T. S. Eliot
Quatro quartetos – n. 1
O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação.
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direcção à porta que nuca abrimos
Para o roseiral. As minhas palavras ecoam
Assim, no teu espírito.
Mas para quê
Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa
Não sei.
Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos segui-los?
Depressa, disse a ave, procura-os, procura-os,
Na volta do caminho. Através do primeiro portão,
No nosso primeiro mundo, seguiremos
O chamariz do tordo? No nosso primeiro mundo.
Ali estavam eles, dignos, invisíveis,
Movendo-se sem pressão, sobre as folhas mortas,
No calor do outono, através do ar vibrante,
E a ave chamou, em resposta à
Música não ouvida dissimulada nos arbustos,
E o olhar oculto cruzou o espaço, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como nossos convidados, recebidos e recebendo.
Assim nos movemos com eles, em cerimonioso cortejo,
Ao longo da alameda deserta, no círculo de buxo,
Para espreitar o lago vazio.
Lago seco, cimento seco, contornos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita de luz do sol,
E os lótus elevaram-se, devagar, devagar,
A superfície cintilava no coração da luz,
E eles estavam atrás de nós, reflectidos no lago.
Depois uma nuvem passou, e o lago ficou vazio.
Vai, disse a ave, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Escondendo-se excitadamente, contendo o riso.
Vai, vai, vai, disse a ave: o género humano
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
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SUBSTANTIVOS
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“O substantivo em sua majestade, o adjetivo, roupa transparente que o veste, e o verbo, o anjo que lhe dá impulso” (Baudelaire)
Os auto-assumidos conservadores e moralistas distribuem toneladas de pareceres recomendando austeridade e bom senso, mas não prescrevem sequer poucas gramas de rejeição à hipocrisia e a mentira. Vemos isto no cardápio diário das redes sociais, do café-da-manhã à última refeição do dia….
Parece-me a pregação do bom senso pelos puritanos do século 21 pelo bom senso ecoa apenas na “região inexplorada” (“the indiscovered country”) a que se refere Shakespeare no enredado terceiro capítulo de Hamlet; ou, abrasileirando, discurso às pedras do deserto, como escreveu Plínio Salgado.
Não cola. Porque faltam exemplos dos “andares de cima”; palavras, o vento as leva, enquanto o proceder correto desperta admiração e estimula a imitar; impõe respeito e se constitui em modelo.
O cenário contraditório é amplo; político, religioso e social. Um palco aonde se gasta hectolitros de substantivos qualificativos para tingir uma postura de momento. São muitas as cores dos “ismos”; vão das nuances do anarquismo ao absolutismo. Nenhum deles, porém, pior do que o negacionismo, que estimula a cavalgada de grupos obscurantistas com a bandeira da ignorância.
Se estudassem, veriam que as ciências astronômicas, físicas, matemáticas e químicas vêm da aurora da História da Antiguidade. Engatinharam, arrastaram-se, cambalearam; mas de dois mil anos para cá, só um néscio se opõe a conceitos que podem ser provados cientificamente.
Entretanto, temos até dias de hoje idiotas defendendo que a Terra é plana, séculos depois de Galileu enterrar o geocentrismo e, 400 anos mais tarde, Iuri Gagarin ter visto e fotografado o globo terrestre exclamando: -“A Terra é azul! ”.
Vemos em plena pandemia do novo coronavírus a cambada negacionista ignorar a Ciência, rejeitando conceitos apoiados no consenso científico internacional; monta na égua da desinformação para se contrapor aos conceitos médicos de prevenção contra a covid-19, de evitar aglomerações, usar máscara e na medida do possível, fazer o isolamento social.
No Brasil, estas falanges imbecilizadas pelo fanatismo tentaram sob o comando do próprio presidente da República, boicotar a vacinação. Assistimos Bolsonaro falar de público que “quem tomasse a vacina poderia virar jacaré”, “que cresceria barba nas mulheres” e “os homens iriam falar fino”…. O filho Eduardo, não menos idiota, ao ser aconselhado a se resguardar, mandou que “enfiassem a máscara no rabo” em vídeo divulgado nas redes sociais.
