Bertolt Brecht
INTERTEXTO
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
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BOCAGE
O Leão e o Porco
O rei dos animais, o rugidor leão,
Com o porco engraçou, não sei por que razão.
Quis empregá-lo bem para tirar-lhe a sorna
(A quem torpe nasceu nenhum enfeite adorna):
Deu-lhe alta dignidade, e rendas competentes,
Poder de despachar os brutos pretendentes,
De reprimir os maus, fazer aos bons justiça,
E assim cuidou vencer-lhe a natural preguiça;
Mas em vão, porque o porco é bom só para assar,
E a sua ocupação dormir, comer, fossar.
Notando-lhe a ignorância, o desmazelo, a incúria,
Soltavam contra ele injúria sobre injúria
Os outros animais, dizendo-lhe com ira:
«Ora o que o berço dá, somente a cova o tira!»
E ele, apenas grunhindo a vilipêndios tais,
Ficava muito enxuto. Atenção nisto, ó pais!
Dos filhos para o génio olhai com madureza;
Não há poder algum que mude a natureza:
Um porco há-de ser porco, inda que o rei dos bichos
O faça cortesão pelos seus vãos caprichos.
Bocage, in ‘Fábulas’
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ESCÂNDALOS
MIRANDA Sá (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
“A palavra escândalo caiu em desuso no Brasil, porque nada mais escandaliza o brasileiro” (@HugoAg0go)
Eu não consigo, desde a adolescência, compactuar com os políticos corruptos que assolam o País desde aquele tempo; foi por isto que me alegrei com a chegada da Lava Jato e o processo de perseguição aos corruptos e a prisão do ex-presidente Lula.
Continuo me escandalizando, e ficou atravessada na garganta minha revolta contra a aliança dos corruptos e os garantistas do STF para anular as sentenças do ex-juiz Sérgio Moro, do TRF4 e das investigações do MPF e PF contra a corrupção dos governos lulopetistas.
Revolta ainda mais ver-se o próprio TSJ (que também sentenciou o corrupto Lula da Silva à prisão), condenar o procurador Deltan Dallagnol a pagar indenização para o Pelegão “por danos morais”…. Dallagnol, que investigou e comprovou a delinquência do ex-presidente, passou a ser culpado pela denúncia feita.
Com Lula livre, leve e solto, assistimos agora o remake do filme policial em que foi personagem. É a película “CORRUPÇÃO – O RETORNO”, mostrando o general Braga Neto na Casa Civil atuando com o capitão Bolsonaro em favor de um projeto de lei favorável à Associação Brasileira de Clínica de Vacinas – ABCEVAC – contratante com a Precisa Medicamentos para fornecer a vacina indiana Covaxin.
Sem desmentidos do Governo Federal até hoje, Bolsonaro e Braga Neto assumiram o compromisso de comprar 20 milhões de doses da Covaxin de ‘facilitadores políticos’ que iriam receber ‘comissionamentos’ na transação.
Deu-se desta maneira, segundo a CPI da Covid, o mais-que-perfeito esquema de “rachadinhas oficiais” na gestão do general Pazuello, cercado de militares à frente do Ministério da Saúde.
Noutro escândalo, é impossível negar que Pazuello negociou pessoalmente a compra da vacina Coronavac de intermediários amigos da família Bolsonaro por quase o triplo do preço negociado pelo Instituto Butantan.
É impressionante constatar-se que enquanto o povo necessitava de vacinas para enfrentar a pandemia, os responsáveis pelo Governo Federal se preocupavam em extrair propinas; um verdadeiro escândalo.
À época, um editorial do Estadão foi incisivo: “ À medida que as investigações da CPI da Covid avançam no Ministério da Saúde, vêm à tona indícios não de sistema sofisticado de fraudes, mas de trambique, mutreta, picaretagem, tramoia. ”
No roteiro das cenas revoltantes, observa-se o paradoxo entre clarinadas de honestidade (noves fora as rachadinhas e cheques de Queiroz para Michele) e a realidade. Faz-se sob o silêncio da tropa bolsopetista, felizmente reduzida aos que se degeneraram pelo fanático culto à personalidade do capitão Bolsonaro.
Chegando aos anos 2022, o filme “CORRUPÇÃO – O RETORNO”, recém lançado no auditório da política, mostra reuniões de um gabinete paralelo no Ministério da Educação coordenadas pelos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, sem vínculos com a pasta, mas controlando empenhos de R$ 9,7 milhões.
