Artigo
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MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Há verdadeiramente duas coisas diferentes: saber e crer que se sabe. A ciência consiste em saber; em crer que se sabe reside a ignorância. ” (Hipócrates)
Pesquisas recentes registram a origem, a sobrevivência e a evolução da humanidade em etapas bem definidas. A Idade da Pedra Lascada, conhecida como Paleolítico, é o nome dado a primeira fase, período este que vai de 2 milhões a 10 mil anos a.C até o início da Pedra Polida, o chamado Período Neolítico, a fase da pré-história ocorrido entre 12 mil e 4 mil a/C .
O homem de Neandertal (Homo neandertalenses) é uma espécie extinta com o qual o homem moderno (homo sapiens) conviveu. Segundo estudos, surgiu durante o Pleistoceno Médio na Europa e no Médio Oriente e extinguiram-se há 28 mil anos.
Nos estágios milenares, o salto da Era da Pedra Lascada para a Era da Pedra Polida representou o surgimento do homo sapiens e com ele a descoberta, manutenção e dependência do fogo, que garantiram sua sobrevivência na última Era Glacial e o uso da fala como meio de comunicação social.
O fogo afugentava os predadores noturnos e permitiu uma dormida em segurança no chão, acelerando o processo bipedalista e a expansão territorial na caça e na coleta. A maioria dos cientistas concorda que a adoção da posição bípede foi fundamental para liberar as mãos e a boca dos nossos ancestrais e permitir o aparecimento da fala.
De acordo com esse critério, as formas mais primitivas do Homo não poderiam ter falado, o que coloca o início da fala em torno da grande migração para o Norte, há 400.000 anos atrás.
Para os estudiosos da matéria, foi fundamental para a natureza aditiva do conhecimento humano o desenvolvimento da fala e das tradições orais baseadas no encontro de um osso hioide – situado na base da língua -, numa caverna do Monte Carmelo, em Israel.
Data daí então a sociabilização humana pela comunicação oral, com a transmissão de experiências e assegurando a formação da cultura. Desse modo temos um antigo registro do respeitado filósofo pré-socrático, Anaximandro de Mileto, reconhecendo que “Todos os seres derivam de outros seres mais antigos por transformações sucessivas. ”
Através desta lição, a Arqueologia vem contribuindo para que a humanidade dê atenção ao imenso tempo que atravessamos e evoluímos cultural e cientificamente. Entristece, entretanto, encontrarmos quem combata a cultura e negue o avanço da ciência para a saúde e longevidade do ser humano.
O morfinômano marechal Hermann Göering nos anos em que o nazismo imperou na Alemanha disse: -“quando ouço falar em cultura, pego no cabo do revólver; e o capitão Bolsonaro chama de “tarados pela vacina” os cientistas e pesquisadores que defendem a imunização de crianças contra a covid-19.
Estas posições negativistas dos tesouros do aprendizado humano vêm de pessoas com problemas mentais ou exibicionistas doentios querendo parecer diferente dos que possuem conhecimento científico. E foram reconhecidos por Isaac Newton ao escrever que: “Eu consigo calcular o movimento de corpos celestiais, mas não a loucura das pessoas. ”
A Ciência é conhecimento organizado e a cultura acumulada ao longo dos tempos, permite estabelecer a vida social organizada, e admitir que podemos derrotar os erros, a ignorância e as superstições.
Entretanto, a regra das exceções nos mostra que a linguagem oral nascida a 400.000 anos não tenha somente edificado a consciência humana e os avanços civilizatórios, põe também na boca de um médico, que presumivelmente estudou Imunologia, que como ministro da Saúde dizer que os pais têm liberdade de recusar a vacina infantil para imunizar seus filhos, levantando dúvidas sobre a eficácia da imunização!
E, muito pior. O constitucionalmente chefe da Nação, capitão Bolsonaro, combate a prevenção vacinal dos brasileiros e declara de público que a variante ômicron “é um vírus bem-vindo”.
Médicos como o doutor Joseph Mengele fazia experiências macabras em Auschwitz, e psicopatas necrófilos como Hitler e Stálin antecederam Bolsonaro na estupidez negativista da Ciência, porque nenhum vírus que cause mortes é bem-vindo.
ESPELHO
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Esse estranho que mora no espelho (e é tão mais velho do que eu) olha-me de um jeito de quem procura adivinhar quem sou.” (Mario Quintana)
O espelho entra na História do Brasil com a árvore que batizou o País… Foram os indígenas que derrubavam as árvores, cortavam em toras e as transportavam até os navios. Em troca deste trabalho, recebiam espelhos, miçangas e outros objetos.
A magia de refletir a própria imagem era motivo de muita alegria para os nossos ancestrais; e vem de muito longe…. Investigações sobre o espelho registram que o seu uso vem de muitos séculos, trazendo como exemplo as conhecidas Histórias das Mil e Uma Noites.
No texto original de um dos contos, a personagem, Sherazade, é descrita por suas características intelectuais — coragem, memória, astúcia, leitura, dedicação aos estudos de medicina, filosofia e belas artes, poetisa —além das belas características físicas refletidas no espelho.
