Carlos Drummond de Andrade
Os Ombros Suportam o Mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
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PICARETAS
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Eu sabia que seria cassado. Só não sabia que ia ser por esse número cabalístico. Foram os 300 picaretas do Lula mais os treze do PT” (Roberto Jefferson)
Tempos atrás (aliás, muito tempo atrás…), quando iniciei meus trabalhos em redação de jornal, os repórteres que recebiam “agrados” (propinas) de pessoas que queriam influenciar matérias, eram chamados de “picareta”.
Era uma alusão à ferramenta usada para arrancar pedras, escavar a terra ou derrubar paredes e muros. Dicionarizado, o verbete Picareta é um substantivo feminino de diversos significados abrasileirados que vão do enxadão e chapéu de palha ao vigarista, mas a versão, em sua origem, é portuguesa.
Vem da formação do idioma e é usada até hoje em Portugal na forma de “pícaro”, referindo-se a bêbado, irresponsável, vagabundo e velhaco. Do “pícaro” veio o “picareta”, e foi incorporada à gíria brasileira como aproveitador, embusteiro, marreteiro, mentiroso e safado.
Os ardis dos picaretas deram origem ao termo “picaretagem”, ação que visa burlar, enganar, fraudar, iludir, trapacear… Desde as capitanias hereditárias a História registra casos de picaretagem dos capitães, dos governadores-gerais, nas câmaras do Império e na República em todas as suas fases, antiga, nova e novíssima…
O expediente para obter vantagens na política é praticado de todo lado nos três poderes republicanos, sendo mais visível no Legislativo. Quando ainda conseguia enganar a população brasileira, o pelego sindical Lula da Silva fez uma referência aos “300 picaretas do Congresso Nacional” – com os quais, ao assumir a presidência da República, se aliou e aprimorou o assalto ao Erário.
A picaretagem se refere, também, a ações políticas e jurídicas questionáveis. O próprio Lula quando presidente editava medidas provisórias com brechas para favorecer banqueiros e empreiteiros e com elas usufruir propinas, segundo delação do seu ex-ministro Antonio Palocci.
Tudo o que é feito de maneira a proporcionar vantagens aos que ocupam cargos públicos é picaretagem, e o maior exemplo disto está no STF, com alguns ministros interpretando a Lei conforme o interesse dos seus bandidos de estimação; nas casas do Congresso, parlamentares legislando em causa própria com os criminosos fundos partidário e eleitoral.
Estes “fundos” são realmente criminosos. Pena que não se leve um questionamento ao Supremo sobre isto: o contribuinte ser extorquido por partidos e políticos com os quais não concorda; agora mesmo, o relator do Orçamento de 2020, o deputado cearense Domingos Neto está propondo ampliar valor do “fundo eleitoral” para R$ 3,8 bilhões. TRÊS BILHÕES!
Quer dizer que os picaretas dos treze partidos que apoiam este assalto, PP, MDB, PTB, PT, PSL, PL, PSD, PSB, Republicanos, PSDB, PDT, DEM e Solidariedade querem que a gente financie a sua campanha eleitoral, além de chuparem as verbas do famigerado e não menos criminoso “fundo partidário” que nós pagamos para mordomias dos donos de partidos.
Esta outra mamata revoltante é fruto da leniência feita em nome da Democracia pela execrável Constituição de 88 – que deve ser mantida, sem dúvida, até que tenhamos outra -, o tal “fundo partidário” que tem a previsão no orçamento para 2020 de outros TRÊS BILHÕES.
Os brasileiros pagarão para o PT vender o País para Cuba e Venezuela R$ 350 milhões e para o PSL, partido que cresceu às custas do presidente Jair Bolsonaro, terá R$ 359 milhões. É a polarização da roubalheira.
O roubo oficial, legalizado, se mantém sob a capa leniente dos três poderes republicanos e o silêncio dos seus cúmplices levando-nos a pensar como o anarquista Piotr Kropotkin que dizia haver duas correntes de pensamento em conflito na sociedade humana: uma pela liberdade e bem-estar do povo; outra, das elites e dos governantes dominadores para explorá-lo”
Cora Coralina
Saber Viver
Não sei…
se a vida é curta
ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura…
enquanto durar.
