Artigo

ESTRATÉGIA & TÁTICA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Como a memória dos meus primeiros estudos não esmaeceu, recordo o princípio filosófico de que a improvisação não tem lugar num estado de guerra; o conflito armado entre dois países é tão importante que não admite improvisos… É por isto que produziu (ao que sei) três livros com o mesmo título: “A Arte da Guerra”.

O mais antigo, de Sun Tzu, traz as famosas “Quatro Lições” baixadas sob o preceito de “Conheces teu inimigo como conhece-te a ti mesmo; e não perderás a batalha”; outro trabalho com o mesmo tema, é de Maquiavel, que descortinou no Ocidente uma nova ideia de organização do exército, da hierarquia de comando e até então desprezada, a formação de soldados.

A terceira obra, que se fez presente até a 2ª Guerra Mundial é de Carl von Clausewitz, militar e pensador alemão que estabeleceu a doutrina de que a guerra é a extensão da política, conceito que o levou a admitir civis no Estado Maior do Exército.

Esta teoria – que passou à prática – é também do estadista francês, Georges Clemenceau, de quem citei num dos meus artigos por ser um grande admirador dele. Clemenceau escreveu: “A guerra é um negócio muito importante para ser deixada para os soldados”.

Na Era Atômica e o acelerado avanço da tecnologia dos foguetes, satélites, drones e a presença humana na Lua através de robôs, os conceitos do passado se modificam, sem abandonar, porém, dois princípios básicos da arte da guerra e dos estados maiores: a Estratégia e a Tática.

Em tese, atualmente, Estratégia e Tática estão intimamente relacionadas; aplicando as ferramentas da inteligência artificial faz-se pesquisa e se observa a distância, tempo e poder. Não mais para batalhas terrestres, mas para a conquista do espaço aéreo e as profundezas dos mares.

Hoje, o planejamento e a condução que antecedem uma guerra dependerão de uma tática que consiste em valorizar o papel da informação, fundamental para determinar a estratégia de movimento: seja para incursão inesperada pelo inimigo ou na ação retardadora como prevenção da própria defesa.

Para ver que nada há de extraordinário nisto, constatamos tais ações no dia-a-dia das nossas vidas em sociedade, e pela observação que fazemos, na sistemática política; vem dar razão à Clausewitz atestando a preeminência dos objetivos políticos em relação às guerras.

Fui cobrado semana passada por um colega tuiteiro sobre a defesa que faço para o diálogo e a paz afim de encerrar o trágico capítulo da guerra na Faixa de Gaza. Respondendo-o, declarei-me “um inveterado pacifista”. E sou.

As estratégias e táticas que conduzem a guerra são insensíveis e inclementes. Temos na História o exemplo de Winston Churchill – o herói inglês da 2ª Guerra – dizendo num discurso aos compatriotas que “na guerra os meios empregados não têm importância, já que é preciso causar o maior mal ao inimigo”.

Churchill não inventou nada. Aprendeu a lição dos antigos gregos e a estratégia de usar o cavalo oco para surpreender e derrotar os troianos e ocupar a sua cidade.

Enquanto isto, os exemplos da estratégia e da tática pelos polarizadores eleitorais no Brasil atual são tragicômicas: o capitão Bolsonaro usou generais de pijama para tramar um golpe; sem apoio da tropa, incentivou uma pá de babacas fanáticos irem para as portas do quarteis e fracassou. Seu rival, o pelego Lula, foi mais malandro; infiltrou agentes ideologizados no STF para anular suas condenações por corrupção em três instâncias jurídicas, e conseguiu, mas desmoralizou a Justiça. Para sempre.

 

 

 

TATUAGEM DO POPULISMO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

O frontispício do Templo de Delfos, na Grécia antiga, ostentava um convite: “CONHECE-TE A TI MESMO”. Segundo Platão, foi este aforismo que inspirou Sócrates a desenvolver a sua filosofia.

Como se sabe, não há nada escrito por Sócrates; suas ideias e postulados chegaram até nós graças aos seus discípulos, entre eles Platão, que identificou o sistema socratiano como divisor de águas na Filosofia Antiga, ao adotar o postulado da busca da verdade em todas proposições.

O empenho em encontrar a verdade é o caminho da ascese, o controle do corpo e do espírito, seguindo a lição de Sócrates e o convite para nos conhecer a nós mesmos;  a busca da verdade é a negação da mentira gerada pelo improviso, a tatuagem que identifica a maioria dos políticos brasileiros.