Além de tudo, até pedidos de barras de ouro, estes “lobistas religiosos” controlam “em nome de Cristo” a agenda do ministro Milton Ribeiro apoiados pelo capitão Bolsonaro, segundo o próprio titular da Pasta em vídeo amplamente divulgado.
O Ministro, justificando-se, diz que obteve com seus parceiros uma ótima taxa de agilidade na liberação de verbas de repasses federais. Fora dos padrões, se o prefeito “colaborar”, tem 18 dias para a grana chegar.
Neste imbróglio aparece disfarçadamente o dinheiro público destinado para construção de templos. Deste modo crescem os escândalos no Governo Bolsonaro, que joga na lata do lixo a ética e a honestidade.
Pela atual inversão dos valores, juízes, policiais e procuradores vacilam em entrar nesta briga temendo ser condenados por denunciar a corrupção, como fez o STJ dando ganho de causa ao corrupto Lula da Silva punindo o procurador Deltan Dallagnol que o denunciou.
Antero de Quental
Nirvana
Viver assim: sem ciúmes, sem saudades,
Sem amor, sem anseios, sem carinhos,
Livre de angústias e felicidades,
Deixando pelo chão rosas e espinhos;
Poder viver em todas as idades;
Poder andar por todos os caminhos;
Indiferente ao bem e às falsidades,
Confundindo chacais e passarinhos;
Passear pela terra, e achar tristonho
Tudo que em torno se vê, nela espalhado;
A vida olhar como através de um sonho;
Chegar onde eu cheguei, subir à altura
Onde agora me encontro – é ter chegado
Aos extremos da Paz e da Ventura!
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O DIABO
MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)
“O Diabo se empenha em nos dominar nas pequenas coisas para nos enfraquecer” (São Vitor)
O nosso epigrafado, Vitor, santo católico nascido na Sicília viveu à época dos imperadores romanos Diocleciano e Maximiano e das perseguições aos cristãos. Morreu como mártir da Igreja, e, se não me engano, é padroeiro da cidade de Praga.
Em vida, São Vitor pregava a palavra e os milagres de Jesus Cristo, e principalmente o enfrentamento d’Ele com o Diabo, expulsando a Legião de demônios que dominavam um pobre homem.
Foi talvez o primeiro pregador evangélico a ilustrar o episódio do Cristo de não se deixar seduzir pelo Diabo, conforme Lucas expôs: – “… E o Diabo mostrou-Lhe num instante do tempo todos os reinos do mundo e disse-Lhe: ‘Tudo será teu se me adorares’; e Jesus respondeu irado: – ‘Vai-te, Satanás; porque está escrito: – ‘Adorarás o Senhor Deus e só a ele seguirás’.
Reconhecendo a existência do Diabo, a Bíblia diz: – “… E isso não é de admirar, pois até Satanás pode se disfarçar e ficar parecendo um anjo de luz. Portanto, não é nada demais que os servidores dele se disfarcem, apresentando-se como pessoas que fazem o bem. (2 Coríntios 11:14-15).
Isto suscita uma pergunta importante: Por que Deus criaria Satanás, um diabo ‘ruim’ (o nome significa ‘sedutor’) para corromper a humanidade? Deus prometeu a redenção no início dos tempos segundo Abraão e através de Moisés; e realizou com a ressurreição de Jesus.
E o que encontramos nos textos bíblicos é que o Diabo, ao contrário, faz tudo para enganar as pessoas negando as promessas divinas e as impedir de entrar no reino dos céus para se apossar das suas almas.
Pouco informado, não sei como os atuais teólogos católicos, cismáticos e evangélicos têm abordado a existência do Diabo, embora constate que esta figura sinistra se faz presente no imaginário dos sectários cristãos de todas igrejas.
O povo em geral vê o Diabo como um ente do mal. Sua referência aparece em não-sei-quantos sinônimos; dicionários de gíria e termos populares registram anjo mau, ardiloso, belzebu, canhoto, capiroto, cão, chifrudo, cornudo, demônio, lúcifer, maldito, maligno, malvado, satanás, tinhoso…
É corrente também o crédito nas possessões. De vez em quando aparece alguém com o diabo no corpo, situação reconhecida por todas as denominações cristãs ao manter padres e pastores exorcistas e que é explorada cinematograficamente…
Conforme é fácil ver-se, há muitos endemoniados entre os políticos brasileiros, que reconhecemos pela atuação eleitoralista junto às igrejas e na proliferação de sacerdotes políticos atuantes nos poderes republicanos.