Casou-se com um potentado que após possuir a virgindade das esposas, as sacrificava, se houvesse oferecido seu lindo corpo teria morrido como as outras; mas ao enfrentar o risco, ela exaltou a dignidade feminina e venceu a morte pela inteligência distraindo o príncipe com histórias fantásticas em série…. Foi a inventora das novelas.
Também nas histórias infantis dos Irmãos Grimm, temos Branca de Neve e sua madrasta, descrita como bonita, mas orgulhosa e dominadora, que não conseguia aceitar o fato de alguém ser mais bela do que ela.
A Rainha possuía um espelho mágico e todos os dias lhe perguntava quem era mais bela, para ter certeza de ser a mulher mais linda do reino. O espelho não mentia, e quando Branca de Neve desabrochou como uma linda adolescente tornando-se mais bonita que ela, o espelho disse que a Princesinha era “mil vezes mais bela” do que a madrasta. A moça foi condenada â morte, mas escapou com a ajuda de anõezinhos.
Temos também o interessante e proverbial conto de Hans Christian Andersen, “A Roupa Nova do Imperador” em que o monarca gostava de ser admirado pelas roupas que usava sem se olhar no espelho. Certa vez um mágico que passava no reino costurou para ele que, aos seus olhos, era um encantador uniforme; o traje, na verdade, era transparente mostrando-o inteiramente nu.
Vestido orgulhosamente com a nova vestimenta, percorreu desnudo nas ruas em procissão sem que nenhum cortesão lhe alertasse para isto. Assim, escandalizou aos seus súditos, até que o silencio dos bajuladores fosse interrompido pelo grito de uma criança, entre os assistentes, dizendo que o Imperador estava nu.
A verdadeira situação despertou o monarca vaidoso que então resolveu tomou consciência para mostrar-se diante do povo. Desta maneira se vê que a construção da identidade dos chefes de Estado deve ser autêntica sem se refletir nos espelhos dos fanáticos que o seguem, sendo elogiado mesmo sendo agressor dos costumes e da ética.
Refletindo, vemos que política é um espelho, em que os seus agentes refletem o que realmente são, com real semblante de egoístas e mentirosos; vestem-se com odiosas ideologias, transparentes da Nação. Na sua soberba não creem que um dia responderão ao eleitorado para julgamento
No caso brasileiro, é interessante vermos no espelho da realidade nossas crianças ficarem expostas à contaminação pelo vírus, gritando que que vestido de negacionismo, o Presidente estás nu.
Nas clínicas infantis públicas e privadas meninas e meninos doentes denunciam a estupidez que serve de farda transparente ao Capitão necrófilo sob o silencio cúmplice dos seus fanáticos seguidores.
Felizmente esta face horrenda da maldade não se reflete sozinha no espelho. A imagem refletida do amor nos encanta com o canto dos poetas, como Pablo Neruda: “Se sou amado, quanto mais amado mais correspondo ao amor. Se sou esquecido, devo esquecer também, pois o amor é feito espelho: – tem que ter reflexo. ”
TAGARELICE
MIRANDA SÁ (Emil: mirandasa@uol.com.br)
“Há um mundo de fatos além do mundo das palavras” (Thomas Huxley)
No seu livro de memórias “A verdade de um revolucionário” o general Olímpio Mourão Filho discorreu sobre um fato rotineiro, constatando que: -“Ponha-se na presidência qualquer medíocre, louco ou semianalfabeto, e vinte e quatro horas depois a horda de aduladores estará à sua volta, brandindo o elogio como arma, convencendo-o de que é um gênio político e um grande homem…”.
A nossa observação de mais de 60 anos assistindo a cena política é que se deve acrescentar às saltitantes expressões de bajulação a imitação do Chefe. Quando ele é um boquirroto, como o que temos atualmente na presidência da República, é imitado pelos que o cultuam na sua logorreia – o sinônimo de tagarelice parecido com doença venérea.
É o que tem ocorrido com o ministro Paulo Guedes, que tinha fama de sisudo, mas quando resolveu jogar no lixo qualquer cerimônia, tornando-se um tagarela da pior espécie, com a retórica de um ilusório país das maravilhas.
Silencia ou terceiriza a culpa sobre tudo que é da sua responsabilidade, a Economia. Não fala da inflação chegando aos dois dígitos e a consequente carestia de vida que deixa os brasileiros das classes médias, média e baixa, em situação de penúria e condenando à morte os mais pobres.
Guedes traz para o dia-a-dia a triste realidade econômica que se somam ao desprezo do Capitão Minto pela pandemia com sua política necrófila apresentando a opção de morrer pelo vírus ou pela fome. Inseguro nas próprias ações, o Ministro leva o seu dinheiro para uma off-shore em paraíso fiscal….
É triste – e revoltante – constatar que não é somente Paulo Guedes, mas muitos dos seus colegas de ministério precisam de alguém como o rei Carlos, de Espanha, que cansado da inconveniência de Hugo Chávez, modelo do capitão Bolsonaro, questionou-o duramente: – “Porque não te calas? ”.
