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Manoel de Barros 

O apanhador de desperdícios 

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

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Carlos Drummond de Andrade

Ausência 

 Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

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Cora Coralina

Não Sei 

Não sei se a vida é curta ou longa para nós,
mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser: colo que acolhe,
braço que envolve, palavra que conforta,
silencio que respeita, alegria que contagia,
lágrima que corre, olhar que acaricia,
desejo que sacia, amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta,
nem longa demais, mas que seja intensa,
verdadeira, pura enquanto durar.

Feliz aquele que transfere o que sabe
e aprende o que ensina”.

 

Fernando Pessoa

Quando as Crianças Brincam 

 

Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.
E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.
Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.

SEGREDOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Vou contar este segredo para mim mesmo de vez em quando, mas não vou acreditar” (Will Tacker – personagem de Hugh Grant no filme “Um lugar Chamado Notting Hill)

Vejo na Democracia – “o pior regime, com exceção de todos os outros”, no dizer de Churchill -, um mal aqui no Brasil; o voto obrigatório que tange o rebanho eleitoral para delegar uma representação a pessoas despreparadas, oportunistas e corruptas nas casas legislativas, federais, estaduais e municipais.

O meu segredo nesta crítica à Democracia vem com o repúdio à conversa fiada do “direito de votar”, em contraposição ao “dever de votar”. Quanta diferença há entre o direito e o dever! Se votar é obrigatório, tira a oportunidade da cidadania consciente mudar o quadro desesperador dos parlamentos. As manadas ignorantes e carentes se encarregam de mantê-las…

Aqui, a imensa maioria vota num candidato sem conhece-lo e muito menos aos que lhes cercam, parentes, amigos e puxas-sacos; é atraída pela propaganda enganosa ou pelo “ouvir dizer”.  Pior ainda, uma grande fração apoia quem lhe comprou o voto, seja em espécie, ou pelas promessas demagógicas…

Essa transação de compra e venda é um velho truque do tempo dos coronéis, e foi tão aprimorada através dos tempos que dificilmente é punida pelos órgãos competentes; quanto ao logro sofrido pelas mentiras de campanha eleitoral, só tem o preço do arrependimento.

É claro que a situação é mais destrutiva no caso federal, porque as eleições preenchem as cadeiras do Congresso, Câmara e Senado, e, ao lado desses “representantes”, elege-se também o presidente da República.

Porque destrutiva? Porque são eles, congressistas e presidente, que indicam os titulares dos ministérios, as chefias das secretarias e a direção das empresas estatais; terceirizam a administração da Educação, da Saúde, da Segurança e demais setores de atendimento à população. Ao fazê-lo, nem sempre pensam no geral, mas em atender interesses regionais ou grupais.

Neste embrulho de papel de padaria, vem um ciclone bomba em redemoinho sobre o interesse nacional e popular: a indicação dos que comandam a economia e as finanças públicas, gerenciadores das crises, dos preços, salários e lucros; do emprego e das transações cambiais.

Diante disto, confesso outro segredo: Adoto, entre outros ícones da cultura, Machado de Assis, a quem reverencio diferentemente dos que cultuam charlatães, adotando-os como “gurus”, e lhes pagam com verbas públicas… De Machado, temos uma lição objetiva:  – “Ouça-me este conselho: em política, não se perdoa nem se esquece nada”.

Este ensinamento nos leva a não perdoar os políticos picaretas que conspurcam a nossa República; não livramos a cara dos congressistas que engavetam as reformas prometidas nas eleições, e que se negaram a aprovar o Pacote AntiCrime de Sérgio Moro.

Não peço a ninguém para guardar este segredo porque, pelo contrário, gostaria que fosse alardeado, como uma vacina contra o vírus das corrupções do “roubozinho” das rachadinhas, e do “roubozão” do lulopetismo no Erário.

Garanto que os meus segredos não estão infectados pelas bactérias da falsidade ideológica, considerando, como considero, que “esquerda e direita não são discursos ideológicos estáveis, são símbolos de união grupal. Basta que duas pessoas se digam de direita ou de esquerda para que automaticamente essas facções passem a existir”…. E produzem males degenerativos como o fanatismo.

