TRISTEZA
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Não há maior desventura que a falta de alegria. ” (Francisco Gómez de Quevedo)
Faz pouco tempo que escrevi sobre o mistério da alegria, inspirado num debate sobre o governo JK e a intervenção auspiciosa do erudito tuiteiro Antônio Carlos Rosário lembrando a Era de Otimismo que o Brasil atravessou na década de 1950.
É fácil e emociona falarmos de alegria; é difícil, porém, encontra-la atualmente sob um governo oposto ao de JK, lúgubre, necrófilo, operando contra a vacinação na pandemia e sabotando a exigência do passaporte vacinal na entrada de pessoas vindas do Exterior.
Então achamos por bem abordar o lado difícil da dicotomia alegria e tristeza, falando da tristeza. Fui garimpar na Bíblia (que parece não é lida pelos pastores politiqueiros) e encontrar no Antigo Testamento o Livro de Jó.
Estudiosos deste texto polemizam sobre a autoria dos versículos pela impossibilidade de afirmar a exatidão das passagens relatadas, do tempo do patriarcalismo e registrando absurdos como o que registra Jó com 200 anos de idade!
Uma coisa, porém, é certa: embora poética, a narrativa é um hino ao conformismo diante de um Deus que permite o sofrimento dos justos. A mensagem traz, além da profunda amargura pelo martírio imerecido de Jó, a revisão de duas concepções do julgamento divino.
Conforme a interpretação da Justiça, o Deus de Israel é rigoroso e cruel, e o Deus cristão é de infinita bondade. Jeová foi implacável nas dez pragas do Egito, cobrindo homens, mulheres e animais de chagas, de piolhos, de fome, e condenando crianças à morte. O Deus anunciado por Jesus Cristo é justo e perdoa.
Em ambos casos, porém, a tristeza está presente. O problema de Jó, ocorrido 1.700 anos antes de Cristo, deu-se por uma aposta entre Jeová e Satã…. Lembrou-me até o filme “Trocando as Bolas” a comédia do mendigo Billy Ray Valentine (Eddie Murphy) e o empresário Louis Winthrop III (Dan Ackroyd ).
O enredo cinematográfico gira em torno da competição entre dois banqueiros esnobes numa aposta em que qualquer pessoa pode se tornar um respeitável financista, desde que se lhes deem uma oportunidade…. Assim, tornam um executivo miserável e um miserável CEO de suas empresas…. Os personagens envolvidos descobriram a trama e malograram lucrativamente a experiência, com um final feliz.
No caso bíblico, a aposta de Deus e o Diabo sobre a lealdade de um crente é o retrato da tristeza. Após perder tudo o que possuía por incitação diabólica, sofrer a desdita familiar, uma tragédia com os servidores, destruição da sua casa e perda dos seus rebanhos, Jó rasgou a roupa, raspou a cabeça, ajoelhou-se e exclamou:
“Nu sai do ventre da minha mãe e nu voltarei para o seio da terra. O Senhor o deu, o Senhor o tirou; bendito seja o nome do Senhor! ”. Assegurando dessa maneira um duplo infortúnio, impossível de passar pela cabeça dos mercadores do templo, padres, pastores ou rabinos….
A palavra Tristeza dicionarizada é um substantivo feminino de etimologia latina, “tristitia”, que designava “desânimo”, chegando ao português castiço como o estado mental da falta de alegria, pela adversidade, aflição e melancolia.
O escritor e poeta espanhol Francisco de Quevedo, nosso epigrafado, diz tudo sobre a tristeza. Sua apreciação reforça o julgamento das duas épocas históricas do Brasil.
A primeira, no tempo da alegre esperança que o Governo JK nos trouxe; e a outra, na tristeza que se abateu na pandemia do novo coronavírus condecorando a Família Bolsonaro com a comenda do desprezo pela vida humana e da inépcia administrativa na saúde pública.
O “futurista” Millôr Fernandes nos deixou a visão de que “toda alegria é assim; já vem embrulhada numa tristezinha de papel fino”; assim, por mais paciência que tenhamos diante da política e resignação perante a crença na divindade, não podemos aceitar a convivência da alegria com a tristeza.
Por outro lado, discordo do poeta Vinícius de Moraes que gastando o seu lirismo cantou que “a tristeza não tem fim/ felicidade, sim”; para mim, bastará darmos um basta no contratempo bolsonarista que o Brasil voltará a sorrir….
POLÍGRAFO
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“A mentira não mata, apenas tortura quem acreditou. ” (Clarice Lispector)
Polígrafo é o aparelho conhecido como ‘detector de mentiras’, usado pela polícia de alguns países em interrogatórios, e em certos programas de TV nos Estados Unidos e na Europa. É empregado para verificar a autenticidade de declarações dos entrevistados.
A polícia norte-americana utiliza o detector de mentiras e o seu resultado analítico é aceito pelos tribunais como prova nas acusações criminais, cíveis e mesmo trabalhistas. Lá, se considera que a aplicação do polígrafo garante, teoricamente, 92% de grau de acerto.
