Poesia

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JANEIRO/FEVEREIRO
Calendário Philips 1980


Nem só a cav
idade da boca

Nem só a língua

Nem só os dentes
e os lábios

fazem a língua

Ouça
as mãos
tecendo a língua
e sua linguagem

É a língua
têxtil

O texto
que sai das
mãos
sem palavras

 

Décio Pignatari

 

O Poeta

Nascido em 1927, o paulista Décio Pignatari é poeta, ensaísta, publicitário e teórico da comunicação. Ao lado dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, tornou-se um dos principais formuladores da poesia concreta, lançada em 1956.

 

Por fim, vem o poema dedicado à página de janeiro/fevereiro num calendário concebido por Décio Pignatari para a empresa Philips, em 1980. Aqui confunde-se o trabalho do poeta com o do publicitário. Pignatari é sempre citado como o criador da marca “Lubrax”, entre outros feitos no plano da propaganda comercial.

 

Naturalmente, essa indiferenciação entre poesia e publicidade é vista por alguns com restrições. Mas o calendário Philips não é a única peça do gênero incorporada à poesia de Pignatari. Ele também publicou entre seus trabalhos poéticos o anúncio que fez para um produto farmacêutico chamado “Disenfórmio” (1967).

 

Vale dizer que cada poema do calendário é acompanhado da foto de uma atividade artesanal, à qual está ligado. O poema de janeiro/ fevereiro mostra uma mulher tecendo um tapete (ou algo similar) com algo que parece fibra vegetal. “É a língua têxtil”, diz Pignatari. Texto sem palavras.

 

Parte da obra de Décio Pignatari envereda pela semiótica pura. Não tem palavras, nem texto. São sinais — em alguns casos figuras geométricas ou desenhos — articulados para criar uma semântica específica para o poema.

 

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