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Mário Quintana

O Tempo

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos!
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

Hilda Hilst

Amor 

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas.
E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena.
E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.

IDOSOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A história se repete. Esse é um dos horrores da História. ” (Darwin)

Um dos leitores dos meus artigos (que com isto afaga o meu ego), fez outro dia a pergunta intrigante sobre a minha insistência em buscar nas antigas civilizações exemplos para a realidade que vivemos…. Eu aprofundaria sua indagação com os mergulhos na pré-História; outro dia falei sobre a nossa herança neandertal…

A resposta é simples. Aprendi com Miguel de Cervantes que “a História é desafiadora do tempo, repositório dos fatos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro”.

O meu interlocutor é muito jovem como muitos dos meus seguidores no Twitter; seu perfil indica 28 anos. Ainda bem que não criticou o meu apego aos mais idosos das redes sociais, com quem vivo discutindo e aprendendo….

Não dialogar é um problema que os jovens só se arrependem de não fazer mais tarde…. Muitos dos antigos se arrependem de não ter mantido conversas pacientes com os avós e os pais quando moços. Disto me livrei; sempre conversei, polemizei e acumulei informações com os meus.

Não é advogando em causa própria que valorizo aqueles das novas gerações que procuram aprender com os idosos, pensando como eu pensava na mocidade. E uma das coisas ficou: a palavra Mocidade é poética, rima rica de muitos sonetos, mas que a palavra idoso(a) é inerente à sabedoria…

Anos atrás, quando trabalhei na Tribuna do Norte, jornal do político norte-rio-grandense Aluízio Alves, excelente jornalista, ouvi dele a admoestação a um repórter que se referiu a um homem se 60 anos como “ancião” numa matéria.

Concordei com Aluízio, não gosto da palavra Ancião, acho-a feia, assim como o povão rejeita usar a palavra “velho”, preferindo “antigo”. Embora o verbete “ancião” apareça nos dicionários como sinônimo de “Idoso”, vejo-o diferente. Pior do que ancião somente a idiotice politicamente correta de exibi-los na “terceira idade”.

Idoso, para a Organização Mundial da Saúde são as pessoas com mais de 65 anos de idade nos países desenvolvidos e com mais de 60 anos nos países subdesenvolvidos. Mas nesta “aritmética sociológica” a OMS não levou em conta que a expectativa de vida se ampliou na população mundial com a ciência e a tecnologia contribuindo para isto e nos empurrando para os 80, 90, 100 anos.

Ouvi certa vez uma máxima que reza: “não nascemos jovens, mas tornamo-nos jovens”; então apelo para a História, que é vista por muitos como paradoxal; para mim, porém, é a base das minhas considerações. Encontrei, por exemplo, que “Jovem” para Hipócrates – o pai da Medicina – é um homem até os 35 anos; que Tito Lívio acrescentou mais cinco, e que as “juventudes comunistas” reconhecem membros de 45 anos (razão porque a UNE virou ‘anciã’… rsrsrs).

Outra vez me referi à ‘Mulher de Trinta Anos’ (La femme de trente ans), personagem do realismo amoroso de Honoré de Balzac, escritor que muito admiro, embora vendo-o na sua época; hoje, ele se corrigiria evocando as mulheres de 40, 50, 60… e 70 anos…

Li em alguma publicação que os indianos dizem que o elefante já nasce velho; mas vê-se o contrário com o ser humano, os setentões engavetam atualmente a certidão de idade exibindo o corpo e a mente saudáveis de dar inveja aos jovens.

Constatamos, com alegria, que o envelhecimento sadio do corpo e da mente também é ativista pela preservação da vida; isto implica em usar a acumulação de experiências visibilizando o futuro da sociedade humana. E, sobretudo, defendendo o direito de reverenciar a História que os nossos antepassados viveram, porque ela se repete…

Tudo bem. Agradecendo mais uma vez ao jovem curioso que me interrogou, peço que grave uma lição de Victor Hugo: “Os velhos precisam de afeto, como precisam de sol”.

