, dicionarizado, é um substantivo masculino e feminino, formado etimologicamente pela junção da palavra Estado e do sufixo “ista”, significando pessoa que revela domínio na arte de governar, líder que dá exemplo de competência, empenho e conhecimento dos problemas nacionais.

A História veste muitos protagonistas que ocuparam o poder, vestidos pelo figurino do Estadista. Lembro de alguns protótipos.

Certa vez o rei Frederico II da Prússia assistiu de uma janela uma ruidosa manifestação de rua e ouviu do seu ajudante de ordens que alguém havia postado um cartaz com ofensas a ele, e o povo se agitava por que não conseguia ler o cartaz que estava muito alto. Disse ao rei que iria mandar a guarda reprimir o protesto; Frederico o impediu e pondo-se com o corpo de fora da janela, gritou bem alto: – “Abaixa o cartaz para que o povo possa ler! ”. A multidão riu-se e se dispersou…. Um exemplo de estadista…

Nos anos agitados de 1848, por causa da Comuna de Paris, a Rússia enfrentava ações subversivas e o brilhante escritor e pensador Fiódor Dostoievski, acusado de conspirador, foi preso e condenado ao fuzilamento. Levado à Praça Semenov, na antiga São Petersburgo, para ser executado publicamente pelo crime de insurreição contra o Império Russo.

Poucos minutos antes do pelotão de fuzilamento cumprir a sentença, o czar Nicolau I voltou atrás na sua decisão e comutou a pena de morte, mudando-a para prisão na Sibéria…  Declarou que o fazia em respeito à cultura russa. Exemplo de estadista…

Temos também, nas anedotas históricas sobre a postura de estadista, uma passagem com o rei Luís IX, que rejeitando um vinho que estava avinagrado, perguntou a sua origem e ouviu de um auxiliar que examinou a garrafa, que era falsificado. O Rei então lavrou imediatamente um decreto punindo os falsificadores de alimentos e de bebidas, condenando-os à forca. Medida que mostra um exemplo de estadista…

Infelizmente, não está entre esses exemplos modelares o registro histórico que nos deu a rainha Maria Antonieta que ouvindo falar de rebeliões em Paris porque faltava pão à mesa do povo, disse: – “Não tem pão? Então dei-lhes brioches…”.

Há quem negue a veracidade desse fato, mas ele se espalhou pelo mundo e chegou no Brasil, infelizmente adotado pelo presidente Jair Bolsonaro, cujas sugestões em plena pandemia do novo coronavírus são do tipo mariantonietônicas.

O seu ministro do Exterior, extremista ideológico, publicou nas redes sociais uma mensagem xenófoba e discriminatória contra China, injuriando o seu governo como responsável pelo vírus. Recebeu elogios de Bolsonaro, que três meses depois encarregou-o “negociar” uma aproximação com aquele País…

Quando informado de que estava morrendo gente por falta de oxigênio no Amazonas, Bolsonaro ordenou ao ministro-general preposto na Saúde: – “Não tem oxigênio? Distribua “kit covid” e cloroquina…”.

E agora, quando se elevou o clamor desesperado do povo pela ameaça de falta de vacinas contra a covid-19, o Presidente ouviu dos seus aliados no Congresso que é preciso providenciar os imunizantes. O que ele fez?; lhes enviou uma medida provisória facilitando a compra de armas e munições. – “Não tem vacinas? Vamos dar revólveres! ”…. E com isto, assume um mau exemplo de estadista…

IMPROVISOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Ter capacidade de improviso é fundamental, improvisar como regra é imprudência” (Reis Júnior)

Morei alguns anos em Campina Grande, e foi lá que ouvi uma história sobre um querido amigo, Raymundo Asfora, advogado, político e poeta admirável. Está anotada num dos meus caderninhos (tenho mais de cem). Reencontrei-a mexendo nos meus guardados com o tempo que me sobra no isolamento social….

Conta que Asfora estava sentado à mesa de um bar com amigos, quando uma moça se achegou esbaforida, lhe implorando para ir defender seu irmão que estava sendo julgado por causa de uma briga com a família da namorada.