O aparelho realiza o exame através de sensores que medem o ritmo da respiração, da pressão sanguínea, dos batimentos cardíacos e do suor na ponta dos dedos da pessoa testada. No Brasil, a Polícia Civil gaúcha é a única que utiliza o software de fabricação israelense denominado Analisador de Voz Multicamadas.
O teste de polígrafo é conhecido como “exame de detecção psicofisiológica de fraude”, um estudo baseado na teoria de que as reações físicas e mentais dos indivíduos se alteram quando ele se contradiz ou foge à verdade.
Sem dúvida. Na tecnologia, o campo eletromagnético prevê reações fisiológicas dos gestos e entonação de voz; mas isto não quer dizer que identifique sentimentos da alegria ou tristeza, de desânimo ou euforia, da verdade ou mentira….
A avaliação analítica do comportamento humano feita pessoalmente tem resultados muitas vezes diferentes. E quando é levada para a lógica matemática verifica-se ser inusitada como o exemplo interessante que nos foi dado por Einstein.
Conta-se que embora sisudo e arredio, este gigante da Ciência comparecia mesmo a contragosto às reuniões sociais em que era homenageado. De poucas palavras, agradecia os cumprimentos, mas somente isto.
Num desses eventos foi importunado por um desses chatos que todos nós conhecemos. O sujeito aporrinhou-o insistindo que ele traçasse em termos matemáticos a fórmula da felicidade. Para se livrar do maçante, Einstein tirou um lápis do bolso e escreveu: “a=x+y =z”, e definiu: – “a” é a felicidade; “x” é o trabalho; e “y” é a riqueza.
– “… E o “z” ?”, indagou o impertinente. O cientista cofiou o cavanhaque e respondeu: – “O “z” é o silêncio”.
Como o detector de mentiras poderia (ou poderá) interpretar o silêncio? É a arma mais poderosa dos fraudadores e mentirosos, que lhes é oferecida pelo arsenal do garantismo jurídico do STF, como os brasileiros em peso assistiram na CPI da Covid.
Aliás, é difícil saber de quantas maneiras o famigerado garantismo favorece a delinquência política! Para júbilo do Centrão bolsopetista, a Alta Corte soltou o falastrão corrupto Lula da Silva e devolveu-lhe o dinheiro ganho suspeitosamente, e atua abertamente para livrar o boquirroto Flávio Bolsonaro das desonestas rachadinhas….
Vê-se assim que tanto faz o silencioso como o falador num tribunal onde a política entrou pela porta dos fundos e a Justiça pulou envergonhada de uma janela…. Parece-me necessário levar o polígrafo para o plenário do STF e comprovar a honestidade de cada voto; e como bom republicano sugiro estender o seu uso no Executivo e no Legislativo.
Ouvindo o capitão Bolsonaro sofrerá, sem dúvida, um curto circuito, porque ele é um mitômano obsessivo, capaz de dar um “boa noite” pela manhã e um “bom dia” à noite, só pelo prazer de mentir.
Quanto a detectar mentiras parlamentares, valha-me Deus, será facílimo; difícil, quase impossível, será ouvir uma verdade dos presidentes das duas casas, o deputado Arthur Lira e o senador Rodrigo Pacheco.
Isto visto, de verdade, chega-nos o desejo de desmascarar a mentira, mãe de todos os crimes, da violência do assassinato ao roubozinho das rachadinhas…. Ainda espero que a hediondez da falsidade seja punida; pelo menos pelo voto consciente da cidadania.
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RETORNO
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Cada um de nós deve decidir se quer caminhar na luz do altruísmo construtivo ou nas trevas do egoísmo. ” (Martin Luther King)
Li tristemente pelos jornais que o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, disse em entrevista que concorda com chibatadas como pena para a pichação. É o sonho de consumo dos saudosistas da tortura, a volta do sistema de punição que foi abolido em 1910, após a “Revolta da Chibata”.
Esta extemporânea e inconsequente regressão ao chicote dos capatazes da extrema direita não é um fato isolado. Observadores da política analisam que se trata de um objetivo do capitão Bolsonaro, após trair as promessas de uma economia liberal e do combate à corrupção pela reeleição que maldisse na campanha….
Junto-me aos que consideram um estorvo a instalação de uma Familiocracia tipo Coreia do Norte, assistindo repetidas ameaças à imprensa livre e a volta ao tempo execrável da ditadura.
A política nefasta do obscurantismo anticientífico que faz em nome da religião, o capitão Bolsonaro atrasa o desenvolvimento brasileiro em 10 anos ou mais, levando-nos historicamente à ignorância do papa Pio VII ao dizer para o cientista alemão Alexandre von Humboldt que os meteoritos eram pedras que caíam de uma fenda na abóboda celeste…. Este desatino dogmático retardou em 100 anos o desenvolvimento civilizatório!
Isto é o que se vê na estupidez do Negacionismo, produto do ódio obsessivo do capitão Bolsonaro e dos seus seguidores pela Ciência. Assim se vê um retorno à Era da Ignorância que fascina o falso conservadorismo para conquistar a massa ignara.
