Poesia

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ELEGIA: INDO PARA O LEITO

 

Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;

Até que eu lute, em luta o corpo jaz.

Como o inimigo diante do inimigo,

Canso-me de esperar se nunca brigo.

Solta esse cinto sideral que vela,

Céu cintilante, uma área ainda mais bela.

Desata esse corpete constelado,

Feito para deter o olhar ousado.

Entrega-te ao torpor que se derrama

De ti a mim, dizendo: hora da cama.

Tira o espartilho, quero descoberto

O que ele guarda, quieto, tão de perto.

O corpo que de tuas saias sai

É um campo em flor quando a sombra se esvai.

Arranca essa grinalda armada e deixa

Que cresça o diadema da madeixa.

Tira os sapatos e entra sem receio

Nesse templo de amor que é o nosso leito.

Os anjos mostram-se num branco véu

Aos homens. Tu, meu anjo, és como o céu

De Maomé. E se no branco têm contigo

Semelhança os espíritos, distingo:

O que o meu anjo branco põe não é

O cabelo mas sim a carne em pé.

    Deixa que a minha mão errante adentre

Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.

Minha América! Minha terra à vista,

Reino de paz, se um homem só a conquista,

Minha mina preciosa, meu Império,

Feliz de quem penetre o teu mistério!

Liberto-me ficando teu escravo;

Onde cai minha mão, meu selo gravo.

    Nudez total! Todo o prazer provém

De um corpo (como a alma sem corpo) sem

Vestes. As jóias que a mulher ostenta

São como as bolas de ouro de Atalanta:

O olho do tolo que uma gema inflama

Ilude-se com ela e perde a dama.

Como encadernação vistosa, feita

Para iletrados, a mulher se enfeita;

Mas ela é um livro místico e somente

A alguns (a que tal graça se consente)

É dado lê-la. Eu sou um que sabe;

Como se diante da parteira, abre-

Te: atira, sim, o linho branco fora,

Nem penitência nem decência agora.

    Para ensinar-te eu me desnudo antes:

A coberta de um homem te é bastante.

 

                       Tradução: Augusto de Campos

 

John Donne

 

O Poeta

 

Nascido em Londres numa rica família católica e depois convertido ao anglicanismo, John Donne (1572-1631) é um dos expoentes da chamada “poesia metafísica” inglesa. De início, vale observar com cuidado essa denominação. O termo metafísico, nesse caso, não corresponde ao seu significado atual. No início do século XVII, metafísica queria dizer, mais ou menos, “filosofia”. Portanto, eram poetas “pensadores”.

 

Obviamente, não poderia ser metafísico, com o significado de hoje, um poema erótico como “Elegia: Indo Para o Leito”. É verdade que esse erotismo situa-se mais no campo da imaginação que da experiência.

 

Convertido ao anglicanismo, John Donne tornou-se também um clérigo da nova fé. Em 1624, foi nomeado deão da catedral de São Paulo, título que manteve até a morte. São famosos, mais que sua poesia, os sermões e outros textos de inspiração religiosa que ele escreveu.

 

Um deles é amplamente conhecido e citado, embora nem sempre quem o cita saiba associar o texto ao autor. É o texto que contém a célebre frase: “nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”Trata-se da “Meditação 17”, escrita por Donne em 1624. Nessa página, assim como em outras 22 meditações, ele  reflete profundamente sobre a morte, motivado por uma severa enfermidade, da qual se recuperou. Sair dessa doença, escreveu Donne, foi, como nascer de novo.

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