Numa viagem do ministro-pastor Milton Ribeiro revelou-se um diabólico esquema de corrupção através do também pastor Gilmar dos Santos, que assegurou ao Prefeito do Município ser o responsável por garantir verbas para prefeituras. Também não se sabe se é Deus ou o Diabo em nome do qual foi criado um “gabinete paralelo” no Ministério da Educação.
Sabíamos e acompanhamos os desmandos ideológicos da ala direitista mais radical no Ministério do Governo Bolsonaro, mas ignorávamos que esta Pasta sofrera a ocupação de um grupo capitaneado pelos pastores Gilmar Silva dos Santos e Arilton Moura. E que com isto se explica que a agenda do Ministro-Pastor seja feita pelos colegas sem vínculo formal com o órgão.
Como sou cismado, me pergunto se esta situação acolhe “mercadores” como aqueles que Jesus expulsou do Templo chicoteando-os. Sei que muitos sacerdotes das mais diversas religiões e seitas “cobram” uma falsa intermediação com Deus; mas é a primeira vez que vejo atuarem com lobistas repassando verbas públicas. Esta revelação que vem de uma reportagem do Estadão, é revoltante.
Veio, porém, em boa hora. Mostra que as transações feitas pelos lulopetistas nos governos de Lula e Dilma sobrevivem no Governo Bolsonaro comprovando a existência do “bolsopetismo”, que iguala os populistas de esquerda e de direita nas trilhas obscuras da corrupção.
Tenho certeza que esta gente sabe de cor passagens dos livros do Pentateuco, Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, mas não conhecem Shakespeare: – “O diabo pode até citar as Escrituras quando isso lhe convém…”.
ESTUPIDEZ
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Somente duas coisas são infinitas: o Universo e a estupidez humana. E não estou seguro quanto à primeira” (Albert Einstein)
Todas as exceções confirmam a regra antiga de que toda regra tem exceção…. Não sei se vale para as conversas de bar, principalmente quando termina a última sessão do cinema e os cinéfilos discutem os “filmes de arte” reconhecidos como tais por uma meia dúzia de três ou quatro críticos.
Bem. Estou falando de um tempo antigo, o “meu” tempo. Mais tarde se macaqueou dos gringos a “happy hour”, desculpa de bêbado para deixar o trânsito amainar. Então se começa com o Chopp apreciado devagarinho e do Whisky ralo diluído em água com gás. Inicia-se um papo ameno.
Depois a coisa esquenta. E quando se fala de política, o tom de voz alteia e a conversa de bar vira conversa de bêbedo. Fico imaginando como protagonizam atualmente os extremistas fanáticos de “direita” e de “esquerda” (entre aspas, pois me refiro a bolsonaristas e lulistas). Estes assumem o que Stanislaw Ponte Preta considerou: – “Conversa de bêbedo não tem dono”.
Neste trágico momento que atravessamos assistindo a crise bélica no Leste Europeu vem comprovar uma curiosa situação. Afirma-se nas conversas de bar a hipótese matemática de que as paralelas se tocam no infinito. A estupidez levou os extremistas a se encontrar. O bolsopetismo assumiu este truísmo na política nacional.
Juntos, os dois lados defendem de uma maneira ou outra a invasão russa na Ucrânia. Os argumentos são diferentes, mas sustentam que a guerra é justa. Os bolsonaristas reconhecem as boas relações do Capitão com Putin no campo político aplaudindo a Rússia no Caso Amazônico e defendendo os fertilizantes.
Os petistas remoem a superada visão anti-imperialista que os põe sempre contrários aos norte-americanos, condenam a tentativa de cerco à Rússia caso a Ucrânia participe da Otan.
Há, sem dúvida, vestígios de verdade nestas alegações. Mas nada que justifique uma guerra. De formação pacifista eu seria preso na Rússia condenando a guerra e por igual motivo torno-me alvo das críticas (algumas mal-educadas e virulentas) de bolsonaristas e petistas….
É a estupidez humana fazendo “strip-tease”. Esta obscena nudez está exposta em todos os países do mundo. Uma encenação que se vê nas ruas, nos shoppings, nos supermercados e principalmente nos coletivos, avião, ônibus e metrô.
