Carta de Darwin antecipando a teoria das espécies
1844
A J. D. Hooker
11 de janeiro de 1844
1 Down. Bromley, Kent Quinta-feira
Meu prezado Senhor,
Devo escrever para vos agradecer por vossa última carta; e para dizer o quanto todas as vossas idéias e dados me interessam.-Tenho que pedir licença para dar minha interpretação pessoal do que dizeis sobre “não ser um bom organizador de pontos de vista amplos”: – que é que não vos entregais às especulações desconexas que são tão facilmente empreendidas por todo conhecedor superfi-cial e todo colecionador errante.-
Vejo a tendência acentuada para a generalização como um completo malefício– Peço-vos a gentileza de observar um pequeno fato para mim: se alguma espécie de planta característica de qualquer ilha, como as Galápagos, Sta. Helena ou a Nova Zelândia, onde não há quadrúpedes de grande porte, tem sementes recurvadas – com ganchos que, se observados aqui, seriam justificadamente considerados como adaptados para se prender à lã dos animais- Peço-vos ainda o obséquio de me informar, em algum momento (embora eu esteja esquecendo de que isso certamente aparecerá em vossa Flora da Antártida), se em ilhas como Sta. Helena, as Galápagos e a Nova Zelândia, o número de famílias e gêneros é grande em comparação com o número de espécies, como acontece nas ilhas de coral e, segundo creio(?), nos pontos mais remotos das terras árticas.
Decerto isso é o que acontece com as conchas Marinhas nos pontos mais distantes dos mares árticos.- Porventura suponde que a escassez numérica de espécies, proporcionalmente ao número de grandes grupos nas ilhotas de Coral, deve-se ao acaso, que faz que sementes de todas as ordens sejam levadas a esmo para esses novos locais, como presumi?
Já haveis coletado conchas marinhas na região de Kerguelen? Eu gostaria de saber qual o caráter delas. … A parte meu interesse geral pelas terras do sul, tenho agora estado empenhado, desde minha volta, num trabalho muito pretensioso, e que não conheço nenhum indivíduo que não chamasse de uma grande tolice- Fiquei tão impressionado com a distribuição dos organismos nas Galápagos e com o caráter dos mamíferos fossilizados americanos, que decidi coletar às cegas toda sorte de dados que pudessem ter alguma relação com o que são as espécies.
Li pilhas de livros de agricultura e horticultura, e nunca parei de colecionar dados Por fim, surgiram alguns raios de luz, & estou quase convencido (contrariando a opinião com que comecei) de que as espécies não são (isto é como confessar um assassinato) imutáveis. Deus me livre do disparate lamarckiano de uma “tendência para o progresso”, de “adaptações oriundas da vontade lenta dos animais” – mas as conclusões a que sou levado não diferem muito das dele – embora os meios da mudança sejam inteiramente diferentes.
Creio haver descoberto (isso é que é presunção!) a maneira simples pela qual as espécies adaptam-se primorosamente a diversas finalidades. Agora haveis de dar um suspiro e pensar com vossos botões: “que homem é esse com quem venho desperdiçando meu tempo ao lhe escrever{?}- É o que eu teria pensado, cinco anos atrás. … Recebei, meu prezado Senhor,
Minhas mui atenciosas saudações,
C. Darwin
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