 

DE VOLTA À CAVERNA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Suponhamos que o homem volte à caverna e retome o seu antigo lugar. Desta vez, não seria pelas trevas que ele teria os olhos ofuscados, ao vir diretamente do Sol? “ (Sócrates)

A situação cavernosa que estamos vivendo com o negacionismo ocupando diretamente o poder no Palácio do Planalto, lembrou-me um artigo que escrevi no ano passado, “A Caverna”, relatando a vida dos neandertais habitando grutas; e lembrei o DNA que nos legaram, gravando no nosso subconsciente o fascínio por elas.

Esta atração pela caverna originou vários mitos nas sociedades antigas, fazendo-as cenário do surgimento de deuses em várias religiões e até o nascimento de Jesus Cristo é representado nos presépios natalinos em grutas.

Vê-se no Brasil pessoas com a mente voltada ao passado, sob a influência psíquica neandertal ou submetidos às ineptocracias que negam a Ciência, afligindo os minimamente escolarizados, porque o retorno à antiguidade não tem o romantismo do cinema.

O cinema nos mostrou no belíssimo filme “Meia Noite em Paris”, de Woody Allen, saindo da boca de Gil, um roteirista de Hollywood interpretado por Owen Wilson, a importante lembrança de como seria difícil viver no passado.

Gil, convivendo fantasticamente com a intelectualidade migrante que infestava a capital francesa nos anos 1920, conta um pesadelo que teve, sofrendo a falta de anestesia no tratamento dentário e por não haver antibióticos para combater infecções…. Isto deixou a interlocutora perplexa, pois naquela época todos ignoravam os futuros avanços da Medicina.

Triste é que ainda hoje, em pleno século 21, ocorre o anverso. Nos espantamos e nos revoltamos com o alheamento sobre o enfrentamento científico aos bacilos, bactérias e vírus transmissores de doenças. Vemos alguns cegarem para o avanço civilizatório, manifestando o desapreço pela Ciência, sem aprofundar-se no estudo ou raciocinar com a própria cabeça.

Entristece ver alguém que vivendo sob uma terrível pandemia condene a imunização biológica criando anticorpos para enfrentar a virulência…. No meu tempo de menino, a gente estudava no curso primário (equivalente hoje ao Fundamental I) a história de Pasteur salvando um menino da raiva, com a vacina que descobriu.

Os negacionistas não estudaram a História da Civilização, onde se registra o holocausto dos astecas, maias, incas, indígenas americanos, brasileiros e caribenhos, indefesos biologicamente para as enfermidades bacterianas trazidas pelos europeus.

É penoso vê-los usando as ferramentas da Internet digitando mensagens nas redes sociais, refugarem a corrida do bem pela descoberta da vacina contra a covid-19. Fazem-no, ora desconfiando da origem nacional, ora enjeitando-a por influência ideológica, ora escravizados ao fundamentalismo religioso.

Sei que não adianta argumentar com essas pessoas. São fanáticas como aquelas que na Itália fascista chamavam Mussolini de “chefe amado e provado”; na Alemanha nazista tratavam Hitler como o “pai da pátria” e na Rússia comunista, idolatravam Stálin enaltecendo-o como “guia genial dos povos”….  O fanático ama seu líder; o fanático confunde o seu líder com a Pátria; o fanático considera o seu líder um gênio.

Não creio que essa adoração seja pela cor dos olhos, que Hitler os tinha azuis; não pela pose de comando, que sobrava em Mussolini, e muito menos pelo domínio de Stálin sobre os seus partidários…. Cabe-lhes a qualidade negativa que Nietzsche definiu: – “O fanatismo é a única forma de força de vontade acessível aos fracos”.

O revoltante é quando os fanáticos se misturam com mercenários e, desta mescla, surgem “guardiões terrivelmente evangélicos” como ocorreu no Rio de Janeiro para constranger os críticos e a imprensa; e pior ainda, é saber que este esquema se expande pelo Brasil afora emergindo da ação virtual nas redes sociais para a ação direta.

Do jogo diabólico das milícias políticas do bispo-prefeito Marcelo Crivella que assistimos, chegou-me à lembrança o escritor João Ubaldo Ribeiro que escreveu: – “A humanidade é uma espécie estúpida que se mata desde as cavernas. Só que, agora, com técnicas mais eficientes”.