Lembro o aforismo de Marck Twain afirmando que quatro quintos da humanidade é formada de desorientados. Fico imaginando este percentual de estúpidos pelo mundo afora…. No Brasil, pelas preferências eleitorais que as pesquisas divulgam, são milhões.
Além de imantados pela estúpida polarização eleitoral, juntam-se aos que desmatam as florestas para a boiada passar, os que envenenam os rios garimpando ilegalmente, àqueles que massacram indígenas para explorar reservas, os que desvalorizam a Educação, que negam a imunização pela vacina contra a covid-19 e agora, aos defensores de guerras.
É bastante conhecida a estupidez que se hospeda na Política, e com eles colunistas e comentaristas midiáticos criticam a maior conquista da civilização, a Declaração dos Direitos do Homem.
Na Magistratura surgiu um tal “garantismo” para defender políticos corruptos e os fardados, militares das três armas se metendo na política rasteira dos comissionamentos e das propinas.
Evidencia-se também, vergonhosamente, alguns médicos que por ideologia distorcida ou falta dos estudos necessários ao exercício da profissão assumem o estúpido negativismo bolsonarista.
A estupidez humana é revoltante. Espero que o cientista Einstein que epigrafamos, tenha se enganado; e que o sábio Aristófanes se precipitou ao enunciar que “a juventude envelhece, a imaturidade é superada, a ignorância pode ser educada e a embriaguez passa, porém, a estupidez é eterna. ”
“A CEGA”
MIRANDA SÁ (Email: miranadasa@uol.com.br)
“O juiz não é nomeado para fazer favores com a justiça, mas para julgar segundo as leis”. (Platão)
Escrevi anteriormente o artigo “CROCHÊ” em que reportei os tratos da confecção deste belo artesanato e a sua diferenciação com o “TRICÔ”. Hoje, para falar da Justiça e sua cegueira, vou à Revolução Francesa para relembrar as tricoteiras (tricoteuses) da Praça da Concórdia. Mulheres que ficavam tricotando ao pé da guilhotina, vendo-a funcionar.
A História registra que usando o “barrete da liberdade” tricotado por elas, o jovem revolucionário Maximilien de Robespierre, ex-juiz criminal atuante na Assembleia Nacional da Revolução, morreu guilhotinado.
Robespierre foi um idealista fora de época. Defendia ideias que ainda coxeiam em muitos países, como o sufrágio universal, eleições diretas, educação gratuita e obrigatória, e imposto progressivo segundo a renda.
Pagou com a morte por isto. Em ascensão e influência do conservadorismo saudosista da monarquia nas decisões da Assembleia, tramaram contra a continuidade do processo revolucionário, e condenaram-no à morte junto com outros companheiros jacobinos.
O estopim foi o discurso “Contra a Guerra” em que Robespierre relembrou o governo despótico e corrupto de Luiz XVI, denunciando que ainda persistiam agentes do antigo regime “corrompendo o espírito humano e tornando a liberdade suspeita e terrível”.
Ocorre que a sua sentença de morte não foi uma decisão judicial, mas política. A França vivia a Era do Terror e, para extremistas não basta que a Justiça seja cega, isolaram-na numa masmorra….
Foi melhor assim do que vermos um julgamento presidido por magistrados despreparados ou politiqueiros. Existem tais entre nós, capazes de soltar o corrupto Lula da Silva e engavetar por anos, até a prescrição, processos contra conhecidos políticos delinquentes.
Coitada da Justiça no Brasil. Não é cega como a deusa Themis, que representa, mas usa uma venda nos olhos e fica alheiamente sentada diante do STF em Brasília com uma espada na mão, simbolismo que pode ser traduzido que a venda é para não enxergar certos crimes e a arma branca para se mostrar ameaçadora….
A História da Humanidade registra fatos incríveis sobre magistrados e a crítica dos pensadores lhes é contundente. Um destes censores foi François Rabelais, escritor renascentista francês, cuja visão filosófica distinguimos em “Pantagruel” e “Gargântua”.
Na sua obra, Rabelais criou o juiz Bridoye que jogava dados para julgar os litigantes do processo e o sorteio orientava a sua decisão; e igualmente realista, Tolstoi pôs em “Ana Karenina” outro magistrado que abria a Bíblia por acaso e, dependendo do número da página, absolvia ou condenava o réu.