Os dicionários nos trazem o verbete “Segredo” como um substantivo masculino de etimologia latina, secretum,i, indicando algo que não deve ser sabida por outrem e/ou, especificando, coisa que se diz a outrem, mas que não deve chegar ao conhecimento de terceiros.

Assim, revelando segredos, tenho mais um, o sonho de festejar o fim da pandemia e a volta à vida normal, este, porém, só conto a mim mesmo, mesmo sem acreditar nele, torcendo no que escreveu o intelectual francês Jean Baptiste Racine, dramaturgo, historiador e poeta: – “Não há segredos que o tempo não revele. ”

 

 

 

 

 

A ALMA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

    “Ser sensível é uma coisa e sensato é outra. Uma tem a ver com a alma, a outra com a razão. ”      (Diderot)

É linda a comparação da Mitologia Grega fazendo da borboleta o símbolo da alma humana; os pais da Filosofia da Grécia Antiga viam também nessas espécies coloridas e esvoaçantes a forma visível da alma.

Num dos meus últimos artigos, “Sonhos”, descrevi as versões da ciência e da religião sobre a alma, que é representada na Mitologia Grega por Psique, a mortal que tanto fascinava a todos com a sua beleza que ocupou o lugar de Vênus na crença popular.

Diante disto, enciumada, Vênus se revoltou considerando uma profanação a própria existência de Psique. Cheia de ódio, incumbiu o filho, Cupido, de levar uma praga para a jovem, condenando-a apaixonar-se pelo mais inaccessível dos homens.

Entretanto, mesmo enfrentando todas as agruras impostas pela maldição da deusa, a incriminada encontrou o amado, mas desgraçadamente ele morreu na celebração das núpcias…

A dor da perda foi amenizada por Zéfiro, o mensageiro da Primavera, que a sequestrou levando-a a ocupar como morada um suntuoso palácio. Nele, Psique era visitada por um amante invisível que a beijou e conquistou. Foi Cupido, que tendo se apaixonado por ela, amou-a escondido da mãe Vênus.

Arqueólogos encontraram uma grande quantidade de ornamentos em vasos, em quadros e estátuas, mostrando Psique com asas de borboletas. São alegorias para representa-la como a alma humana purificada pelos sofrimentos e infortúnios, mas preparada, assim, para ser feliz.

O pai da psicanálise, Sigmund Freud, figurou entre outros mitos a história de Psique mostrando a necessidade do analista assumir o autoconhecimento, e o seu discípulo Jung encontrou na história de Cupido (deus do amor) e de Psique (personificação da alma) o modelo disciplinador do processo analítico.

Dicionarizado, o verbete Alma é um substantivo feminino definido como princípio vital; vida. A palavra vem do sânscrito Ātman e no nosso idioma deriva etimologicamente do latim, anima,ae, significando “o que anima, inspira”.

Na antiga Grécia dos filósofos, o termo adotado é psykhé, “o ser”, “a vida” e também “criatura”. É certamente uma referência a Psique. A Filosofia discute desde então a diferença entre “Alma” e “Espírito”, termos que se confundem nas religiões espiritualistas.

Refletimos, porém, que o conceito geral vê a alma o espírito como a mesma coisa, a energia que atua indissociável à vida dos seres viventes, e, nos humanos, suscitando a afetividade, a sensibilidade e o pensamento, que se revelam independentes da atividade corporal.

O desempenho físico dos indivíduos obedece a um conjunto de movimentos práticos, diferente dos seus sentimentos. As normas de conduta das pessoas são distintas entre si, dependendo das suas relações sociais.  Na sociedade moderna vê-se claramente a diferença ideológica entre o trabalhador braçal e o trabalhador intelectual.

A nossa experiência ensina, todavia, que ambos são interdependentes. O intelectual sobrevive graças a produção braçal, e o técnico se emociona com o fruto do trabalho intelectual, o cinema, a música, a poesia e o teatro, as descobertas científicas e tecnológicas. Materializa-se dessa maneira o pensamento de Brecht: “Ciência e arte têm algo em comum: existem para simplificar a vida do homem. Uma na substância material, outra no espírito”.

Assim, na Filosofia e no Trabalho vemos o realismo recusar a ver a alma metafísica e muito menos existindo na maléfica política brasileira que surfa nas ondas da incompetência e da corrupção no enfrentamento do novo coronavírus.