Verdade. A metodologia impositiva dos políticos populistas e dos aprendizes de ditador, ofusca os olhos de quem vive as trevas do extremismo. Sem a claridade solar do livre pensar, não condenam o negacionismo científico, os atentados ao meio ambiente, nem sequer veem o modelo americano do nosso Presidente, Donald Trump, dispensar a cloroquina no tratamento da covid-19…

 

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HERÓIS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

      “Hoje em dia, a história está se movendo rapidamente e heróis e vilões trocam seus papéis constantemente” (Ian Fleming)

O galardão de “Herói” vem das antigas mitologias que os tratavam como “semideuses”, assumindo uma posição intermediária entre os homens e os deuses.  Na Grécia mitológica, eram filhos de um ser humano com um deus.

No antigo Egito, uma exceção: Hórus, filho dos deuses Osíris e Isis, era invocado como herói; foi representado por uma figura humana com cabeça de falcão, como se vê nos hieróglifos; e na mitologia grega, seguiam a regra geral, mortais possuindo poderes sobrenaturais.

As antigas epopeias descrevem feitos extraordinários de Aquiles, Hércules, Perseu e Teseu, que inspirando personagens das histórias de quadrinhos…

Como verbete dicionarizado, Herói é um substantivo masculino de origem grega, hḗrōs,ōos, ‘chefe, nobre; semideus; herói; mortal elevado à classe dos semideuses’;  e nas línguas neolatinas, define-se como personagem de grande coragem ou autor de grandes feitos.

Agora, com o mundo de cabeça para baixo por causa da pandemia do novo coronavírus, a manada do abominável “politicamente correto” se aproveita das manifestações antirracistas para derrubar em vários países as estátuas dos heróis de épocas passadas, que conquistaram no seu tempo a reverência dos compatriotas.

Muitos deles, sem dúvida, foram colonizadores cruéis, corsários, piratas e traficantes de escravos, mas foram considerados “heróis” pelas sociedades a que serviram, enriquecendo-as.

Lembro dos corsários que deixaram seu nome na História, como o espanhol Amaro Pargo, o holandês Pieter van der Does e o inglês Francis Drake, que ganhou da rainha Elizabeth o título de “sir”.

Há, porém, de se perguntar o porquê dos governos edificarem os monumentos, e porquê os povos os cultuaram.  Na minha opinião, basta pesquisar sobre as riquezas que vieram dos saqueadores da África, como, por exemplo, da África do Sul, colonizada para o Império Britânico por John Graham, e o comandante Jan van Riebeeck, para a Holanda.

Estes ganharam estátuas dos usufrutuários da exploração, industrialização e comércio dos diamantes sul-africanos, tal qual Cecil Rhodes, Charles Rudd e Barney Barnato. Rodes foi tão poderoso que teve um país batizado com seu nome, a Rodésia.

… E a trágica conquista das Américas, assaltadas pelos europeus em nome de Cristo e sob as bandeiras da cruz (será cristofobia relembrar?). A História registra que os espanhóis e os portugueses destruíram civilizações locais e roubaram toneladas de ouro e prata nas regiões habitadas pelos astecas, incas e maias; e do subsolo brasileiro das Minas Gerais.

Após os movimentos de libertação das colônias europeias, os povos que conquistaram a independência levaram ao poder os seus líderes, sendo que muitos deles se tornaram ditadores, e ergueram estátuas para si próprios…

Por falar em estátuas… constata-se que “o culto dos heróis é mais forte onde a liberdade humana é menos respeitada”, como escreveu Herbert Spencer. Pelo sincretismo com as “religiões pagãs” o catolicismo atravessou os séculos adotando estátuas (batizadas de “imagens”), cruzes e ícones.

Nem o reformador Lutero, embora tenha abalado as velhas estruturas do papado, enfrentou essa idolatria condenada pela Bíblia; maneirou, pedindo que considerasse as imagens e cruzes “como testemunha, para a lembrança, como um sinal”.