Tempos atrás, conheci um deputado que “decorava” improvisos…. Jogava-os em série de frases feitas, com lembranças passadas e projeções para o futuro do agrado da massa. Ensaiava gestos diante do espelho e como tirar o lenço do bolso e passa-lo na testa; e – por incrível que pareça –, mantinha um parceiro que o aparteava, com uma resposta pronta para o aplauso!

Esses truques não eram exclusividade dele e vigoram até hoje nas assembleias, nos comícios e nos plenários legislativos e judiciários. Os menos preparados e pouco inteligentes macaqueiam as performances dos outros.

Nos governos populistas, o improviso é uma máquina de fabricar dificuldades aparentes para fingir que as resolverão; chegam a difundir males inexistentes para se aproveitar da Ciência ou até mesmo para negá-la.

O cenário internacional das guerras que assistimos, focaliza o repugnante uso do improviso pelo império norte-americano em decadência. Mostra a expansão dos mercados de armas atuando em todos continentes; seja pela provocação da Otan para chegar à fronteira russa, ou pelo terrorismo incendiário do Hamas servindo como argumento de Israel para ocupar a Faixa de Gaza.

Circunscritos às nossas fronteiras, considero emblemática a pergunta formulada outro dia por um tuiteiro, querendo saber se a vida das crianças israelenses e palestinas valem mais do que as crianças ianomâmis. Desenvolvendo-a, indagamos se os incêndios destruidores que as guerras produzem causam mais prejuízos do que está ocorrendo no Amazonas.

Tais preocupações deveriam chamar a atenção como foguetões de estouro e não como fogos de artifício, brilhantes e coloridos para iludir as massas. Se alcançássemos a maioria do eleitorado, afastaríamos da cena política a estupidez que a polarização entre os populistas “de direita” e “de esquerda” imprime desgraçadamente.

Talvez com isto traríamos de volta ao exercício da política pessoas dignas e honestas, mas não de messias e heróis.  Esteve certo Brecht ao dizer que são miseráveis os povos que precisam de heróis. Por não os termos vamos a uma passagem histórica de Georges Clemenceau, jornalista francês responsável pelo L’Aurore, jornal que publicou o “J’accuse” de Émile Zola sobre o “Caso Dreyfus”.

Quem conhece História avalia a grandeza de Clemenceau tornado estadista na França; e, nesta investidura, visitou uma escola onde por gracejo perguntou a uma garota – “quanto são dois e dois?”.

A estudante surpreendeu a professora e o visitante pedindo que ele se explicasse melhor, e acrescentou: – “Se os dois algarismos estiverem um embaixo do outro, são quatro; se postos lado a lado, são vinte e dois”. Com integridade e honradez, Clemenceau curvou-se diante de uma classe do ensino básico: – “Tens razão”, disse, – “Eu deveria ter evitado o improviso e dito, ‘dois mais dois’; nunca esquecerei esta lição”.

Clemenceau não era tatuado com a marca do populismo esnobe dos polarizadores Lula e Bolsonaro.

 

 

 

OS MALES DO MUNDO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Entre as desgraças contidas na Caixa de Pandora que a irresponsável soltou para o mundo por curiosidade, possivelmente estariam os crimes contra a honra contidos no direito positivo: calúnia, difamação e injúria.

Shakespeare nos legou as certezas para isto, mostrando a cólera de Otelo pela calúnia lançada contra Desdêmona e a observação sobre a inevitabilidade desta desgraça em Hamlet.

Agora, na Era da Informática, é o computador que traz as adversidades contra a pessoa, multiplicando injúrias, difamações e calúnias com a vestimenta inglesa das fake news, as miseráveis notícias falsas produzidas por mentes perversas de terroristas e dementes.

Este desvario tem sido motivo de muitos estudos, pesquisa e produção de teses acadêmicas, pois encerra um tema cruel e impiedoso para o ser humano. Li, há muitos anos atrás uma parábola que lembra simplesmente a imposição acusatória contar o outro: É de Saadi de Xiraz, um dos três maiores escritores da poesia bucólica persa.

Fizeram ao poeta do “Jardim das Rosas” a pergunta: – “Se estivesses a sós com uma mulher deslumbrante em todos os sentidos, resistirias a tentação da amá-la?”.

– “Talvez suportasse” – respondeu – “mas ninguém acreditaria, pois é mais fácil resistir à tentação do que à calúnia”. Graças às fake news, a opinião alheia é contaminada. O contêiner das mentiras vem cheio calúnias, difamações e injúrias influenciam o entendimento e a análise dos fatos.