Quem não encontra beleza no poema de Fernando Pessoa, que se perguntava quantas almas tinha, e poetou:  “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. E, do outro lado, temos do também poeta Mario Quintana uma definição filosófica: “A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe”.

Com uma visão pessoal, a minha consciência acompanha o pensamento de Giordano Bruno, escritor, filósofo, matemático, poeta e teólogo, condenado e morto pela Inquisição romana:  – “Ignorância e arrogância são duas irmãs inseparáveis, com um só corpo e alma”.

 

 

 

O ‘ENE’

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo” (Abraham Lincoln)

O isolamento social tem me obrigado a rebuscar livros de referência, que me ajudam a escrever nos artigos coisas que jaziam esquecidas na memória, como as lendas mitológicas que sempre mereceram a atenção dos antropólogos, economistas, filósofos e psicanalistas.

Assim despertou-me a ideia de introduzir a letra “N” na mitologia para fazer um cotejo entre o “mito” com o “minto”… Na Mitologia Grega temos o “N” de Narciso – aquele que se apaixonou por si próprio vendo a sua imagem refletida nas águas de um rio.

E também do deus do mar, Netuno, poderoso e cercado por uma guarda pretoriana de tritões que o acompanhavam sempre. Deve interessar a muita gente o deus Nemesis, que bem poderia ser invocado em nossos dias, pois castigava os culpados que escapavam da justiça humana…

É sempre bom lembrar que nos milênios passados que os governos, os sábios e o povão aceitavam as crenças politeístas. Um dos pensadores brasileiros mais respeitados, Silva Mello, escreveu que “o juramento de Hipócrates, talvez de todos o mais profundo e sincero pela sua significação era baseado na invocação de deuses mitológicos”.

O raciocínio científico aceita o Juramento de Hipócrates e respeita os médicos que o cumprem, levando-nos a venerar, nesta fase crítica da pandemia do novo coronavírus, médicos, enfermeiros, técnicos e demais profissionais da Saúde cobertos pelo guarda-chuva desta sagrada promessa.

A penhora desses profissionais ao compromisso de honrar o seu desempenho tem se comprovado na sua eficiente atuação atendendo os pacientes do Sistema Único de Saúde, universal e gratuito.

E enfrentam a burocracia administrativa, a falta de insumos, a presença arriscada e o descaso dos políticos demagógicos e negacionistas que desastradamente se aliam ao vírus dando exemplos deploráveis de não usar a máscara e participar de aglomerações.

Há até políticos que fazem pior; ocupando o lugar de médico, para receitar por rompante inexplicável drogas sem eficácia cientificamente comprovadas. Puro verbalismo, a voz de outrem impregnada de misterioso conúbio do personalismo com a arrogância.

Em meio a uma discussão sobre o negacionismo do presidente Jair Bolsonaro, ocorreu nas redes sociais uma troca de ideias sobre a dúvida. Vimos que duvidar é abrir um sinal verde para que a verdade passe nesse caminho de esclarecimentos e informação. Justamente o contrário das fake news que os desonestos defendem como “liberdade de expressão”.

Negar presença à fraude e à mentira é justamente colocar o “N” na falsidade impregnada politicamente. Levar os que mentem a trocar a expressão “mito” por “minto”, o presente do indicativo do verbo mentir, transitivo direto, transitivo indireto e intransitivo, exprimindo enganar, iludir e ludibriar…

A palavra Mito foi muito usada na última campanha eleitoral, quando o povo brasileiro se mobilizou para derrotar a corrupção lulopetista, apoiando a Operação Lava Jato empreendida pelo Ministério Público, a Polícia Federal e o juiz Sérgio Moro.

Finda a eleição, murchou o balão colorido das promessas de fazer uma faxina geral no País e acabar com a herança petista da corrupção, reforçando a luta contra os corruptos e o crime organizado. Restabeleceu-se, porém, a aliança com o Centrão e até se achegou ao lulopetismo para combater Sérgio Moro; e assim se faz necessário pregar a revolução da verdade nesta época de mentiras, como escreveu George Orwell.