Um dos exemplos da imitação subalterna da loquacidade mentirosa é do subministro da Saúde, Marcelo Queiroz, que no mais do que perfeito espírito de imitação do Chefe, foi além do palavrório negativista usando a pornomímica como argumento, como fez em Nova York….
O falatório inconsequente do bolsonarismo nos leva a aplaudir a inquietação de Martin Luther King diante da delinquência política: -“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”.
Na verdade, se os políticos seguissem o ensinamento budista dos três macaquinhos amparados nos seis braços da deusa Vajrakilaya encontrados em templos erguidos da Índia e do Japão.
De madeira, metal ou pedra – e até de plástico, como são vendidos nas lojas de R$ 1,99 –, os três macaquinhos ficam juntos; um põe as mãos sobre os olhos, com o mesmo gesto outro fecha a boca e o terceiro tapa os ouvidos.
A mensagem é direta, sem subterfúgios: “Não fales; não vejas, não escutes”, uma regra explícita do conformismo, de não ouvir, não ver e não falar para não colaborar com as forças malignas. A sabedoria de Vajrakilaya reverenciada pelos budistas, traz também a interpretação dialética deste comportamento, ensinando que é preciso escutar muito, ver tudo e condenar o que está errado, para derrotar o mal.
Quando uma desgraça de aproxima, preparemo-nos para vencê-la, como fazemos na guerra contra o novo coronavírus, aliado ao falso religiosismo, à ignorância científica e à tagarelice dos boquirrotos.
Despertando a consciência dos que olham para o ano que vem, com eleições presidenciais decisivas para o futuro da Nação redobremos a nossa capacidade de sobreviver e não esquecer dos boquirrotos que tagarelam verdades e se cobrem com o manto das mentiras.
Não há exemplo maior do que o discurso de Geraldo Alckmin na Convenção do PSDB no dia nove de dezembro de 2017 dizendo: -“Depois de ter quebrado o Brasil, Lula diz que quer voltar ao poder; ou seja, voltar à cena do crime… “
ÉTICA
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“A maior decepção que o homem sofre advém das suas próprias opiniões”. (Leonardo da Vinci)
Não lembro bem, mas acho que já se vão dois anos que escrevi sobre a Ética. Entretanto, nesta época que atravessamos, vale a pena voltar a discutir o tema como um dever cidadão perante todos os seres da Natureza.
A polêmica é necessária porque em certos círculos, principalmente entre os membros da Confraria Internacional da Mediocridade, desprezam a participação humana como protagonista pensante no meio ambiente. Para oportunistas e carreiristas políticos e religiosos só há preocupação ética para usar o seu clone hipócrita no mundo da chicana.
Encontramos, por exemplo, a vertente diversionista nas religiões, cujas filosofias discursivas parecem diferentes, mas convergem na mesma defesa de um falso comportamento ético, “como um conjunto de coisas que as pessoas fazem quando todos estão olhando” conforme ironizou Oscar Wilde.
Perdoem-me os fanáticos pelas simulações feitas em nome da religião, mas a História da Civilização registra, não por simples coincidência, que muitas lendas e mitos da Bíblia são apenas cópias de textos antigos, como a passagem do dilúvio encontrada numa taboa sumeriana de 6.000 anos, que conta, tim-tim por tim-tim, a mesma história….
Por causa de um artigo que escrevi recentemente, uma senhora, até então por mim desconhecida entre os usuários do Twitter, escreveu que repudiava meus textos por serem contrários à religião.
Nunca foi preocupação minha discutir, e muito menos combater a religião. Discuto, às vezes, interpretações bíblicas, como o fiz comparando o Deus do velho testamento e o Deus cristão. Um vingativo e outro de infinita bondade. Então, encaminho a crítica recebida ao pensamento de Martin Luther King dizendo que “a religião mal-entendida é uma febre que pode terminar em delírio”.
Considero, portanto, que nenhuma manifestação de ignorante fanatismo pode nos dar lições de ética e muito menos de moral. Está na formação de cada um o comportamento pessoal diante do meio ambiente, pelo amor ao próximo, aos animais e às plantas.
É assim que deve se formar o caráter. Ética e Moral não estão à venda nas lojas de conveniência. Este modo de ver o comportamento parece ultrapassado para algumas pessoas, como as antigas valsas vienenses ou o maxixe, pai do samba, encontrados apenas nos velhos vinis da RCA Victor…
Quem não é filho de chocadeira e os que alisaram os bancos escolares, aprenderam que o “homo sapiens” atravessou 600 mil anos sem escrita, sem química e sem máquinas, vivendo exclusivamente do que a Natureza lhe oferecia.
Os que se julgam superiores sobre tudo, chegando a assumir presunçosamente uma imagem e semelhança de Deus, vivem apenas uma ilusão. São incapazes de racionar como o mestre em História Antiga, Ivar Lissner, que a pessoa humana não é de modo algum indispensável ao cosmos. Lissner escreveu: ”A Terra continuará a girar em torno do Sol, mesmo que o homem deixe de existir”.