Na política brasileira estes males são uma mancha indelével e funcionam como metralhadora giratória, mandando balas perdidas para todo lado; e, no cenário mundial apresenta-se com uma insensibilidade gigantesca, através da mídia controlada pelo complexo Industrial Militar do Império Norte-Americano. É o que vemos na Europa sobre situação russo-craniana e a seguir no Oriente Médio, na guerra injusta travada entre Israel e o Hamas.

Confesso-me blindado contra a artilharia dos enganos, fraudes e ludibrio que a mídia dispara. Por isto me abstenho de tomar partido por qualquer dos lados, exceto para condenar a influência imperialista e defender a paz.

Entristece-me ver nomes conhecidos do jornalismo tornarem-se mercenários dos instigadores de guerras, deslizando no óleo derramado pelo Império em decadência, entregue à comercialização da morte.

Quanto ao cenário brasileiro, suas tramas malévolas, suas alianças espúrias, os discursos de ódio e as mentiras repetidas, apresenta um quadro que leva muitas pessoas a desistirem de participar da política; apelo para não o façam, seguindo o conselho de Brecht: “Que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem”.

Da minha parte, mantendo-me firme na luta contra a farsa da polarização a direita reacionária bolsonarista e os populistas da esquerda lulopetista. Tenho um amigo que estranhou a continuidade desta ação incansável.

Ao curioso e a quem interessar possa, respondo que se abandonasse este combate, prestaria um favor aos polarizadores corruptos e negacionistas e não teria mais que estudar e escrever. Entregar-me-ia de mão beijada aos inimigos da Pátria.

ILUSÃO VAI À GUERRA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Repete-se com várias versões a definição cinematográfica do que é ilusão; e uma delas nos leva à Hollywood quando uma grande companhia rodava o filme de guerra com um cenário à lá Cecil B. DeMille.

“Protagonizavam a fita centenas de figurantes que por seu caráter militar estavam fardados; diversos soldados, cabos, sargentos e oficiais. Num intervalo da filmagem, todos se dirigiram ao restaurante para o almoço.

“Sem qualquer tipo de orientação, a ilusão coletiva levou à refeição o elenco dividido: os soldados de aglomeraram num canto, oficiais subalternos noutro, os oficiais ficaram mais afastados e o general comeu sozinho.”

Vê-se que a ilusão da hierarquia funcionou coletivamente. Se é ficção. pouco importa; o que fica valendo é que em várias situações a ilusão domina o ser humano. Agora, na guerra das entidades judaicas e árabes, assistimos uma grande ilusão imposta pela cultura popular secularmente enraizada.

Trata-se de um devaneio que seduz, sugestiona e praticamente impõe o partidarismo entre os torcedores alheios. É palpável, à disposição das cabeças pensantes, o antissemitismo e a aversão aos muçulmanos.

O primeiro nasceu quando o cristianismo foi cooptado pelo Império Romano tornando-se a religião oficial como Igreja Católica Apostólica Romana; e, como uma corporação imperialista livrou com seus cânones a culpa romana pela crucificação de Jesus Cristo.

O catolicismo condenou os judeus, esquecendo-se de que o Cristo, ele próprio, era judeu; tornou este povo um associado de demônios malévolos, e, no rastro desta estupidez estimulou pogroms na Europa Oriental e, porque não dizer, influenciou Hitler no holocausto e morte de milhões de judeus.

Trata-se de um crime contra a humanidade, que deve aos judeus grande parte da sua evolução civilizatória. Do outro lado temos a repetição perversa deixada como herança pelo clericalismo romano.

Veio com as cores e a cruz das bandeiras das cruzadas promovidas pelo Papa Urbano II para combater os “infiéis” que ocupavam a Terra Santa, e os “infiéis” eram os muçulmanos. Pelo bandidismo desenfreado, as cruzadas só não horrorizam mais do que a criminosa Inquisição.

Vemos hoje uma verdade histórica: a contribuição do Islã para a Ciência e a Cultura mundiais que todos também deveríamos reverenciar.  Na obscuridade da Idade Média foram os árabes o alambique em que se destilou as maiores descobertas da astronomia, da matemática, da medicina e da química. Deles adquirimos a mais notável invenção da aritmética, desde Pitágoras e Einstein:  o Zero.

Desvanecendo as ilusões, devemos examinar a História e usá-la como ferramenta para propor o entendimento e a paz entre estes dois povos, sem ódio e sem rancor. Enquanto muitos tuiteiros andam na esteira corrente da mídia controlada ideológica e financeiramente por dois lados interessados no conflito, eu, da minha parte, ocupo-me a refletir, lamentando o que está ocorrendo.