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EXAGEROS
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“A heresia e a ortodoxia não derivam de um exagero fanático dos mecanismos doutrinários, elas lhes pertencem fundamentalmente. ” (Michel Foucault)
Quando alisava os bancos escolares da Faculdade Nacional de Direito entusiasmei-me pela Teoria Geral do Estado, matéria que ao que me parece saiu do currículo dos cursos atuais. A nível do ensino superior um programa conexo é estudado como “Ciência Política”. Por causa de uma publicação recente, lembrei-me de uma lição dada pelo professor Hermes Lima: -“As ações dos ocupantes do poder, seus erros, favores e vacilações, se refletem como padrão por toda administração pública”.
A notícia cobriu a decisão da juíza Christiane Bimbatti, da Justiça do Trabalho, vetando a transferência dos funcionários da Usina de Itaipu de Curitiba para Foz do Iguaçu, onde a empresa está sediada.
A Meritíssima alega que “a empresa não conseguiu justificar o motivo das transferências”. Acho que a justificativa é óbvia: a sede da Itaipu é em Foz e não em Curitiba…. Voltando de memória à aula de Hermes Lima, vejo que a Juíza comete o mesmo equívoco que vem de cima, do STF: decide como executivo imaginando-se como legislativo…
Uma coisa não aparece na grande imprensa e é ignorada por muitos que se propõem a criticar e denunciar os malfeitos seculares da administração federal e, por conseguinte, nos estados, municípios e empresas estatais: As incríveis mordomias gozadas no Brasil pelos afilhados dos poderes republicanos.
Parentes e cabos eleitorais de parlamentares, juízes togados e ministros de Estado ganham cargos sem função com altos salários. E muitas vezes intocáveis…. Foi isto que o general Joaquim Silva e Luna, diretor brasileiro da Itaipu Binacional, quis fazer, pondo centenas deles para perto de si, produzindo alguma coisa para justificar o emprego.
Para o Diretor, o escritório de Itaipu na capital paranaense só precisará ter cinco ou seis funcionários. A grita é esta. Cumprir as obrigações empregatícias dará um fim aos convescotes, esvaziará clubismo e silenciará as colunas sociais da imprensa local.
Não custa lembrar, também, os proveitos adicionais que ocorrem por lá: hotéis cinco estrelas, voos em classe executiva, férias esticadas e palestras remuneradas, vantagens publicadas na revista Crusoé, numa matéria que estimulou investigações.
Então, eis que chega coisa pior e mais suspeita, baixada de cima para baixo do modelo de todos equívocos, benesses e vacilações, o STF, que desde agosto do ano passado, impede o Tribunal de Contas da União de fiscalizar a Itaipu. Uma pergunta besta: ‘Porque será? ’
São os exageros cozinhados nos caldeirões da infâmia. Exagero, como todos sabemos é um substantivo masculino, significando aquilo que ultrapassa o necessário, demasiado, desmedido, excessivo, e figuradamente, abuso. Flexionou um verbo, ‘Exagerar’.
O exagero é uma das máscaras do fanatismo, que se multiplicam no carnaval da politicagem; e os fanáticos se multiplicam, à direita e à esquerda como cogumelos após chuvas. Inflacionam as estacadas que impedem o fim da corrupção e a punição dos corruptos. Quem exagera perde o objetivo.
Felizmente, a juíza Gabriela Hardt, que condenou o ex-presidente corrupto Lula da Silva, e o TRF-4 que confirmou a sentença, acarinham a esperança em nossas cabeças. Deixam-nos acreditar e confiar que há no Brasil magistrados livres das algemas prateadas da politicagem.
Li certa vez um texto psicanalítico (acho que Reich) que as exagerações são quase sempre estados infantis da inteligência, e bastará atentar nas crianças para nos convencermos disso.
Essa ingenuidade sadia e positiva encontramos em Cora Coralina, mostrando que somente a necessidade nunca exagera: – “A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar. Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada, o anzol, a chumbada, a isca! ”. É desse generoso excesso que o Brasil precisa.