Tal rejeição à Ciência Médica e desrespeito ao povo brasileiro, merece, sem dúvida, nomear com substantivos adjetivados o estado patológico da familiocracia que ocupa o poder. Incentiva-nos a empregar substantivos comuns, figurativos ou temáticos, para classificar a estupidez do seu negacionismo.
E para piorar o quadro da política necrófila do Governo Bolsonaro, ficou instituída a Mentira, a do Presidente, sempre; e por espírito de imitação daqueles que o cercam perfilados, como o ex-ministro Eduardo Pazuello. Negando que a verdade é um símbolo da honra militar, mentiu na CPI da Covid, diante de documentos apresentados.
O substantivo feminino Mentira, ato de mentir, tem etimologia latina mentīre, remetendo ao latim clássico mendacium, ou, como querem outros, mentionica, do latim tardio.
Adotou-o Pazuello à frente do Ministério da Saúde, de prontidão diante do “chefe de Estado”, “chefe de Governo”, “comandante-chefe das FFAA” e “chefe da Administração Federal”; não esquecendo de que o Capitão-Generalíssimo, quando diz besteira, fala como “agente político”…. Lembrou-me nazistas em Nuremberg.
Diante disto, o perfil do General é o de que, após comandar a batalha contra a pandemia, deixou o Ministério resumiu em duas palavras a sua passagem por lá: “Omissão cumprida”….
Thomas Hardy
Os Bois
Meia noite. Véspera de Natal.
“Ajoelhados estão todos,”
Dissera um ancião enquanto sentados estávamos
Ao pé das cinzas na paz de uma lareira.
Meigas e maviosas criaturas vislumbrávamos
Tendo por morada um redil de palha.
Tampouco a nenhum de nós sucedeu
Duvidar de que ali ajoelhados estavam.
Poucos um tão belo quadro imaginariam fantasiar
Naqueles tempos! Não eu, todavia.
Se por acaso uma pessoa falasse à Véspera de Natal
“Venham ver os bois ajoelhados
Ali, no vale, naquele solitário pátio da fazenda
Tão familiar aos dias de nossa infância,”
Certo que com ela iria pela escuridão
Na esperança de um milagre acontecer.
(Trad. de Cunha e Silva Filho)
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Rudyard Kipling
Se
Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar –sem que a isso só te atires,
De sonhar –sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: “Persiste!”;
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais –tu serás um homem, ó meu filho!
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VELHOS
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“O tempo é um ponto de vista. Velho é quem é um dia mais velho que a gente…” (Mario Quintana)
A intenção maldosa de ofender às vezes sai pelo contrário; por três vezes nesta semana me chamaram de “velho” nas redes sociais, mandando-me recolher, e, em vez de me irritar, senti-me elogiado e apenas registrei a falta de educação.
Falta de educação é uma conduta de filho de chocadeira, que não teve mãe nem pai para ensinar convivência com outrem. Quando menino, meus pais educaram-me para respeitar crianças, mulheres e velhos; e quem não os tratar assim sofre uma deformidade moral.
Deixando de lado o sentimento doentio dos mal-educados, digo-lhes que o meu recolhimento, é inaceitável, quando vejo no governo dezenas de militares da minha geração defendendo o negativismo; assim, para fazer-lhes oposição de igual para igual (exceto pelos altos salários acumulados deles) não renuncio à participação na rede social.
Para escrever este artigo, refleti que não sou o único exemplo na exclusão etária dos que querem impedir a livre expressão do pensamento nas redes sociais; são centenas de internautas idosos, expondo experiências, mostrando cultura e polemizando em defesa das opiniões próprias, e como eu, sofrendo também discriminações.
Lembrei-me de uma historinha que pesquei entre muitas que coleciono, com a artista francesa Mistinguett, cantora que brilhou nos palcos e nos filmes, deixando a sua lembrança gravada na memória de várias gerações.
O antigo empresário dela visitou-a e revelou que estava trabalhando numa peça e pensava em aproveitar uma atriz idosa num monólogo em que expõe as experiências acumuladas para uma jovem que lhe pediu conselhos.