Sofro vendo que dentro das nossas fronteiras a política desvairada dos extremistas importa o noticiário da guerra com os horrendos traços de massacres. E com isto, promove a secessão nacional, omitindo nossos próprios problemas, como o surgimento do neonazismo, o abandono dos indígenas, as queimadas amazônicas e o descontrole da Economia conduzida pela demagogia populista.

… E esquece a multiplicação de seitas inquisitoriais pretensamente cristãs, iludindo a massa ignara com uma “teologia mercantil” ….

 

 

NA UTI DAS IDEIAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Inspirou-me uma tuitagem que passou quase despercebida, mas que repassei por considera-la um exemplo da velocidade de como as ideias se enfraquecem para ceder lugar aos fatos recentes. Foi uma pergunta: “A guerra declarada por Israel significará o abandono dos EUA à Ucrânia?”.

A importância desta indagação está na diminuição, quase abandono, do noticiário sobre o conflito europeu. O interesse imperialista da Otan caiu para o segundo plano, e em breve a terceirização militar comandada por Zelenski estará enterrada na cova das coisas esquecidas.

Nos artigos, comentários e crônicas que publico, gosto muito de citar palavras que se enfraqueceram no coloquial e digo, “fui buscar a palavra tal na UTI da Gramática”. Para preservar a riqueza linguística evito a extinção de alguns vocábulos que adotei na mocidade como precisos e até poéticos.

Entre as lições que recebi da cultura popular mantenho o princípio de que “recordar é viver”. Isto tem uma força tão grande que a filosofia positivista afirma que uma pessoa só morre realmente quando se esquecem dela.

Assim, procuro manter na memória os ensinamentos domésticos e escolares. Com a morte da minha irmã Lúcia no ano passado, perdi uma ressonante referência do que vivemos quando crianças. A nossa educação doméstica e escolar foi de um valor incalculável.

Trago sempre na mente o aprendizado da Ciência, da Geografia, da História e da Matemática. Considero lamentável quem o perdeu….

Compreendo que muito poucos tiveram a oportunidade que tive profissionalizando-me como jornalista, um exercício quase forçado para o cérebro. A leitura permanente, a pesquisa aprofundada e isenta e a análise fria dos acontecimentos são, para a memória, uma verdadeira ginástica.

O aprendizado no dia-a-dia funciona como um gravador eletrônico; e é durável. Os estudos da anatomia humana mostram que diferentemente dos demais órgãos que compõem nosso corpo envelhecendo em ritmo constante e célere, as células nervosas mantêm-se ativas mesmo na idade avançada.

É, por isto, que devemos alimentar o nosso cérebro com a ambrosia da lembrança. Usar com afinco e prazer a cabeça em vez de nos preocupar com artifícios para remoçar o corpo, massagens, maquiagens e operações plásticas. Deixemos isto para os novos ricos ou os pelegos que chegam ao poder….

Caminhando no labirinto da política brasileira vimos a diferença das suas armadilhas para aquele da mitologia grega, o Labirinto de Creta, que encarcerava o Minotauro, dando-lhe anualmente como alimento o corpo de catorze adolescentes, sete moças e sete rapazes.

No nosso labirinto, o monstro hediondo não tem cabeça e rabo de touro; trata-se da abominável fake news, a figura mascarada de notícias falsas e da informação distorcida. Expostos ao sacrifício – todos nós –, não podemos esquecê-la por um minuto sequer, e somente assim estaremos resguardados da falsidade política.

Enveredando na galeria da política intricada, encontraremos apenas a falsidade das calúnias, difamações e enredos como apresentam agora descrevendo a guerra dos israelitas e palestinos. Tirando da UTI das Ideias, trazemos o pensamento do marechal prussiano Otto von Bismarck: – “Nunca se mente tanto como antes das eleições, durante uma guerra e depois de uma caçada”.

 

OS PERIGOS DA LÍNGUA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Como parte corpórea dos animais e particularmente da anatomia humana, a língua é órgão móvel ligado à epiglote, ao osso hioide, palato mole, faringe e laringe, que se estende na região próxima aos dentes incisivos inferiores.

Lexicamente dicionarizada, a palavra língua é um substantivo feminino com ampla definição que vai da anatomia animal ao sistema de comunicação oral. Do ponto de vista fisiológico, língua faz parte do aparelho digestório servindo à deglutição e ao paladar. Pelo aspecto humano relaciona-se à fala.