Quem admite esta visão científica admite, também, que a morte não interrompe a continuidade da vida dos demais; traz somente a lamentável constatação de que o homem é o único animal que sabe que vai morrer um dia…. Realidade que Voltaire lamentou: – “Triste destino! ”.
A pandemia do novo coronavírus trouxe esse destino violentamente ao Brasil graças à estupidez negacionista do capitão Bolsonaro feroz ativista anti-vacina e, por isso, acusado de genocídio.
Neste lamentável cenário deve-se desviar o olhar para a Natureza e ponderar que somente a Ética Universal é o caminho do bem. Àqueles que não respeitam o Meio Ambiente nem a vida humana, por convicções ideológicas, fanatismo religioso ou lucrativa ganância, estão fadados a sofrer o que está preconizado no Torá: “A própria consciência é o mais feroz acusador do culpado”.
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FILANTROPIA
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“O bom homem promete pouco e faz muito; o malvado promete muito e não faz nada” (Textos Judaicos)
Filantropia: o significado do termo está relacionado ao amor à humanidade e refere-se às ações sociais ou doações sem fins lucrativos praticadas por indivíduos, empresas ou instituições para entidades beneficentes.
Uma das minhas recordações infantis leva-me à caridade da minha avó Quininha sentada numa cadeira de balanço toda sexta-feira na calçada de sua casa, tendo do lado direito um barril com postas de bacalhau e do lado esquerdo um saco de farinha para distribui-los com pobres a quem conhecia todos pelo nome….
Esta generosidade com os carentes, envolvida pela pátina do tempo, era na verdade a filantropia da época. Hoje seria impossível realiza-la, pelo preço do bacalhau e da farinha e as fraudes que os maus políticos corruptos levaram a todos, sem distinção, pelo exemplo
Por causa das falcatruas vigentes atualmente, com a imunidade jurídica presente nos tribunais e os populistas “da direita” e “da esquerda” acumulando práticas corruptas, lembrei-me de uma anedota antiga (que foi engraçada, hoje entristece a gente pela banalidade).
É a história de uma benemérita senhora que também distribuía esmolas aos mendigos nos arredores da sua residência. Numa dessas rondas, viu um pedinte desconhecido exibindo uma placa escrita “cego”. Cutucou-lhe com a sombrinha e exclamou irritada: – “Como? O senhor é cego e fica folheando uma revista? ”.
O sujeito levantou os olhos e se justificou: – “Minha senhora, eu não sou o cego que fica aqui; acontece que ele é meu amigo e me pediu para ficar no lugar dele para ninguém ocupar seu ponto…”
A altruísta vacilou, mas se conformou, indagando: – “… E o cego daqui, onde está? ”. A resposta foi surpreendente: – “Foi ao cinema”. É assim que se assiste ao funeral da Filantropia, sepultada sem choro nem vela….
Como palavra dicionarizada, Filantropia é um substantivo feminino originário das expressões gregas “philos” e “anthropos” que conjugadas traduzem-se livremente como “amor” e “ser humano”. Os que praticam a filantropia com o seu semelhante assumem uma rica sinonímia, como benemérito, benfeitor, caridoso e generoso. Qualidades humanas em falta no mercado globalizado…
No Brasil, então, enquanto os falsos cegos leem revistas ou vão ao cinema, e os cegos verdadeiros trabalham para o seu sustento, os picaretas do Congresso enxovalham o Poder Legislativo aviltando seus mandatos com fundos partidários e eleitorais, e agora, no governo do Centrão, se lambuzam com o novo Mensalão, as “emendas de relator” no orçamento secreto…
Esta ambição criminosa vem acompanhada da falsa filantropia do Executivo no caso da Pec do Calote, pervertendo a Lei que diz ser para atender a pobreza através do Bolsa Família eleitoral do capitão Bolsonaro, cozinhada na Câmara Federal pelo presidente Arthur Lira, viciado em dinheiro público.
A fraudulência é feita as claras no vuco-vuco do “dá lá, toma cá”. Com isto, recorro ao pensador Millôr Fernandes, o futurista que nos alertou dizendo que “como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem! ”….
Não levamos o humorista filósofo a sério e elegemos Bolsonaro cuja definição não pode ser outra a não ser a deixada por Juan Montalvo: “o pior dos homens que, sendo mau, quer passar por bom; sendo infame, fala de virtude e de pundonor”.
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TRISTEZA
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Não há maior desventura que a falta de alegria. ” (Francisco Gómez de Quevedo)
Faz pouco tempo que escrevi sobre o mistério da alegria, inspirado num debate sobre o governo JK e a intervenção auspiciosa do erudito tuiteiro Antônio Carlos Rosário lembrando a Era de Otimismo que o Brasil atravessou na década de 1950.
É fácil e emociona falarmos de alegria; é difícil, porém, encontra-la atualmente sob um governo oposto ao de JK, lúgubre, necrófilo, operando contra a vacinação na pandemia e sabotando a exigência do passaporte vacinal na entrada de pessoas vindas do Exterior.