Assim, heróis e santos se confundem na idolatria, na adoração primária das massas, que também cultuam pedras e árvores seguindo religiões primitivas; e tanto faz que sejam deuses ou demônios, antepassados ou ocupantes do poder, todos venerados fanaticamente…

… E muito pior do que esta obstinação negativa é vê-la estendida ao ativismo racial, como se expôs a cretinice incorreta em São Paulo, aproveitando-se do desparecimento na reurbanização do Anhangabaú da escultura “Diana, a Caçadora”. Propõe a sua substituição por uma “Diana Negra”…

Com o extremismo de faturadores do racismo às avessas, alguns idiotas conquistam 10 minutos de fama, mas evidenciam que os são de uma ignorância estatuária!  Nem os radicais afro-americanos dos EUA, tão copiados por eles, pensariam neste absurdo, pois, escolarizados, sabem respeitar a cultura universal…

 

PENICILINA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“A ciência é o grande antídoto do veneno do entusiasmo e da superstição. ”(Adam Smith)

Aos fundamentalistas que se mostram – uns mais outros menos agressivos – contestadores dos avanços científicos, ignorando a passagem de Pasteur, Fleming, Sabin e Salk pelo mundo, levaram-me a procurar o registro histórico de um caso que ouvi do meu pai; como nada encontrei tentarei reproduzi-la.

Vai lá com as minhas palavras: – “Homenageado num congresso médico, Alexandre Fleming, no discurso de agradecimento, contou que quando menino caiu numa piscina e estava prestes a se afogar quando um rapaz o salvou… e o moço chamava-se Winston Churchill…

“ – ‘Que coincidência’, comentou uma médica; – ‘Se o doutor Fleming não tivesse sido salvo por Churchill, o nosso mundo não conheceria a penicilina…’.

“ – ‘O curioso’, retrucou outro congressista, – ‘é que se Churchill não tivesse salvo Fleming, o mundo não teria uma personalidade como Winston Churchill’; e contou um fato desconhecido por muitos:

“- ‘Quando combateu na África do Sul, o Primeiro-Ministro britânico, esteve gravemente enfermo, e sir Alexandre Fleming foi de avião ao Continente Africano levando penicilina e curou-o’”.

Esta história é um dos tijolos que construíram o meu respeito pela ciência médica. Por isso, sempre que posso, cito e elogio os cientistas, principalmente os brasileiros que operam na Fundação Oswaldo Cruz (onde tenho minha filha, Paula, pesquisadora) e no Butantã, uma referência mundial.

Reportando-me a Oswaldo Cruz lembro-me que este cientista, que desde criança mostrou interesse pela microbiologia, formou-se na Faculdade de Medicina do Rio de janeiro em 1892 e a sua tese de doutorado foi “A veiculação microbiana pelas águas”.

Fez numa viagem de estudos a Paris, onde permaneceu por dois anos como membro efetivo do Instituto Pasteur. De volta ao Brasil, participou da comissão que estudava a proliferação de ratos, responsável por um surto de peste bubônica na cidade de Santos.

Retornando ao Rio de Janeiro, Oswaldo Cruz lançou uma campanha sanitária de prevenção contra as doenças que afligiam a população, febre amarela, peste bubônica e varíola.

Então capital federal, o Rio sofria com a febre amarela endêmica, e o Cientista, enfrentando a opinião geral, lançou a suposição (que se mostrou verdadeira) de que a transmissão da malária se devia ao mosquito; e para combater o inseto, implantou medidas sanitárias com fiscais visitando casas, jardins, quintais e ruas, para eliminar focos de insetos.

Houve resistências, com o povo estimulado pelos jornais e políticos oposicionistas, e a reação foi muito grande. Mesmo assim a campanha deu certo.

Mais tarde os cariocas sofreram a epidemia da varíola, levando Oswaldo Cruz a propor a vacinação em massa da população; foi quando o negacionismo da época se mostrou tão virulento quanto as doenças… Então ocorreu o que se convencionou chamar de “Revolta da Vacina”, que foi derrotada pelo Exército, mas o governo federal cedeu à pressão e suspendeu a obrigatoriedade da imunização.

Como a verdade sempre prevalece, o reconhecimento pelos resultados positivos obtidos graças ao trabalho de Oswaldo Cruz veio em 1908, quando ele foi aclamado como herói e o Instituto de Microbiologia recebeu o seu nome.

Dez anos depois, em 1928, registrou-se a descoberta da benzilpenicilina, ou penicilina G, pelo médico e bacteriologista escocês Alexander Fleming, sobre quem narramos a passagem histórica acima. Este antibiótico pioneiro passou a ser amplamente utilizado na medicina, salvando milhões de vidas.

Max Weber, que conseguiu a proeza de juntar a Sociologia e a Economia na sua obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, escreveu que “a crença na verdade científica não procede da natureza, mas é produto de determinadas culturas”, assertiva que nos dá a chance de perguntar: “Como se pode negar o que a humanidade, e nós brasileiros, conquistamos através da Ciência? ”.