Assim, talvez por uma ordenação espiritual coletiva, desapareceu das redes sociais a palavra “mito, ” referindo-se a Jair Bolsonaro; nela se introduziu o “N”, ouvindo-o falar como se fosse verdade algo que não é. Ficou Minto.

 

CRIAÇÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Imaginar é o princípio da criação. Nós imaginamos o que desejamos, queremos o que imaginamos e, finalmente, criamos aquilo que queremos” (Bernard Shaw)

Não, não estou a fim de falar sobre os textos bíblicos Gênesis 1:27 e Gênesis 1:28, descrevendo como Deus criou os seres humanos, homem e mulher, parecidos com Ele próprio. Nem lembrar que o Criador lhes disse: “Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra”.

Se entendesse da arte pictórica, preferiria escrever sobre o comentadíssimo afresco “A Criação de Adão” que Michelangelo pintou no teto da Capela Sistina no século 16 a pedido do papa Júlio II. Sei apenas que a presença de Lilith, esposa mística de Adão, na pintura, cria polêmica até hoje…

O substantivo feminino “Criação” tem uma grande amplitude desde a origem linguística, do latim creatĭo,ōnis, significando conceber, desenvolver, elaborar, engendrar, procriar…  E na linguagem coloquial da língua portuguesa, temos um vastíssimo sinonimato, como compor, educar, fabricar, fazer, formar, idealizar, iniciar, imaginar e até parir…

Com a palavra, temos o efeito de criar, de tirar do nada; encontramos nela a capacidade de inventar como se vê especialmente nas agências de publicidade, ou de simplesmente domesticar animais nos galinheiros e chiqueiros para consumo alimentar.

É interessante no estudo da linguagem o processo de criação de novas palavras, os chamados neologismos, expressões derivadas ou formadas de outras já existentes, na mesma língua ou importadas. Citei num dos últimos artigos, o “radar” nascido da rubrica inglesa formada pelo “RA”, rádio, “D”, detetection, e “A”, de and e “R” de ranging que muitos não sabiam…

Da Inglaterra veio também a expressão “perder o trem”, atribuída a Churchill; que se tornando popular, inspirou o sambista Adoniram Barbosa nos versos “… Se eu perder o trem /que sai agora, às onze horas/ Só amanhã, de manhã”…

Do pessoal estrangeiro recebemos também dos franceses uma interessante criatividade idiomática, vindas, por exemplo, de Marcel Prévost, “semi-virgem”, de Taine, “velho regime”, e de Napoleão “espoliador”…

O brasilês, como se refere o mestre gaúcho José Carlos Bortoloti, é rico em criadores de neologismos, entre os quais vale a pena citar Bernardo Guimarães, Franklin Távora, Guimarães Rosa, José de Alencar, José Lins do Rego, Manoel Bandeira e Mário Quintana. Modéstia à parte, lá em cima escrevi “sinonimato” que não existe nos dicionários…

As expressões populares entre nós dão um colorido especial ao brasilês. Nossa gíria se expande como uma pandemia. Antigamente – por força dos programas radiofônicos e dos primórdios da televisão quase todas saíam do Rio de Janeiro.

Com o tempo, o intercâmbio e o estudo, descobriu-se o universo dos regionalismos, a bela diversidade das expressões populares cobrindo o território nacional do Oiapoque ao Chuí…

Das antiguidades francesas adaptadas e correntes no Nordeste, e do lusitano arcaico remanescente nas Minas Gerais ao galante castelhano dos gaúchos, formamos o nosso idioma, que no dizer de Noel Rosa, “…já passou do português! ”.

A criação chegou à pandemia do novo coronavírus, nos costumes, na linguagem, e até no anedotário. Levou-nos a aprender a ficar em casa e gerenciar o tempo; a popularizar o termo “negativismo” dantes usado somente pelos filósofos, para designar a política sinistra dos governantes aliados da peste…

No anedotário vale a pena lembrar o comentário do jornalista Mário Sabino sobre o “programinha em São Paulo pós-flexibilização: clube, shopping, restaurante, cineminha, vinhozinho — e fim de noite no hospital”.