Olavo Bilac
LÍNGUA PORTUGUESA
Última flor do Lácio, inculta e bela,
és, a um tempo, esplendor e sepultura:
ouro nativo, que na ganga impura
a bruta mina entre os cascalhos vela…
amo-te assim, desconhecida e obscura,
tuba de alto clangor, lira singela
que tens o trom e o silvo da procela,
e o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
em que da voz materna ouvi: “meu filho”,
E em que Camões chorou no exílio amargo,
o gênio sem ventura e o amor sem brilho!
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João Cabral de Melo Neto
ÁGUA
Água, água, água;
Água do mar e do copo;
Da sede e do navio;
Distância
Entre mim e o náufrago.
Presença futura na nuvem
Voando sobre Nova Iorque;
No inverno
Molhando nossas almas.
Água ausente da lua,
Das pedras, dos fantasmas
Que surpreendemos imitando
Nossos gestos aquáticos
Água sempre pronta
Para fugir, para partir:
(Fuga no ar como os sonhos)
Água do vapor de água.
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Julio Cortázar
Amo-te por sobrancelhas
Amo-te por sobrancelhas, por cabelo, debato-te em corredores
branquíssimos onde se jogam as fontes da luz,
Discuto-te a cada nome, arranco-te com delicadeza de cicatriz,
vou pondo no teu cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.
Não quero que tenhas uma forma, que sejas
precisamente o que vem por trás de tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitectura do nada,
acendendo as lâmpadas a meio do encontro.
Tudo amanhã é a ardósia onde te invento e desenho.
pronto a apagar-te, assim não és, nem tampouco
com esse cabelo liso, esse sorriso.
Procuro a tua súmula, o bordo da taça onde o vinho
é também a lua e o espelho,
procuro essa linha que faz tremer um homem
numa galeria de museu.
Além disso quero-te, e faz tempo e frio.
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J’ACUSE
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“A acusação contra os maus é necessária para que o ser humano se respeite e respeite os seus iguais” (Clarice Lispector)
Muito aplaudido e com algumas vaias, não pela fita, mas pela indicação, o excelente cineasta Roman Polanski lançou o seu novo filme, “J’Acuse”; em que aborda o julgamento por espionagem do capitão Alfred Dreyfus, que abalou a França nos fins do século 19.
O roteiro segue a carta aberta que o escritor Émile Zola dirigiu ao presidente da República, publicada no dia 13 de janeiro de 1898 pelo L’Aurore, jornal parisiense com a impressionante tiragem de 300 mil exemplares na época.
O processo foi uma manifestação típica de racismo. Como judeu, Dreyfus tinha inimigos no exército e foi injustamente incriminado por alta traição e julgado às escondidas, sendo condenado à prisão perpétua.
Um investigador policial, Picquart, resolveu por uma questão de consciência seguir as pistas que levaram à denúncia, e conseguiu mostrar fraudes que ocorreram por trás da punição aplicada pelo tribunal.
Daí Émile Zola comprou a briga e terminou revertendo a pena. Ainda hoje, em forma de livro, a defesa de Dreyfus por ele é um best-seller.
Curioso é que Polanski sofre durante muitos anos, mais da metade de sua vida, incriminações, que considera falsas, e usou a sua arte como uma metáfora do seu caso.
Temos assistido no Brasil contemporâneo processos de flagrante injustiça, e uma Corte Constitucional à mercê do ex-presidente corrupto Lula da Silva, já condenado por três instâncias, e envolvido em vários processos por corrupção e lavagem de dinheiro.
Na onda dessas atitudes seletivas, a culpabilidade de criminosos no País passou a ser tratada com leniência – sem exclusão -, após a suspeita decisão de seis ministros do STF.
Os brasileiros, estão cônscios do perigo que representa a soltura de verdadeiros criminosos do crime organizado, estupradores, homicidas, ladrões, pedófilos e traficantes, por causa da intromissão da política no Supremo graças à maioria que tem bandidos de estimação.
E além do favoritismo flagrante, os togados interferem no Legislativo e no Executivo, o que se reflete numa pesquisa recente – ah, como deveriam ter crédito as pesquisas! -, para 45% dos brasileiros, Judiciário interfere nos outros Poderes.