 

 

 

MODISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasda@uol.com.br)

“A moda sai de moda, o estilo jamais…” (Coco Chanel)

Para varrer para debaixo do tapete o abandono do meio ambiente pelo Governo Bolsonaro e sua carreta carregada de mentiras, assistimos na semana passada a criação de uma nova moda: atacar a Argentina pela volta do kitchernismo, –  a ressurreição do narcopopulismo corrupto naquele país.

Os maestros que dirigem os percussionistas da orquestra bolsopetista se aproveitam da realidade portenha, porque os hermanos, veem continuadamente repetindo os mesmos erros “descamisados”, elegendo os herdeiros bastardos do peronismo.

Mas o refrão orquestrado nas redes sociais não está na partitura do tango argentino; tem apenas o objetivo diversionista, com a maioria dos batedores de tambor tocando “de ouvido”, sem saber o que realmente se passa…

A massa de manobra apenas papagaia o discurso do “novo Itamarati” por puro modismo, ignorando a contradição de bater numa tecla só, fora da agenda traçada dos Estados Unidos dos ataques copiados contra Cuba, Venezuela e Coreia do Norte, a estratégia eleitoral de Trump, uma manta virtual para a frígida direita populista nos States.

Faz-se dessa maneira a ação de iludir os outros (iludindo-se, também), debitando na conta corrente do jogo de facção, a eliminação do princípio democrático de um governo para todos e não aquele do “nós e eles” transposta dos governos lulopetistas derrotados nas últimas eleições.

Afinal, derrotamos nas urnas a corrupção lulopetista, mas caímos no blefe da convergência dos extremos… Tudo que era feito anteriormente retorna descaradamente; a aliança com os picaretas do Congresso em nome da “governabilidade”, a distribuição de cargos para pessoas suspeitas e a poderosa intervenção jurídico-policial em defesa de “bandidos de estimação”.

Tudo na medida “fashion” dos que acompanham a moda, na presunção do vanguardismo, sem ter aprendido que nada há de novo sob o sol, como reza o ditado popular, nascido das lições do Eclesiastes.

Dicionarizado, o verbete “Moda” é um substantivo feminino, herdado do Latim “modus,i”, que designava para os romanos “jeito, maneira e medida”. No português, é o jeito de se vestir em determinada época, indicando, também, indústria do vestuário sazonal.

O Marquês de Maricá criticava os jovens da sua época por serem “solícitos” na maneira de trajar-se, mas negligenciando no respeito aos idosos… E é dos antigos que aprendemos que a moda nada tem de original. Recordo uma anedota contada por um dos “setentões” do Twitter que exemplifica isto.

Vou omitir o nome do autor; ele disse que conversando com um sobrinho, educado nos padrões da alta classe média, o rapaz perguntou-lhe porquê, sendo um homem bem relacionado socialmente, teimava em usar sempre os mesmos ternos, camisas, gravatas e sapatos antiquados, sem acompanhar a moda.

O nosso amigo, homem de impecável formação intelectual, filosofou inteligentemente: – “Na sociedade, tudo volta sempre de 20 em 20 anos… Neste caso, usando sempre o mesmo modo de vestir, já estive três vezes no rigor da moda…”.

A piada vale para refletirmos sobre o assunto. Remoendo a teoria do retorno da moda, vejo que ela vale para uma pá de coisas, mas na política brasileira, não; a demagogia, o mandonismo e o nepotismo que vigoraram nas capitanias hereditárias seguem na moda a cada eleição e a cada governo…

Assim, a politicagem atravessou do Império para a República, alterando apenas o título de barão para o de “coronel”, e as mesmas oligarquias se mantiveram. Continuam em voga a enganação, a compra de votos, e a traição às promessas eleitorais, e o estilo se mantém como refletiu a estilista francesa Coco Chanel, nossa epigrafada.

O estilo da politicagem nos leva ao poeta Jean Cocteau que observando a leviandade dos ocupantes do poder, disse: – “É isso que torna grave a sua insânia”. Isto reforça a necessidade de enfrentar as tolices de um Presidente e da familiocracia comprometida com intimidades espúrias, alianças suspeitas, e apoiada na moda de grupos de pressão informatizados….