“Retorno”, aliás, é uma palavra que agrada muito aos autores de manifestos reacionários e aos recompiladores de títulos cinematográficos…. Como verbete dicionarizado é um substantivo masculino derivado do verbo retornar, originário do latim “re-tornare” significando “de novo”, “de volta”, “virar-se”, “fazer um movimento circular”.
A derivação regressiva de retornar é o ato ou efeito de voltar, dando-se em troca o que se recebeu. No espaço ou no tempo, o retorno nos leva â simbologia milenar dos chineses, egípcios e gregos, que o representavam ora como dragão, ora como serpente que mordem sua própria cauda. É o “ouroboro”, do grego antigo: οὐρά, que significa “cauda” e βόρος, que significa “devora”.
Pelas voltas que o mundo dá, filósofos metafísicos consideram uma “Lei do Retorno”; o padrão cíclico da Natureza no espaço infinito, recomendando o texto bíblico para julgar comportamentos, escrito no Apocalipse 13:10, “se alguém matar à espada, é necessário que à espada seja morto”.
Do outro lado, a escola científica mostra pela Fisiologia a impossibilidade biológica da volta a um efeito metabólico funcional influenciando a saúde dos indivíduos; e discorda sobre a repetição de um movimento corporal, de um gesto e da entonação de uma mesma palavra….
Assim, pregar o negativismo mordendo a própria cauda é prestar serventia à morte. Os que defendem o castigo das chibatadas, devem pensar que esta postura é reflexiva, e que possivelmente isto seja cogitado por outrem contra si…. É o que se comprova no exemplo das centenas de mortes de pessoas que negaram a vacina contra a covid-19 pelo mundo afora.
Isto não é “por acaso”, coisa que não existe nas análises metafísicas, empíricas ou materialistas. É translúcida a autossuficiência do religiosismo hipócrita, que assistimos na movimentação política que ocorreu no Dia do Evangélico explorado por Bolsonaro.
Ali faltou a complacência cristã nos discursos de ódio contra os adversários sob gritos de aleluia, e os ouvidos moucos ao princípio universal da Lei de Causa e Efeito determinando que tudo o que acontece na Natureza tem resposta, e que todo sentimento e todo comportamento humano, têm o seu retorno.
MISTÉRIOS
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“O Mistério, para ser misterioso, não mostra a cara; mas ao ser revelado parece óbvio” (Anônimo)
Os mitos mais antigos do Egito dos Faraós reverenciavam o antropomorfismo cultuando como deuses seres metade homem, metade animal. Nos seus templos tinham o deus Thoth, com corpo humano e cabeça do íbis, um pássaro sagrado.
Atribuía-se a Thoth a posse da sabedoria universal, os estudos astronômicos, a criação da escrita, da música e da alquimia. Referindo-se ao deus, textos encontrados na Península Arábica, relatam a história de um sábio que teria vivido no Egito antigo, assumindo a identidade de Toth. Chamava-se Hermes Trismegisto.
Trismegisto – Três Vezes Grande – teve o seu perfil divulgado na Grécia pelos neoplatônicos, conferindo-lhe a autoria de vários livros ocultistas, entre os quais a “Tábua de Esmeralda” e o “Corpus Hermeticum”.
Nestas obras encontra-se a referência dos seres humanos trazendo em si partículas da divindade, outorgando-lhes a qualidade de serem, em determinadas circunstâncias, a condição de um minúsculo deus.
Hermes Trimegisto explica na analogia entre o macrocosmo e o microcosmo, que a atribuição da divindade humana ocorre porque “o que está no alto iguala-se ao que está embaixo” mantendo o equilíbrio do universo e do átomo. E, na mente humana, o mistério da tristeza e da alegria.
Sobre o mistério da alegria, é-me impossível deixar sem repartir as minhas memórias juvenis e a esperança de um futuro radiante, deixando para trás a realidade deteriorada do negativismo funesto do bolsonarismo que vivemos hoje.
Acredito que a alegria é um mistério. Explico-o pelo exemplo de uma polêmica que acompanhei no Twitter sobre a participação histórica do ex-presidente Juscelino Kubitscheck; um cidadão ignorou e ideologizou danosamente a presença do grande mineiro na política brasileira; e o outro protagonista, Antônio Carlos Rosário, com cultura e inteligência, desfiou o rosário da vida de JK calando-o, deixando-me saudoso daquela época feliz.
Alexandre Herculano, um dos mais importantes escritores da língua portuguesa, escreveu que “o segredo da felicidade é encontrar a nossa alegria na alegria dos outros”. Foi inspirado nisto que faço questão de registrar que vivi para contar sobre aquele tempo, testemunhando que o Brasil de Juscelino foi um cenário de alegria, embalado pela no brilhante celofane da Esperança.
As lembranças afloram na minha cabeça: exercitando a cidadania, dei o meu primeiro voto a Juscelino, e não somente votei, mas conferi-lhe a minha admiração. Recordo o sorriso que dominava o semblante dos brasileiros, um sorriso de confiança no futuro, que infelizmente nunca chegou.
Deixou, porém, a saudade, após se abater sobre o Brasil misteriosamente uma sinistra realidade social, política e econômica. De lá para cá, sofremos a liberdade foi sufocada na ditadura militar, que se seguiu à impostura da chamada redemocratização e depois da revoltante temporada da corrupção lulopetista.