Parece incrível, mas quem melhor definiu o aspecto vocálico da comunicação foi o escritor grego da antiguidade clássica Esopo, a quem se atribui a criação literária da fábula, sendo ele próprio, autor de várias delas tornadas populares mundo afora.

Pelo seu nome, há historiadores que dizem ter ele nascido na Etiópia, e chegou à Grécia vendido como escravo e comprado filósofo Xanto. Da convivência dos dois é que se registrou fabulosamente o conceito da língua, que li na tenra juventude e por sorte recuperei entre os livros de referência que mantenho.

Quase um milagre. Fui surrupiado em quase 500 livros pelo “exército revolucionário de 64” por se tratar de literatura subversiva, incluindo-se filósofos gregos antigos, enciclopedistas, Monteiro Lobato e, como já contei como piada, “Nosso Homem em Havana” uma humorística ficção do romancista inglês Graham Greene, passada em Cuba na pré-revolução, tendo como personagem um vendedor de aspiradores de pó….

Depois disto, ao me mudar de Natal, Rio Grande do Norte, onde vivi 30 anos, de volta ao Rio, dei aos amigos e doei para bibliotecas interioranas cerca de 3.000 livros. Assim, o que me restou foram diretrizes, biografias, informações e saudosismo. Foi deste último que sobrou a fábula viva de Esopo. Conta que:

“Xanto, dono de Esopo, ainda não o célebre fabulista, mas um simples escravo, que fosse ao mercado e de lá trouxesse as melhores especiarias para servir num banquete que ofereceria a amigos.

“No jantar, foram servidos pratos frios com língua preparada de várias maneiras, de triviais a exóticas. Meio decepcionado, Xanto admoestou Esopo com severidade diante dos presentes: – ‘Pedi-lhe para trazer o que havia de melhor e só trouxeste língua?’

“Esopo, com altivez, respondeu: – ‘Não querias, meu patrão, uma iguaria excepcional que o mercado oferece?’; e justificou: – ‘Te obedeci. Nada é melhor que a língua; é o elo da vida social, órgão da verdade e da ciência, discurso que empolga assembleias?’ Os comensais o aplaudiram e Xanto se conformou.   

“Para novo convescote desta vez com adversários, Xanto recomendou ao Escravo para adquirir o menos conveniente acepipe, o que tivesse de pior no mercado. De novo, repetidamente, Esopo ofereceu vários pratos de língua, desta vez quentes, com molhos agridoces extravagantes contrastando com pétalas de rosas e folhas de louro.

– “O que é isto?”, perguntou Xanto espantado, – “Vais servir apenas língua?’. – “Senhor, tu me ordenaste a comprar o que houvesse de pior no mercado e eu acredito que só pode ser a língua!’; e explicou: ‘A língua é o que acarreta todas brigas, promove inimizades, arma traições, executa calúnias e perjúrios e falsos testemunhos. Até motiva guerras.’ Xanto calou-se e deu-lhe liberdade, tornando-o um cidadão livre.

Eu gostaria que esta lição fosse expandida em todos seguimentos sociais para alertar sobre os bens e males que a língua traz. Assim, quem sabe, os ministros Dino e Simone poderiam se conter em usá-la, e Bolsonaro e Lula não mais a usassem para mentir.

Também para pedir uma reflexão sobre a polarização entre os extremismos, para denunciar as falsas direita e esquerda do populismo, e defender o Centro Democrático!

 

 

 

SONHOS BONS E PESADÊLOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Escrevi outro dia sobre sonhos, lembrando Sócrates e Martin Luther King; o Filósofo prevendo o encontro com Platão, e o Pastor trazendo a esperança de um mundo melhor para o ser humano livre de qualquer tipo de fobia.

Gosto de refletir sobre até onde devemos nos preocupar com os sonhos. Psiquiatras e Psicólogos vêm se encarregando disto há muito tempo e em sua maioria concluem que o sonho é a coordenação simbólica das coisas vistas e ideias elaborada na vigília.

Nas suas obras, Freud dá um destaque aos sonhos. Dois dos seus livros “A Interpretação dos Sonhos” e “A Psicologia dos Sonhos” estão permanentemente na pauta dos estudos e discussão. Para o pioneiro da Psicanálise o sonho nem sempre é o que parece, e interpretá-lo não é uma tarefa simplória.

A interpretação só é simples para os autocratas. A História da Antiguidade fala da cidade-estado de Siracusa, reino localizado na Sicília, ilha ao sul da Itália. Relata que a linda cidade foi governada durante 38 anos por um tirano, Dionísio (430 a.C. 367 a.C.).