Não é por acaso que já não se dá crédito à Justiça. As manifestações de rua deveriam influenciar na realidade das evidências judiciárias que favorecem o crime. As multidões refletem a opinião pública e deveriam derrubar a ditadura da meia dúzia que se arvora dona da verdade com as suas próprias mentiras.
Como Émile Zola, eu acuso o STF. Atribuo aos seus integrantes a culpa de zombarem do povo. Acusar é um verbo transitivo direto, bitransitivo e intransitivo significando atribuir falta, infração ou crime a alguém; e também, verbo pronominal que exprime julgamento moral desfavorável a quem está errado.
Este “Acuso” não é somente meu; é de todos aqueles que desejam um Brasil respeitado no concerto das nações como um Pais igualitário e justo.
E a acusação deveria ser sempre vinda por quem comete um erro e se arrepende, se culpe e se corrija, o que não é o caso dos que agem ideológica e partidariamente neste jogo em que o povo chuta com a bola do patriotismo, faz gol, e os inimigos da justiça boa e perfeita apelam para o VAR da impunidade.
BRASILÍADAS
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Encontrar lugares por setores e endereços que são coordenadas cartesianas, parece um mistério” (Alexandre Orrico)
Jantando em Brasília com um amigo de priscas eras, jornalista que cobre o setor militar e possuidor de fontes seguras e informações valiosas, como antigo profissional de imprensa ouvi coisas de arrepiar os cabelos.
Entraram na pauta da conversa, relacionamentos vis em parcerias obscuras, investigações bem-sucedidas engavetadas na Justiça, compromissos inimagináveis entre parlamentares e multiplicação de dossiês envolvendo figuras palacianas.
Este filme de horror onde as vítimas são a República e a Democracia obedecem a scripts utilizados em filmagens feitas nos 16 anos de ocupação do poder pelo lulopetismo. Com boa vontade poder-se-ia recuar no tempo e recordar fitas antigas em preto e branco…
Em verdade, a corrupção veio com as caravelas do almirante Pedro Álvares Cabral e foi institucionalizada a partir das Capitanias Hereditárias. Esteve presente nos Governos Gerais, no Império e na República, mas, sem apadrinhamento, em escala bem menor.
Comentava-se na década de 1950 sobre a existência de avanços ao Erário no Governo Juscelino Kubitschek, principalmente na construção de Brasília e na transferência da capital do País do Rio de Janeiro para o Planalto Central.
O futuro demonstrou que houve desvios de dinheiro público naquela época, como ocorria em São Paulo nos governos “que roubavam, mas faziam”. Eram, porém, gotas d’água no oceano que transbordou no território nacional após a “redemocratização”.
Pode-se reconhecer erros de JK e na sua politicagem que pôs de lado as astúcias e malandragens dos seus auxiliares diretos. É indubitável historicamente que ele fez um governo que trouxe esperança e consequentemente a alegre torcida dos brasileiros por um futuro melhor.
Tudo isto, negação e afirmação, está no Memorial JK para quem olhos de ver e ouvidos de ouvir. É uma visita obrigatória para quem visita o Distrito Federal. É de Juscelino a frase: “O otimista pode errar, mas o pessimista já começa errando.”
Mais adiante, a derrubada de Jango e a ascensão dos governos militares ainda são avaliadas pelos historiadores isentos de ideologias. E mais recentemente não é preciso pesquisar para que se passe uma vista nas consequências da chamada redemocratização.
As práticas corruptas estiveram presentes na Assembleia Constituinte que pariu uma Constituição filha bastarda de advogados lenientes com o crime, na Nova República de Sarney, na compra da reeleição por Fernando Henrique Cardoso e nos impeachments de Collor e Dilma.
E Brasília assistiu tudo isto placidamente como os espelhos d’água projetados por Niemeyer…. Uma coisa, porém, é certa: os protagonistas políticos em sua maioria – será injusto não citar que há honrosas exceções –, os brasilienses reagem inconformados com a corrupção, a impunidade e a enganação lulopetista.