Para culminar as pragas, veio eleição do capitão Bolsonaro e as traições de suas promessas eleitorais, com as trapaças típicas do Centrão.
Parece-nos difícil escapar desse inferno astral, encerrados que estamos no triângulo diabólico da herança ditatorial, da roubalheira do PT e da mitomania bolsonarista porque ficamos na dependência de um ritual misterioso que serve de toga jurídica para os “garantistas” livrarem seus bandidos de estimação.
Sob a ameaça de volta ao reinado da corrupção lulopetista ou da fome que ameaça milhões de brasileiros pela incompetência bolsonarista, clareia no horizonte político o esperançoso brilho de terceira via eleitoral que nos livrará da polarização extremista.
Teremos a oportunidade ímpar de nos livrar do degenerado esquerdismo de um, e o descrédito do outro; escapar do retorno ao lulopetismo para escapar da corrupção e da política necrófila bolsonarista da fome. Como muitos outros patriotas, declaro apoio à luta de libertação do maldito maquinismo populista.
FAMÍLIA
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“A humanidade transformou-se em uma grande família, tanto que não podemos garantir a nossa própria prosperidade se não garantirmos a prosperidade de todos” (Bertrand Russell)
Quem vem do tempo em que o Twitter se iniciou com os 140 toques, puxando pela inteligência para sintetizar um pensamento e criar abreviaturas, assistiu com certa tristeza a invasão da rede nas últimas eleições por robôs controlados remotamente e, o que é pior, pelos politiqueiros que xerocam palavras-de-ordem baixadas pelos porões do poder.
Estes últimos, agitadores profissionais, que elogiam espirros e aplaudem as flatulências dos heróis que cultuam, podem ser qualificados sociologicamente como convictos e fanáticos. Os convictos adotam “ideologias” e “crenças” por espírito de imitação, suprimindo de si para si, qualquer sombra de dúvidas na “verdade” que constroem.
Os fanáticos assumem a defesa de tudo que venha “de cima”, fazendo disso uma questão de princípio. Não cultuam apenas Bolsonaro, como as massas alemãs que seguiram cegamente Hitler, mas têm anotado os nomes e datas de aniversário das ex e atual mulher dele, dos filhos e dos puxa-sacos acompanhantes de viagens turísticas.
Ambas figuras medíocres, convictos e fanáticos, têm uma grande participação nas redes sociais, sempre a postos para retuitar fluxos e refluxos das fake news chapas-brancas.
Transformam-se em comandos avançados da mentira nesta Era da Mitomania Bolsonarista. Sentinelas da moralidade hipócrita, repetem as trapaças ideológicas tiradas da mochila do capitão Bolsonaro. Uma delas, mais ridícula do que simplesmente uma fraude, é a defesa que ele faz da família.
Vê-se na realidade que o Capitão é tão apegado à família que já constituiu três, e quando trata de relações pessoais e alianças políticas, ilustra-as como namoro, noivado e casamento…. Movimenta-se agora, por exemplo, para o casório eleitoral com Waldemar da Costa Neto, passando a usar a aliança do Mensalão com a Rachadinha.
Como demagógica questão de princípio, a família é uma escora político-religiosa de Bolsonaro que vem contaminada de falsidade. Não passa de uma camisa verde, com o sigma, para os herdeiros do fascismo tupiniquim, galináceos que cocoricam o lema integralista “Deus, Pátria e Família”.
Trata-se, portanto, de um balão de ensaio para se contrapor à doutrinação comunista que Trotsky defendeu, a substituição da família tradicional pelas creches, internatos e estabelecimentos análogos para asilar crianças.
Dá para imaginar a burocracia estatal substituindo o convívio familiar? Parece-me tão falso como criar a fantasia da família encaramujada na propaganda governamental e numa religião ministrada por agentes políticos.
Como verbete dicionarizado, “Família” é um substantivo feminino de etimologia latina (familia, -ae), significando à época pessoas que viviam sob o mesmo teto, inclusive escravos e servidores. Modernamente, é o conjunto formado pelos pais e pelos filhos, ampliado para os parentes do casal.
Do mais puro idealismo à mais terríveis abominações, a família, como o sexo, é um imperativo da natureza. Quando o homem se elevou acima dos outros animais, nasceu o sentimento do amor, a atração instintiva da procriação; então constituiu a família para cumprir as funções biológicas e fortalecer uma economia de subsistência. E assim foi, tanto no patriarcado como no matriarcado….
Não é dessa maneira, evidentemente, que veem os convictos e fanáticos da direita extremista. Definem a família do jeito como “o seu mestre mandar”…. Poderiam até nos divertir em situações de normalidade, mas tornam-se criminosos acumpliciando-se com a corrupção, defendendo (ou ignorando) as rachadinhas da família Bolsonaro. Pior ainda: alimentam-se naquele prato sem digerir, para depois vomitar o negacionismo, a patologia obsessiva do Capitão, responsável por mais de meio milhão de mortes.