Talvez Lula diga que o Governo de Dionísio era uma “democracia relativa”, mas mentiria mais uma vez. Tratava-se de uma ditadura cruel que legou uma história muito curiosa. Um jovem siracusano contou numa roda de amigos que sonhara ter estrangulado Dionísio; e, mesmo entre amigos, tem sempre um dedo-duro que levou a história aos ouvidos do governante. Este condenou o sonhador à morte, sentenciando: “Ninguém pode sonhar à noite o que não tivesse pensando durante o dia”.

Foi freudiana a decisão, pois está entre os estudos do Mestre que o sonho constitui “uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)”.

Tenho certeza que muitos sonhos premonitórios são sonhados no Brasil simbolizando o fim da execrável presença dos extremismos de direita e de esquerda. Não é uma faca em Bolsonaro, nem volta à prisão de Lula, mas afasta-los da política levando-os ao exílio, Bolsonaro nos EUA ou na Hungria e Lula em Cuba ou Nicarágua….

As ondas de sufista que varrem o nosso cérebro perturbam o sonho dos fanáticos cultuadores das personalidades dos dois polarizadores, assemelham a morfinômanos que se agitam uma ilusória lucidez, um estado passageiro que só ocorre quando a morfina circula no sangue e gera a apomorfina um antídoto que abate a euforia.

Assim, o fanático vai do sonho ao pesadelo porque para combater a apomorfina somente nova(s) dose(s) de morfina. Esta vem nos discursos de ódio, nas ameaças recíprocas, nas mentiras deslavadas que ingerem novamente a droga da demagogia.

O genial dramaturgo alemão Bertolt Brecht legou-nos um pensamento que nos faz refletir: “Miserável país aquele que não tem heróis. Miserável país aquele que precisa de heróis”. Penso convictamente que é impossível considerar o Capitão e o Pelego como heróis, somente os morfinômanos do fanatismo podem nomeá-los tais.

Tivemos heróis no passado que muito nos orgulham; no presente um zero à esquerda que nos traz a inveja do pastor batista negro Martin Luther King, Registro que completa 50 anos a “Marcha de Washington”, a ocupação da capital estadunidense em defesa dos direitos civis contra o criminoso apartheid.

Lembro que a manifestação marcou o momento histórico em que Luther King pronunciou seu famoso discurso “Eu tenho um sonho”; e esta frase, repetida várias vezes, provocou um coro de milhões de vozes mundo afora.

É assim que eu gostaria ver a corrente do bem repetir o alerta de Ulysses Guimarães, contra o pesadelo da polarização que revolta os autênticos patriotas: “A Pátria não pode se tornar capanga de idiossincrasias pessoais”.

PREMIAÇÃO POR MÉRITO

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

Ouvi dizer que com ávida gulodice política e vaidade pessoal, Lula está ambicionando o Prêmio Nobel da Paz… Este respeitável prêmio leva o nome do seu criador, o arquiteto e industrial sueco Alfred Nobel, que patenteou a dinamite e enriqueceu desmesuradamente.

A dinamite mudou o curso das guerras e provocou grande mortandade no século 19, o que aguçou o sentimento pacifista de Nobel levando-o a doar grande parte da sua fortuna para custear os prêmios. Dentre os contemplados estão representantes das áreas da Ciência, Economia, Literatura e Medicina; tendo, em especial, o Prêmio Nobel da Paz.

Aceitem como sarcasmo, mas registro que Alfred Nobel foi o inventor da balistite, um explosivo militar sem fumaça e também da dinamite com base na nitroglicerina; mas não do canhoneio cujas cápsulas levam projéteis que são arremessados pela explosão da pólvora.

Assim, bazucas, canhões, metralhadores e revólveres nada devem a Nobel, como se diz a boca pequena…. É fake-news; e, pela embromação, justificaria a criação de um Prêmio Nobel da Mentira; este sim, que muito me agradaria para ver Bolsonaro e Lula disputando suas indicações em Estocolmo para conquista-lo.

Seria para os dois malandros um grande prêmio, não as xibocas sugeridas à surdina pela plebe rude, insatisfeita com a politicagem reinante no Brasil. Ouvi da choldra a proposta do “Prêmio Picareta do Ouro” para os parlamentares que legislam em causa própria criando fundos partidários e eleitorais.

Com o propósito de agraciar ministros do STF que julgam monocraticamente com sentenças que os acumpliciam com a corrupção, propõem o “Prêmio Toga de Platina”; e também apresentaram no Twitter o “Prêmio Capacete Viking” para militares golpistas que investiram contra a disciplina e a tradição legalista das Forças Armadas.