Diz-se que para cada 10 pessoas em Brasília, oito são flamenguistas…. Podem usar os mesmos números e afirmar que repudiam do mesmo jeito Lula e os seus quadrilheiros do PT. O povo da capital brasileira conhece muito bem a hipocrisia dos lulopetistas que se harmoniza entre o comportamento e o discurso.
Em Brasília se afirma, e é verdade, você pode sair às ruas a qualquer hora do dia sem medo, porque os ladrões não agem ao ar livre e sim dentro dos palácios na Praça dos Três Poderes…
Comenta José Coutinho que “notícias vindas de Brasília nos dão o pânico nosso de cada dia” e a presença fantasmagórica de Enéas Carneiro responde: “Miasmas pútridos emanam no Congresso em Brasília, contaminando o ar da metrópole”.
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4 HORAS
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança” (Camões)
Muitos anos atrás, no meu tempo de repórter político cobrindo a Câmara dos Deputados ainda no Palácio Tiradentes, no Rio de Janeiro, corria uma piada sobre os parlamentares mineiros. Exemplificavam um deles que ficava quase sempre em cima do muro, e que o seu voto não era sim, nem não, mas pelo contrário…
Foi mais o que se viu no voto estendido por quatro horas do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, sobre um recurso que questionava uma decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região.
Apesar da origem do recurso Toffoli iniciou a sua intervenção dizendo que “aqui não está em julgamento o senador Flávio Bolsonaro; e que a sua decisão monocrática paralisante da Justiça, atingiu apenas “poucos processos”.
Primeiro, não viu que, por interesse profissional, estava presente na sessão o advogado de Flávio Bolsonaro e que ninguém iria deduzir que mesmo que fossem meia dúzia de processos a Justiça havia sido prejudicada. Na verdade, foram 935 processos brindados com os dados do Coaf.
Encerrados os trabalhos no plenário do STF, correspondentes que faziam a cobertura da sessão, publicaram que o ministro Luís Roberto Barroso disse que chamaria um “professor de javanês” para explicar o resultado do voto relatado.
Os que traduziram, entretanto, dizem que o antigo advogado do PT quer impor limites para a atuação da Receita Federal e do antigo Coaf, transferido a pedido dele e feito pelo presidente Jair Bolsonaro e rebatizado como UIF.
Quem ouviu, ou leu mais tarde, comprovou que Toffoli, na sua dicotomia empolada não recuou na tentativa de acessar ilegalmente dados sigilosos dos contribuintes listados no sistema do antigo Coaf, atentando contra a Constituição.
Quatro horas foi tempo gasto, bastante para uma autocrítica, o reconhecimento de um equívoco e, quem sabe, voltar atrás com uma certa dignidade, mas isto não ocorreu. Se conhecesse o filósofo Millôr Fernandes teria aprendido que “quem mata o tempo não é um assassino: é um suicida. ”
O verbete Tempo, dicionarizado, é um substantivo masculino de origem latina (tempus, oris) significando uma série ininterrupta e eterna de instantes e, após a invenção da ampulheta, avó do relógio, uma medida arbitrária da duração das coisas.
Mário Quintana, o inesquecível poeta gaúcho, filosofou que “o mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família. ”
A determinação de uma época nos faz olhar para o passado e pensar no futuro, dando-nos o ensejo de pensar como mudaram os tempos para pior no Brasil; da Academia Brasileira de Letras que se empobreceu de valores, até ao Congresso, invadido por uma orla de aproveitadores – com honrosas exceções -, e ao Supremo Tribunal Federal, onde alguns ministros se esforçam para desacreditá-lo.
Isso nos leva a meditar como Gandhi, que ensinou aos seus discípulos que “o futuro dependerá daquilo que fazemos no presente. ”
Vivemos um tempo de perigo, com a Nação insegura pelo descrédito na Justiça e na Política. É chegada a hora de pensarmos nisto.
Está ficando insuportável para os brasileiros que querem legar um País democrático, justo e desenvolvido para os pósteros, se reunir, discutir e traçar um projeto para nos libertar desta situação.
Só a conscientização do povo nos apontará o caminho.
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