Poesia

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ESTE É O PRÓLOGO

 

 

Deixaria neste livro

 

toda a minha alma.

 

este livro que viu

 

as paisagens comigo

 

e viveu horas santas.

 

 

Que pena dos livros

 

que nos enchem as mãos

 

de rosas e de estrelas

 

e lentamente passam !

 

 

Que tristeza tão funda

 

é olhar os retábulos

 

de dores e de penas

 

que um coração levanta !

 

 

Ver passar os espectros

 

de vida que se apagam,

 

ver o homem desnudo

 

em Pégaso sem asas,

 

 ver a vida e a morte,

a síntese do mundo,

 

que em espaços profundos

 

se olham e se abraçam.

 

Um livro de poesias

 

é o outono morto:

 

os versos são as folhas

 

negras em terras brancas,

 

 e a voz que os lê

 

é o sopro do vento

 

que lhes incute nos peitos

 

– entranháveis distâncias.

 

 O poeta é uma árvore

 

com frutos de tristeza

 

e com folhas murchas

 

de chorar o que ama.

 

O poeta é o médium

 

da Natureza

 

que explica sua grandeza

 

por meio de palavras.

 

O poeta compreende

 

todo o incompreensível

 

e as coisas que se odeiam,

 

ele, amigas as chamas.

 

Sabe que as veredas

 

são todas impossíveis,

 

e por isso de noite

 

vai por elas com calma.

 

Nos livros de versos,

 

entre rosas de sangue,

 

vão passando as tristes

 

e eternas caravanas

 

que fizeram ao poeta

 

quando chora nas tardes,

 

rodeado e cingido

 

por seus próprios fantasmas.

 

Poesia é amargura,

 

mel celeste que emana

 

de um favo invisível

 

que as almas fabricam.

 

Poesia é o impossível

 

feito possível. Harpa

 

que tem em vez de cordas

 

corações e chamas.

 

Poesia é a vida

 

que cruzamos com ânsia,

 

esperando o que leva

 

sem rumo a nossa barca.

 

Livros doces de versos

 

sãos os astros que passam

 

pelo silêncio mudo

 

para o reino do Nada,

 

escrevendo no céu

 

suas estrofes de prata.

 

Oh ! que penas tão fundas

 

e nunca remediadas,

 

as vozes dolorosas

 

que os poetas cantam !

 

Deixaria neste livro

 

toda a minha alma…

 

Garcia Lorca ( tradução:  William Agel de Melo ) 

O Poeta

 

Federico Garcia Lorca, nasceu em Fuentevaqueros (Granada) em 5 de junho de 1898 e morreu assassinado em Viznar (Granada), uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola, em 19 de agosto de 1936. Foi dotado de uma personalidade extraordinariamente voltada para a arte. Além de ser um grande poeta, teve também alguns pendores musicais, tendo feito, ainda, alguns desenhos. É Garcia Lorca, com certeza, o poeta espanhol mais conhecido universalmente, só perdendo para Cervantes no número de edições e traduções de suas obras.

 

Garcia Lorca iniciou os seus estudos de direito, filosofia e letras, em 1914, na Universidade de Granada, transferindo-se em 1919 para Madrid, onde conheceu pessoas como o cineasta Luis Buñuel. Em Madrid nascem suas primeiras obras literárias, o “Libro de Poemas” e sua primeira obra teatral “Mariana Pineda”. É também nesse período que se aproxima do grande mestre do surrealismo, Salvador Dali.

 

Em 1928 Garcia Lorca publica o “Romancero Gitano”, composto por dezoito poemas no qual se encontram os motivos andaluzes da sua origem.

 

Depois dos seus estudos na Espanha, vai para os Estados Unidos, como estudante da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde também profere conferências. A seguir vai até Cuba. É dessa época as suas obras, reunidas no livro “Poeta en Nueva Iork”, no qual se percebem técnicas surrealistas, provenientes de imagens alucinantes que expressavam o desdém de Lorca com o tipo de civilização moderna dos Estados Unidos daquela época, desumanizadora e promotora de injustiças sociais.

 

Ao voltar à Espanha, Lorca cria o teatro universitário ambulante “La Barraca”, com o qual faz montagens de peças de autores espanhóis consagrados, como Lope de Veja e Cervantes. A seguir, viaja pela América do Sul, particularmente pela Argentina e Uruguai e faz um grande sucesso em Buenos Aires, em 1933.

 

A situação vigente na Europa, já nessa época, iria, contudo, fazer de Garcia Lorca uma espécie de símbolo das vítimas dos regimes autoritários de direita e da tirania fascista. Após a eclosão da Guerra Civil Espanhola, Lorca saiu de Madrid para Granada, onde, supostamente, estaria mais protegido.

 

É que Lorca (como sempre são os intelectuais de vanguarda), era um inimigo natural de um regime autoritário. Além disso, numa Espanha católica, as possíveis tendências homossexuais de Lorca também não eram bem vistas. Por essas razões, vítima de uma denúncia anônima, Lorca é preso e assassinado, tendo o seu corpo sido jogado num canto da Sierra Nevada.

 

O fato de Garcia Lorca ter sido assassinado pelo regime de Franco, fez com que, durante longo tempo, seu trabalho fosse pouco divulgado e até mesmo censurado na Espanha. Por outro lado, tornou-se uma figura simbólica da opressão, o que fez com que vários poetas e escritores viessem a se ocupar de sua figura.

 

No Brasil escreveram sobre Lorca, entre outros, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes e Murilo Mendes. É interessante observar, contudo, conforme ressalta um artigo de Gilberto Mendonça Teles , que tais manifestações só vieram ocorrer em 1947, após a queda do Estado Novo, de Getúlio Vargas.

 

 

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