… E o que nos alivia diante disto é a sabedoria de Bernard Shaw: “A moda, afinal, não passa de uma epidemia induzida”.

 

 

ASSUMIR

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Pessoas deveriam ter coragem de assumir seus próprios erros, assim como têm orgulho em exibir suas qualidades” (Autor desconhecido)

Um dos leitores dos meus artigos perguntou outro dia se eu tenho religião… não sei se foi uma dedução por frases garimpadas nos meus textos, ou uma provocação para me queimar no tribunal do fervor religioso… Eu respondo: Tenho, na verdade, de seis a oito religiões, todas elas baseadas na crença no Deus que Spinoza chama de “Alma do Universo”.

Adotei este conceito graças ao conhecimento de uma entrevista em que o cientista Alberto Einstein citou a teoria do filósofo Baruch Spinoza, que tenho citado nos meus artigos. A avaliação de Einstein valeu muito para que eu fosse em busca da ideia “de um deus que não se preocupe com nossos problemas pessoais”…

Com isto, encontrei a base que evitou a minha queda para o ateísmo, provocada pelo excesso de fantasia e pouca robustez das religiões judaico-cristãs; assim, acolhi e assumi que “A essência de Deus pressupõe a sua existência. A substância divina é infinita e não é limitada por nenhuma outra ”.

Ao aplicar o verbo assumir na primeira pessoa do presente indicativo, trago com ele a responsabilidade consciente por esta concepção doutrinária. Como verbete dicionarizado, “Assumir” é um verbo transitivo direto com origem no latim “assumptere”, tomar para si. Significa aceitar, acolher, admitir, e quando se trata de opinião, responsabilizar-se.

As lições acadêmicas da Filosofia usam “assumir” para indicar a aceitação de uma hipótese viável; do mesmo jeito que é possível encontrar-se nos textos bíblicos suposições e conjecturas perfeitamente aceitáveis.

Condenável na observação teosófica é o fatalismo. Recolhe-se dos Evangelhos, por exemplo, que ninguém sabe o dia em que vai morrer. Escreveu alguém – esqueci e quem puder indicar o faça – que “os condenados no corredor da morte esperam, até o derradeiro minuto, um indulto”.

A História registra outro retrato disto. O notável escritor russo Fíodor Dostoievski, autor dos memoráveis “Crime e Castigo, “O Idiota” e “Irmãos Karamazov”, foi condenado à morte, e já estava diante de um pelotão com as armas carregadas, quando chegou a ordem do Czar suspendendo a execução.

Há, por outro lado, múltiplos exemplos de pessoas que enfrentam com dignidade o fim da vida, assumindo tranquilamente a situação definitiva. Narra-se que o advogado Raymond Desèze foi indicado pelo rei Luís XVI para defende-lo no mais importante julgamento da Revolução Francesa.

Desèze apresentou o poeta, crítico e tradutor François Malherbe como testemunha de defesa e somente por participar do processo, Malherbe foi mais tarde acusado como “monarquista”, e foi julgado e condenado à guilhotina. Como era um intelectual avançado ironizou os supersticiosos ao tropeçar nos degraus do cadafalso, dizendo: -“Que mal sinal! Um romano antigo voltaria para casa…”

A superstição é irmã gêmea do fatalismo, e ambos são uma peculiaridade de uma religião mal interpretada, como alertava o pastor Martin Luther King, assim como a politicagem, filha bastarda da Política com “P” maiúsculo, é uma característica do tempo que atravessamos.

Vejam bem. Nunca vimos um ocupante do poder assumir que cometeu um erro, um engano, um desempenho prejudicial no governo. Agora mesmo, que estamos enfrentando a grave pandemia do novo coronavírus e suas consequências mortais da covid-19, não vimos ainda o Presidente, nem os juízes, governadores, nem congressistas ou prefeitos, reconhecendo que erraram em alguma decisão tomada.

E foram vários os erros, de todos eles. É por isso que não lhes reconheço como os líderes políticos que eu gostaria de ter. Deixo John Maxwell falar por mim: “Liderança é assumir responsabilidades enquanto outros inventam justificativas”.

TERRORISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Não há nada mais servil, desprezível, covarde e tacanho que um terrorista ” 
(Visconde de Chateaubriand)

Sempre gosto de dizer que as palavras nascem, evoluem, vivem intensamente, adoecem, às vezes se curam e voltam à vida, ou são enterradas mortas…. Vou quase sempre em busca das palavras que gosto na UTI da Gramática.

Ao pensar no substantivo masculino “Terrorismo”, descobre-se que é um galicismo nascido na Revolução Francesa, “Terrorisme” (do latim terror, terroris, “terror, espanto”), empregado em acusação ao líder dos jacobinos, Maximilien de Robespierre, que defendeu a revolução continuada e permanente, implantando o Reino do Terror (1793-1794).

Como verbete dicionarizado, significa uso de violência, física ou psicológica, como meio de repressão; foi empregada pela primeira vez em 1794 como indicativo da doutrina dos partidários do Terror, isto é, dos seguidores de Robespierre.

A palavra foi recolhida mais tarde e usada pelos anarquistas na estratégia conhecida como “Ação Direta” que pregava o atentado a prédios públicos e assassinatos de personalidades do poder.

Condenada pela opinião pública a atividade anarquista da “propaganda pelo fato” foi abandonada, ressurgindo como “Sabotagem” no anarco-sindicalismo usada em operações grevistas levadas ao extremo, com os radicais jogando tamancos (sabot) nas máquinas industriais para quebra-las.

A palavra Sabotagem que está na UTI da Gramática, teve os seus momentos de glória na 2ª Guerra Mundial, praticada pelas organizações da resistência dos povos em países ocupados pelos nazistas. Foram notáveis os atos de destruição de trilhos ferroviários na França e na Iugoslávia, e a destruição de comboios logísticos alemães pelos russos na retaguarda do invasor hitlerista.

O Terrorismo, ressurgiu também na 2ª Grande Guerra com a visão sociológica nascida do estudo das ditaduras nazifascistas, vendo-as como “um sistema governamental que se impõe por meio do terror, sem respeito aos direitos e às regalias dos cidadãos”.

… E nos meados do século passado, o Terrorismo recrudesceu violento, radical e sistemático, adotado por organizações extremistas, como os separatistas bascos na Espanha, curdos na Turquia e no Iraque, mulçumanos na Caxemira e organizações racistas nos EUA.

Criou até escolas no Oriente Médio e na África; e, posteriormente, se espalhou pelo mundo afora, atingindo o pico com Osama Bin Laden e o atentado de 11 de setembro em Nova York. Assim, tornou-se o inimigo nº 1 da humanidade.

Não é de hoje que cito nos meus escritos o cronista e romancista ítalo-argentino, Pittigrilli, que muito contribuiu para a leitura apaixonada da minha juventude, e numa das suas crônicas encontrei a mais emocionante condenação do terrorismo que conheço.

Narra Pittigrilli: – “Numa família proletária, uma mãe chamou um médico para atender o filho muito doente e o doutor diagnosticou: difteria; e se apressa a fazer uma laringotomia para salvar a criança. Quando inicia o procedimento, ocorre uma perda de energia e as luzes se apagam. Passa o tempo e o menino morre. Nisto, entra afobado o pai, militante extremista, e diz à esposa que atirou uma bomba na usina elétrica e deixou a cidade às escuras. – “Sei”, replica a mulher, “mas ao fazer o que os teus chefes mandaram, assassinaste o teu filho”.

A inconsciência na prática de um mal em nome de um partido, de uma ideologia ou em obediência aos líderes, fica retratada nesta historieta. Espero que as pessoas que tomam conhecimento dela, pensem bastante sobre isto.

O crime não é uma enfermidade como ensinava Cesare Lombroso, veementemente criticado pelo respeitado professor Hélio Gomes numa aula de Medicina Legal que assisti.

Mas os terraplanistas, aliados a conhecidos corruptos, pregam uma volta ao passado tenebroso da ignorância e do fanatismo, ressuscitando Lombroso ao defender a imunidade de “doentios” criminosos com a panaceia do “foro privilegiado”.