O anedotário paraibano traz o enredo de um juiz de Campina Grande que levava para os julgamentos um saquinho com feijões pretos e brancos na mesma quantidade e para sentenciar alguns casos tirava um dos grãos a fim de definir a culpabilidade ou a inocência do réu….
Não sei quais artifícios usam os ministros que atuam na 2ª Turma do STF; tenho a curiosidade de sabê-lo. Acho que as decisões de criminalizar a Operação Lava Jato e libertar o ex-presidente prevaricador Lula da Silva, não foram oriundos da Ciência Jurídica ou da Filosofia do Direito.
Do outro lado, há juízes e desembargadores que procrastinam o julgamento das rachadinhas da Família Bolsonaro; são bastante conhecidos por outras decisões baseadas em ideologias distorcidas ou subserviência política. Incapazes de tomar uma decisão que não exige coragem, apenas honestidade.
Se depender de certos magistrados, a Justiça continuará sem enxergar; deveria dispensar esses togas pretas como guias de cego que não a conduzem no caminho certo. Lembro aos juízes trapaceiros o grande Rui Barbosa: – “Eu não substituo a fé pela superstição, nem a realidade pelo ídolo”.
CROCHÊ
MIRANDA SÁ (Email: mirandasas@uol.com.br)
“Nossa vida é crochetada com um emaranhado de linhas que define uma personalidade” (Autor desconhecido)
Quando eu era menino estranhava que a maioria das mulheres que se sentavam nos bancos da praça praticando o traçado de fios falavam “Croché”, com acento agudo no E; a minha mãe, que estudara francês, falava “Crochê” com acento circunflexo…
Ocorre que a palavra chegou ao Brasil com etimologia francesa, (crochet), vinda do tunisiano (kʁɔʃɛ), que, ao que me parece sem pesquisar, foi criado na Tunísia este processo artesanal na famosa tapeçaria deles.
Tanto faz Croché como Crochê. O verbete dicionarizado em português é um substantivo masculino, designando o processo de criação de tecidos com entrelaçamento de fios de seda ou algodão, uma espécie de renda feita com uma agulha de bico terminado em gancho.
Na minha época, tirando as moças prendadas, o vulgo confundia crochê com tricô, este também um tecido de malhas feito com lã. A palavra tem também origem francesa (tricot) que veio dar em tricô.
A diferença entre os dois na sua confecção é que o tricotar exige duas agulhas sem gancho; e divergem também no seu uso; o crochê tem uma serventia variada para cama, mesa e vestuário (apareceu até num biquíni do Gabeira); e o tricô é mais usado para agasalhos de lã.
Quando rapazola, ganhei muitos suéteres feitos por minhas tias para me proteger no Inverno; e da minha madrinha Nazinha, que era rica e viajada, tive um deles com losangos coloridos trazido da Alemanha.
Escreveu alguém, não me lembro quem, mas acho que foi um daqueles escritores clássicos russos, que “a nossa vida é uma malha de crochê de fios, de pontos e de nós coloridos, traçando com dedos invisíveis e poderosos o nosso destino”.
A malha da nossa vida é especialmente vista ao envelhecer, porque a agitada visão mental dos jovens não consegue alcança-la. A idade provecta traz a vantagem de poder analisá-la e julgá-la, o que é negado aos portadores da síndrome de Peter Pan….
É traiçoeira a deficiência que não permite ver a emaranhada rede da própria vida permitindo a repetição dos erros cometidos e impedindo a confissão unipessoal dos pecados.
Encontramos cotidianamente, infelizmente, tais incapacitados nas redes sociais e principalmente na política. Será um absurdo afirmar que o capitão Bolsonaro é inabilitado para distinguir o traçado da sua vida?
Vê-se que tanto como militar, tanto como político, a sua dormência intelectual vem de longe e resultou na infeliz posição que assume no cenário da guerra russo-ucraniana.
Para o político profissional o crochê pregresso da sua carreira mostra um jogo de ideias oportunistas e provisórias que, às vezes vencedoras, leva à megalomania. No caso do imoderado Capitão que ocupa a presidência da República pela enganação nas promessas de campanha, vê-se uma exagerada ambição pessoal.
Foi por isto que crochetou a volta do criminoso Lula da Silva, como único adversário capaz de mantê-lo na disputa pela reeleição. Começou combatendo a Lava Jato para salvar os filhos delinquentes, e viu que podia libertar o Pelegão aliando-se aos juízes inclinados a defender o condenado de Justiça em duas instâncias.