A preservação da família para os negativistas visa somente atingir um fim: enganar os desavisados. Ainda bem que Lincoln nos deixou um alerta: “Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo”.
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A LÍNGUA
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“A degeneração de um povo, de uma nação ou raça, começa pelo desvirtuamento da própria língua” (Rui Barbosa)
O poeta Olavo Bilac, com sadio ufanismo, escreveu que “a Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo. ”
As lições que recebemos dos nossos mestres nos ensinam a amar o nosso idioma que o grande poeta e compositor Noel Rosa cantou no seu belo samba “Não tem tradução”: “Tudo aquilo que o malandro pronuncia/ Com voz macia, é brasileiro, já passou de português…”. E com isto, o professor gaúcho José Carlos Bortoloti criou o neologismo “Brasilês”.
Alguém já disse (e eu m’esqueci quem, quando e onde…) que a fisiologia humana nos deu a voz para que possamos com a língua dizer coisas amáveis a nossos amigos e duras verdades a nossos inimigos”….
Os povos antigos sabiam disto. No antigo Egito os embalsamadores de cadáveres seguiam instruções do Livro dos Mortos para deixar as múmias de boca aberta para falarem no julgamento de Osíris; e os padres jesuítas no século XVI ficaram curiosos para saber porque os guaranis punham seixos nas bocas dos seus defuntos, e ouviram algo semelhante.
Um antiquíssimo ditado reza que a voz do povo é a voz de Deus, de onde estudiosos do idioma concluíram que a linguagem coloquial é a mãe da linguagem clássica, expondo que a sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. O grande poeta Manuel Bandeira confessou: “Nunca fui um antiacadêmico. O problema é que eu gostava de tomar minhas licenças com a língua…”.
Concordamos, dessa maneira, que todos escorregos são perdoados, contanto sejam escritos corretamente, estabelecendo que escrever bem é escrever claro, mas não necessariamente certo.
Ocorre, porém, que devemos evitar ao máximo permitir que a língua ultrapasse o pensamento, como aconselhava o poeta Tchecov, porque extrapolar a ideia sobre a exposição termina por criar mal-entendidos; também não se deve revoltar-se pela circunstância de usar palavras estrangeiras, hoje quase obrigatórias em função da tecnologia de ponta.
Tempos atrás escrevi um artigo, onde – recordando os meus tempos de repórter setorista na Câmara dos Deputados e no Senado Federal – lamentei que “infelizmente desapareceu na política brasileira o brilho da expressão elegante que gostávamos”; sobrando apenas a demagogia e a mentira.
Relembrando a eloquência do grande orador paraibano José Américo guardei a passagem dele, candidato a senador (acho que em 1970), discursando num comício em Cajazeiras – a cidade que é a última fronteira ao Norte do Estado – iniciou a sua fala em voz baixa, quase inaudível, quando uma pessoa na multidão gritou: – “Fale mais alto, doutor! ”…. E Zé Américo aumentou o tom de voz: – “Estou falando baixo para quê no Ceará não saibam que estou mendigando votos na Paraíba”.
É aí que a gente encontra “a magia da linguagem” que Edward Bulwer-Lytton classifica como “o mais perigoso dos encantos”, e por isto que levo a sério a observação do autor de “1984”, George Orwell, ao dizer que “a linguagem política dissimula para fazer as mentiras soarem verdadeiras e para dar aparência consistente ao puro vento”; uma verdade que temos assistido na Era da Mediocridade que o Brasil atravessa dos discursos políticos chinfrins, muitas vezes sem nexo.
A polaridade da dissimulação mostra que apesar da habilidade adquirida em anos de pelegagem, Lula da Silva confessou, de própria voz, que alterava números e estatísticas em proveito próprio; e o atual Presidente, visivelmente menos preparado do que o Pelegão, usa e abusa de mentiras, sendo reconhecido mundialmente pela mitomania.
Ambos, Bolsonaro e Lula, influenciam muitas pessoas com suas inverdades e trapaças, convergindo na ficção matemática de que as paralelas se tocam no infinito…. Mostram assim, na prática, que um só existe politicamente em função do outro.
RETRATO
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“A Democracia deve correr certos riscos, se quiser ser digna desse nome”. (Osvaldo Peralva)
A epígrafe que complementa este artigo foi tirada do livro “O Retrato” do jornalista Osvaldo Peralva, uma leitura necessária para quem quer estudar a história negativa do comunismo no Brasil que a idiotia anticomunista da “direita conservadora bolsonarista” é incapaz de alcançar com a sua real visão neonazista.
Peralva publicou em 1960 o seu esclarecedor livro sobre o stalinismo em pleno conflito político-ideológico entre os EUA e a URSS, conhecido como a “Guerra Fria”, que terminou com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e a derrocada do sistema soviético.
A apresentação das críticas e denúncias do Jornalista, são de um observador e ativista que viveu o interior da organização comunista internacional. É uma reportagem de excelente qualidade, cujo enfeixe traz, já naquele tempo, o alerta: “A Democracia deve correr certos riscos, se quiser ser digna desse nome”.
