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Walt Witman

Escuto a América a Cantar

Escuto a América a cantar, as várias canções que escuto;
O cantar dos mecânicos – cada um com sua canção, como deve ser, forte e contente;
O carpinteiro cantando a sua, enquanto mede a tábua ou viga,
O pedreiro cantando a sua, enquanto se prepara para o trabalho ou termina o trabalho;
O barqueiro cantando o que pertence a ele em seu barco – o assistente cantando no deque do navio a vapor;
O sapateiro cantando sentado em seu banco – o chapeleiro cantando de pé;
O cantar do lenhador – o jovem lavrador, em seu rumo pela manhã, ou no intervalo do almoço, ou ao por-do-sol;
O delicioso cantar da mãe – ou da jovem esposa ao trabalho – ou da menina costurando ou lavando – cada uma cantando o que lhe pertence, e a ninguém mais;
O dia, ao que pertence ao dia – De noite, o grupo de jovens, robustos, amigáveis,
Cantando, de bocas abertas, suas fortes melodiosas canções

ABANDONO

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“Quem abandona a luta não poderá nunca saborear o gosto de uma vitória” (Textos Judaicos)

Sempre, em toda época e em todo lugar, aparece um curioso importuno. Outro dia li a notícia de que certa pessoa escreveu para o Papa Francisco perguntando se Deus era mesmo brasileiro. Essa alegoria é de tal modo repetida que se traveste de verdade, dando razão ao ministro nazista da Propaganda, herr Goebbles.

Até o momento em que escrevo este texto, não tomei conhecimento de que Francisco tenha se dado ao incômodo de responder ao missivista. Interessante é que andei matutando sobre o caso e acho que o abelhudo indiscreto merece uma resposta.

Se Deus é brasileiro ou não, pouco importa; mas seu filho Jesus Cristo no sofrimento da cruz, perguntou-Lhe com toda santidade: – “Eloi, Eloi, lamma sabactatani?”; (“Deus meu, Deus meu, porque me abandonaste? ”).

Este abandono sofreu o povo brasileiro nas eleições; foi chicoteado e condenado a carregar a pesada cruz da insanidade polarizada onde ficará pregado pelos próximos quatro anos. Este quadro reflete a pergunta do Nazareno, abandonado pela Providência Divina.

Do alto do martírio a cidadania assistiu a cena macabra da escolha entre o ruim e o pior entre corruptos populistas, diferentes apenas pelos rótulos de direita e esquerda auto-assumidos, mas semelhantes pelas práticas.

Eis o exemplo que as urnas nos deixaram junto com o direito de perguntar ao Arquiteto do Universo na sua onisciência e onipotência, o porquê abandonou o povo que O aceita contrita e carinhosamente entre os seus nacionais.

Não foi difícil assistir a realidade – não das pesquisas enganadoras -, mas no giro de uma roleta com a bolinha de marfim atestando o número vencedor sob o olhar angustiado dos jogadores.

A bolinha saltitante atestou o fim da primeira etapa do jogo eleitoral, jogo que sabemos não é recreativo nem divertido, mas  recorda a constatação do matemático Bertrand dizendo que “a bolinha não tem consciência nem memória”.

Nem sempre os números perseguidos na mesa verde, sejam pares ou ímpares, vermelhos ou pretos, repetem-se sempre; fogem incoerentemente muitas vezes, negando as apostas. E o pior se dá quando as combinações extravagantes, misturam os cálculos políticos e a fé religiosa….

Será justo, porém, abandonar as apostas no destino por um resultado negativo? Na minha opinião, não; devemos insistir, mesmo sabendo que nunca será encontrada a fórmula matemática de se ganhar na roleta giratória.

A insistência em fugir do tormento de termos governantes egocêntricos, populistas e corruptos, evita que a eleição seja um jogo dos partidos “sopinhas de letras” e das ideologias inautênticas, mas gelatinas coloridas para aguçar apetites.

As urnas eletrônicas mostraram ser confiáveis. Se os eleitos não o são, a culpa é do eleitor masoquista que adota bandidos de estimação e goza com o sofrimento; o voto consciente e patriótico porém, ao contrário, exige educação e amor-próprio.

O futuro não é uma roleta girando, mas a consequência da ação política cidadã. Para que ele nos chegue radiante, com liberdade e justiça, devemos adotar o que ensinou Ulysses Guimarães: “A Pátria não pode se tornar capanga de idiossincrasias pessoais”.