Assim, ficou interlaçada na malha da eleição presidencial resultando na imunda polarização entre o ruim e o pior. Que triste destino terá o Brasil se um dos dois, Bolsonaro ou Lula, voltar a sentar-se na cadeira presidencial!
O pior de tudo é que há quem aceite bovinamente a polarização eleitoral, tornando-se bolsopetistas. São incapazes de ver cada linha, cada ponto e cada nó do chochê da sua vida; e pior do que isto, parecem desconhecer o autor desta teia….
SEI LÁ, NÃO SEI…
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“A vida não é só isso que se vê/ É um pouco mais/ Sei lá não sei…/ Sei lá não sei…” (Paulinho da Viola)
Conta-se no anedotário político a história do parlamentar mineiro que em declaração de voto disse que não era a favor, nem contra, muito pelo contrário…. E também das Alterosas o registro histórico autêntico, da antológica frase de Magalhães Pinto, quando perguntado sobre uma mudança de posição: – “A política é como uma nuvem, você olha, ela está de um jeito; olha de novo, ela já mudou…”
Magalhães Pinto, velha raposa política, viveu na Câmara Federal a crise nascida com a renúncia de Jânio Quadros e a tentativa golpista de impedir a posse de João Goulart, legitimamente eleito vice-presidente da República e que estava fora do Brasil em missão oficial na China.
Foi de Magalhães Pinto a ideia do Congresso promulgar a Emenda Constitucional do Parlamentarismo permitindo a posse de Jango no dia 7 de setembro de 1961. Daí em diante, como presidente da UDN, assumiu a liderança de uma ferrenha oposição ao governo trabalhista que culminou com o golpe militar de 1964.
As inconstâncias observadas no comportamento dos políticos são incompatíveis nos meios científicos; nestes, os estudos e pesquisas exigem uma materialidade tangível para atingir resultados positivos.
Lembro, embora esqueça a fonte, um pensamento de Claude Bernard recomendando aos cientistas que “ao entrar no laboratório, devem guardar no armário, além dos pertences, a sua imaginação…”
É isto, na minha opinião. Os devaneios e presunções não têm lugar aonde se pretende apurar, inquirir e investigar prospectando dados para cumprir um objetivo e solucionar problemas. Foi o que se viu na corrida louca para enfrentar a pandemia do novo coronavírus, no afã de descobrir remédios para combater o vírus e criar vacinas.
Enquanto isto ocorria nos laboratórios do mundo inteiro, as nuvens mutáveis que correm nos céus da política deram forma à ideologia retorcida do negativismo da Ciência.
Foi o que se viu nos Estados Unidos da América com Donald Trump na presidência e no Brasil, por espirito de imitação, com o capitão Bolsonaro. A partir daí, grassou o fundamentalismo no mundo deles, aonde há quem acredite que a Terra é plana, apesar das fotografias tiradas do espaço.
Um materialista do século 18 escreveu que ao expulsar Adão do Jardim do Éden, Deus enxertou-lhe no cérebro a alienação e a razão…. Creio que pensou dotar o renegado do Paraíso com fundamentos de reflexão, crítica e criação, mas, ao mesmo tempo ficar indiferente com quem se sentir prejudicado pelo seu poder.
Se esta idílica concepção é verdadeira ou não, vale a pena garimpar exemplos na bateia da Ciência. A busca esbarra, porém, nos que negam Darwin, Pasteur e Einstein; e esta insanidade obscurantista atinge PHDs de todos os doutorados, os que se excitam vendo Jesus em galhos de árvore, devotos de Nostradamus e os abduzidos por discos voadores.
Assim, não é por acaso que saem dos tubos de ensaio e provetas do laboratório do negativismo as drogas que enuviam o processo mental dos que se prendem ao culto da personalidade de políticos e ao fanatismo religioso. É pela alucinação que funcionam as algemas da ignorância.
Biruta ao sabor dos ventos da improvisação, o capitão Bolsonaro orienta a sua tropa (ou seria trupe?) de alienados do cercadinho acendendo uma vela a Deus e outra ao Diabo. Na Rússia, homenageia os soldados soviéticos do Exército Vermelho caídos na guerra contra o nazismo que ele tanto admira; e na Hungria fascistóide, se assume citando Mussolini com o slogan hipócrita, “Deus, Pátria e Família”.