Então achamos por bem abordar o lado difícil da dicotomia alegria e tristeza, falando da tristeza. Fui garimpar na Bíblia (que parece não é lida pelos pastores politiqueiros) e encontrar no Antigo Testamento o Livro de Jó.
Estudiosos deste texto polemizam sobre a autoria dos versículos pela impossibilidade de afirmar a exatidão das passagens relatadas, do tempo do patriarcalismo e registrando absurdos como o que registra Jó com 200 anos de idade!
Uma coisa, porém, é certa: embora poética, a narrativa é um hino ao conformismo diante de um Deus que permite o sofrimento dos justos. A mensagem traz, além da profunda amargura pelo martírio imerecido de Jó, a revisão de duas concepções do julgamento divino.
Conforme a interpretação da Justiça, o Deus de Israel é rigoroso e cruel, e o Deus cristão é de infinita bondade. Jeová foi implacável nas dez pragas do Egito, cobrindo homens, mulheres e animais de chagas, de piolhos, de fome, e condenando crianças à morte. O Deus anunciado por Jesus Cristo é justo e perdoa.
Em ambos casos, porém, a tristeza está presente. O problema de Jó, ocorrido 1.700 anos antes de Cristo, deu-se por uma aposta entre Jeová e Satã…. Lembrou-me até o filme “Trocando as Bolas” a comédia do mendigo Billy Ray Valentine (Eddie Murphy) e o empresário Louis Winthrop III (Dan Ackroyd ).
O enredo cinematográfico gira em torno da competição entre dois banqueiros esnobes numa aposta em que qualquer pessoa pode se tornar um respeitável financista, desde que se lhes deem uma oportunidade…. Assim, tornam um executivo miserável e um miserável CEO de suas empresas…. Os personagens envolvidos descobriram a trama e malograram lucrativamente a experiência, com um final feliz.
No caso bíblico, a aposta de Deus e o Diabo sobre a lealdade de um crente é o retrato da tristeza. Após perder tudo o que possuía por incitação diabólica, sofrer a desdita familiar, uma tragédia com os servidores, destruição da sua casa e perda dos seus rebanhos, Jó rasgou a roupa, raspou a cabeça, ajoelhou-se e exclamou:
“Nu sai do ventre da minha mãe e nu voltarei para o seio da terra. O Senhor o deu, o Senhor o tirou; bendito seja o nome do Senhor! ”. Assegurando dessa maneira um duplo infortúnio, impossível de passar pela cabeça dos mercadores do templo, padres, pastores ou rabinos….
A palavra Tristeza dicionarizada é um substantivo feminino de etimologia latina, “tristitia”, que designava “desânimo”, chegando ao português castiço como o estado mental da falta de alegria, pela adversidade, aflição e melancolia.
O escritor e poeta espanhol Francisco de Quevedo, nosso epigrafado, diz tudo sobre a tristeza. Sua apreciação reforça o julgamento das duas épocas históricas do Brasil.
A primeira, no tempo da alegre esperança que o Governo JK nos trouxe; e a outra, na tristeza que se abateu na pandemia do novo coronavírus condecorando a Família Bolsonaro com a comenda do desprezo pela vida humana e da inépcia administrativa na saúde pública.
O “futurista” Millôr Fernandes nos deixou a visão de que “toda alegria é assim; já vem embrulhada numa tristezinha de papel fino”; assim, por mais paciência que tenhamos diante da política e resignação perante a crença na divindade, não podemos aceitar a convivência da alegria com a tristeza.
Por outro lado, discordo do poeta Vinícius de Moraes que gastando o seu lirismo cantou que “a tristeza não tem fim/ felicidade, sim”; para mim, bastará darmos um basta no contratempo bolsonarista que o Brasil voltará a sorrir….
POLÍGRAFO
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“A mentira não mata, apenas tortura quem acreditou. ” (Clarice Lispector)
Polígrafo é o aparelho conhecido como ‘detector de mentiras’, usado pela polícia de alguns países em interrogatórios, e em certos programas de TV nos Estados Unidos e na Europa. É empregado para verificar a autenticidade de declarações dos entrevistados.
A polícia norte-americana utiliza o detector de mentiras e o seu resultado analítico é aceito pelos tribunais como prova nas acusações criminais, cíveis e mesmo trabalhistas. Lá, se considera que a aplicação do polígrafo garante, teoricamente, 92% de grau de acerto.
O aparelho realiza o exame através de sensores que medem o ritmo da respiração, da pressão sanguínea, dos batimentos cardíacos e do suor na ponta dos dedos da pessoa testada. No Brasil, a Polícia Civil gaúcha é a única que utiliza o software de fabricação israelense denominado Analisador de Voz Multicamadas.
O teste de polígrafo é conhecido como “exame de detecção psicofisiológica de fraude”, um estudo baseado na teoria de que as reações físicas e mentais dos indivíduos se alteram quando ele se contradiz ou foge à verdade.