Com a ousadia típica da mulher brasileira, algumas senhoras indignadas pela representação feminina negativa, nos andares de cima da política, estão pensando em lançar o “Prêmio Ascenção pelo Amor”, para conquistadoras de influência por sedução pessoal.

Nenhuma destas homenagens se nivelaria com o Nobel da Mentira se por ventura fosse instituído. Além da quantia em euros da fortuna Nobel, traria um troféu de cristal translúcido representando a Mitomania, figura que, segundo Byron, “é o traje à rigor no baile da política”.

Assim, vestidos de smoking e black-tie, os mitômanos atropelam a verdade nas pistas de corrida da sociedade. Não respeitam os princípios da convivência e persistem em ignorar a inteligência do povo.

Bolsonaro e Lula, bufões de pastiche político, nos alertam com o tinir dos guizos nas bordas dos braços e das pernas, usam a máscara da ilicitude populista e o chapéu colorido da demagogia.

Em cena, Lula aparece saracoteando no agitar frenético que justificou as dores de quadril, dando-lhe a desculpa para fazer cirurgia plástica de rejuvenescimento; e, também, com desenvoltura esperta, o Capitão Minto, graceja escamoteando o vício de embolsar dinheiro alheio, das rachadinhas às joias árabes….

Os dois mentirosos alimentam com a astúcia uma rede de intrigas formada por fanáticos seguidores que se manifestam cada vez em menor número, despertando aos poucos da letargia ilusória.

Por isto, defendemos uma terceira posição, o Centro Democrático, contra a arlequinada carnavalesca do populismo demagógico que não comporta mentirinhas insignificantes, mas grandes o suficiente para almejar um Prêmio Nobel da Mentira.

DA MILITÂNCIA IGNORANTE

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Não custo de louvar um tuiteiro que me segue e mesmo adotando uma posição ideológica extremista que combato, faz críticas respeitosas aos meus textos, elogiando até as citações de filósofos antigos e modernos de tendência social-democrata. Escrevi outro dia sobre as contradições dialéticas citando Hegel e Marx, e este colega das redes sociais retuitou.

Este tratamento democrático não ocorreu com um tio bolsonarista da mulher do meu filho mais velho que se fez presente casa dele para o almoço que preparou para assistir a final do Flamengo e São Paulo, rubro-negros que somos.

O auto convidado é militar da reserva remunerada, e vinha sendo aproveitado em cargo civil pelo capitão Bolsonaro, acumulando salários. Para defender a “boquinha” exagera com um comportamento fascistóide que o colocaria entre os que queimaram livros na Alemanha Nazista, marchando com tochas diante de Hitler.

Falo de livros, porque vi-o passando a vista na estante da casa e examinando os dorsos, encontrou entre eles Darwin, Spencer, Voltaire (e até Platão, imaginem!); e disse em voz alta:  – “Pare que ler estes comunistas, meu sobrinho!”.

Imagino-lhe vendo a literatura que tenho como referência!…. Tenho Marx, Engel, Lenin e Trotsky e Rosa de Luxemburgo numa estante e, n’outra, “Escriti i dicorsi” de Mussolini, o Mein Kampf de Hitler e obras completas de Plínio Salgado. Sobre religião vou do Bhagavad Gita ao Talmud, dos evangelhos cristãos ao Alcorão.

Numa das visitas em minha casa – eu morava em Campina Grande na época -, agentes da ditadura de 1964 me surrupiaram 294 livros, entre os quais, mostrando a ignorância cívico-militar, levaram o “Nosso Homem em Havana” de Graham Greene, a história engraçada de um vendedor de aspiradores de pó….

Aprendi desde a infância a respeitar os conservadores, cuja seriedade no trato da coisa pública compensava uma ideologia parada no tempo. Foi o que ensinava o meu pai que adotava a doutrina positivista, defensora do progresso para alcançar a evolução da sociedade humana.

O Bolsonarismo, porém, nada tem de Conservador. Seu líder finge sê-lo e também fingidamente diz-se “de Direita”. Para se afirmar como condutor de massas, defende um ridículo anticomunismo herdeiro da “guerra fria”, mais de trinta anos após a queda do muro de Berlim; e ter agora o putinismo mandando na antiga URSS!