… E vem da Alemanha tão sisuda, uma piada pronta: a BVG, empresa de transporte públicos, pede ao povo renúncia geral no uso de desodorante, em campanha para incentivar o uso de máscaras…

 

 

SONHOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“É só um sonho que se sonha só, / Mas sonho que se sonha junto é realidade…”  (Raul Seixas)

Com o avanço da ciência e da tecnologia, os seres humanos pensantes se convencem de que a nossa estrutura anatômica é uma sofisticada versão do computador, agindo com os impulsos elétricos nervosos através de condutores ligados ao sistema nervoso central.

Temos no cérebro o encéfalo, parte do Sistema Nervoso Central, que recebe, processa e gera respostas às mensagens que chegam até ele. Uma espécie de radar aperfeiçoado biologicamente para o nosso organismo.

Lembremos que o radar, de uso excessivo nas últimas guerras, é um aparelho que emite ondas eletrônicas detectando corpos sólidos à sua frente. Seu nome é um neologismo adotado em todos idiomas do mundo, vindo da rubrica inglesa formada pelo “RA”, rádio, “D”, detetection, e “A”, de and e “R” de ranging…

Após a Segunda Guerra Mundial, o poeta e dramaturgo Félix-Henri Bataille, maravilhado pelo radar, escreveu sobre as percepções sensoriais humanas, lamentando que nós usamos mal essas maravilhas, porque não sabemos como processá-las.

Realmente. Há estudos científicos que nos falam de vinte ou mais sentidos, além da audição, do olfato, do paladar, do tato e da visão; operando-os, eles nos permitiriam uma imensa e múltipla percepção de sensações externas.

Pesquisadores científicos dos sentidos dão exemplos de sensações que vão além dos cinco conhecidos, como intuição, premonição, pressentimento e transmissão do pensamento. Alguns vão mais além, falam dos sonhos que projetam invenções e/ou indicam saídas para situações difíceis.

Para Freud, no seu livro “Teoria dos Sonhos”, o sonho é um fenômeno psíquico onde realizamos desejos inconscientes; mais adiante, na sua “Interpretação dos Sonhos”, o Pai da Psicanálise afirma que quando o estado de sono reprime revelações anormais ou perversas, é o motivo gerador de traumas e mudanças de comportamento.

Falando por experiência própria, eu sempre me preocupei com o sonho, a sua forma de traduzir fatos do cotidiano, resposta às sensações fisiológicas e o que fica da sua lembrança ao acordar.

Esclareço que uso alguns métodos para exercitar o adormecer e para estimular o sono,e estimulando para os sonhos experiências pessoais. Aprendi muito no correr dos anos, mas tudo teve início na infância, graças à minha formação através das discussões domésticas sobre isto.

Com meu pai positivista e a minha mãe espírita kardecista, nós discutíamos muito a respeito das manifestações do sonho, o pai refletindo sobre vidas interplanetárias – hoje diríamos alienígenas –; e a mãe, sobrepesando e defendendo a imortalidade da alma – seja, a vida após a morte –.

Meus estudos esclareceram que foram os sonhos dos homens primitivos que os levaram à crença de uma outra vivência, paralela, precedendo milhares de anos as religiões orientais espiritualistas, o kardecismo, os cultos afro-ioruba e a sua descendência brasileira, a Umbanda.

O verbete Sonho, dicionarizado é um substantivo masculino, ato ou efeito de sonhar; e também a primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo sonhar. A origem é latina, “somnium”, criação do sono.

A palavra deu um grandioso mergulho na política, graças ao discurso histórico de Martin Luther King, líder norte-americano do movimento pelos direitos civis, tornado antológico em todo mundo como “I have a dream” – “Eu tenho um sonho”.

A fala do grande líder norte-americano em Washington contra a segregação racial (que soube a pouco, contou com a presença de Frank Sinatra) teve um desfecho apoteótico, descrevendo o sonho como um sonho de liberdade, igualdade e respeito humano, um sonho para o futuro.

Vivendo o inferno astral trazido pelo novo coronavírus juntei o sonho de Martin Luther King ao sonho que Shakespeare pôs na boca de Hamlet: “Morrer — dormir; dormir, talvez sonhar — eis o problema. ”

Assim, fui levado a falar do meu sonho no isolamento social, por amor à vida, pelo civismo e em solidariedade ao próximo. Sonho com o fim da pandemia, e não quero sonhar só; vamos sonhar juntos para torna-lo realidade…

Mário Quintana

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo —
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.