POESIA
ALTO DO TRAPUÁ (Trechos do poema)
Já fostes algum dia espiar
do alto do Engenho Trapuá?
Fica na estrada de Nazaré, antes de Tracunhaém.
Por um caminho à direita se vai ter a uma igreja
que tem um mirante que está bem acima
dos ombros das chãs.
Com as lentes que verão instala
no ar da região muito se pode divisar
do alto do Engenho Trapuá.
Se se olha para o oeste, onde começa o Agreste,
se vê o algodão que exorbita sua cabeleira encardida,
Se se olha para o nascente,se vê flora diferente.
Só canaviais e suas crinas, e as canas longilíneas
de cores claras e ácidas, femininas, aristocráticas,…
Porém se a flora varia segundo o lado que se espia,
uma espécie há, sempre a mesma, de qualquer lado que esteja.
É uma espécie bem estranha: tem algo de aparência humana,
mas seu torpor de vegetal é mais da história natural.
Apesar do pouco que vinga, não é uma espécie extinta
e multiplica-se até regularmente.
Mas é uma espécie indigente,
é a planta mais franzina no ambiente de rapina…
João Cabral de Melo Neto
(9 de janeiro de 1920, Recife – 9 de outubro de 1999, Rio de Janeiro) foi um poeta e diplomata brasileiro. Sua obra poética, marcada pelo rigor estético, com poemas avessos a confessionalismos e marcados pelo uso de rimas toantes, inaugurou uma nova forma de fazer poesia no Brasil.
Irmão do historiador Evaldo Cabral de Melo e primo do poeta Manuel Bandeira e do sociólogo Gilberto Freyre, João Cabral foi amigo do pintor Juan Miró e do poeta Joan Brossa. Membro da Academia Pernambucana de Letras e da Academia Brasileira de Letras, o poeta recebeu também vários prêmios literários. Quando morreu, em 1999, era um forte candidato ao Prêmio Nobel de Literatura.
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