Para não faltar na contradição dialética dos extremismos, temos do outro lado os adoradores de Stálin lulopetistas, analfabetos que não leram o Relatório Kruschev mostrando-o como ditador sanguinário; e seus revolucionários “de botequim” na Câmara Federal põem o boné do MST, apoiando a invasão da Embrapa e o quebra-quebra de laboratórios de pesquisa.

Neste cenário da política brasileira, infelizmente, estas duas tendências se polarizam eleitoralmente; vemos de um lado as tropas de assalto fascistas servindo a Bolsonaro e, do outro, os seguidores da pelegagem populista de Lula….

Não sei se estes figurantes do enredo ideológico da falsa direita e falsa esquerda, que veem a cultura apenas politicamente, fazem jus à Lei Rouanet; mas são atores protagonizando um duelo no palco da política sob as lâmpadas do neon colorido da polarização.

No final, porém, igualam-se na corrupção e contra as liberdades democráticas. Pensam assim, pela exposição na mídia mercenária, impedir a formação de uma consciência livre, disposta a lutar contra esta odiosa alternativa entre Bolsonaro e Lula!

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A DIALÉTICA DA CONFUSÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Segundo Goethe, os homens de idade avançada possuem uma alma forte com poder de compensar o enfraquecimento físico, dotando-lhe uma mente juvenil. Certamente é uma visão poética, mas vou aproveitar-me dela.

Sinto uma necessidade imensa de combater a ignorância política que grassa no Brasil e nos leva a admitir que vivemos no cenário revoltante da “Dialética da Confusão”. Certo: entreabrindo uma polêmica, acuso o extremismo de responsável por esta mistificação ideológica.

A Dialética, como se sabe. tem uma definição antiga; os filósofos gregos consideravam-na a “arte” de alcançar a verdade pela discussão, destacando as contradições do tema, para derrubar os argumentos irreais.

Ficou por conta do filósofo materialista Heráclito sua principal referência, no princípio que elaborou: – “Ninguém entra duas vezes num rio; acontece na segunda vez que a pessoa já não é a mesma, as águas passaram, e o rio não é o mesmo também”.

Este conceito vem sendo desenvolvidos pelas cabeças pensantes como Descartes, Diderot e Spinoza, cada qual aplicando a dialética às suas especialidades. Entretanto foi Hegel que a definiu como método de análise aplicando-o à lógica diante de dois pontos de vista diferentes, determinando neste embate de ideias uma terceira e nova ideia.

O sistema hegeliano foi absorvido e desenvolvido por Marx, passando a ser visto como uma ciência. Para o filósofo alemão, os exemplos mutáveis da Natureza e o pensamento humano escapam à visão idealista de Hegel exigindo uma comparação materialista.

A dialética como método científico nos ajuda a analisar a realidade. Assim, sua aplicação é simplificada pela equação: “Tese x Antítese = Síntese”, sendo que a Tese é uma proposta; a Antítese, o pensamento discordante; e a Síntese é a resultante da justaposição das expressões divergentes. É curioso ver que na Era Tecnológica que atravessamos, a dialética tornou-se uma ferramenta da Inteligência Artificial.

Para descomplicar ainda mais a Dialética, os orientalistas a resumem como a oscilação dos contrários, o Yin e o Yang, princípios antagônicos que interagem ao mesmo tempo e estão presentes na Natureza como a energia universal.

O uso do método dialético de análise deveria ser fundamental no exercício da política, mas é uma coisa estranha para os capiaus que a exercem aspirando apenas conquistas pessoais; e, pior ainda, pelos autos assumidos “quadros ideológicos” de direita ou de esquerda. E entre estes últimos, os ditos lulo-esquerdistas são incultos e os bolso-direitistas ignorantes.

Daí surge a dialética da confusão. No principal entre os partidos comunistas, o PCB, o populismo demagógico de Lula se confunde no seu discurso socialista; e a insciência da direita bolsonarista chega ao obscurantismo religioso….

Estes dois opostos têm, porém, interesses semelhantes, e vão do culto à personalidade dos líderes à fartura das benesses ofertadas pelos governos. Enfrentam-se numa polarização alimentada pela mídia mercenária para se manter no poder, mas se juntam quando se trata de avançar nos cofres públicos.

Não há exemplo melhor do que a tal anistia das multas por crimes eleitorais cometidos pelos partidos que tramita no Congresso com e a defesa enfática de Gleise Hoffman, presidente do PT sócio do Partido Comunista Chinês e deveria ler os clássicos marxistas para não fazer asneiras….

Assim, se o exercício da política é uma Tese, e o desprezo pela conveniência nacional é uma antítese, e o resultado sintético não poderia ser outro: a Dialética da Confusão.