Saíram correndo, pois, os julgamentos do dia estavam iniciados, o que não deu tempo para Asfora estudar o processo; ele passou rapidamente a vista pelos autos e iniciou a defesa – como sempre brilhante -, argumentando contrariamente ao seu cliente. Quase concluía sua intervenção, quando a irmã do réu se aproximou e lhe advertiu que estava acusando em vez de defender….  Sem se perturbar, Raymundo Asfora correu para o improviso:

– “É assim que falará o promotor acusando o meu constituinte, apresentando deduções fantasiosas para condenar este pobre moço, vítima e não culpado; e eu vou rebatê-lo mergulhando nas águas cristalinas do Direito! ”. E fez uma defesa severa que absolveu o rapaz e entrou nos anais da Justiça Paraibana….

O improviso é muitas vezes necessário, e todos estamos sujeitos a improvisar, mas também somos obrigados a nos responsabilizar por possíveis equívocos, o que não é o caso dos advogados….

Acontece também (e muito) no Teatro. Do palco, conta-se que Sir Lawrence Olivier, no início da fulgurante carreira, foi perseguido por um velho ator que morria de inveja dele. Quando Lawrence estreou, foi coincidentemente como coadjuvante do personagem principal, protagonizado pelo tal invejoso; e este, em cena, passou-lhe um papel em branco e ordenou-lhe que lesse um édito do Rei.

Lawrence não se apoquentou; curvando-se, devolveu-lhe a lauda e disse em voz alta: -“Meu amado milorde, o Rei não sabe que sou analfabeto, como Vossa Excelência sabe, portanto, peço-lhe humildemente que leia por mim…”

Como na vida todos somos atores, enfrentamos situações imprevisíveis, sem estarmos preparados para enfrenta-la, sem um ponto em frente ao palco da existência que nos possa indicar o que deveremos fazer. Então somos obrigados a improvisar.

O verbete Improviso, dicionarizado, é um substantivo masculino com significado para algo que é dito de chofre, sem nenhuma preparação ou ensaio prévio. Leva ao teatro e à música para situações que exigem uma rápida modificação do texto ou na composição.

Improviso é também adjetivo, aquilo que se realizou de maneira repentina e imprevista; a etimologia da palavra é latina “improvisu”, do “in promptu”, prontidão, pronto para agir.

Nem sempre podemos festejar e aplaudir improvisos. Agora mesmo, enfrentando a diabólica pandemia do novo coronavírus, aprendemos, por exemplo, que governar não é improvisar como tem feito seguidamente o Governo Bolsonaro, e o Presidente, de moto próprio, adotando o “achismo” para receitar remédios ineficazes para a covid-19, como a cloroquina indicada para a malária.

O pior é que Bolsonaro é seguido submissamente pelo ministro da Saúde, distribuidor de “kits-covid” que nada têm a ver com a doença, e o ministro da Ciência, imaginem, da “Ciência! ”, indicando um vermífugo contra o novo coronavírus!

Assim, assistimos a todo momento conceitos negativistas assumidos por Bolsonaro sobre as mortes e contaminações, mostrando o seu despreparo, sua inconsciência, frieza e desumanidade, no trato das coisas ligadas à pandemia.

As famílias enlutadas, a agonia nas UTIs, a falta de leitos e de oxigênio, deveriam servir de alerta para que o Presidente pisasse no freio da sua estupidez para que interrompa seus improvisos, os disses-não-disses e a negação à Ciência, que resultam em lamento e revolta das vítimas e incentivam as mentiras revoltantes dos seus defensores…

 

 

MELANCIAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“De onde alguém tirou essa ideia imbecil de chamar a pessoa de melancia ou de maçã? (José Wilker)

Pelo comportamento e intervenções discursivas vê-se logo que o mais ferrenho anticomunista foi um membro da organização marxista que não alcançou os cargos de mando na hierarquia do partido…

Exceção à regra foi o jornalista Carlos Lacerda que presidente da Juventude Comunista, abandonou o PCdoB. Possuía uma invejável cultura, foi brilhante orador e extraordinário redator, pelo estilo e clareza do texto. Tive a oportunidade de vê-lo na Tribuna da Imprensa ditar dois artigos ao mesmo tempo para duas datilógrafas em mesas à distância uma da outra….

