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Carlos Drummond de Andrade

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa,
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

 

Olavo Bilac

Via Láctea

 

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto…

 

E conversamos toda a noite, enquanto

A Via Láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.

 

Direis agora: “Tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo?”

 

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

Maiakóvski

E Então, Que Quereis?…

 

Fiz ranger as folhas de jornal

abrindo-lhes as pálpebras piscantes.

E logo

de cada fronteira distante

subiu um cheiro de pólvora

perseguindo-me até em casa.

Nestes últimos vinte anos

nada de novo há

no rugir das tempestades.

 

Não estamos alegres,

é certo,

mas também por que razão

haveríamos de ficar tristes?

O mar da história

é agitado.

As ameaças

e as guerras

havemos de atravessá-las,

rompê-las ao meio,

cortando-as

como uma quilha corta

as ondas.

 

Trecho de “E Então, Que Quereis?…”, de Maiakóvski.
Tradução de E. Carrera Guerra.

A RODA

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”                                                                       (Charles Darwin)

Em conversa com o meu filho Maurício falei-lhe de um interessante documentário que assisti sobre as grandes descobertas da humanidade, registrando que em primeiro lugar foi a Teoria da Evolução de Charles Darwin. Afeito à discussão, Maurício disse que na opinião dele a maior descoberta foi a invenção da roda…

Embora os passos da civilização distingam teoria e prática, o domínio da natureza pela invenção da roda foi na verdade um salto gigantesco na trajetória do desenvolvimento tecnológico do ser humano.

Os estudiosos do assunto ainda não chegaram à época do emprego da roda. Há quem fale do seu uso já no Neolítico, dando início à Idade do Bronze. Outros, menos ousados, calculam em 6.000 anos a.C. e, comprovadamente pela Arqueologia, ocorreu cerca de 3500 a.C. na antiga Suméria.

Seu múltiplo uso foi na cerâmica, na fiação e o mais importante como roda de água movida por bois. Inicialmente eram feitas com três tábuas presas por suportes em forma de cruz, e a tábua central possuía um furo natural no nó da madeira.

Em torno de 1500 a.C., a roda com raios surge na Mesopotâmia e foi utilizada em carros de guerra que se espalharam pelos países, e os egípcios dominaram a sua tecnologia, com rodas de quatro raios, bastante leves. Diz-se que ao mesmo tempo, na China, a roda também esteve presente em veículos de duas rodas, as “bigas”, que os romanos vieram a adotar, na guerra e em corridas esportivas.

A História Antiga nos traz uma curiosidade: as civilizações pré-hispânicas nas Américas que edificaram templos magníficos, pirâmides que se rivalizavam com as egípcias e observatórios astronômicos superiores aos da Babilônia, desconheceram o uso do ferro, da roda, do arado e do transporte por animais.

Passeando nos caminhos históricos chegamos à Grécia e à Roma, onde a roda d’água evoluiu para o moinho hidráulico e daí, para o moinho de vento, foi um pulo que permitiu o grande avanço veio na Idade Moderna.

Os princípios dinâmicos da roda se casaram com as antigas experiências da pressão do vapor na velha Grécia, renascendo mais de mil anos depois com a máquina térmica do físico francês Denis Papin.

Nos fins do século 17 surgiu a primeira máquina a vapor de interesse industrial criada por Thomas Savery, um engenheiro militar inglês, e esta atualizou-se dez anos depois com uma nova máquina térmica à explosão sem risco.

Assim nasceu a Revolução Industrial, cuja velocidade – principalmente em períodos de guerra – chegou ao radar, ao computador, à Era Atômica, aos foguetes e a ida do homem ao cosmos.

A roda contribuiu enormemente do ponto de vista prático; para a humanidade, mas na minha opinião de apaixonado pela Teoria da Evolução, vejo justiça boa e perfeita em elegê-la como a maior descoberta para a inteligência humana, trazendo a mesma libertação que Galileu nos legou na Astronomia jogando no lixo o sistema geocêntrico.