 

T. S. Eliot

 O Nome dos Gatos

 

Dar nome aos gatos é um assunto traiçoeiro,

E não um jogo que entretenha os indolentes;

Pode julgar-me louco como o chapeleiro,

Mas a um gato se dá TRÊS NOMES DIFERENTES.

Primeiro, o nome por que o chamam diariamente,

Como Pedro, Augusto, Belarmino ou Tomás

Como Victor ou Jonas, Jorge ou Clemente

– Enfim nomes discretos e bastante usuais.

Há mesmo os que supomos soar com som mais brando,

Uns para damas, outro para cavalheiros,

Como Platão, Admetus, Electra, Demétrio

Mas são todos discretos e assaz corriqueiros

Mas a um gato cabe dar um nome especial

Um que lhe seja próprio e menos correntio:

Se não como manter a cauda em vertical,

Distender os bigodes e afagar o brio?

Dos nomes desta espécie é bem restrito o quorum,

Como Quaxo, Munkunstrap ou Coricopato,

Como Bombalurina, ou mesmo Jellylorum…

Nomes que nunca pertencem a mais de um gato.

Mas, acima e além, há um nome que ainda resta,

Este de que jamais ninguém cogitaria,

O nome que nenhuma ciência exata atesta

SOMENTE O GATO SABE, mas nunca o pronuncia.

Se um gato surpreenderes com ar meditabundo,

Saibas a origem do deleite que o consome:

Sua mente se entrega ao êxtase profundo

De pensar, de pensar, de pensar em seu nome:

Seu inefável afável

Inefanefável

Abismal, inviolável e singelo Nome.

Trad: Ivan Junqueira

Rainer Maria Rilke

A Pantera

(No Jardin des Plantes, Paris)

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

Rainer Maria Rilke )
(tradução de Augusto de Campos)

 

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Jorge Luis Borges

A LUIS DE CAMÕES

Sem lástima e sem ira o tempo vela
As heróicas espadas. Pobre e triste
Em tua pátria nostálgica te viste,
Oh capitão, para enterrar-te nela

E com ela. No mágico deserto
A flor de Portugal tinha perdido
E o áspero espanhol, antes vencido,
Ameaçava o seu costado aberto.

Quero saber se aquém dessa ribeira
Última compreendeste humildemente
Que tudo o que se foi, o Ocidente

E o Oriente, a espada e a bandeira,
Perduraria (alheio a toda a humana
Mudança) na tua Eneida Lusitana.

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Elizabeth Bishop

Uma certa arte 

A arte da perda é fácil de estudar:
a perda, a tantas coisas, é latente
que perdê-las nem chega a ser azar.

Perde algo a cada dia. Deixa estar:
percam-se a chave, o tempo inutilmente.
A arte da perda é fácil de abarcar.

Perde-se mais e melhor. Nome ou lugar,
destino que talvez tinhas em mente
para a viagem. Nem isto é mesmo azar.

Perdi o relógio de mamãe. E um lar
dos três que tive, o (quase) mais recente.
A arte da perda é fácil de apurar.

Duas cidades lindas. Mais: um par
de rios, uns reinos meus, um continente.
Perdi-os, mas não foi um grande azar.

Mesmo perder-te (a voz jocosa, um ar
que eu amo), isso tampouco me desmente.
A arte da perda é fácil, apesar
de parecer (Anota!) um grande azar.

(tradução de Nelson Ascher)

John Keats

Este Túmulo
contém tudo o que foi Mortal
de um
JOVEM POETA INGLÊS
Que
no seu Leito de Morte
na Amargura do seu Coração,
ante o Poder Malicioso dos seus inimigos,
Desejou
que estas Palavras fossem gravadas em sua Lápide
“Aqui jaz Alguém
Cujo Nome foi escrito
Na Água”

(epitáfio escolhido por Keats)

JAZZ

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“Meu maior medo é morrer sem que ninguém saiba de alguma contribuição que eu tenha dado para a criação musical” (Amy Winehouse)

Escrevo este texto mal saído do Museu Armstrong, onde fui reverenciar um dos meus ídolos musicais, Louis, ícone do jazz, a genial música proveniente do folclore afro- norte-americanos. O genial poeta Maiakóvski referiu-se a ele como a “alma do jazz”.

Como barítono e hábil em vários instrumentos de sopro, principalmente o trompete, Armstrong revolucionou o Blues pela improvisação harmônica e extraordinária combinação de sons. Na sua fulgurante carreira como “showman” na Broadway e no cinema foi considerado uma das personalidades mais influentes e importantes do jazz.