Sem dúvida. Na tecnologia, o campo eletromagnético prevê reações fisiológicas dos gestos e entonação de voz; mas isto não quer dizer que identifique sentimentos da alegria ou tristeza, de desânimo ou euforia, da verdade ou mentira….
A avaliação analítica do comportamento humano feita pessoalmente tem resultados muitas vezes diferentes. E quando é levada para a lógica matemática verifica-se ser inusitada como o exemplo interessante que nos foi dado por Einstein.
Conta-se que embora sisudo e arredio, este gigante da Ciência comparecia mesmo a contragosto às reuniões sociais em que era homenageado. De poucas palavras, agradecia os cumprimentos, mas somente isto.
Num desses eventos foi importunado por um desses chatos que todos nós conhecemos. O sujeito aporrinhou-o insistindo que ele traçasse em termos matemáticos a fórmula da felicidade. Para se livrar do maçante, Einstein tirou um lápis do bolso e escreveu: “a=x+y =z”, e definiu: – “a” é a felicidade; “x” é o trabalho; e “y” é a riqueza.
– “… E o “z” ?”, indagou o impertinente. O cientista cofiou o cavanhaque e respondeu: – “O “z” é o silêncio”.
Como o detector de mentiras poderia (ou poderá) interpretar o silêncio? É a arma mais poderosa dos fraudadores e mentirosos, que lhes é oferecida pelo arsenal do garantismo jurídico do STF, como os brasileiros em peso assistiram na CPI da Covid.
Aliás, é difícil saber de quantas maneiras o famigerado garantismo favorece a delinquência política! Para júbilo do Centrão bolsopetista, a Alta Corte soltou o falastrão corrupto Lula da Silva e devolveu-lhe o dinheiro ganho suspeitosamente, e atua abertamente para livrar o boquirroto Flávio Bolsonaro das desonestas rachadinhas….
Vê-se assim que tanto faz o silencioso como o falador num tribunal onde a política entrou pela porta dos fundos e a Justiça pulou envergonhada de uma janela…. Parece-me necessário levar o polígrafo para o plenário do STF e comprovar a honestidade de cada voto; e como bom republicano sugiro estender o seu uso no Executivo e no Legislativo.
Ouvindo o capitão Bolsonaro sofrerá, sem dúvida, um curto circuito, porque ele é um mitômano obsessivo, capaz de dar um “boa noite” pela manhã e um “bom dia” à noite, só pelo prazer de mentir.
Quanto a detectar mentiras parlamentares, valha-me Deus, será facílimo; difícil, quase impossível, será ouvir uma verdade dos presidentes das duas casas, o deputado Arthur Lira e o senador Rodrigo Pacheco.
Isto visto, de verdade, chega-nos o desejo de desmascarar a mentira, mãe de todos os crimes, da violência do assassinato ao roubozinho das rachadinhas…. Ainda espero que a hediondez da falsidade seja punida; pelo menos pelo voto consciente da cidadania.
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MISTÉRIOS
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“O Mistério, para ser misterioso, não mostra a cara; mas ao ser revelado parece óbvio” (Anônimo)
Os mitos mais antigos do Egito dos Faraós reverenciavam o antropomorfismo cultuando como deuses seres metade homem, metade animal. Nos seus templos tinham o deus Thoth, com corpo humano e cabeça do íbis, um pássaro sagrado.
Atribuía-se a Thoth a posse da sabedoria universal, os estudos astronômicos, a criação da escrita, da música e da alquimia. Referindo-se ao deus, textos encontrados na Península Arábica, relatam a história de um sábio que teria vivido no Egito antigo, assumindo a identidade de Toth. Chamava-se Hermes Trismegisto.
Trismegisto – Três Vezes Grande – teve o seu perfil divulgado na Grécia pelos neoplatônicos, conferindo-lhe a autoria de vários livros ocultistas, entre os quais a “Tábua de Esmeralda” e o “Corpus Hermeticum”.
Nestas obras encontra-se a referência dos seres humanos trazendo em si partículas da divindade, outorgando-lhes a qualidade de serem, em determinadas circunstâncias, a condição de um minúsculo deus.
Hermes Trimegisto explica na analogia entre o macrocosmo e o microcosmo, que a atribuição da divindade humana ocorre porque “o que está no alto iguala-se ao que está embaixo” mantendo o equilíbrio do universo e do átomo. E, na mente humana, o mistério da tristeza e da alegria.
Sobre o mistério da alegria, é-me impossível deixar sem repartir as minhas memórias juvenis e a esperança de um futuro radiante, deixando para trás a realidade deteriorada do negativismo funesto do bolsonarismo que vivemos hoje.
Acredito que a alegria é um mistério. Explico-o pelo exemplo de uma polêmica que acompanhei no Twitter sobre a participação histórica do ex-presidente Juscelino Kubitscheck; um cidadão ignorou e ideologizou danosamente a presença do grande mineiro na política brasileira; e o outro protagonista, Antônio Carlos Rosário, com cultura e inteligência, desfiou o rosário da vida de JK calando-o, deixando-me saudoso daquela época feliz.