Darwin derrubou as lendas das religiões antigas e a fantasia de Adão e Eva do sistema judaico-cristão. Temendo enfrentar a Igreja Anglicana, levou mais de 20 anos para publicar seu livro, prefaciando-o com a afirmação de que “o homem ainda traz em sua estrutura física a marca indelével da sua origem primitiva“.

Cem anos após a morte de Darwin, o professor Isaac Asimov, um dos maiores escritores de ficção científica, enfrentou a ortodoxia norte-americana escrevendo sobre a Teoria da Evolução: “Os criacionistas fazem com que uma teoria pareça coisa inventada depois de se beber a noite inteira”

 

Drummond

A Máquina do Mundo

 

 E como eu palmilhasse vagamente

uma estrada de Minas, pedregosa,

e no fecho da tarde um sino rouco

 

se misturasse ao som de meus sapatos

que era pausado e seco; e aves pairassem

no céu de chumbo, e suas formas pretas

 

lentamente se fossem diluindo

na escuridão maior, vinda dos montes

e de meu próprio ser desenganado,

 

a máquina do mundo se entreabriu

para quem de a romper já se esquivava

e só de o ter pensado se carpia.

 

Abriu-se majestosa e circunspecta,

sem emitir um som que fosse impuro

nem um clarão maior que o tolerável

 

pelas pupilas gastas na inspeção

contínua e dolorosa do deserto,

e pela mente exausta de mentar

 

toda uma realidade que transcende

a própria imagem sua debuxada

no rosto do mistério, nos abismos.

 

Abriu-se em calma pura, e convidando

quantos sentidos e intuições restavam

a quem de os ter usado os já perdera

 

e nem desejaria recobrá-los,

se em vão e para sempre repetimos

os mesmos sem roteiro tristes périplos,

 

convidando-os a todos, em coorte,

a se aplicarem sobre o pasto inédito

da natureza mítica das coisas.

 

Trecho de “A Máquina do Mundo”, de Carlos Drummond de Andrade.

Fernando Pessoa

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.

 

( Ricardo Reis ) heterônimo de Fernando Pessoa

Affonso Romano de Sant’Anna

Assombros

 

Às vezes, pequenos grandes terremotos

ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

 

Entre a aorta e a omoplata rolam

alquebrados sentimentos.

 

Entre as vértebras e as costelas

há vários esmagamentos.

 

Os mais íntimos

já me viram remexendo escombros.

Em mim há algo imóvel e soterrado

em permanente assombro.

  • Comentários desativados em Affonso Romano de Sant’Anna

Manuel Bandeira

Consoada

 

Quando a Indesejada das gentes chegar

(Não sei se dura ou caroável),

talvez eu tenha medo.

Talvez sorria, ou diga:

— Alô, iniludível!

O meu dia foi bom, pode a noite descer.

(A noite com os seus sortilégios.)

Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,

A mesa posta,

Com cada coisa em seu lugar.

Castro Alves

Amar e ser amado

 

Amar e ser amado! Com que anelo

Com quanto ardor este adorado sonho

Acalentei em meu delírio ardente

Por essas doces noites de desvelo!

Ser amado por ti, o teu alento

A bafejar-me a abrasadora frente!

Em teus olhos mirar meu pensamento,

Sentir em mim tu’alma, ter só vida

P’ra tão puro e celeste sentimento:

Ver nossas vidas quais dois mansos rios,

Juntos, juntos perderem-se no oceano —,

Beijar teus dedos em delírio insano

Nossas almas unidas, nosso alento,

Confundido também, amante — amado —

Como um anjo feliz… que pensamento!

Pablo Neruda

Soneto LXVI

 

Não te quero senão porque te quero

e de querer-te a não querer-te chego

e de esperar-te quando não te espero

passa meu coração do frio ao fogo.

 

Quero-te apenas porque a ti eu quero,

a ti odeio sem fim e, odiando-te, te suplico,

e a medida do meu amor viajante

é não ver-te e amar-te como um cego.

 

Consumirá talvez a luz de Janeiro,

o seu raio cruel, meu coração inteiro,

roubando-me a chave do sossego.

 

Nesta história apenas eu morro

e morrerei de amor porque te quero,

porque te quero, amor, a sangue e fogo.