Artigo publicado nesta 2ª feira no JORNAL DE HOJE

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“Esquerda” lulista-petista abandona Marx

MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br



Não acredito que a “esquerda da boquinha” tenha preocupação em conhecer o Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels. Acho, também, que os demais seguidores do lulismo-petismo ditos “de esquerda” ignoram que o documento de 1888 foi a origem do movimento comunista internacional, de riquíssimas experiências positivas e negativas. Pela auto-suficiência desses pelegos que ascenderam ao poder com Lula da Silva, conclui-se que eles se satisfazem em julgar que o sindicalismo nasceu no ABC paulista e a luta política se resume ao jogo de poder onde os mais sabidos vencem.

Como não estudaram os clássicos do socialismo, pouco se lhes dá se as palavras-de-ordem baixadas pelos dirigentes do governo e do partido representam ou não uma verdade histórica. Para eles é mais cômodo acompanhar a manada tangida pelo Nosso Guia. Seja lá como for vou contribuir para os que escapam da lavagem estomacal – proporcionada pelos privilégios e vantagens que o poder oferece e da lavagem cerebral – feita pela propaganda massiva de um governo virtual.

Quem não quiser o “ouvir e obedecer” fascista aprenda que Marx e Engels principiam o Manifesto dizendo que “a história da sociedade existente até hoje tem sido a história das lutas de classe”. E deve saber (se possível bebendo na fonte) que a introdução do documento é uma lição de Materialismo Histórico, assentada na concepção de que “desde as épocas mais remotas da História, encontramos, em praticamente toda parte, uma complexa divisão da sociedade em classes diferentes, uma gradação múltipla das condições sociais”.

Engels, cientista social na acepção do termo e antropólogo por predileção, e Marx, historiador e economista, descrevem com detalhes as distinções de ordem econômica, social e jurídica da Roma Antiga até a sociedade burguesa – tal como se apresentava à sua época. Nunca, em nenhum trabalho da vasta produção literária dos dois, individual ou conjunta, aponta a divisão social entre “elites” e “pobres” como o antagonismo que sustenta o Estado e seus aparelhos distributivos ou repressores.

A divisão social entre “elite” e “massas” é de Vilfredo Pareto, um dos ícones da direita italiana. Foi por ele que a “esquerda lulista-petista” abandonou Marx. No seu primarismo intelectual, Lula da Silva reproduz a condenação da “elite” como origem de todos os males que afligem o Brasil. Seus sequazes não discutem; qualquer que sejam suas origens, socialistas cristãos, stalinistas e trotskistas, todos aceitam sem discutir a tese e levantam a bandeira da divisão social entre ricos e pobres, em vez de burguesia e proletariado, como é na realidade.

Aproveitando-se do analfabetismo político da pelegagem miúda e da natural acomodação dos que aparelham o governo, os intelectuais do lulismo-petismo (que se auto-intitulam “orgânicos”) baseados na doutrina de Pareto criaram a “conspiração das elites contra o trabalhador que se elegeu presidente da República”. Não definem o que para eles é a “elite” e escondem que Lula da Silva não trabalha há mais de 40 anos e, com menos de dez anos nas oficinas metalúrgicas, não adquiriu uma ideologia proletária.

Anteriormente tive a oportunidade de escrever que, apesar de desonesta, esta campanha contra-informativa é inteligentíssima. De um lado, amarra o restante da antiga militância de inteligência curta que aceita a posição certa ou errada do partido; e, do outro, oculta a elite emergente do lulismo-petismo que renegou o socialismo e só atua para ascender social e politicamente ou enriquecer rapidamente.

Esta nova elite não vê conceitos de classe: mistura-se com pelegos, financistas, usineiros, espiões do antigo SNI, políticos profissionais, intelectuais desonestos, juristas acomodados e militares em desalento. Todos acomodados no PT-governo, cujo organograma está exposto, estudado e divulgado no processo do mensalão que corre no Supremo Tribunal Federal. Vejam os personagens que ali desfilam; confiram as performances na sua trajetória política, a aquisição de bens, o prestígio governamental e o uso disto em benefício próprio.

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