Nos dias de hoje constatamos a importância do sobreaviso de Peralva. Assiste-se no mundo inteiro sinais do ressurgimento do nazi-fascismo e, entre nós, é revoltante se ver este fenômeno surgir no Brasil, governado por psicótico obsessivo que recebeu no palácio presidencial uma deputada neonazista alemã, neta de um ministro de Hitler.
Assisti a pouco o documentário dirigido e comentado por Joachim Fest – “Hitler, uma carreira” -, que apesar de omissões históricas e visível lenidade oferece cenas reais da ascensão do nazismo na Alemanha, das agressões militares contra as democracias, dos campos de concentração e dos 50 milhões de mortos.
Entre trechos dos discursos de Hitler, não foram mostrados censuravelmente aqueles em que ele determina a “solução final”, a morte de eslavos, judeus, ciganos e homossexuais; nem a ordem execrável para que Paris fosse incendiada.
Isto ficando claro, não sei por qual doença mental existem pessoas que aceitam e respaldam as aberrações das SS e da Gestapo, das prisões, torturas e mortes de pessoas indefesas; mas que as há, há.
Poucos dias atrás tivemos a notícia de uma jovem estudante da Universidade de Pelotas, que comemorando o seu 24º aniversário teve o “Bolo de Hitler”, com o retrato do abominável führer nazista fardado e ostentando a suástica.
A mídia informou que essa mensagem nas redes sociais foi apagada após compartilhar a intolerável mostra da simpatia ao nazismo de uma saudosista da Bund Deutscher Mädel, a “Liga das Moças Alemãs”, defensoras da morte de quem não fosse da raça superior.
A sua defesa – própria do chicanismo fascistóide – já ensaia em dizer que foi uma brincadeira para sacanear os colegas, e que a moça tem atitudes inconstantes…. Na verdade, não foi um divertimento nem uma piada o bolo festivo com o retrato oficial de Hitler em uniforme militar.
Mais do que tristeza, é criminosamente repelente a gente saber que não se trata de um caso isolado. Tivemos no Rio Grande do Sul uma demonstração inequívoca de apoio aos crimes contra a humanidade de Hitler e seus asseclas: um grupo contra o passaporte vacinal invadiu a Câmara de Vereadores de Porto Alegre que apreciava um projeto para evitar as contaminações pela covid-19.
Estes ativistas portavam cartazes com a suástica, símbolo de “identidade ariana”, xingando as vereadoras negras, Tássia Amorim e Bruna Rodrigues; eles são, sem dúvida, membros da nova Hitlerjugend, a juventude hitlerista ressurgida no Brasil para apoiar o genocídio das pessoas condenadas à morte pela política necrófila do capitão Bolsonaro.
Vê-se, dessa maneira, o retrato em grande angular do Brasil de hoje. A marcha a passo de ganso dos extremistas da direita contra a nossa Democracia, alguns deles usando a máscara de “conservador”, mas todos agindo livres e confiantes sob o comando invisível e estratégico do aprendiz de ditador Bolsonaro e sua Schutzstaffel – guarda de proteção -, formada por candidatos a guardas de campos de concentração.
EXEMPLOS
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“O exemplo é a escola da humanidade e só nela os homens poderão aprender. ” (Edmund Burke)
Como observador da vida, mais científico do que filosófico, Einstein escreveu que “o exemplo não é uma maneira de ensinar, é a única maneira de ensinar”. Esta afirmação nos leva a pesquisar e avaliar o peso do exemplo como avaliação de honestidade.
O verbete “Exemplo” é um substantivo masculino de origem latina, “exemplum,i”, ‘cópia, reprodução, traslado’. Dicionários citam Exemplo como uma frase ou palavra usada como reforço à uma definição, o que pode ou deve ser imitado. Modelo.
Para valorizar um exemplo capaz de influenciar pessoas levando-as a adotar a cultura da honestidade e conquistar a confiança dos que o cercam, leva-nos à milenar sabedoria árabe e sua notável coleção de contos na joia da literatura oriental, as “Mil e Uma Noites”.
Uma das proverbiais histórias ali encontradas narra a passagem de um príncipe que para suceder ao sultão, seu pai, deveria estar casado. Como uma rainha não pode ser qualquer uma, e além da beleza e da virtude deve ser educada, formava-se uma comissão de notáveis para selecionar mulheres e submete-las à aprovação do futuro rei.
Escolhidas em diversas províncias, seis jovens foram levadas ao palácio real, onde receberam presentes e a oportunidade de indicar alguém de sua vontade para compor o conselho real. Cinco delas aceitaram as joias oferecidas e indicaram nomes para o importante cargo junto ao trono; uma delas, porém, se recusou a receber os regalos oferecidos e negou-se a gozar o privilégio de designar um conselheiro do reino.
A rebeldia da moça causou estranheza dos cortesões e irritou o Príncipe que a condenou ao degredo; mas antes exigiu-lhe que dissesse qual o motivo de desprezar os antigos costumes enjeitando os presentes e declinando da escolha do conselheiro. Já estando presa pelos eunucos, ela levantou a cabeça com altivez e disse: – “Fiz, meu Senhor, aquilo que deve ser o exemplo para a sua futura esposa: rejeitei as ofertas para não ficar em dívida com alguém, e jamais indicaria um conselheiro sem antes combinar com o meu marido”.