Diante disto, defendo que lutemos para evitar que o Brasil se transforme num hospital manicomial onde circulem impunes autores de atentados terroristas, sejam materiais ou psicológicos…

 

 

SERMÕES

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“Bem-aventurados os que tem fome e sede de justiça, porque eles serão fartos”  (Sermão da Montanha)

Um dos meus seguidores (que não autorizou a divulgação do nome) estranhou a citação que fiz noutro artigo do “Sermão do Diabo”, uma paródia satânica do belo “Sermão da Montanha” de Jesus Cristo, citado por Mateus. É um divertido gracejo literário do grande Machado de Assis.

Li-o, faz muito tempo, no livro “Páginas Recolhidas”, editado nas obras completas de Machado pela antiga e respeitável Editora Globo S/A. Na época, apenas achei graça; relendo mais tarde, achei uma crítica inteligente ao que o escritor chama “o sal do Money Market”.

Nesses tempos trágicos de uma pandemia letal, a prédica diabólica parece dirigida aos negacionistas, obtusos inimigos dos avanços científicos. Está claro que eles ignoram a História da Medicina, em particular o capítulo da antissepsia – que estabelece a resistência à propagação de bactérias e vírus na pele e nas mucosas.

A antissepsia vem dos começos do século 19, quando ainda se desconhecia a existência dos micro-organismos e pouco se entendia sobre os germes. Deve-se ao médico e cientista austro-húngaro Ignaz Semmelweis, a necessidade de medidas antissépticas para evitar infecções, como o ato de lavar as mãos.

Sobre Semmelweis, corre uma pitoresca história. Quando ele trabalhava no Hospital Geral de Viena e dava aulas na Escola de Medicina, recomendava a assepsia rigorosa; mas os estudantes incultos desdenhavam dele, sujando propositalmente as mãos antes de tocar nos pacientes…

Esta cretinice subsiste em pleno século 21 quando os sobreviventes brucutus da Idade da Pedra se negam a cumprir medidas preventivas contra o novo coronavírus depreciando a higiene, dizendo que usar máscara “não é coisa de macho” e até desconsiderando a aplicação de vacinas…

Estes negacionistas se esfregam com as “testemunhas de Jeová” como asnos na areia, porque esta seita fundamentalista proíbe a transfusão de sangue, impedindo o procedimento até no tratamento essencial da leucemia, que, sem ele, leva à morte. O menosprezo pela Ciência é próprio de considerações religiosas e/ou pseudo filosóficas.

Dos fundamentalistas religiosos pouco se tem a dizer, é explícito no fanatismo; e, quanto à Filosofia, lembro uma anedota contada pelo escritor Pittigrilli; “Passeando pelo Mercado de Atenas um Filósofo distraído chamou a atenção de uma florista que gritou: – “É um filósofo! ”, e logo em seguida ouviu-se vaias, e uma verdureira lhe atirou legumes vencidos.

– “Porquê, perguntou o Filósofo. – “Porque és um filósofo disseram em coro. – “Mas o que é um filósofo”? Perguntou o Filósofo. Ninguém soube dizer, ninguém sabia…

Trocando o Filósofo por um Cientista, e desenvolvendo esta historieta, cairemos na cretinice dos negacionistas que botam no lugar dos cientistas uma meia dúzia auto-assumidos filósofos que por cobiçoso ciúme não reconhecem o valor da Ciência.

Assistindo o médico televisivo Dráuzio Varela, o ex-astrólogo e auto-assumido Olavão soprou no ouvido do presidente Jair Bolsonaro (meio surdo pelo cerúmen da insciência), uma interpretação desprovida de dados que a pesquisa científica ainda não alcançara sobre o novo coronavírus e a covid-19.

Foi assim que o Presidente, convencido, disse que a pandemia não passava de uma “gripezinha”; e, pior do que isto, se obcecou pela cloroquina, remédio que ouviu dizer que era eficaz para os soldados na Amazônia….  De lá para cá não consegue se libertar desses equívocos.

Como os sermões têm o poder de emocionar e conscientizar as pessoas de boa vontade, seria interessante que os pastores evangélicos e padres católicos politiqueiros, que estão achegados ao poder, aconselhassem o presidente Bolsonaro a ler o Sermão da 4ª-feira de Cinzas: “Pulvis es, tu in pulverem reverteris”, que traduzo como a minha mãe ensinou: – “Tu és pó, e ao pó voltarás”.

Quanto aos patriotas resistentes ao besteirol negacionista, que pratiquem o que ensinou Benjamin Franklin: – “Um bom exemplo é o melhor sermão”.