Alexandre Herculano, um dos mais importantes escritores da língua portuguesa, escreveu que “o segredo da felicidade é encontrar a nossa alegria na alegria dos outros”. Foi inspirado nisto que faço questão de registrar que vivi para contar sobre aquele tempo, testemunhando que o Brasil de Juscelino foi um cenário de alegria, embalado pela no brilhante celofane da Esperança.
As lembranças afloram na minha cabeça: exercitando a cidadania, dei o meu primeiro voto a Juscelino, e não somente votei, mas conferi-lhe a minha admiração. Recordo o sorriso que dominava o semblante dos brasileiros, um sorriso de confiança no futuro, que infelizmente nunca chegou.
Deixou, porém, a saudade, após se abater sobre o Brasil misteriosamente uma sinistra realidade social, política e econômica. De lá para cá, sofremos a liberdade foi sufocada na ditadura militar, que se seguiu à impostura da chamada redemocratização e depois da revoltante temporada da corrupção lulopetista.
Para culminar as pragas, veio eleição do capitão Bolsonaro e as traições de suas promessas eleitorais, com as trapaças típicas do Centrão.
Parece-nos difícil escapar desse inferno astral, encerrados que estamos no triângulo diabólico da herança ditatorial, da roubalheira do PT e da mitomania bolsonarista porque ficamos na dependência de um ritual misterioso que serve de toga jurídica para os “garantistas” livrarem seus bandidos de estimação.
Sob a ameaça de volta ao reinado da corrupção lulopetista ou da fome que ameaça milhões de brasileiros pela incompetência bolsonarista, clareia no horizonte político o esperançoso brilho de terceira via eleitoral que nos livrará da polarização extremista.
Teremos a oportunidade ímpar de nos livrar do degenerado esquerdismo de um, e o descrédito do outro; escapar do retorno ao lulopetismo para escapar da corrupção e da política necrófila bolsonarista da fome. Como muitos outros patriotas, declaro apoio à luta de libertação do maldito maquinismo populista.
FAMÍLIA
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“A humanidade transformou-se em uma grande família, tanto que não podemos garantir a nossa própria prosperidade se não garantirmos a prosperidade de todos” (Bertrand Russell)
Quem vem do tempo em que o Twitter se iniciou com os 140 toques, puxando pela inteligência para sintetizar um pensamento e criar abreviaturas, assistiu com certa tristeza a invasão da rede nas últimas eleições por robôs controlados remotamente e, o que é pior, pelos politiqueiros que xerocam palavras-de-ordem baixadas pelos porões do poder.
Estes últimos, agitadores profissionais, que elogiam espirros e aplaudem as flatulências dos heróis que cultuam, podem ser qualificados sociologicamente como convictos e fanáticos. Os convictos adotam “ideologias” e “crenças” por espírito de imitação, suprimindo de si para si, qualquer sombra de dúvidas na “verdade” que constroem.
Os fanáticos assumem a defesa de tudo que venha “de cima”, fazendo disso uma questão de princípio. Não cultuam apenas Bolsonaro, como as massas alemãs que seguiram cegamente Hitler, mas têm anotado os nomes e datas de aniversário das ex e atual mulher dele, dos filhos e dos puxa-sacos acompanhantes de viagens turísticas.
Ambas figuras medíocres, convictos e fanáticos, têm uma grande participação nas redes sociais, sempre a postos para retuitar fluxos e refluxos das fake news chapas-brancas.
Transformam-se em comandos avançados da mentira nesta Era da Mitomania Bolsonarista. Sentinelas da moralidade hipócrita, repetem as trapaças ideológicas tiradas da mochila do capitão Bolsonaro. Uma delas, mais ridícula do que simplesmente uma fraude, é a defesa que ele faz da família.
Vê-se na realidade que o Capitão é tão apegado à família que já constituiu três, e quando trata de relações pessoais e alianças políticas, ilustra-as como namoro, noivado e casamento…. Movimenta-se agora, por exemplo, para o casório eleitoral com Waldemar da Costa Neto, passando a usar a aliança do Mensalão com a Rachadinha.
Como demagógica questão de princípio, a família é uma escora político-religiosa de Bolsonaro que vem contaminada de falsidade. Não passa de uma camisa verde, com o sigma, para os herdeiros do fascismo tupiniquim, galináceos que cocoricam o lema integralista “Deus, Pátria e Família”.
Trata-se, portanto, de um balão de ensaio para se contrapor à doutrinação comunista que Trotsky defendeu, a substituição da família tradicional pelas creches, internatos e estabelecimentos análogos para asilar crianças.
Dá para imaginar a burocracia estatal substituindo o convívio familiar? Parece-me tão falso como criar a fantasia da família encaramujada na propaganda governamental e numa religião ministrada por agentes políticos.
Como verbete dicionarizado, “Família” é um substantivo feminino de etimologia latina (familia, -ae), significando à época pessoas que viviam sob o mesmo teto, inclusive escravos e servidores. Modernamente, é o conjunto formado pelos pais e pelos filhos, ampliado para os parentes do casal.