Diante disto, o Príncipe ordenou que os guardas soltassem a pretendente e levassem as outras candidatas de volta para suas casas. Sentiu no seu íntimo a sabedoria e a honestidade daquela que deveria ser a sua consorte e mãe dos seus filhos….
Este conto reflete no espelho do exemplo de quem deve ser a esposa de um governante e me parece que muitas pelo mundo afora nem freiam seus maridos e algumas até participam em prováveis corridas para o mal.
Agora mesmo nas investigações publicadas pelos “Pandora Papers”, encontramos oito chefes de Estado e de Governo; e para nos revoltar, os dois homens que controlam a nossa economia, Paulo Guedes e Roberto Campos Neto estãona lista…. O capitão Bolsonaro, com mentalidade de baixo clero, não está, se conforma com as “rachadinhas”.
É riquíssima a sinonímia de Exemplo. Arquétipo, bitola, cânone, espelho, molde, modelo, padrão e paradigma. Quando estudamos a História do Brasil e nos preocupamos com o futuro da nossa Pátria, projetamos o exemplo que acumulamos ao longo do tempo; e vemos que infelizmente a chamada “classe política” nada aprendeu com o passado.
E o grande Confúcio deixou a todos nós uma inolvidável lição: “Quando encontramos pessoas de valor, devemos pensar em como podemos ser iguais a elas. Quando, ao contrário, encontramos pessoas sem caráter, devemos nos voltar para o nosso interior e examinar o que se passa lá dentro”.
Ao ocupar o poder, a melhor maneira de um governante disciplinar e conduzir uma Nação é pelo exemplo pessoal. No Brasil, tristemente, ele não recebe (ou recusa) conselhos na passagem nesta maligna pandemia: tornou-se um indivíduo cuja mente é bi polarizada entre a imaturidade e a obsessão psicopática.
O exemplo do capitão Bolsonaro é negativo: imprime insegurança ao subestimar o perigo letal do novo coronavírus, desdenhando dos cuidados para evita-lo e negando a imunização pela vacina. Preferiu acolher drogas e tratamentos ineficazes, baixando como um espírito do mal no terreiro do curandeirismo, dos feijões mágicos e dos intermediários da Morte.
E o pior de tudo: o negacionismo lucrativo acobertou vigaristas no Ministério da Saúde.
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ALGORÍTIMO
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Nada há que seja verdadeiramente livre nem suficientemente democrático. Não tenhamos ilusões, a internet não veio para salvar o mundo” (José Saramago)
Nos dias de hoje, em que assistimos uma sequência de ondas espumando tendências para tudo, arte, linguagem, literatura, política, e até vícios, deixando para trás a moda que era só o vestuário com sua presença vulcânica no cinema.
A moda nasceu dos costumes de vestir-se no dia-a-dia, diferenciando as roupas de casa e da rua, alimentando a criatividade e a escolha de desenhos e cores que atraía multidões, enriquecia costureiros, e estimulava o jeito de se pentear, se maquiar e se comportar.
Hoje é protagonista nas orientações publicitárias e na aceitação das pessoas pela influência da tecnologia nos meios de comunicação. A atualidade sócio-política estendeu a moda para além das celebridades, que embora ainda cativem muita gente, perdem-se entre os milhões de usuários das redes sociais.
O que entra na moda agora são as novidades que a Internet trás. Vão da terminologia até a importância do algoritmo, uma palavra e um conceito que estão em todos os meios e conversas de bar, como eram antigamente os filmes de Ingmar Bergman e Almodóvar….
Algoritmo virou mania em alguns círculos, aconselhado para ser aplicado em todos níveis das atividades humanas, seja para conquistar uma posição no trabalho, ou atuações políticas e sociais, e até na cozinha e no trato dos animais domésticos….
Para muitos, parece uma coisa nova, mas não é. Trata-se do estímulo ao raciocínio, a busca sistemática de instruções ou operações para alcançar um objetivo, limitando-se a dados concretos.
Não sei como é o ensino atual no curso que no meu tempo se chamava Ginásio; só sei que há 80 anos já aplicávamos o algoritmo nos cálculos matemáticos e na minha paixão que era a geometria. Trago até hoje decorado o enunciado do Teorema de Pitágoras: “Nos triângulos retângulos, o quadrado do comprimento da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos comprimentos dos catetos”. Meus contemporâneos lembram?
Pois está aí o algoritmo. Esta relação matemática entre o comprimento dos lados de um triângulo retângulo é um algoritmo puro, um nome antiquíssimo que vem do árabe, um antropônimo do matemático Al-Huuarizmi, que chegou ao latim vulgar como “algorismus” ou “algorithmus”.
Chegando à Informática, compreende o conjunto de regras e operações bem definidas e não ambíguas, que, aplicadas aos dados coletados num número finito de etapas, solucionam o problema apresentado.
Dessa maneira, como vimos acima, uma imensa parte da população global está vinculada à tecnologia da informação e sabe as ferramentas da web, smartphones, computadores, smart, TVs e tablets funcionam com sistemas baseados em algoritmos.