Outros referidos ficam por baixo na comunicação social; excetua-se o radialista e astrólogo Olavo de Carvalho, guru dos Bolsonaro e influente no governo federal, com duas ou três indicações para o Ministério…. Este se tornou, como influenciador digital, uma peça importante na política atual.

O anticomunismo de Olavão (como é conhecido pelos seus discípulos) bate com a formação do presidente Jair Bolsonaro. Ambos vivem o passado da chamada “guerra fria”, o conflito ideológico entre os Estados Unidos e a finada União Soviética, melhor dito, entre o capitalismo e o comunismo.

Antes de Bolsonaro ser afastado do Exército, o Pentágono – centro nevrálgico das Forças Armadas norte-americanas -, ainda planejava estratégias militares e a geopolítica da guerra fria, repassando-as aos seus aliados (como o Brasil). Então, o perigo vermelho era o espectro ameaçador para o Mundo Livre.

Hoje, essas configurações ficaram para trás, o Departamento de Estado e os militares norte-americanos subestimam os paisécos que se assumem como comunistas; voltam-se para enfrentar o terrorismo nascido no Oriente Médio, fazendo-lhe uma guerra sem trégua. Vê-se agora, o novo presidente norte-americano deletar a política externa de Donald Trump, mas manter as ações punitivas contra o Estado Islâmico e o que resta dos Talibãs.

Qualquer pessoa bem informada enxerga isto com clareza, por que não é difícil saber que a URSS se acabou, a China adaptou-se ao capitalismo e a Internacional Comunista ficou soterrada sob os escombros do Muro de Berlim…

Entre os países mais avançados, seja talvez o Brasil o único que olha pelo retrovisor da História, pela ignorância dos charlatães que ocupam o poder em nome de uma “direita conservadora” – que não é, evidentemente, o conservadorismo que Ângela Merkel faz na Alemanha, nem o do recém falecido George Shultz, ex-secretário de Estado dos EUA que ajudou a acabar com a Guerra Fria.

Por causa dos que ficaram presos ao passado, vemos ressurgir no Brasil o termo “melancia”, como sinonímia comparativa inventada pelos antigos arapongas da Abin para dedurar os oficiais das FFAA, classificando-os como melancias, “verdes por fora, vermelhos por dentro”….

A palavra Melancia, com este sentido aproximado não consta dos dicionários.  Aparece como um substantivo feminino usado na Botânica para designar uma planta cucurbitácea que foi cultivada antigamente nos países mediterrâneos e hoje se espalha em todo mundo. O verbete tem origem latina “maca mattiana”, “maçã da cidade de Mattium“, que deu no asturiano “mellón” e no gaélico antigo, “mael”; hoje, nos países hispânicos fala-se sandía.

No Verão que atravessamos, o suco da melancia é um refrescante notável; mas no Inverno da politicagem mas a fruta continua usada na expressão dos arapongas. Vemos nas redes sociais esta referência para os generais patriotas que não se penduraram nos cabides de empregos governamentais.

No Twitter, os retardados cultuadores de Bolsonaro chamarem o vice-presidente Hamilton Mourão e os generais Villas Boas e Santos Cruz de melancias… Estes estúpidos, que se assumem como anticomunistas, imitam Stálin, querendo apagar as fotografias dos antigos defensores de Bolsonaro, dissidentes revoltados, como eu, pelas traições dele ao discurso eleitoral.

“Ma como sonno cretini! ”, disse um senador italiano (que m’esqueço o nome) quando os fascistas foram contra o Tratado de Latrão, que deu autonomia ao Estado do Vaticano. Um dos “cretini” brasileiros, xerocador das fake news do andar “de cima”, acusou o general Olímpio Mourão Filho de comunista, pela citação do livro dele, “A Verdade de um Revolucionário”.

Ignorante, desconhece que Mourão Filho foi o principal ator do movimento militar de 1964 e fazem 50 anos que faleceu, em 1972. Vá ser cretino assim no Inferno!