O que fazer diante desta ensandecida situação que o Brasil atravessa? “Ouvir e obedecer” como fazem os bonzos do gabinete do ódio ou resistir à insensatez que nos envergonha e revolta. A vida não é só isto que se vê; da minha parte vejo muito mais e sei: não tenho dúvidas….
GAZPACHO
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Essa história de confusão mental é típica dos reacionários, que acham necessário ter ideias claras sobre tudo, interpretar tudo de modo racional, sem precisar duvidar de nada” (Frederico Fellini)
Marjorie Taylor Greene, deputada norte-americana que coleciona polêmicas na política dos Estados Unidos pelo extremismo negacionista, virou piada nas redes sociais ao confundir o nome da polícia secreta da Alemanha Nazista, a Gestapo, com o nome de um prato tipicamente espanhol, o Gazpacho.
Essa troca de nomes ocorreu num programa One America News onde Greene era entrevistada defendendo a invasão ao Capitólio; e, ao fazer uma crítica à presidente da Câmara dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, disse que ela “que mantém uma ‘Polícia de Gazpacho’, embaraçando os nomes.
Um capítulo negro da História Universal registra que a Gestapo foi a polícia secreta oficial da Alemanha Nazista, criada em 1933 por Hermann Göring que reuniu várias agências de polícia. A tenebrosa “Geheime Staatspolizei” passou a ser chefiada em 1936 pelo assassino e torturador Heinrich Himmler, do círculo íntimo de Hitler.
A Gestapo realizou a maioria dos assassinatos dos opositores ao regime nazista e, controlando os campos de concentração, foi responsável pelo genocídio de eslavos, judeus, ciganos, testemunhas de Jeová e homossexuais.
Somente uma mente doentia poderá confundir essa figura horrenda mantida pelo nazismo com o Gazpacho, iguaria espanhola apreciada pelos gastrônomos do mundo inteiro. Trata-se de uma sopa de tomate (pode ser servida fria ou quente) temperada com alho, cebola, vinagre e, principalmente, azeite; é acompanhada com croutons de frigideira…
Reclama-se por se levar para zombaria e rebaixamento intelectual os radicais da extrema direita, esses que encontramos nas redes sociais divulgando falsos profetas para envenenar as fracas mentes aptas ao misticismo.
Investidos pela vaidade de amealhar cultura livresca, esses abstrusos e confusos divulgadores de Nostradamus e de infinitas mensagens diversionistas pessoais, julgando que convencem ter “independência política”; imprimem, na verdade, a marca das simpatias pelo totalitarismo, como um gato escondido com o rabo de fora….
Infelizmente eles aparecem como “especialistas” em mistificação. Estão sempre presentes nas redes sociais, mas são desmascarados por não verem disparidade no culto à personalidade do capitão Bolsonaro a disparidade entre os dedos e os anéis.
“Especialista é alguém que lhe diz uma coisa simples de maneira confusa, de tal forma a fazer você pensar que a confusão é culpa sua”, disse alguém de quem esqueci o nome e me desculpo repetindo o seu pensamento, completando-o com Dorothy Parker: – “… não são as tragédias que nos matam, são as confusões”.
A confusão é plantada pelos pastores evangélicos politiqueiros que não distinguem a diferença entre a religião e os falsos profetas, nem entre a crença e os fiéis, e, muito menos, entre o Gazpacho e a Gestapo. Quem os desmascara é o autêntico Martin Luther King, que num dos seus brilhantes sermões disse que “a religião mal-entendida é uma febre que pode terminar em delírio”.
Quanto aos outros, direitistas de oportunidade, surfam desengonçados nas ondas do populismo. É fácil encontrá-los no pântano da fraude e da mentira vigentes na Era Bolsonaro, onde há muitos a comandar e distorcer os conceitos de conservadorismo e honestidade.
O conservador não é insuficiente nas ideias de Justiça, Ordem e Progresso, nem se alia a trapaceiros; é por isso que não entendo que pessoas educadas não repudiem aqueles que criam estas confusões. Se honestos, penso, por exemplo, ser-lhes impossível apoiar o Governo Bolsonaro na política anti-vacina, aliada do vírus letal.
Da minha parte, sigo combatendo a necrofilia bolsonarista; e sinto-me compensado porque não estou só. Somos milhões os que nos sobrepomos ao redemoinho dos distúrbios do negativismo, colocando-nos acima da ignorância obscurantista.
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