Como gênero musical, o Jazz teve origem nos fins do século 19 e posteriormente encontrado nos estados do sul dos EUA. No início dos anos 1900 foi adotado e desenvolvido por afro-norte-americanos, vindo das canções que os negros cantavam quando trabalhavam como escravos nos campos de algodão.

Como verbete dicionarizado, “Jazz” é um substantivo masculino que define um estilo musical único. Há diferentes opiniões sobre a sua etimologia. Alguns historiadores dizem que vem de uma gíria da região de Louisiana usada para expressar vigor, dança e dribles do Beisebol.

Outros estudiosos aprofundam mais, relatando que a palavra tem origem na África Ocidental e significa “coito”, ou da palavra hausá “Jaíza”, da cultura Hausá (povo do norte da Nigéria), significando “o som de tambores distantes”.

Bombou com a primeira ópera folclórica, Porgy and Bess, escrita por George Gershwin e estreou na Broadway conquistando os nova-iorquinos assumindo com uma posição ao lado dos produtores brancos de musicais.

É indiscutível a vitalidade do Jazz de Nova Orleans, influenciado pelo blues. Lá aparece praticado por bandas de instrumentos de sopro e percussão de latão que dão acentos melódicos ritmados.

Muitos anos atrás me arrisquei a fazer uma comparação com o frevo pernambucano, pela forte presença de instrumentos de sopro como clarinete, corneta, saxofone, trompete e tuba executando um estilo marcial improvisado; encontrei aqui a referência de que é uma mistura da música de bandas marciais e ritmos caribenhos, como o merengue e o reggae.

Não há controvérsias sobre a origem do Jazz nas canções e danças negras e que foi o cornetista Buddy Bolden, neto de escravos, que primeiro desenvolveu a fusão do blues e ragtime em ritmo sincopado. Não temos qualquer discordância também quanto a constatação de que se desenvolveu de diversas formas como mistura com outros gêneros musicais.

Não posso deixar de homenagear além de Louis Armstrong, notáveis jazzistas como Billie Holiday, Charlie Parker, Duke Ellington, Ella Fitzgerald, John Coltrane, Miles Davis, Thelonious Monk.

É notável a variedade de subgêneros do jazz. Encontramos na dIscografia o dixieland, o Swing, o bebop e o fusion. No pós-guerra, Era da maior prosperidade norte-americana, surgiu o rock ‘n’ roll num saudável cruzamento do Jazz com Blues, Country; e alguns estudiosos acrescentam o Gospel. Com o rock o mundo ganhou a bela figura de Elvis Presley.

Com os olhos voltados para o Brasil, é inegável o valor do rock brasileiro, cujo maior amigo, defensor e divulgador é o tuiteiro @RadioRockPuro que, como seus parceiros pelo mundo afora, se preocupa com a realidade em que vive.

Em tempo de eleições, tão conturbado pelo extremismo Ideológico, é dele o equilibrado pensamento:  – “Discutir ideologias de um sistema político/social que vem desde o século XVIII e já esgotou, é muita estupidez. Não tem modelo a ser seguido. Precisamos é de um novo modelo. ”

É em busca disto que os verdadeiros patriotas defendem mudanças no mecanismo governamental populista (seja de direita ou de esquerda) que inevitavelmente se corrompe e contamina os municípios através da funesta rede de transmissão do Poder Legislativo controlado pelo Centrão.

 Então, sob o ritmo da liberdade que o Jazz nos proporciona harmonicamente, devemos formar uma poderosa corrente de opinião para transpor a decência, a honestidade e a retidão de propósitos para o campo político. Chega de populismo e sua companheira inseparável, a corrupção!

 

Carlos Drummond de Andrade

POLÍTICA

 

Vivia jogado em casa.
Os amigos o abandonaram
quando rompeu com o chefe político.
O jornal governista ridicularizava seus versos,
os versos que êle sabia bons.
Sentia-se diminuído na sua glória
enquanto crescia a dos rivais
que apoiavam a Câmara em exercício.

Entrou a tomar porres
violentos, diários.
E a desleixar os versos.
Se já não tinha discípulos.
Se só os outros poetas eram imitados.

Uma ocasião em que não tinha dinheiro
para tomar o seu conhaque
saiu à toa pelas ruas escuras.
Parou na ponte sobre o rio moroso,
o rio que lá em baixo pouco se importava com êle
e no entanto o chamava
para misteriosos carnavais.
E teve vontade de se atirar
(só vontade).

Depois voltou para casa
livre, sem correntes
muito livre, infinitamente
livre livre livre que nem uma besta
que nem uma coisa.

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Augusto dos Anjos

Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

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