Augusto Nunes escreve

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A memória com filtro facilita a vida dos pecadores da pátria

 

Na região do Québec, as placas de todos os carros exibem a mesma inscrição em francês: Je me souviens. As três palavras reiteram que, embora incorporada ao Canadá de fala inglesa, aquela gente não esquece as origens, o passado, a História, o que houve de bom e de ruim, os crimes impunes e as afrontas sem resposta. Eu me lembro, avisam muitos milhares de veículos. Permanecem vivas todas as lembranças. A esta altura, parece secundário aos québécoises saberem se um dia serão independentes. O essencial é reafirmar a identidade, exigir respeito a direitos adquiridos ou por conquistar e  transferir para as gerações seguintes, intocada, a memória coletiva.

No Brasil, milhões de cabeças nem ficam sabendo do que outras tantas fingem ter esquecido e os sinuelos do rebanho preferem não lembrar. Parece um clarão no escuro de vidas passadas a roubalheira do mensalão — e no entanto o escândalo ultrajante ainda não foi julgado pelo Supremo Tribunal Federal. Parece velha de muitos séculos a execução dos prefeitos Celso Daniel e Toninho do PT, cujos mandantes seguem homiziados no coração do poder. Parece coisa de antigamente até o que ainda está acontecendo, como as patifarias protagonizadas por José Sarney, as bandalheiras embutidas nas licitações da Petrobras ou as fantasias de Dilma Rousseff.

Os habitantes do Québec lembram porque conhecem a história, são altivos e têm caráter. No Brasil, há os que nada lembram porque nada sabem e os que, por terem alma subalterna e nenhum caráter, são portadores de memória com filtro. Esses conseguem esquecer o que fizeram os dirceus, paloccis, silvinhos, okamottos, guadagnins, professores luizinhos, joões paulos, delúbios, genoínos, gushikens, valérios, dudas, sanguessugas, aloprados, toda a turma que posava de vestal antes de escancarar a vocação para o bordel e todo o bando que caiu na vida ainda no berço.

Esses se comportam como se não existissem nem os 40 gatunos a serviço do Ali Babá federal, inspirador e principal beneficiário da Grande Mentira, nem os escândalos deste inverno. Aplaudido por devotos e avalizado por jornalistas inscritos na versão daslu do Bolsa Família, o presidente da República festeja a miragem do pré-sal ao lado de José Sarney e Dilma Rousseff. Incensado por áulicos incuráveis e espertalhões da base alugada, acusa de inimigos da pátria os que compreendem que, no momento, a Petrobras não precisa de mais contratos. Precisa é de uma dedetetização exemplar.

Lula enxerga em Sarney um homem incomum que honra o Senado? A resistência democrática continua vendo no arquiteto da censura ao Estadão alguém desqualificado para presidir até a reunião do condomínio. Promove Dilma a guardiã do tesouro no fundo do mar? Quem mente como quem respira precisa é cuidar da própria cabeça. Apresenta-se como o maior dos patriotas? O patriotismo, constatou faz tempo Samuel Johnson, é o último refúgio dos canalhas.

O que eles querem é que todo mundo esqueça. Continuemos lembrando.

 

Augusto Nunes é jornalista e articulista da revista Veja

Uma resposta para Augusto Nunes escreve

  1. Maria Campos disse:

    Deparei-me pela primeira vez com a página de Augusto Nunes (Veja, 30/set); agradou-me a maneira independente e bem fundamentada como interpretou o affaire Honduras. Nesse tempo em que, com a lanterna de Diógenes, se procura o homem, foi uma pródiga caçada esta.

  2. Maria Campos disse:

    Se este comentário é imoderado; corte-o já, por favor.

  3. Maria Campos disse:

    Eu me lembro muito bem ainda dos quarenta ladrões, homiziados na estância Sem Tempo pra Fazer (STF); e sou muito humilhada por ser súdita do Ali Babá. Seno vejamos:

    Pega o Ladrão!

    Pega o ladrão!
    Aqueles! …
    (esse, não!)

    Pega o ladrão!
    pegou um bocado
    só escapou
    um disfarçado.

    Pega o ladrão!
    (sem pena ou dó)
    todos vão
    pro xilindró.

    Me dá meus óculos
    (vê se me ajudas)
    eu só vejo
    raia miúda…

    Não adianta
    um ou outro
    se o mentor
    nos escapar.

    Pega o ladrão!
    (fez uma plástica)
    pra manter o
    anonimato.

    Sobe lá!
    Paço a dentro
    se inda me lembro)
    Terceiro Andar.

    Discrição
    com o chefão
    senão respinga
    no patrão.

    Vá Vá
    Ali (lá)
    Ba bá!
    (Corpo fechado)

    Pega o ladrão!
    (quem há-de?)
    toda a corte
    está do lado.

    Toque-toque
    laptop
    essa corte
    bem ligada.

    ***
    “Ponde a máscara!
    Escondei a face
    que a Nação
    está humilhada!”

    E para que
    tanto aparato
    se não pegam
    aquele rato?

    Fecha a cortina
    (já foi nação)
    carpe a sina,
    esculhambação!

    É milhão!
    É bilhão!
    é carro forte
    no transporte.

    Não tem honra
    nem razão…

    E luz o Sol
    nesse rincão?

    Pras alimárias…
    só para elas;
    no deserto.

    maria campos
    agosto/2007