Eis que de repente toda a evolução tecnológica caiu no mundo inteiro exigindo mais do que comandos seguros, mas principalmente explicações do porquê ficarem fora do ar os serviços do Facebook, sejam WhatsApp, Facebook e Instagram.
Foram ruidosas as reclamações pela indisponibilidade do Instagram, mas não superaram o desespero dos usuários do WhatsApp, o aplicativo de troca de mensagens via celular, que é o maior veículo das fake news. No Brasil, deixou desesperados os negativistas aliados do coronavírus, incapacitados de disseminar notícias falsas sobre a vacinação.
Mas não faz mal: diferentemente das redes atingidas pelo apagão, o Twitter não usa exclusivamente o algoritmo para determinar o feed e foi mantido disponibilizando o acesso e a informação.
Assim, os tuiteiros, críticos independentes dos defensores da política necrófila do capitão Bolsonaro, se alegraram com o silenciamento por seis horas sem precisar desmentir as suas contumazes mentiras do bando de Carluxo….
VALOR
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Quem não conhece o valor das palavras não saberá conhecer os homens” (Confúcio)
Enquanto o povão, eu, tu, nós e eles, gasta a palavra valor como custo para regatear preços na feira ou para elogiar heróis históricos ou imaginários, conferindo-lhe bravura, coragem e valentia, os alunos dos primeiros anos de Economia quebram a cabeça para compreendê-lo.
Antes de chegar na Universidade, os jovens conheceram apenas a palavra pela sabedoria popular com o provérbio “só percebemos o valor da água depois que a fonte seca”; e refletida poeticamente com o verso – “Mulher, fostes o copo d’ água que eu bebi no deserto”. (Parece-me que é do poeta paraibano Raymundo Asfora).
Quando cursei a Faculdade de Economia descobri que a melhor definição de Valor está no popular livro de Daniel Defoe, publicado em 1719, trazendo a história romanceada do jovem Robinson Crusoé, que naufraga e vai parar numa ilha deserta, desconhecida e selvagem.
Ao dar-se conta da situação em que se encontra, o náufrago se angustia e vai se desesperando quando a maré atira às pedras da praia o navio desmastreado em que viajava, e nele encontra açúcar, armas, barris de rum, biscoitos, fumo, pólvora e diversas ferramentas e utensílios de cozinha, que leva à terra e vão ajudá-lo a sobreviver sete anos….
Neste capítulo vem a lição de Valor: Robinson acha na cabine do comandante, mapas, navalhas, facas e tesouras que recolhe com alegria; e, num cofre, descobre um maço de títulos bancários e muitas moedas de ouro e prata; despreza-os, falando de si para si: – “O diabo que carregue estes cheques e o vil metal que de nada me servirá”.
Está nesta exclamação a definição da teoria do valor de uso e do valor de troca criada pelo principal representante do liberalismo econômico, Adam Smith; uma teoria econômica surgida no século XVIII, que compôs mais tarde o conceito de Marx que “na sua forma natural uma coisa de valor de uso é portadora do valor de troca contido nela”.
O verbete “Valor” dicionarizado é um substantivo masculino de etimologia latina, (valor,oris), significando o quanto vale uma pessoa ou coisa qualquer. Outros preceitos vão de preço a atributos pessoais e até a duração de uma nota musical.
A ciência econômica que explica a produção, distribuição, acumulação e consumo de bens materiais, estuda a movimentação de títulos de renda, ações, obrigações, letras de câmbio, etc., representando seu valor em dinheiro.
Quando se trata do Estado, temos a macroeconomia, divisão da ciência econômica que abrange a economia regional ou nacional, visando basicamente a contenção ou moderação nos gastos, orientando os governos a não esbanjar recursos nos serviços da administração pública.
Com vistas à cidadania, encontramos os valores morais que estabelecem princípios de comportamento dos indivíduos e a interação social e política de cada um. Estas normas classificam as pessoas como “certas” ou “erradas” na sua participação comunitária e na própria vida pessoal.
É quando se torna fundamental esclarecer até onde vão as liberdades individuais tão decantadas politicamente. Será, por exemplo, que devemos respeitar como “liberdade de expressão” um discurso que investe contra a saúde de outrem, a farsa que é usada em defesa do estúpido negativismo?
Este é o comportamento desvalorizado do capitão Bolsonaro e dos seus seguidores, criando argumentos adversos às defesas contra o vírus, condenando o uso de máscaras, ignorando o mal das aglomerações e negando-se a tomar vacinas; ignoram que isto de nada servirá para eles e muito menos para nós. Não têm valor humanitário.
O arquiteto da linguagem Fernando Sabino adorna a palavra Valor lembrando que “o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem”. É o que se vê na Era da Negação implantada pelo bolsonarismo em nome de uma religião mal compreendida.
… E vai durar muito, chegará aos futuros livros de História a condenável política necrófila repudiada por 73% dos cidadãos e cidadãs que despem de qualquer valor o negativismo que condenou ao genocídio de 600 mil brasileiros.
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