– “Este papel me entusiasma”, falou Mistinguett, que tinha 81 anos na época. – “É excelente esta ideia”, e perguntou a seguir: – “… E quem vai protagonizar a velha? ”.
É isto. O artista que é artista pode atuar como qualquer personagem, seja de que idade for; é como os jornalistas do meu tempo, cuja formação humanista e cultura acumulada, lhes permite assumir qualquer pauta, seja da sua especialidade ou fora do contexto.
Um bom ator aprende a interpretar todos os tipos de papéis, do mesmo modo como um jornalista vocacionado conduz uma matéria sobre qualquer assunto. É assim que no meu caso particular procuro fazer mesmo amadoristicamente, desgostando os fanáticos cultuadores de personalidade.
Se lhes aborreço e instigo o ódio enfermiço do fanatismo político ou religioso, agrado em contraposição um grande número de seguidores e jovens leitores dos meus artigos. Na minha atuação como internauta, sigo uma lição de Goethe que me acompanha desde que entrei no Twitter: – “Quando se é velho, é preciso ser mais ativo do que quando jovem”.
É talvez por causa da minha atividade aos 87 anos de idade que eu tenho incomodado os recém-chegados à rede social sem formação adequada, cujo único argumento numa polêmica é a intolerância. São palermas que se fanatizam pela política, sem pensamento próprio, levados a seguir bovinamente lideranças demagógicas, juntando-se a mercenários que se põem a serviço do poder atuando fraudulentamente por dinheiro.
Assim denunciaram os influencers que receberam verbas do Governo Bolsonaro para defender o tratamento precoce; e tem outros que ainda continuam elogiando remédio contra piolho para curar a covid-19, por vergonha de admitir que venderam a consciência.
Encontro numa ilação sobre a velhice atuante, muitos que defendem suas ideias com destemor, levando-me a reconhecer e aplaudir esses que envelheceram com dignidade. Da minha parte, valho-me de Paulinho da Viola,navegando como “um velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar! ”
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Lord Byron
Uma taça feita de um crânio humano
(Tradução de Castro Alves)
Não recues! De mim não foi-se o espírito…
Em mim verás – pobre caveira fria –
Único crânio que, ao invés dos vivos,
Só derrama alegria.
Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte
Arrancaram da terra os ossos meus.
Não me insultes! empina-me!… que a larva
Tem beijos mais sombrios do que os teus.
Mais vale guardar o sumo da parreira
Do que ao verme do chão ser pasto vil;
– Taça – levar dos Deuses a bebida,
Que o pasto do réptil.
Que este vaso, onde o espírito brilhava,
Vá nos outros o espírito acender.
Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro
…Podeis de vinho o encher!
Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,
Quando tu e os teus fordes nos fossos,
Pode do abraço te livrar da terra,
E ébria folgando profanar teus ossos.
E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor ai repousa?
É bom fugindo à podridão do lado
Servir na morte enfim p’ra alguma coisa!…
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Álvaro de Campos
Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
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MEDIDA
MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)
“Eu sou do tamanho daquilo que sinto, que vejo e que faço, não do tamanho que os outros me enxergam” (Bob Marley)
“O homem é a medida de todas as coisas”, ensinou Protágoras, o célebre sofista da Grécia Antiga, obrigando-me a invocar a regra que diz que “toda regra tem exceção” para deixar os tolos fanatizados por políticos de fora da medida “das coisas que são, enquanto são e das coisas que não são, enquanto não são”….
Sem ligar para que os tolos pensam e dizem, foi sofrendo a interferência da memória dos meus pais, da minha mãe espírita kardecista (militante, participando de federações na Paraíba e no Rio de Janeiro) e do meu pai, de formação positivista que se assumia como agnóstico, que escrevi o artigo “Ressureição”.
No texto, abordei pela segunda vez os casos de Bolsonaro a Dilma, ele querendo blindar o general Pazuello e ela querendo salvar Lula, com cargos ministeriais. Estes fatos lembraram-me o episódio em de Dilma pediu que chamassem o Messias e por ela estar gripada, fanha, o pessoal ouviu “Bessias”.