Do mais puro idealismo à mais terríveis abominações, a família, como o sexo, é um imperativo da natureza. Quando o homem se elevou acima dos outros animais, nasceu o sentimento do amor, a atração instintiva da procriação; então constituiu a família para cumprir as funções biológicas e fortalecer uma economia de subsistência. E assim foi, tanto no patriarcado como no matriarcado….
Não é dessa maneira, evidentemente, que veem os convictos e fanáticos da direita extremista. Definem a família do jeito como “o seu mestre mandar”…. Poderiam até nos divertir em situações de normalidade, mas tornam-se criminosos acumpliciando-se com a corrupção, defendendo (ou ignorando) as rachadinhas da família Bolsonaro. Pior ainda: alimentam-se naquele prato sem digerir, para depois vomitar o negacionismo, a patologia obsessiva do Capitão, responsável por mais de meio milhão de mortes.
A preservação da família para os negativistas visa somente atingir um fim: enganar os desavisados. Ainda bem que Lincoln nos deixou um alerta: “Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo”.
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A LÍNGUA
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“A degeneração de um povo, de uma nação ou raça, começa pelo desvirtuamento da própria língua” (Rui Barbosa)
O poeta Olavo Bilac, com sadio ufanismo, escreveu que “a Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo. ”
As lições que recebemos dos nossos mestres nos ensinam a amar o nosso idioma que o grande poeta e compositor Noel Rosa cantou no seu belo samba “Não tem tradução”: “Tudo aquilo que o malandro pronuncia/ Com voz macia, é brasileiro, já passou de português…”. E com isto, o professor gaúcho José Carlos Bortoloti criou o neologismo “Brasilês”.
Alguém já disse (e eu m’esqueci quem, quando e onde…) que a fisiologia humana nos deu a voz para que possamos com a língua dizer coisas amáveis a nossos amigos e duras verdades a nossos inimigos”….
Os povos antigos sabiam disto. No antigo Egito os embalsamadores de cadáveres seguiam instruções do Livro dos Mortos para deixar as múmias de boca aberta para falarem no julgamento de Osíris; e os padres jesuítas no século XVI ficaram curiosos para saber porque os guaranis punham seixos nas bocas dos seus defuntos, e ouviram algo semelhante.
Um antiquíssimo ditado reza que a voz do povo é a voz de Deus, de onde estudiosos do idioma concluíram que a linguagem coloquial é a mãe da linguagem clássica, expondo que a sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. O grande poeta Manuel Bandeira confessou: “Nunca fui um antiacadêmico. O problema é que eu gostava de tomar minhas licenças com a língua…”.
Concordamos, dessa maneira, que todos escorregos são perdoados, contanto sejam escritos corretamente, estabelecendo que escrever bem é escrever claro, mas não necessariamente certo.
Ocorre, porém, que devemos evitar ao máximo permitir que a língua ultrapasse o pensamento, como aconselhava o poeta Tchecov, porque extrapolar a ideia sobre a exposição termina por criar mal-entendidos; também não se deve revoltar-se pela circunstância de usar palavras estrangeiras, hoje quase obrigatórias em função da tecnologia de ponta.
Tempos atrás escrevi um artigo, onde – recordando os meus tempos de repórter setorista na Câmara dos Deputados e no Senado Federal – lamentei que “infelizmente desapareceu na política brasileira o brilho da expressão elegante que gostávamos”; sobrando apenas a demagogia e a mentira.
Relembrando a eloquência do grande orador paraibano José Américo guardei a passagem dele, candidato a senador (acho que em 1970), discursando num comício em Cajazeiras – a cidade que é a última fronteira ao Norte do Estado – iniciou a sua fala em voz baixa, quase inaudível, quando uma pessoa na multidão gritou: – “Fale mais alto, doutor! ”…. E Zé Américo aumentou o tom de voz: – “Estou falando baixo para quê no Ceará não saibam que estou mendigando votos na Paraíba”.
É aí que a gente encontra “a magia da linguagem” que Edward Bulwer-Lytton classifica como “o mais perigoso dos encantos”, e por isto que levo a sério a observação do autor de “1984”, George Orwell, ao dizer que “a linguagem política dissimula para fazer as mentiras soarem verdadeiras e para dar aparência consistente ao puro vento”; uma verdade que temos assistido na Era da Mediocridade que o Brasil atravessa dos discursos políticos chinfrins, muitas vezes sem nexo.
A polaridade da dissimulação mostra que apesar da habilidade adquirida em anos de pelegagem, Lula da Silva confessou, de própria voz, que alterava números e estatísticas em proveito próprio; e o atual Presidente, visivelmente menos preparado do que o Pelegão, usa e abusa de mentiras, sendo reconhecido mundialmente pela mitomania.
Ambos, Bolsonaro e Lula, influenciam muitas pessoas com suas inverdades e trapaças, convergindo na ficção matemática de que as paralelas se tocam no infinito…. Mostram assim, na prática, que um só existe politicamente em função do outro.
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