Poesias

Drummond

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas

Mário Quintana

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

MEDO

Ievguiéni  Ievtuchenko

 

O medo está morrendo na Rússia,

Como os fantasmas dos anos passados;

De vez em quando, no adro das igrejas,

Ainda pede esmola qual mendiga.

 

Mas eu me lembro quando ele era forte

E sua falsidade triunfava.

Em cada andar dos prédios se esgueirava

Sua sombra, em toda parte penetrando.

 

Tornava a todos nós obedientes;

Nas coisas todas punha o seu selo;

Fazia-nos gritar quando era a hora

De calar; e calar na vez do grito.

 

Isso tudo, hoje em dia, está distante.

Estranho hoje é lembrar como temíamos,

Em segredo, que nos denunciassem,

Que viessem bater à nossa porta.

 

E o medo de falar com um estrangeiro?

E o medo de falar com sua mulher?

E o medo ilimitado de ficar

Sozinho e em silêncio em meio à praça?

 

Ninguém temia andar no nevoeiro,

Nem enfrentar as balas na batalha.

Mas tínhamos o medo, tão frequente

E mortal, de falar conosco mesmos.

 

[…]

 

Eu queria que o medo que tivéssemos

Fosse o de condenar sem julgamento,

De degradar ideias com mentiras

E, com mentiras, exaltar pessoas,

 

O medo de ficar indiferente

Quando alguém sente dor, é perseguido,

o medo de não sermos destemidos

Quando pintamos ou quando escrevemos.

TROVAS BURLESCAS

Publicada no livro “Trovas Burlescas” em 1859, a sátira de Luís Gama está mais atual do que nunca descrevendo políticos, ministros, juízes e parlamentares. Confira:

“Espertos maganões de mão ligeira/ Emproados juízes da trapaça/ E outros que de honrados têm fumaça,/ Mas que são refinados agiotas

Se luzidos ministros. d’alta escolha., / Com jeito, também mascam grossa rolha;/ E clamando que são independentes /Em segredo recebem bons presentes”

“Se a Justiça, por ter olhos vendados,/ É vendida por certos magistrados,/Que o pudor aferrando na gaveta,/ Sustentam que o Direito é pura peita” 

“Se a Lei Fundamental – Constipação, / Faz papel de falaz camaleão/ E surgindo no tempo de eleições/ Aos patetas ilude, aos tolerões” 

“Se não mente o rifão já mui sabido/ ‘Ladrão que muito furta é protegido’/ É que o sábio, no Brasil, só quer lambança/ Onde possa empantufar a larga pança”

 

Jorge Wanderley

TEMA DA ROSA – l

Parecia uma rosa madrugando

Aquela rosa ali, naquele dia.

Era quando em redor amanhecia,

Porém sem Lugar-Onde ou Tempo-Quando,

Estava eterna e eterna parecia.

Não se sabia a luz que a estava olhando,

Ou se ela olhava a luz desabrochando,

Nem se era dela que esta luz surgia.

Nada movia em torno, mas da haste

Parecia vibrar, tensa e nervosa,

A onda de um acorde num segundo

Sonhando em rubro e alheio a seu engaste,

Que era a história das rosas numa rosa,

A rosa em si, dentro de si, no mundo.

Alfred de Musset

Tristeza



Eu perdi minha vida e o alento,
E os amigos, e a intrepidez,
E até mesmo aquela altivez
Que me fez crer no meu talento.

Vi na Verdade, certa vez,
A amiga do meu pensamento;
Mas, ao senti-la, num momento
O seu encanto se desfez.

Entretanto, ela é eterna, e aqueles
Que a desprezaram – pobres deles! –
Ignoraram tudo talvez.

Por ela Deus se manifesta.
O único bem que ainda me resta
É ter chorado uma ou outra vez.


(Tradução Guilherme de Almeida)

Antero de Quental

NOTURNO

 

Espírito que passas, quando o vento

 

Adormece no mar e surge a Lua,

 

Filho esquivo da noite que flutua,

 

Tu só entendes bem o meu tormento…

 

 

 

Como um canto longínquo – triste e lento-

 

Que voga e sutilmente se insinua,

 

Sobre o meu coração que tumultua,

 

Tu vestes pouco a pouco o esquecimento…

 

 

 

A ti confio o sonho em que me leva

 

Um instinto de luz, rompendo a treva,

 

Buscando. entre visões, o eterno Bem.

 

 

 

E tu entendes o meu mal sem nome,

 

A febre de Ideal, que me consome,

 

Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!

 

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Pablo Neruda

É PRECISO AGIR

 

Pois bem, chegaram outros:
exímios, medidores, chilenos meditativos
que fizeram casas úmidas em que me criei
e levantaram a bandeira chilena
naquele frio para que gelasse,
naquele vento para que vivesse,
em plena chuva para que chorasse.
Encheu-se o mundo de carabineiros,
apareceram as ferrarias,
os guarda-chuvas
foram as novas aves regionais:
meu pai deu-me uma capa
do seu invicto poncho de Castela
e até chegaram livros
à Fronteira, como se chamou
aquele capítulo que não escrevi
mas escreveram para mim.

Os araucanos tornaram-se raiz!
Foram lhes tirando folhas
até que viraram só esqueleto
de raça ou árvore lá destituída,
e não foi tanto o sofrimento antigo
embora lutassem vertiginosamente,
como pedras, como sacos, como anjos,
e eis que agora eles, os honorários,
sentiram que o chão lhes faltava,
a terra lhes fugia aos pés:
já havia reinado o sangue em Arauco,
chegou o reino do roubo
e éramos nós os ladrões.

Perdão se quando quero /contar minha vida
é terra o que conto.
Esta é a terra.
Cresce em teu sangue
e cresces.
Se se apaga em teu sangue
te apagas.

 

Augusto dos Anjos

O CONDENADO
Augusto dos Anjos

 


           “Folga a Justiça e geme a natureza”
                                      Bocage

Alma feita somente de granito,
Condenada a sofrer cruel tortura
Pela rua sombria d’amargura
– Ei-lo que passa – réprobo maldito.

Olhar ao chão cravado e sempre fito,
Parece contemplar a sepultura
Das suas ilusões que a desventura
Desfez em pó no hórrido delito.

E, à cruz da expiação subindo mudo,
A vida a lhe fugir já sente prestes
Quando ao golpe do algoz, calou-se tudo.

O mundo é um sepulcro de tristeza.
Ali, por entre matas de ciprestes,
Folga a justiça e geme a natureza.

 

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Paulo Leminsk

Incenso fosse música

isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além