Por ter falecido este personagem que foi badaladíssimo na época do episódio, a citação que fiz dele provocou críticas de uns idiotas que falam em nome da “religião”. Então, para me defender, invoco o pastor Martin Luther King, com a frase: “a religião mal-entendida é uma febre que pode terminar em delírio”.
Então rebato os delirantes afirmando que não invoquei o espírito do Messias, não porque dê importância à Congregação do Santo Ofício que proibiu que se interroguem espíritos e ouçam as suas respostas; nem porque tenho dúvidas sobre a crença espírita de que as almas vagam pelo mundo.
Sei, porém, que isto suscita discussões. É por demais conhecida a obstinação de Lombroso buscando provas sobre a comunicação dos mortos, e foi confrontado pelo incrédulo Gustave Le Bom que escreveu: – “sob o domínio da crença no além vida, até um cientista fica inseguro sobre os métodos científicos de análise”.
Tais posições destes importantes personagens, pensamos no que se diz sobre os chamados médiuns, aqueles que possuem o dom de se comunicar com os espíritos. Argumenta-se que se trata de possuidores de um sentido, entre os 21 inexplorados além dos cinco usados normalmente, audição, olfato, paladar, tato e visão.
Conforme os kardecistas, existem poucos médiuns autênticos no mundo, porque a mediunidade é um fenômeno raríssimo. Citam alguns nomes que foram capazes de exercer esta prática, como as santas Joana D’Arc e Tereza D’Ávila e no Brasil, Chico Xavier; os Evangelhos contam que na cruz Jesus comunicou-se com Deus, murmurando “Eloi, Eloi, lamá sabactani? ” – “Deus, ó Deus, porque me abandonastes? ”.
Em verdade, as medidas sobrenaturais não são traçadas com régua e compasso, e muito menos por pessoas que se investem de intermediários da divindade, cobrando módicas quantias para isto num determinado endereço, e até patenteando a “marca” Jesus Cristo….
Quanto à vida real, com ou sem religião, “se você quiser ver a verdadeira medida de um homem, preste atenção em como ele trata seus inferiores, não seus iguais”, aconselha a escritora britânica J. K. Rowling. Lição que deveria chegar a Paulo Guedes para ele não desdenhar filhos e filhas de porteiros…, é uma silhueta recortada do elitismo bolsonarista assumido fraudulentamente como “de direita” e “conservador”.
Vimos também este tratamento com outrem feito por Bolsonaro atacando o principal parceiro comercial do Brasil, a China. Tal cretinice não se trata de Teoria da Conspiração, mas talvez uma manifestação mediúnica do diabinho que incentiva o Presidente na política macabra do negativismo, querendo a suspenção do envio de insumos de vacinas para matar mais brasileiros.
O comportamento psicopático do Presidente, não é “invenção da mídia”, nem ataques comuno-globalistas; está nas declarações dele gravadas em vídeo, com as quais se pode ver que a sua posição negativista causa mais mal ao País do que todos os acusados de infringir a Lei de Segurança Nacional por criticá-lo….
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Cesário Verde
EU QUE SOU FEIO, SÓLIDO, LEAL
Eu que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.
Sentado à mesa de um café devasso,
Ao avistar-te, há pouco fraca e loura,
Nesta babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.
E, quando socorrestes um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, sudável.
«Ela aí vem!» disse eu para os demais;
E pus me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.
Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, – talvez que não o suspeites! –
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.
…
Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar o teu peito.
Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esbelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.
«Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!»
De repente, parastes embaraçada
Ao pé de um numeroso ajuntamento,
E eu, que urdia estes frágeis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Um pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.
E foi, então que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és ténue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.
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Mário de Sá Carneiro
QUASE
Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…
Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido…
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo … e tudo errou…
– Ai a dor de ser – quase, dor sem fim…
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…
Momentos de alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…
Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…
Um pouco mais de sol – e fora brasa,
Um pouco mais de azul – e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…
Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir… Onde acoitar-me?…
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar…
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